29 de novembro de 2016

Capítulo três

ASSIM QUE ESTOU A BORDO DA NAVE, BERNIE KOSAR PARA NA MINHA FRENTE. SEU rabo cai para entre as pernas, e ele estica as patinhas da frente, arqueando sua coluna, a cabeça para baixo. É como se ele estivesse fazendo uma reverência para mim, ou esperando que eu lhe bata com um jornal enrolado. Bem lá do fundo, ele deixa escapar um uivo baixo e fúnebre.
Leva um segundo para eu perceber o motivo de ele estar agindo assim. Lá em Chicago, na última vez que vi Sarah, enviei BK com ela. Eu disse para BK mantê-la a salvo.
Por Deus, BK, não é culpa sua, falo telepaticamente para ele. Eu me abaixo, coloco o braço ao redor de seu pescoço peludo e o abraço com força. BK baba em todo o meu rosto com suas lambidas e depois uiva.
Lágrimas se formam no canto dos meus olhos, as primeiras que apareceram desde que ouvi a voz de Sarah desaparecer no meu telefone.
As lágrimas não são por mim. Primeiro, Seis, e agora, BK – a culpa que eles estão sentindo, me quebra. Sarah também era amiga deles, também. Eles estão sentindo esta perda da mesma forma que eu, e as coisas pioram por eles pensarem que estão me magoando, que eu vou culpá-los. Eu deveria ter falado com Seis, deveria ter lhe dito algo a mais, mas eu simplesmente não consegui encontrar as palavras. Eu deveria ter dito a ela que há apenas duas pessoas que considero responsáveis pelo o que aconteceu com Sarah.
Setrákus Ra.
E eu.
Nunca fui bom em expressar esse tipo de sentimento, de falar sobre mim mesmo, de meus medos e fraquezas. Na verdade, sempre me senti à vontade com uma única pessoa para conversar sobre esses assuntos.
Sarah.
Eu me levanto, caminho para dentro da nave e a vejo. Na pouca iluminação da nave, deitada numa cama, com um lençol a cobrindo até o queixo – parece que ela está dormindo. Seu cabelo loiro está espalhado no travesseiro abaixo dela. Sua pele está pálida, tão pálida, as cores drenadas de seus lábios. Começo a andar com a impressão de que estou num sonho.
Mark James está aqui, também, sentado perto da cama de Sarah. Ele se levanta enquanto eu me aproximo, e estou vagamente consciente do olhar assassino que ele carrega no rosto. Por um segundo, penso que ele entrará no meu caminho. Ao olhar para mim ele deve ter pensado melhor, porque dá um passo para o lado rapidamente. A raiva em seus olhos é substituída por curiosidade, como se eu fosse um animal estranho.
Ou pelo fato de eu ser um extraterrestre, capaz de fazer coisas que ele possivelmente não consegue compreender.
Ele não diz nada quando eu me ajoelho perto de Sarah. Retiro o lençol de cima do corpo dela, que gruda em sua lateral onde o sangue de seus ferimentos secou. Ela está toda machucada.
Eu sinto que deveria chorar. Ou gritar. Mas tudo o que consigo sentir de verdade é o vazio.
E então sinto minhas mãos se esticarem, sozinhas, agindo numa combinação de instinto e desespero. Pressiono seus machucados, sua pele fria abaixo de meus dedos, deixando minha energia de cura fluir para dentro dela. Quando Sarah e Ella foram atingidas por tiros de canhões na Base de Dulce, eu consegui curá-las. Elas estavam quase morrendo, e eu as arrastei de volta. Talvez... talvez ainda haja esperança agora.
Minhas mãos esquentam. Elas brilham. A pele pálida de Sarah de repente está tingida de rosa, e meu coração acelera um pouco.
É um truque da luz. Meu Legado não está funcionando. Não sobrou nenhuma faísca de vida dentro de Sarah para ser reacendida.
Eu deixo o Legado se dissipar. Agora que vi os ferimentos de Sarah em primeira mão, as visões horríveis que me aterrorizaram durante as horas que esperei se foram. Elas se tornaram reais. Com minhas mãos trêmulas, cubro o corpo de Sarah com o lençol.
Os detalhes mórbidos não são os que chamam minha atenção. Não são eles que irão ficar comigo. É o rosto dela – tingido de azul na luz fraca. Ela não parece sentir dor; não há nenhuma marca de expressão em seu rosto e seus olhos estão fechados. Os lábios de Sarah estão eternizados num sorriso quase curioso. Eu me inclino e gentilmente beijo esse sorriso, sem ficar surpreso pelos lábios gélidos.
E então eu abaixo minha cabeça, descansando em seu peito.
Provavelmente parece que estou procurando por algum batimento cardíaco, mas estou apenas me despedindo.
Eu não choro. Ela não iria querer que eu fizesse isso. Mas a insônia que eu estava sentindo antes desapareceu agora. Sinto como se eu finalmente pudesse descansar, bem aqui, com Sarah.
— Então é isso?
Mark. Eu havia esquecido completamente que ele estava aqui comigo.
Ergo a cabeça e me viro lentamente, sem me levantar. A cabeça de Mark está inclinada; ele está me encarando, seus punhos cerrando e voltando ao normal.
— O quê?  eu pergunto, surpreso pelo tom cansado de minha voz.
— Eu disse, então é isso? — ele repete, as palavras mais fortes agora. — Isso é tudo o que você vai fazer?
— Não há mais nada que eu possa fazer, Mark — eu respondo com um suspiro. — Ela se foi.
— Você não pode trazê-la de volta dos mortos?
— Não. Eu não sou um deus.
Mark balança a cabeça como se esperasse essa resposta e mesmo assim ficasse desapontado. — Merda – ele diz para si mesmo, e então me olha diretamente nos olhos. — Para que droga você serve então?
Eu não vou fazer isso com ele. Não aqui. Não vou. Eu me levanto devagar, olho uma última vez para Sarah e ando em silêncio em direção à rampa da nave.
Mark entra no meu caminho.
— Eu te fiz uma pergunta.
Por um momento, seu tom de voz me lembra dos velhos tempos na Paradise High. Sei que esse não é o mesmo idiota que atormentava a mim e a Sam – agora ele possui um olhar selvagem, cabelos rebeldes e roupas imundas que envergonhariam o antigo Mark James. Mas ele ainda mantém aquele tom de voz de macho-alfa. Faz com que ele pareça maior do que realmente é.
— Mark  eu digo com advertência.
— Você não pode simplesmente sair assim  ele responde.
— Saia do meu caminho.
Ele me empurra. O contato me surpreende e faz com que eu tropece alguns passos para trás. Eu o encaro.
— Você está com raiva; está de luto...  eu digo para Mark, mantendo minha voz baixa o suficiente para não começar a gritar com ele. Como se eu não estivesse sentindo a mesma coisa. Como se eu não quisesse socar uma parede. — Mas isso... nós? Brigar por motivo nenhum? Isso não vai acontecer.
— Ah, me poupe do seu discursinho, John. Eu estava lá quando ela morreu. Eu. Não você. Ela passou os últimos momentos na droga do telefone com você, dizendo coisas fofas. Você. O cara que causou a morte dela.
Me dói ouvir Mark dizer o que eu já estava pensando.
— Estávamos apaixonados — eu falo.
Mark revira os olhos para mim.
— Talvez. Talvez você realmente estivesse. Mas vamos lá. Um garoto novo e misterioso chega na cidade, e oh, ele possuí superpoderes. E oh, ele está tentando salvar o mundo. Que garota não ficaria boba por essa droga, hein? Merda, olha para mim, parado aqui. Olhe para o idiota do Sam Goode. Todos nós fomos sugados para seu vórtice de sofrimento.
— Ela não caiu em droga alguma. Eu não a enganei  minhas palavras estão mais fortes agora. Ele está começando a me irritar. — Estávamos apaixonados antes... antes dela mesmo saber sobre mim e sobre o que eu sou.
— Mas você sabia!  Mark grita, dando um passo em minha direção. — Você sempre soube o que significava estar perto de você e você... você continuou com ela mesmo assim! Por todas aquelas cidades por onde passou antes de Paradise, quantas... quantas outras garotas morreram?
Balanço a cabeça, perdendo a linha de pensamento de Mark e do que ele está tentando provar.
— Não houveram outras.
— Exatamente! Você ficou na sua porque sabia que estar perto de você era assinar uma sentença de morte. Até Sarah. Você não conseguiu deixá-la em paz. Você se tornou egoísta, ou solitário, ou qualquer coisa, e... você a matou. Ela estaria viva e feliz se você tivesse se mudado para outra cidade, John. Sim, toda essa invasão ainda estaria acontecendo, mas tenho a impressão de que as naves de guerra mogadorianas estariam bem longe de Paradise. Sem você, sem essa besteira toda, ela pelo menos teria uma chance.
Eu não sei como responder. Parte do que Mark está dizendo é verdade, mas ignora a maioria das coisas que eu e Sarah compartilhamos. Talvez fosse egoísmo de minha parte se envolver com ela, com exceção de que toda vez que eu a afastei ela voltou. Ela tomou suas próprias decisões. Ela foi forte e me tornou mais forte. E ela foi a primeira pessoa na Terra que me fez sentir como se eu tivesse a chance de ter uma vida normal, como se existisse algo a mais do que uma fuga e uma luta sem fim. Sarah me deu esperança. Mas eu não tenho palavras para explicar isso a Mark, e não quero tentar. Eu não preciso me defender.
— Você está certo  eu digo friamente, esperando que isso seja o suficiente para acabarmos.
— Eu estou – eu estou certo?  Mark pergunta incredulamente, arregalando os olhos. — Você acha que isso é o que eu quero ouvir?
Eu suspiro.
— Mark, a verdade é que eu não me importo com o que você quer. Eu nunca me importei.
Ele me dá um soco. Eu vejo o movimento chegando, mas não me incomodo em me defender. É um soco que acerta meu estômago e faz com que eu perca o fôlego. Não é a primeira vez que Mark me dá um soco, e ele é forte – talvez um pouco mais do que eu me lembre. Mas eu levei várias pancadas nos últimos meses, mais fortes do que Mark possa imaginar, e essa eu mal sinto.
Quando não reajo ao primeiro soco, Mark tenta um segundo. Porém, ele não está com vontade. Ele levanta o braço em direção à minha cabeça, mas parece desistir no último momento, e seu punho simplesmente acerta me queixo. A força de seu próprio soco impulsiona Mark para o lado, onde ele tropeça em uma das camas vazias, caindo sentado numa posição estranha.
Ele fica lá, olhando para o chão, e solta longos suspiros. Posso dizer que ele está tentando não chorar.
— Você se sente melhor?  pergunto, esfregando meu rosto.
— Não  ele responde. — Não me sinto melhor.
— E quando acabarmos com essa guerra e destruirmos cada mog que entrar no nosso caminho? Você vai se sentir melhor então?
Mark olha para mim, e o que vejo em seu rosto me surpreende. É pena. Percebo que o que acabei de dizer não é realmente uma pergunta para ele. É uma pergunta para mim. Eu estou com um pouco de medo de encontrar a resposta.
— Isso não irá trazê-la de volta  ele diz.
Eu não respondo. Lanço um último olhar para Sarah e sigo para a saída da nave. No vão da porta, eu paro e me viro.
— Você faria algo por mim?  pergunto, minha voz baixa.
Mark esfrega seu polegar sobre as juntas.
— O quê?
— Pedirei um veículo emprestado para os nossos colegas militares. Estamos a apenas algumas horas de Paradise. Você...?  minha voz some, e eu seguro uma das barras frias de metal da porta. — Você a levaria para casa?
Mark bufa. Quando ele fala, a amargura em seu tom de voz volta.
— Claro, John. Sei que você está ocupado, então eu farei a parte difícil para você. Devo dizer à mãe dela que você mandou lembranças?
Fecho os meus olhos, inspiro fundo e solto o ar.
— Obrigado, Mark  eu digo sem sentir nada, e então saio, deixando a ele e o corpo de Sarah para trás.
Desço a rampa da nave e atravesso o gramado, seguindo para a cabana que atualmente esconde a melhor esperança para a sobrevivência da humanidade.
O sol está nascendo, um feixe de luz alaranjado no horizonte, atingindo a água azul do lago. Penso no rosto pálido de Sarah, em seus lábios frios, e então me lembro de como o sol seria filtrado através de seu cabelo loiro e ela se viraria para mim num momento como esse e seguraria minha mão, entrelaçando nossos dedos da forma como sempre ela fazia, e nós aproveitaríamos a vista juntos.
Eu afasto essas memórias. Enterro-as profundamente. Entro na cabana com um propósito, apenas um.
Eu costumava pensar que poderia haver mais para mim além de fugir e lutar.
Agora tudo o que sobrou é matar.

9 comentários:

  1. Vou ter q reler os anteriores. Nem lembrava q a Sara morreu...

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    1. Eu também não, no início achava q era mentira.

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  2. Eu só não quero acreditar que ela morreu...
    A dor do John é grande demais para alguém como nós conseguir imaginar, ou que as palavras possa expressar...

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  3. "Sarah também era amiga deles, também." não seria" Sarah era amiga deles, também."

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  4. Mt bom amo "Legados de Lorien", Karina.
    Parabéns pelo seu trabalho

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  5. Nss
    Eu até escrevi "Sétrakus" em vez de "Setrákus"
    ^
    )
    Esse jeito é mais fácil de falar

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  6. Nossa, nem gostava muito da Sarah... Mais queria que o legado de cura tivesse funcionado.
    Coitado do John.

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