29 de novembro de 2016

Capítulo quatro

QUANDO DESPERTO, LEVO UM INSTANTE PARA PERCEBER ONDE ESTOU. UM quadro de hotel barato me encara da parede com revestimento de madeira. Estou enroscada em um lençol áspero. Devo ter me revirado a noite toda. Parece que só dormi algumas horas.
A pousada Patience Creek. Um velho ponto de encontro de espiões da Guerra Fria. Sam me atualizou com as informações enquanto praticamente me carregava pelos corredores. Estava tão exausta e delirante que me surpreende ter guardado alguma coisa do que ele disse.
Sam.
Ele está ali comigo. Do outro lado da cama. Já acordado e sentado, os pés no chão, de costas para mim. Ainda não viu que despertei. Sam coça o pescoço e boceja. Ele dormiu sem blusa, e o vejo estender a mão em direção à camisa cinza e surrada pendurada no espaldar de uma cadeira. Ele se concentra para usar a telecinesia e fazer a peça de roupa flutuar em sua direção.
Sorrio, ainda sonolenta. É difícil acreditar que este é o mesmo garoto que quase morreu cambaleando pelos corredores da Paradise High na noite em que nos conhecemos. Não faz tanto tempo assim, mas muita coisa mudou. Sam ainda é magro e um pouco desajeitado, mas já tem alguns músculos. E agora tem cicatrizes, marcas ainda rosadas nos pulsos e braços, resultado da época em que foi torturado por Setrákus Ra.
Coloco a mão em suas costas e passo o dedo pela coluna. Ele se assusta, perde a concentração e a camiseta cai.
— Bom dia — digo, em voz baixa. — Já amanheceu, não é?
— Há um tempinho — responde Sam, virando-se para mim com um sorriso.
Seus olhos me observam por um instante, mas logo ele fica sem graça, o rosto corado, e timidamente desvia o olhar.
Então percebo que estou sem roupa.
É quando me lembro do que aconteceu. Depois que Ella me contou que não matei Setrákus Ra, tive uma crise nervosa. Sam me levou para seu quarto e me encorajou a tomar um banho. Aceitei a sugestão, lavando a poeira cinza-esverdeada do que um dia foi o Santuário junto com o sangue seco de Sarah. Eu me lembro com clareza da forma como a sujeira ficou presa em meus pés e depois desceu pelo ralo. Inspirei o vapor e pressionei a testa nos azulejos frios, até a pele se enrugar e ficar vermelha por causa do calor.
Em algum momento, me arrastei para a cama. Sam até que tentou ficar acordado, mas não conseguiu. Como ele não havia separado nenhuma roupa limpa para eu vestir...
— Deixei algumas roupas em cima da mesa — diz Sam com cautela.
— Ah, é verdade — respondo.
Uma túnica florida bem folgada e uma calça jeans que, para meu pavor, parecia ser boca de sino, esperavam por mim do outro lado do quarto. Acho que vamos ter que usar qualquer roupa deixada no esconderijo. Pelo menos estão limpas.
— Eu, hã, bem, você acabou dormindo aqui... — continua Sam, sem jeito. — Não queria acordá-la. Desculpe se... Hã, enfim, podemos arrumar um quarto para você...
— Está tudo bem, Sam. Relaxa — respondo, e me sento, nem um pouco constrangida.
Deslizo até ficar ao lado dele, passo um braço pelo seu ombro e o outro em torno da cintura, abraçando-o com força. Sinto sua pele quente junto à minha.
— Depois do que aconteceu, achei que você ia... Sei lá. Me afastar de novo — diz Sam, em um tom calmo e meio distraído, provavelmente por causa dos beijos que dou em sua nuca.
— Não — respondo.
— Que bom.
Ok, talvez este não seja o momento mais apropriado. Ainda tenho muitas questões na cabeça e na consciência, mas, se aprendi algo com John e Sarah, é que você tem que aproveitar esses momentos, e não fugir deles. Nunca se sabe quando será a última chance.
É claro que somos interrompidos uns dois minutos depois por uma batida na porta.
Sam pula da cama como se estivesse encrencado, veste depressa a camisa e vai até a porta. Ele olha para mim e eu sorrio, puxando o lençol até o queixo.
Sam abre uma fresta da porta. Fico surpresa ao ver os gêmeos com cabelo em estilo militar que notei quando chegamos, os que estavam com o tal general Lawson, que parece estar no comando.
Um deles encara Sam, o rosto inexpressivo. O outro, um pouco mais amigável, mas ainda de poucas palavras, anuncia:
— Vamos ter uma reunião.
— Tudo bem — responde Sam. — Estaremos lá em um minuto.
Os gêmeos erguem juntos a sobrancelha ao ouvirem Sam falar no plural. Ele fecha a porta na cara deles.
— Acho que temos que ir — anuncia ele.
— De volta para a guerra — respondo, com um sorriso amargo.
Já me vestindo, aponto com a cabeça em direção à porta. Ainda tem muita coisa que não sei. Melhor tirar minhas dúvidas antes de irmos para a reunião com os militares.
— Quem são os gêmeos?
— Caleb e Christian — diz Sam, depois dá de ombros. — São alunos do colégio militar. São os TALs.
— Como assim? Eles são importantes?
Sam ri.
— Não, não é isso. TALs. Não sei por que falei como se você conhecesse essas siglas novas inventadas pelo governo. Significa “Terráqueos Afetados por Legados”.
— Afetados? — Faço uma pausa, vestindo a camisa. — Dito assim, parece uma coisa ruim.
— Sim, eles usam “aprimorados” em vez de “afetados” quando vocês, da Garde, estão por perto, mas meu pai viu um dos e-mails internos. — Sam dá de ombros, se desculpando, como se fosse o embaixador de toda a humanidade. — Acho que o pessoal no comando não tem certeza se um bando de adolescentes humanos desenvolvendo Legados é uma coisa boa. Eles têm medo de que possa haver inconvenientes ou efeitos colaterais.
— Sim, um dos efeitos colaterais é que fica muito mais difícil os mogs acertarem sua cara.
— Eu sei disso — responde Sam. — Mas e a maior parte da população? É muita coisa para absorver. Quer dizer, eles precisam aceitar a existência de duas novas formas de vida inteligente, e depois ainda têm que entender como vocês, lorienos, provocaram nossas mutações.
Levanto uma das sobrancelhas.
— Mutações no bom sentido — acrescenta Sam.
— E o que aqueles gêmeos fazem? — pergunto, voltando ao assunto.
Ele dá de ombros.
— Só telecinesia, pelo que sei.
Já terminei de me vestir, mas ainda tenho outras perguntas. Fico parada em frente à porta, com as mãos nos quadris.
— E aquele Lawson? Qual é a dele?
— Acho que era o chefe do Estado-Maior conjunto na década de noventa. Aposentado.
Olho para Sam sem entender nada.
— O chefe do Estado-Maior conjunto é, tipo, o maior posto militar dos Estados Unidos. Ele responde direto ao presidente e tal. — Sam esfrega a nuca. — Eu também não sabia o que era, e olha que nasci neste planeta.
— Tá, então o que houve com o chefe atual?
— Era ProMog. Trouxeram Lawson de volta porque ele já se aposentou há tanto tempo que ninguém se preocupou em corrompê-lo. Ele é tipo a versão humana deste lugar.
— Por falar em ProMog, também vi a agente Walker ontem à noite — digo, com um pouco de irritação na voz. — Você confia nela? Confia nesse tal de Lawson?
— Na Walker, sim. Ela lutou ao nosso lado em Nova York. Quanto ao Lawson... — Sam franze a testa. — Eu não sei. Acho difícil confiar em qualquer organização depois do ProMog, mas eles teriam que ser loucos para se voltar contra nós agora...
Enquanto Sam fala, uma tevê antiga em um móvel junto à parede oposta de repente ganha vida com uma explosão de estática. Nós nos viramos na direção do aparelho.
— Que merda é essa?! — digo.
Sam esfrega as têmporas.
— Este lugar velho tem algum problema na instalação elétrica. A tevê deve estar cheia de aranhas.
— Ou de câmeras escondidas.
Sam sorri para mim.
— Espero que não. De toda forma, não acho que eles já tenham se organizado a ponto de nos espionar.
Sam vai até a tevê e aperta o botão para desligá-la. Nada acontece.
— Está vendo? Com defeito — declara ele, e depois bate na lateral do aparelho. — Vamos!
Quando Sam fala, tudo o que está ligado à eletricidade no quarto – a tevê, o abajur da mesa de cabeceira, o antigo telefone de disco – ganha vida por um segundo. Uma explosão de estática da tevê, um lampejo da lâmpada do abajur, um toque estridente do telefone. Sam não nota. Ele está ocupado demais desplugando a tomada da tevê, que enfim desliga.
— Viu só? Muito louco. Este lugar é uma loucura.
Eu o encaro.
— Sam, não é a fiação. É você.
— Eu?
— Foi você quem fez isso com os equipamentos eletrônicos. Acho que está desenvolvendo um novo Legado.
Sam ergue as sobrancelhas e olha para as mãos.
— O quê? Já?
— Sim, eles aparecem rápido depois que a telecinesia se manifesta — explico. — Você viu aquele rapaz no sonho compartilhado de Ella. O alemão.
— Bertrand, o apicultor — lembra Sam. — Daniela também desenvolveu outro. Não imaginei que aconteceria tão rápido comigo. Ainda estou me acostumando com a telecinesia.
Não sei quem é Daniela, mas assinto mesmo assim.
— A Entidade sabia que o mundo precisa de proteção, e rápido.
— Hã — diz Sam, ponderando a respeito. — Então tem algo a ver com os equipamentos eletrônicos.
Ele vira para a tevê e encosta as palmas das mãos nela. Em seguida, emite uma onda telecinética que faz o aparelho cair no chão com um estrondo.
— Opa!
— Bem, pelo menos você usou a telecinesia.
Sam se volta para mim.
— Se você estiver certa, como faço para usar esse novo poder?
Antes que eu diga a Sam que não faço ideia, somos interrompidos por outra batida na porta. Um segundo depois, ouvimos a voz abafada de um dos gêmeos.
— Hã, seja lá o que vocês estiverem fazendo aí dentro, será que podiam adiar? O general Lawson disse que, se não reunirmos todo mundo às nove em ponto, estamos fritos.
Troco um olhar com Sam.
— Falamos sobre isso mais tarde.
Ele faz que sim, e abrimos a porta para nos juntarmos aos dois cadetes mal-humorados.
Enquanto atravessamos o corredor, Sam olha para cada luz no teto como um inimigo que precisa ser vencido.

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