29 de novembro de 2016

Capítulo seis

POR ALGUNS MINUTOS, ACHEI MESMO QUE AQUELA REUNIÃO TRANSCORRERIA SEM dificuldades e que eu logo poderia voltar a meus planos de derrotar Setrákus Ra.
Acho que subestimei o tamanho da estupidez do governo.
Seis é a primeira a ficar de pé quando trazem Adam para a sala, as correntes retinindo. Ela se levanta tão rápido que sua cadeira tomba. Alguns dos soldados armados nos cantos da sala erguem ligeiramente as armas, preocupados. Quando ela se levanta, Sam e Nove fazem o mesmo.
— Que merda é essa? — grita Seis para Lawson, apontando para Adam.
— Está tudo bem, Seis — diz Adam, cansado, de olho nos guardas armados. — Estou bem.
Nove se vira para os guardas com um sorriso. Ele acena para um soldado cujo dedo paira sobre o gatilho do fuzil.
— Ele está conosco, cara — rosna Seis para Lawson, ignorando a tentativa de Adam de acalmar a situação. — É nosso amigo.
Lawson nem sequer se mexeu na cadeira. Na verdade, parece se divertir com a situação. Eu me pergunto se ele está tentando nos irritar de propósito, querendo ver até onde pode nos pressionar, sondando que tipo de aliados seremos.
— Seu amigo — diz Lawson, com calma — é membro de uma raça alienígena hostil que está determinada a subjugar este planeta. Vocês o trouxeram para cá, para o lugar que é a maior chance de defesa da humanidade, e esperavam o quê? Que o deixássemos andar por aí em liberdade?
— Exatamente — responde Nove.
Quando Seis entrou na sala, notei a maneira como avaliou o poder de fogo dos militares. Reconheci aquele olhar. Ela estava calculando nossas chances de derrotá-los.
Embora eu não esperasse que as coisas dessem errado, tenho que admitir que também fiz meus cálculos. É um instinto de sobrevivência que provavelmente nunca vamos abandonar.
A julgar pelos olhares apreensivos de diversos soldados, eles também fizeram uma avaliação. Não conhecem Seis ou alguns dos outros, mas tenho certeza de que viram gravações ou ouviram rumores sobre o que fiz em Nova York.
Sabem que não podem vencer.
Penso em Sarah. Sei que ela me diria para ficar calmo, e teria razão. Não quero machucar ninguém. Precisamos cooperar com essas pessoas se quisermos salvar o planeta. Eu sei. Mas eles também precisam saber do que nós somos capazes, principalmente o general Lawson. Ele precisa saber que não somos seus recursos na guerra contra Setrákus Ra.
Ele é que é um dos nossos.
Eu me levanto bem devagar para ninguém ficar ainda mais nervoso. Olho ao redor e uso minha telecinesia para ejetar o cartucho de cada arma de fogo da sala. Os soldados arregalam os olhos quando a munição cai no carpete.
Todos estão olhando para mim. Ótimo. Contorno a mesa e me aproximo dos dois guardas que seguram Adam.
— Afastem-se — digo a eles.
Eles obedecem.
Adam me encara, e percebo que ele balança a cabeça de um jeito quase imperceptível, como se não quisesse piorar a situação. Mas preciso deixar a mensagem clara.
Acendo o Lúmen, e minha mão se ilumina em uma questão de segundos. Estendo o braço e, com cuidado, derreto as correntes de Adam, libertando suas mãos.
Feito isso, me viro para encarar os presentes. Os funcionários do governo estão todos com a mesma expressão, algo entre raiva e medo. Alguns dos nossos – como Daniela e Sam – parecem apreensivos. Outros, como Nove e Seis, têm um ar diabólico de incentivo. A agente Walker, surpreendentemente, esconde um sorriso com a mão.
Concentro-me em Lawson. Sua expressão continua neutra e controlada.
— Você poderia ter pedido as chaves — diz ele.
— Nós não respondemos a você — retruco, colocando minha mão já fria no ombro de Adam. — Você não toma decisões a nosso respeito. Entendido, senhor?
— Eu entendo, e isso não vai acontecer outra vez — responde Lawson, sem parecer nem um pouco contrariado; sua tranquilidade é quase preocupante. — Compreenda, tínhamos que ter certeza de que seu... seu amigo é de confiança.
— E você precisa entender que nós vamos atrás de Setrákus Ra assim que meu grupo estiver bem — declaro. E assim que eu estiver forte o bastante, quase acrescento. Assim que eu tiver reunido o máximo de Legados que puder ao meu arsenal.
— Vamos matá-lo e enterrá-lo naquela montanha dele — continuo. — Isso se alinha aos seus planos de contra-ataque?
— Parece ótimo — concorda Lawson, e faz sinal para que eu volte a me sentar.
Em vez de me sentar, deixo que Adam ocupe minha cadeira na cabeceira da mesa. Com a situação relativamente sob controle, Seis e os outros voltam aos seus lugares. Os soldados não fazem menção de pegar os pentes ejetados. Enquanto todos se acomodam de novo, Seis se debruça na mesa para falar com Adam.
— Você está bem?
Ele assente num gesto rápido, tentando esquecer a situação toda, mesmo que ainda tenha as argolas das algemas em torno dos pulsos.
— Eles só me fizeram algumas perguntas, Seis. Nada de mais.
Cruzo os braços e olho para Lawson.
— Então, o que mais vamos discutir?
Lawson limpa a garganta, ainda imperturbável.
— Oferecemos todo o apoio ao assassinato do líder mogadoriano, mas precisamos resolver algumas questões relacionadas ao tempo. E temos outras perguntas e preocupações.
— Questões relacionadas ao tempo — repito. — Perguntas e preocupações.
— Por exemplo — continua Lawson —, sei que recentemente vocês usaram um tipo de percepção extrassensorial para se comunicar com o que acreditamos ser centenas de TALs ao redor do mundo.
Ele está falando da conferência telepática para a qual Ella nos arrastou. Por um segundo, fico meio confuso, sem saber como Lawson poderia saber disso. Então, olho por cima do ombro dele, para os dois gêmeos impassíveis – Christian e Caleb – que ficam rondando Lawson desde que chegamos ali. Eles têm Legados, então é óbvio que estavam na sala em que conheci todos os humanos que receberam poderes. Eles devem ter relatado os detalhes para o general. Se não eles, talvez a filha do presidente.
— E daí? — pergunto.
— Bem, John, você está recrutando centenas de menores de idade de todo o mundo. Ficamos preocupamos com a segurança dessas crianças.
Lanço um olhar acusatório para os gêmeos ao lado de Lawson antes de responder, esperando que ele entenda a ironia.
— Em pouco tempo, não haverá nenhum lugar seguro neste planeta — digo a Lawson. — Eles precisam de um treinamento que apenas nós podemos dar.
— Eu sei — responde Lawson. — Mas você entende que isso pode deixar algumas pessoas nervosas, não é? Reunir um exército formado por jovens?
Balanço a cabeça, incrédulo, e espero que meu rosto mostre como acho ridícula essa burocracia absurda. Quase me faz sentir saudade dos meus tempos de fuga.
— Não estamos reunindo nada — digo, então olho para os gêmeos. — Vocês dois. Eu exigi que vocês viessem aqui? Por acaso forcei os outros?
Os gêmeos parecem surpresos por eu me dirigir a eles. Trocam um olhar, e em seguida se viram para Lawson em busca de permissão.
— Podem falar à vontade — diz ele.
— Não. Você não fez nada disso — responde Caleb na mesma hora, enquanto seu irmão continua impassível. Então aponta para Nove. — Mas aquele ali nos chamou de covardes.
Nove dá de ombros. Olho para Lawson.
— Satisfeito?
— Por ora — responde ele. — Pelo menos nos avise se for voltar a fazer algo assim.
Eu suspiro.
— E o que você disse sobre ter preocupações relacionadas ao tempo?
Lawson aponta para o mapa atrás dele, aquele que mostra a posição de cerca de vinte naves de guerra mogadorianas.
— Como eu disse, somos todos a favor de cortar a cabeça dessa serpente. Vou mandar o máximo de reforços que puder para West Virginia com você — começa Lawson. — Mas, no momento, o inimigo pensa que estamos impotentes. Quando atacarmos, o que acontecerá com essas cidades? A evacuação está em curso em cada uma delas, mas não é fácil deslocar milhões de pessoas. Um ataque a Setrákus Ra poderia iniciar batalhas em toda parte.
Lexa se pronuncia:
— Como a única sobrevivente da invasão mogadoriana ao nosso planeta com idade suficiente para lembrar como tudo aconteceu, deixe-me dizer que as táticas deles mudaram. Devastaram nosso planeta em questão de horas...
— Encorajador — rebate Lawson.
— Eles querem ocupar a Terra, não destruir — continua Lexa. — Saber disso não nos dá alguma vantagem?
— Será que Setrákus Ra estaria blefando? — pergunta Lawson.
— É verdade que meu povo quer ocupar — diz Adam, franzindo a testa, pensativo. — É certo que a frota não tem capacidade para fazer outra viagem intergaláctica. Eles precisam ficar aqui. Mas, se você acha que isso vai impedi-los de destruir até mesmo dezenas de cidades, está subestimando os mogadorianos.
— Então voltamos à contagem regressiva para o fim do mundo — retruca Lawson. — Quando vocês atacarem Ra, temos que presumir que a contagem regressiva acabará e a destruição começará.
— O que você pensa que vai acontecer quando ele se recuperar e perceber que o prazo que deu acabou enquanto lambia as feridas? — indaga Seis. — Vai atacar de qualquer maneira.
— Exatamente — concorda Lawson, assentindo. — Os ataques são inevitáveis nos dois casos. Mas isso não significa que devemos apressá-los. Queremos estar tão preparados quanto possível. E levar o máximo de civis que pudermos para um lugar seguro. Aproveitar cada minuto desse atraso que vocês proporcionaram.
— Você quer que a gente espere — digo, rangendo os dentes. Embora eu ainda precise de tempo para aprender novos Legados, estou louco para lutar. É para isso que estou vivendo. Aguardar o final da reunião já está sendo bastante difícil. — Quanto tempo mais?
— Não é fácil coordenar uma série de ataques internacionais contra um adversário de tecnologia superior — responde Lawson. — Recebemos os dispositivos de camuflagem que sua equipe conseguiu no México, e nossos cientistas estão tentando usar a engenharia reversa.
O pessoal de Lawson deve ter passado mais tempo com esses dispositivos de camuflagem do que eu. Lexa – que só conheci pessoalmente hoje de manhã – logo me mostrou a tecnologia mogadoriana. Não parece assim tão impressionante. São caixas pretas sólidas com algumas entradas e fios, mais ou menos do tamanho de um livro, e são fundamentais se os exércitos humanos querem ter alguma chance.
Entregamos a maioria delas para Lawson algumas horas antes da reunião. Ficamos com a que já está instalada na nave de Lexa, e eu separei uma para mim.
— Posso ajudar com isso — oferece Adam a Lawson. — Conheço bem a tecnologia.
— Eu agradeço, sr. Mog. Mas, mesmo que consigamos entender como esses dispositivos funcionam e sejamos capazes de produzi-los, ainda será necessário levar essa tecnologia até nossos aliados por todo o mundo. Depois que descobrimos a aparência dos dispositivos, outros países, especialmente a Índia, conseguiram derrubar alguns Skimmers e retirar os dispositivos de camuflagem. Partindo do princípio que conseguiremos passar pelos escudos, ainda estamos avaliando se seria melhor tentar invadir as naves de guerra ou confiar nos mísseis balísticos.
— Nenhuma das duas abordagens será fácil — alega Adam.
— Não dá para jogar uma bomba nuclear neles? — pergunta Nove.
Lawson semicerra os olhos.
— As cidades sob ameaça estão sendo evacuadas, jovem, mas ainda há pessoas lá embaixo. Uma guerra nuclear está fora de cogitação aqui, nos Estados Unidos. Não posso dizer o mesmo pelos outros países...
— Já vai ser bastante ruim explodir essas naves gigantes sobre as cidades — murmura Daniela.
Lawson levanta a mão.
— Um problema de cada vez. Independentemente da abordagem, os dispositivos de camuflagem continuam a ser nosso maior obstáculo. Estamos trabalhando com um estoque muitíssimo pequeno, e precisamos de um por nave ou por míssil. Ainda há a questão de fazermos os dispositivos chegarem às mãos dos nossos aliados. — Lawson faz uma pausa para respirar. — Quanto tempo vai levar para termos dispositivos suficientes para organizar um ataque às naves de guerra?
— Todas? — pergunto. — Ao mesmo tempo?
— É assim que essas operações se desenrolam, John. Atingimos todos ao mesmo tempo para maximizar nossa única vantagem: o elemento surpresa. Se permitirmos que saibam que podemos passar pelos seus escudos cedo demais, os parâmetros mudam. Eles podem intensificar os ataques. No momento, estão com a faca no nosso pescoço; pensam que estamos encurralados, fora de combate. Não sabem que ainda temos uma carta na manga. Mas precisamos dessa tecnologia. E estamos lutando contra o tempo. A menos que vocês saibam por quanto tempo Setrákus Ra ficará naquele tonel... — sugere Lawson, olhando para Ella.
Ella nega com a cabeça.
— Portanto, vocês entendem como nossa situação é precária — conclui ele. — Provavelmente teremos uma única chance, e precisaremos ser rápidos.
Procuro absorver tudo aquilo, um pouco chocado. Lawson não pintou um quadro muito animador. Talvez eu não esteja em condições de ajudar a coordenar um contra-ataque internacional. Felizmente, não estou sozinho.
Seis olha para Ella.
— Há novas pedras de loralite crescendo por toda a Terra, certo?
— Isso — diz Ella. — Posso senti-las.
Seis estala os dedos.
— Aí está. Nós as usaremos para distribuir os dispositivos de camuflagem pelo mundo.
Lawson olha para mim.
— Você falou dessas pedras para os TALs na sua... hã... reunião psíquica, não foi?
Faço que sim.
— Hum. — Lawson olha para o mapa. — Quando ficamos sabendo dessas pedras, incentivamos nossos parceiros internacionais a encontrar o maior número delas que pudessem.
Inclino a cabeça, confuso.
— Vocês já fizeram isso?
— Sim, John, é claro que fizemos. Alguns líderes riram de mim quando lhes pedi para destacarem soldados para vigiar pedras mágicas. Isso sem falar que só sabemos onde está uma parte dessas pedras.
— Quantos Gardes humanos foram interceptados? — pergunto, a voz fria.
— Alguns — responde Lawson, com cautela. — Para a proteção deles. A maioria ainda está no exterior. Supondo que sobrevivamos aos próximos dias, talvez possamos discutir como você irá treiná-los. Com supervisão adequada, é claro.
Não gosto disso. Parece que estamos entregando muita coisa sem resistir, revelando a localização das loralites para Lawson, sem mencionar os Gardes humanos inexperientes nos quais ele está tão interessado. Mas temos outra escolha? Em termos práticos, usar as pedras de loralite é a única forma de preparar um contra-ataque a tempo.
— Vamos ajudá-lo a localizar o restante das loralites — digo a Lawson. — Assim que os dispositivos de camuflagem estiverem prontos.
Lawson sorri para a minha concessão relutante, mas logo segue em frente.
— Assim resolvemos o problema do transporte. Mas não o da quantidade.
— Se não é possível produzir rápido o bastante, vamos ter que conseguir mais para você — afirmo, o início de um plano começando a tomar forma na minha cabeça.
Nove abre um sorriso malicioso.
— Talvez a gente devesse ir a algum lugar onde sabemos que há um monte deles.
— E onde seria? — indaga Lawson.
— Uma das naves de guerra — respondo.
— Eu não acabei de explicar...? — dispara Lawson, a frustração estragando sua encenação de avô paciente por um instante. Ele logo se controla. — Se nós os atacarmos... qualquer ataque... corremos o risco de vê-los devastar outra cidade.
— E se pudéssemos entrar e sair de uma dessas naves de guerra sem que eles notassem? — pergunto a Lawson, mas olhando para Seis. Ela sorri para mim. Sorrio de volta. — E se pudéssemos arrumar dispositivos de camuflagem para um batalhão inteiro antes que os mogs dessem falta deles?
— Bem... — Lawson esfrega o queixo, pensativo. — Não me parece uma má ideia.

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