29 de novembro de 2016

Capítulo sete

ESTA É A LISTA DE TAREFAS:
Entrar às escondidas em uma nave de guerra mogadoriana.
Roubar todos os dispositivos de camuflagem que houver sem chamar a atenção dos mogs.
Armar os governos do mundo para um grande contra-ataque.
Enquanto isso, aprender todos os Legados que eu puder.
Matar Setrákus Ra.
Não necessariamente nessa ordem. Ainda mais a parte de “aprender todos os Legados”. Porque se é para entrar escondido em uma nave de guerra mog do jeito que estou planejando, preciso aprender primeiro um Legado em particular.
Tenho que aprender a voar.
A reunião termina depois que prometo ao general Lawson que até o fim do dia teremos um plano para atacar uma nave de guerra mogadoriana sem alarde. Com sorte, Ella estará certa, e Setrákus Ra ficará fora de ação pelo menos durante o tempo necessário para agirmos. Ainda nem é meio-dia, mas já parece que perdemos muito tempo.
Enquanto todos andam apressados pelos corredores de Patience Creek para agilizar seus afazeres, chamo Adam num canto. Ele está pálido como sempre, mas com círculos escuros ao redor dos olhos. Todo mundo na reunião estava um pouco assim, o cansaço da invasão se manifestando.
— Você está bem? — pergunto a ele. — O que fizeram com você?
Adam olha para mim, balançando a cabeça.
— Estou bem, John. Não foi nada. Eu é que deveria perguntar como você está.
Já esperava por isso. Todo mundo que conhecia Sarah – de Sam a Walker – olha para mim como se eu fosse desmoronar a qualquer momento. Odeio isso. Não quero ser protegido. Quero lutar. Imaginei que pelo menos com Adam eu fosse escapar do sentimento de pena. Nunca pensei que desejaria ter um pouco da fria lógica mogadoriana.
— Estou levando — digo a ele, e fico surpreso com a aspereza na minha voz.
— Está certo — retruca Adam, entendendo a deixa. Ele levanta as mãos para me mostrar os pulsos ainda algemados. — Você se importa de tirar o resto?
— Ah, claro que não. Acabei esquecendo.
— O mais importante era passar uma mensagem para aquele tal de Lawson. Eu entendo.
— Bem... — respondo, com um sorriso discreto. — Você parecia mesmo desconfortável.
— Assim como todos aqueles soldados — comenta Adam, rindo. — Foi uma boa jogada. Você mostrou força.
Acendo meu Lúmen de novo, desta vez concentrando-o na ponta do dedo indicador. Com cuidado para não queimar Adam, derreto os fechos das algemas até abri-las.
— Que tipo de pergunta eles fizeram? — questiono, enquanto Adam esfrega os pulsos.
— Como eu disse, não foi tão ruim. Eles queriam saber mais sobre o funcionamento das armas e das naves. Sobre a estrutura do governo e das forças armadas mogadorianas, o que é fácil, porque são basicamente a mesma coisa. E queriam saber o que acontecerá com a sociedade mog se Setrákus Ra for morto. — Adam dá de ombros. — Eu teria contado tudo isso mesmo que não tivessem me prendido e me mantido acordado a noite toda.
— Ah — digo, refletindo por um momento. Na verdade, eu nunca havia pensado em fazer alguma dessas perguntas. — E o que vai acontecer quando matarmos Setrákus Ra?
Adam sorri para mim, gostando da confiança na minha voz. Em seguida, passa a mão pelo cabelo preto oleoso, pensativo.
— Bem, não me lembro de uma época em que não havia um... “Adorado Líder”. Não tenho noção de como nosso mundo era antes. Duvido até mesmo que meus pais se lembrariam. Setrákus Ra reescreveu nossos livros de história, então, de acordo com eles, não passávamos de animais quando ele chegou e nos fez “evoluir”.
— Acho que seria pedir demais que desistissem e fossem embora.
— Sem minerar a Terra como fizeram em Lorien, a frota não tem combustível suficiente para ir a lugar algum. — Adam faz uma pausa, ponderando. — Mas depois de algum tempo eles podem desaparecer...
— Como assim?
— Apesar de toda a arrogância no tal Grande Livro, Setrákus Ra nunca corrigiu os problemas de fertilidade que os nascidos naturalmente enfrentam. Ele pode criar um número infinito de soldados nascidos artificialmente. Isso não muda o fato de que a taxa de natalidade dos nascidos naturalmente estagnou.
— Então os nascidos naturalmente vão morrer aos poucos — concluo, tentando manter a voz austera em respeito a Adam, mas sem qualquer compaixão pela lenta extinção dos mogadorianos. — E os nascidos artificialmente?
— Até onde sei, o segredo para criá-los vai morrer com Setrákus Ra. — Adam vê meu sorriso e ergue a mão em advertência. — Você precisa entender algumas coisas sobre o meu povo, John. Em primeiro lugar, a grande maioria apoia a visão distorcida de Setrákus Ra sobre o Progresso Mogadoriano, e todos acreditam que seu líder não pode ser morto. É a única coisa que os manteve na linha todos esses séculos. Quando matá-lo, você vai acabar com a criação dos nascidos artificialmente e talvez convencer os mogs como eu a largar as armas...
— Acha que pode haver outros como você? — pergunto, interrompendo-o.
Sempre imaginei que Adam fosse único e considerava o fato de ele ter visto a luz um efeito colateral do seu contato com a Número Um.
Ele desvia o olhar.
— Eu... não sei. Conheci outros que eu achava que... talvez... Nem sei se ainda estão vivos. — Adam balança a mão, como se quisesse deixar o assunto para lá. — A questão é que, mesmo sem Setrákus Ra, há um exército fortemente armado de fanáticos que acreditam ter o poder de consertar as coisas. Imagino que vá acontecer assim: primeiro, os nascidos naturalmente vão se atacar para decidir quem é o mais forte, usando a Terra como campo de batalha. Então quem sobreviver vai tentar continuar do ponto em que Setrákus Ra parou. Há vários generais, como meu pai, que se veriam como os próximos na linha de sucessão.
— Eles não conseguirão — digo, sem prestar atenção.
Na verdade, estou pensando nos mogs se matando. Se ao menos pudéssemos acelerar essa parte do processo...
— A longo prazo, não. Mas ainda teremos anos de conflito, John. Aqui na Terra.
— A humanidade sofreria os danos colaterais — reflito, considerando os efeitos de uma guerra civil mogadoriana.
Aconteceria o mesmo que em Nova York, com milhares de mortes. A menos que os mogs lutassem em cidades já evacuadas...
— De toda forma, primeiro teríamos que de fato matar Setrákus Ra, certo? — comenta Adam, me dando um tapinha nas costas. — Não vamos nos adiantar.
— Vou atacá-lo com tudo o que eu puder. E com tudo o que não puder também.
— E terá ajuda. Você tem amigos.
Faço que sim com a cabeça.
— Claro. Sei disso.
Adam começa a caminhar em direção ao elevador e faz sinal para que eu o siga.
— Você ainda tem tempo? Tem mais uma coisa que eu queria mostrar...
Ergo as sobrancelhas e vou atrás dele. Os militares, indo e vindo pelos corredores bem-iluminados, mantêm distância. Eu me pergunto de qual dos dois eles têm mais medo.
Fiz um reconhecimento superficial das instalações de Patience Creek quando cheguei, me familiarizando com as áreas importantes – a área dos oficiais, onde estamos ficando, os alojamentos, as celas, a academia, a garagem – e dando uma olhada rápida nas áreas onde os militares estavam trabalhando. Não sei o que mais Adam poderia ter descoberto no curto tempo em que foi mantido prisioneiro. Por outro lado, um lugar construído para ser esconderijo de espiões deve ter muitos segredos.
— Depois que me interrogaram, eles me trouxeram aqui para baixo — explica Adam, enquanto descemos dois níveis. — Acho que não tinham grande esperança que este projeto fosse dar certo, então o deixaram de lado.
O andar em que saímos é basicamente um depósito. Passei rápido por ele durante minha averiguação. Metade das lâmpadas do corredor precisa ser trocada. Adam me leva por algumas salas lotadas de caixas empoeiradas com mantimentos e a um espaço abarrotado de cadeiras de praia estilo anos 1970 e uma rede de vôlei comida por traças. Então, dobramos uma esquina, e Adam abre uma porta que revela uma sala com pilhas e mais pilhas de livros. Uma biblioteca. De relance, percebo que a maioria daqueles livros de capa dura e amarelados é dedicada a assuntos úteis para um espião em um mundo pós-apocalíptico: jardinagem, conserto de eletrônicos e procedimentos médicos.
Estremeço. A pequena sala é preenchida pelos sons ásperos e guturais de mogadorianos berrando uns com os outros.
Em uma mesa no meio da sala, há um grande equipamento eletrônico que parece vagamente familiar. As vozes mogs vêm de lá. É mais ou menos do tamanho de um painel de carro, com estranhos botões e medidores. Parece que alguém ateou fogo àquela coisa e depois a jogou da janela de um prédio. Está ligada a um emaranhado de fios e baterias, e deduzo que precisa de muita energia.
Então, a ficha cai. O que estou vendo é o painel de controle de um Skimmer mogadoriano, arrancado da nave. Está ligado graças a uma fiação complexa, e isso significa que o comunicador está ativo.
Sentado em frente ao console solto está um cara de pele morena que eu diria que tem uns trinta e poucos anos. Seu cabelo é escuro e curto, e suas bochechas estão perdendo terreno para uma barba de alguns dias. Acho que já o vi antes, embora não lembre muito bem onde nem quando.
— Adam, você voltou — diz o homem, balançando a cabeça, cansado. — Tem andado muito quieto por aqui.
Olho para Adam e ergo a sobrancelha.
— Este é o agente Noto. — Adam o apresenta. — Ele era do ProMog.
É daí que o conheço. Ele fazia parte do grupo que Walker levou para Ashwood Estates depois que dedurou os mogs.
— Pensei que talvez você não fosse mais voltar depois que os soldados o arrastaram mais cedo — comenta Noto. — As coisas ficaram bem orwellianas.
Adam sorri para mim.
— Viu? Eu disse que minha detenção não foi tão ruim. Eu fiz um amigo. Tenho ajudado Noto a praticar a língua mogadoriana.
— Você fala a língua deles? — pergunto, observando o homem com atenção.
— Eu era responsável pelo contato com os mogs nos meus dias de ProMog — explica Noto. — Decorei algumas frases aqui e ali. Consigo entender, desde que falem devagar e com um vocabulário bem jardim de infância.
Adentro mais a sala, espiando os cadernos abertos espalhados na mesa. Estão cheios de símbolos que reconheço como letras mogadorianas, cada um deles representado por uma tradução fonética.
— Estamos monitorando a comunicação entre as naves de guerra mogadorianas — conta Adam. — Eu criptografei este módulo, assim eles não vão saber que estamos na escuta.
— Com os programas de segurança que você instalou, poderíamos transmitir de volta para eles, e ainda assim não nos encontrariam — observa Noto, com admiração.
Entendo por que Adam parece tão exausto. Não foi só o interrogatório que o manteve acordado a noite toda. Ele tem ficado aqui, ouvindo todas as transmissões dos mogs, sabendo que é o único que pode traduzi-las.
— Quanto tempo leva para aprender mogadoriano básico? — pergunto a ele, olhando de relance para Noto.
Noto recita uma série de ruídos ásperos e diz:
— Não é tão difícil.
Adam ri.
— Seu sotaque está melhorando, mas você acabou de dizer que gostaria de um estômago cheio de sanguessugas.
Noto faz uma careta.
— Achei que estivesse pedindo café.
— Ajudei Noto a fazer uma lista de palavras-chave às quais deve ficar atento — explica Adam. — “Adorado Líder”, convocações de naves de guerra, “Garde”... Sempre que ouve essas palavras, ele marca a transmissão.
— Estou gravando tudo para o caso de precisar ouvir de novo — conta Noto. — O que costuma acontecer.
— Isso é bom. Vai ser muito útil saber o que os mogs estão falando entre si — falo, colocando a mão no ombro de Adam. — Mas não vá se cansar demais. Também precisamos de você.
Adam assente.
— Eu sei. Não vou exagerar.
Eu me despeço do agente Noto, e depois vou com Adam para o corredor, onde podemos conversar em particular.
— Então, pelo que tem ouvido até agora, o que os mogs andam tramando?
— Eles estão surtando por causa de Setrákus Ra — responde ele. — Bem, surtando tanto quanto mogs nascidos naturalmente conseguiriam. Estão muito preocupados por não saberem por que ele ainda não ordenou o ataque ou fez qualquer anúncio para a frota, mas não vão questioná-lo, porque seria quase uma blasfêmia. A maioria das transmissões é do tipo: “Esta é a nave de guerra Delta, aguardando ordens, pedindo orientação do Adorado Líder.”
— Só isso já mostra que eles estão surtando?
— Mogs não ficam por aí pedindo ordens, John. Eles fazem o que mandam. Falam quando falam com eles. Não provocam seu Líder de maneira passivo-agressiva.
— E não houve resposta da Anubis ou da base em West Virginia?
— Nada — confirma Adam. — Silêncio total.
— Hum...
O plano que venho formulando é meio maluco, muito perigoso, e, bem, isso não me incomoda, ou incomoda menos do que deveria. Penso em tudo que Adam me contou sobre a cultura mogadoriana, em especial sobre a probabilidade de acontecer uma guerra civil quando Setrákus Ra morrer. Se eles matarem uns aos outros, as coisas ficarão bem mais fáceis para nós. E se houver algo que possamos fazer para acelerar o processo? Para levar os mogs a atacarem uns aos outros antes mesmo de Setrákus Ra virar cinzas? Algo como uma guerra psicológica.
Antes que eu tenha tempo de elaborar mais o plano, Noto põe a cabeça para fora da biblioteca e chama Adam com um aceno.
— De repente começaram a falar muito — avisa ele.
Adam e eu voltamos correndo para a sala. Eu me aproximo para ouvir melhor do transmissor, mas parece apenas um monte de rosnados raivosos. No entanto, dá para perceber que o mogadoriano que está transmitindo está bastante empolgado.
Ao ver os olhos de Adam se estreitarem, sei que as notícias não são boas. Depois de alguns segundos, ele se vira para mim.
— John, precisamos chamar os outros. Alguém cometeu um erro terrível.

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