29 de novembro de 2016

Capítulo quatorze

A ESPERA DEVE SER A PIOR PARTE.
O sol se pôs, mas não dá para perceber aqui em nosso mais recente esconderijo subterrâneo. Patience Creek ainda fervilha: soldados trabalhando em estratégias de logística e treinamento contra as táticas mogs observadas; pesquisadores tentando decifrar o dispositivo de camuflagem, junto com Sam e Malcolm; oficiais coordenando um esforço mundial de guerra. Adam passou todas as informações que pôde e está no andar de baixo, ajudando a monitorar as comunicações mogs.
Mas, no momento, não estou envolvida com nada disso.
— A cobertura do Nove era mesmo o máximo — digo, prendendo o cabelo para trás enquanto olho a parede de um tom sujo de branco. — Acho que nunca valorizei tanto aquelas janelas incríveis.
Marina ri baixinho. Ela está sentada do outro lado da mesa em uma das saletas de estar de Patience Creek. Na mesa há metade de um burrito de micro-ondas, agora frio. A variedade de comida aqui deixa a desejar, e não estamos com muita fome.
Marina sorri para mim.
— Lembra aquele jantar antes de irmos para a Flórida? Com todos nós juntos?
— Lembro. Pouco antes de tudo ir por água abaixo.
— Aquela noite foi boa — diz Marina, com uma risada discreta. — Nós devíamos, sei lá, ter tirado fotos ou algo assim. Como pessoas normais.
O sorriso dela desaparece aos poucos. Percebo que está pensando em Oito. Tento deixar o clima mais leve.
— Deus do céu, e pensar que eu reclamava daquela cobertura porque era do Nove e ele ficava se exibindo sem camisa como um playboyzinho metido. Mas, pensando melhor, vê-lo tentando aparecer com certeza ainda era melhor do que uma comunidade mog abandonada ou este porão sujo.
Marina ri outra vez. Ela estica o braço por cima da mesa e coloca a mão sobre a minha. Nos olhamos. Eu me sinto esgotada – talvez seja por isso que estou ficando um pouco incisiva e saudosista.
— Seis — diz Marina em voz baixa. — Preciso falar... Eu nunca fiz muitos amigos antes, quando morava no convento. Era meio solitário lá.
— E...?
— E então você apareceu. Você... — Faço uma careta quando os olhos de Marina se enchem de lágrimas. — Você esteve ao meu lado nos piores momentos, Seis. Sempre me fez rir e me deu apoio. Às vezes me carregou nos braços, literalmente. Só queria dizer que você é minha melhor amiga.
Sopro um cacho de cabelo do meu rosto.
— Ah, droga, Marina, não vem com esse discurso. Traz má sorte.
Marina ri.
— Era algo que precisava ser dito.
— Não precisava, não — respondo, apertando a mão dela. — Mas posso dizer o mesmo.
Alguém limpa a garganta, e nos viramos para a porta. John está lá, com um atlas pesado, com capa de couro e páginas amareladas, debaixo do braço. Vejo olheiras sob seus olhos, e os ombros estão caídos. Não esperava que ele estivesse em outro estado depois de tudo o que aconteceu nos últimos tempos.
— E aí? — diz ele.
— E aí? — retruco. — Onde esteve?
John olha ansioso para uma cadeira livre na nossa mesa. Mas algo dentro dele não permite que relaxe, nem mesmo por poucos minutos.
— Cuidando de umas coisas — responde ele. — Vou ver o Lawson. Seria bom contar com algum apoio.
Troco um olhar com Marina, e nós duas nos levantamos.
— Claro — digo. — Vai só socializar ou...?
— Já perdemos tempo demais aqui — responde John, de pronto. — Precisamos começar a nos mexer.
Assinto, e nós três saímos da sala e começamos a caminhar pelos corredores intermináveis.
— Devemos reunir os outros? — pergunta Marina.
— Não quero perturbar o trabalho de Sam e Malcolm — explica John. — Nove não é a pessoa mais diplomática que eu conheço, e Adam talvez não seja bem-vindo neste contexto.
— E quanto a Ella?
A boca de John se contrai.
— Ela não precisa estar aqui para isso.
Noto algo estranho no tom de John.
— Vocês conversaram? — pergunto.
— Sim.
— E aí?
— Podemos deixar isso pra lá, Seis?
Lanço um olhar para Marina. Ela balança a cabeça sutilmente, como se quisesse me dizer para deixar pra lá, mesmo. Sigo seu conselho e andamos em silêncio.
Lawson montou seu escritório em uma parte do local conhecida como o centro nervoso do complexo. Passamos por salas cheias de oficiais de comunicação em contato com outros governos ao redor do mundo. É barulhento; noto umas dez línguas diferentes sendo faladas. As naves de guerra mogs ainda não atacaram em nenhum lugar do mundo. Nem sequer se moveram, fora a Anubis levando Setrákus Ra para West Virginia e a nave que atraímos para as Cataratas do Niágara. Pela agitação ali, está claro que os humanos estão aproveitando cada segundo de calmaria para se preparar.
Os gêmeos, Caleb e Christian, montam guarda diante de uma porta fechada ao final do corredor. Marina ainda não teve a chance de conhecer os dois esquisitões. Quando chegamos, ela abre seu sorriso mais gentil e estende a mão para o carinha inexpressivo que imagino ser Christian.
— Oi, meu nome é Marina. Fiquei sabendo que vocês receberam Legados. Que incrível isso acontecer com os dois. Se quiserem conversar sobre...
Christian só olha para ela e não faz nenhuma menção de pegar sua mão, como se nem entendesse o que ela está dizendo. Caleb se intromete e aperta a mão de Marina de leve, como se estivesse coberta de germes.
— Hã, estamos bem, obrigado — retruca ele de um jeito brusco, depois olha para John. — O general Lawson mandou chamá-lo há horas.
— Não ando com muito tempo livre — responde John. — Ele está por aqui ou não?
Caleb se afasta com um grunhido, e um instante depois Christian faz o mesmo, mantendo o olhar frio o tempo todo. Quando seguimos John para o escritório de Lawson, Marina se volta para mim.
— Qual é a deles? — sussurra.
— Não faço ideia — respondo. — Acho que nem todos que receberam Legados são tão charmosos quanto Sam.
Marina sorri para mim. Ficamos em silêncio enquanto observamos o escritório de Lawson. É tudo bem simples, uma escrivaninha meio velha atrás da qual o general está sentado em uma cadeira com apoio lombar, e há algumas cadeiras dobráveis diante da escrivaninha, além de uma mesinha encostada em uma parede, com uma cafeteira que está passando o café solúvel produzido pelo exército.
O que chama mesmo a atenção, e estou certa de que é a razão pela qual Lawson se estabeleceu aqui embaixo, são os monitores que cobrem a parede atrás da escrivaninha.
As telas exibem todo tipo de coisa; algumas mostram imagens granuladas de naves de guerra que devem vir diretamente de câmeras instaladas nas cidades ocupadas, outras estão sintonizadas nos poucos canais que ainda transmitem alguma coisa, e fora isso há algumas que mostram imagens das câmeras de segurança de Patience Creek.
Lawson desvia o olhar de todas essas informações assim que entramos. Ele se levanta, passa a mão pela frente do uniforme e abre um sorriso simpático.
— Ah, olá — diz ele, olhando para nós três.
Nossos olhares exibem diferentes graus de confrontação, então ele se dirige primeiro a Marina.
— Fico contente em ver que está melhor, minha jovem.
— Obrigada — responde ela.
— Só ouvi coisas boas a seu respeito — continua Lawson.
— O que... o que o senhor ouviu? — Marina ergue uma das sobrancelhas.
— Fiquei sabendo que você tem o poder de cura, que, na minha opinião, é o mais abençoado que se pode desenvolver. — Ele abaixa a voz, assumindo um tom conspiratório. — Alguns dos meus rapazes também me disseram que você manda muito bem com uma estaca de gelo.
Marina fica vermelha ao ouvir sobre sua briga com Cinco. Antes que a conversa continue, John interrompe:
— Você queria me ver.
Lawson faz que sim e volta para seu lugar, fazendo sinal para nos sentarmos nas cadeiras em frente à escrivaninha. Nós continuamos de pé.
— Sim, eu queria falar com você — confirma Lawson a John, em seguida aponta para mim. — Eu queria saber por que Seis e alguns de seus companheiros tinham deixado a base. Agora que ela está de volta e trouxe alguns TALs, já não estou tão preocupado.
— Você não precisava se preocupar — retruco.
— Pois é, mas eu me preocupo — diz Lawson para mim, tentando bancar o avô amigável, depois volta sua atenção para John. — Talvez a gente tenha começado com o pé esquerdo. Percebi que seu grupo não está acostumado a trabalhar com outras pessoas. E vocês devem entender que também é uma experiência estranha para o meu pessoal. Não quero que pensem que estou ameaçando sua autonomia... duvido que conseguiria, mesmo se quisesse. Mas temos um objetivo comum aqui. Seria melhor se soubéssemos o que cada um está fazendo.
— Concordo — diz John, embora só pareça querer que o coroa pare de falar.
Lawson passa a mão pelo cabelo grisalho, voltando a atenção para mim.
— Por exemplo, sua operação nas Cataratas do Niágara fez com que a nave de guerra que estava em Toronto se deslocasse para lá. É o primeiro movimento dos inimigos que notamos desde que Setrákus Ra parou de agir. E isso gerou uma grande confusão que poderia ter sido evitada se vocês tivessem me deixado a par de tudo.
— Mas ninguém disparou nenhuma arma nuclear, certo? — pergunto. — Nenhum dano foi causado.
— Desta vez, não — responde Lawson entredentes. — Em torno daquela nave de guerra, os canadenses tinham unidades que terão que se reposicionar nas cataratas, o que é um saco. Por outro lado, um grande centro populacional que ainda estava sendo evacuado está fora de perigo, pelo menos por ora. Mas e se isso tivesse acontecido em algum outro lugar do mundo, onde nossos aliados não são tão disciplinados? Poderia ter criado algumas dificuldades.
— Não vai acontecer de novo — diz John, e mais uma vez seu tom indiferente diminui a força da afirmação. Ele coloca o atlas em cima da escrivaninha de Lawson. — Marquei os locais das pedras de loralite aqui.
Lawson sorri e coloca a mão sobre o livro.
— Ah, nada digital. Gostei.
— Precisamos muito que esses lugares sejam protegidos antes que os mogs os descubram — continua John. — Ainda mais se você quiser usá-los para transportar os dispositivos de camuflagem.
— Vou garantir que isso aconteça. — Lawson dá um tapinha no atlas. — E cuidarei para que seja confidencial. Nada de vazar informações.
— Pode ser que mais Gardes humanos se teleportem para esses lugares — acrescento. — Cuide para que ninguém mexa com eles. Mogs ou humanos.
Lawson coça o queixo bem barbeado, mesmo em um momento como este.
— Você acha que pretendemos ferir estes jovens com poderes especiais? — pergunta, soando um pouco ofendido.
Todos nós falamos ao mesmo tempo.
— Talvez não seja ferir... — começa Marina, em tom diplomático.
— Recrutá-los — diz John.
— Explorá-los — disparo.
— Só não queremos que ninguém seja forçado a fazer algo sem estar preparado — conclui Marina.
Lawson nos encara por um momento. Ele olha para a porta, certificando-se de que está fechada, provavelmente para que os gêmeos lá fora não ouçam o que está prestes a dizer.
— Olha, vou ser direto com vocês — começa. — Alguns elementos do nosso governo... aliás, das nações de todo o mundo, verão esses jovens que receberam os dons do seu povo como... recursos. Você viu o que aconteceu com o ProMog. Deixe um pouco de poder extraterrestre na frente dessas pessoas e elas vendem até a alma. A invasão que se dane.
— E você não é uma dessas pessoas? — pergunta John.
— Não, filho, não sou — responde Lawson. — Sou um velho que estava feliz jogando golfe há algumas semanas. Não estou interessado em lucro ou poder. Só quero manter este mundo seguro. Acredito que vocês possam ser uma força voltada para o bem. Vi todas as filmagens: a cura, o sacrifício. Também conheci aquele sujeito caolho que vocês mantêm preso no porão. Não queremos mais nenhum desses, não é mesmo?
Olho na direção de Marina.
— Não, com certeza não.
— Estou interessado em manter o mundo seguro. Treinar seu povo, colocá-lo em posições onde possam usar os dons para o bem maior.
John está para responder algo, mas Lawson levanta a mão e acrescenta:
— Isso tudo não vai passar de palavras se não ganharmos esta guerra, e, considerando suas experiências anteriores com organizações governamentais, eu os consideraria uns tolos se não desconfiassem de mim. Mas, quando tudo isso terminar, quero que vocês participem. Quero que vocês me digam o que é melhor para esses jovens, para o planeta. E vou querer ajuda para que isso aconteça.
Nós três nos entreolhamos. Se Lawson está fingindo, está fazendo um excelente trabalho. Mas, a julgar pela expressão distante de John, não sei se todas as suas preocupações foram deixadas de lado. Ou talvez, como eu, ele já tenha percebido como é inútil fazer planos para o futuro com a morte batendo na porta.
Limpo a garganta e mudo de assunto.
— E quanto aos dispositivos de camuflagem...
— Nenhum progresso da minha equipe de pesquisa na construção da nossa própria versão — responde Lawson, aliviado por voltar a falar da missão.
— Tudo bem — diz John. — Estamos prontos para roubar alguns. Aquela nave de guerra que os Gardes humanos atraíram para as cataratas é o alvo perfeito. Soldados isolados, confusos, sobrecarregados.
— A estupidez de postar coisas no YouTube às vezes compensa — acrescento.
— Vou levar uma pequena equipe e entrar na nave às escondidas para tomar os dispositivos — continua John. — Estou pronto para agir o quanto antes.
Lawson assente.
— Excelente. Quero que uma equipe minha fique por perto, só para o caso de as coisas darem errado e vocês precisarem bater em retirada.
— Não vejo problema, desde que não sejam notados — responde John.
Marina está em silêncio há algum tempo. Ela olha para um dos canais de notícias, vendo uma filmagem de Londres. Milhares de pessoas estão marchando pelas ruas, deixando suas casas apenas com o que podem carregar, enquanto uma nave de guerra assoma ao fundo.
— O que está sendo feito para proteger as pessoas nas cidades com naves de guerra? — pergunta ela. — Os mogadorianos com certeza vão intensificar o ataque...
— Quase todas as cidades estão sendo evacuadas — responde Lawson. — Da última vez que conferi, a maioria já tinha realocado cerca de oitenta por cento dos habitantes. Esse dia extra nos deu um pouco de tem...
Lawson é interrompido por uma batida apressada na porta. Antes que responda, entra um agente do FBI com a barba por fazer, embora os gêmeos tenham tentado detê-lo.
Reconheço Noto, o cara que Adam está ensinando a falar mogadoriano lá embaixo.
— Desculpe-me, senhor — diz ele para Lawson antes de voltar a atenção para John. — É melhor você vir para nossa central de monitoramento. Algo está acontecendo.
Isso não pode ser bom.
Nós três, além de Lawson, os gêmeos e Noto, corremos para onde Adam está acompanhando as transmissões mogadorianas. No caminho, Noto explica da melhor maneira possível o que está ocorrendo.
— Os capitães das naves de guerra mogs estavam meio perdidos antes, ainda mais depois que um deles desobedeceu às ordens e levou sua nave para as cataratas — explica Noto, sem demora. — Mas agora há pouco ouvimos uma nova voz...
— Setrákus Ra? — pergunto.
— Não, uma mulher. Ela está fazendo um discurso, colocando todos em seus lugares, ao que parece. Adam está...
Irritado, o que fica óbvio assim que entramos na sala. Ele está sentado na beirada da cadeira, as mãos entrelaçadas à frente, fuzilando o console do Skimmer com os olhos escuros. É claro que reconheço a voz que o deixou tão furioso.
— Phiri Dun-Ra — declaro.
— Quem? — pergunta John, virando-se para mim quando nos reunimos em torno de Adam.
— Uma pessoa das mais desagradáveis, mesmo para os padrões mogadorianos — explica Marina.
— Ela é a escrota que estava encarregada de invadir o Santuário — conto a John. — Tivemos alguns desentendimentos.
— Ela quase matou a mim e a Dust — diz Adam em voz baixa, sem tirar os olhos do console, ouvindo com atenção cada palavra áspera de Phiri.
— Na última vez em que a vi, ela estava arrastando Setrákus Ra para a Anubis — digo.
O general Lawson pigarreia.
— Filho, o que ela está dizendo?
Adam respira fundo e fala entredentes:
— Ela está alimentando o medo entre os capitães nascidos naturalmente, repreendendo-os por duvidarem. Afirma que o atraso no ataque é irrelevante, já que a humanidade é fraca e a vitória mogadoriana é certa.
Lawson apruma o corpo.
— Ela por acaso mencionou que eu empalei o Adorado Líder deles? — pergunto.
— É claro que não — resmunga Adam. — Ela garante que Setrákus Ra anda ocupado concluindo a missão de sua vida: elevar a raça mogadoriana. Que seus feitos são nada menos que um milagre e que os fiéis serão recompensados. Os céticos? Ela diz que não há nada reservado para eles além de uma dor inacreditável.
— Comandando com recompensa e punição — murmura Lawson.
— Que tipo de milagre esse monstro poderia realizar? — pergunta Marina.
— Sabemos qual é a missão de vida dele — digo. — Descobrimos naquela visão.
— A energia que ele roubou do Santuário — fala John em voz baixa. — O processo que vimos na visão de Ella, transformando o poder naquela gosma negra dele. Ele deve ter voltado a se dedicar a isso.
— Não sei o que isso tudo significa — interrompe Lawson. — Mas parece que nosso tempo está se esgotando.
Adam levanta a mão quando o discurso de Phiri Dun-Ra atinge um crescendo. Ele fica boquiaberto, como se não acreditasse no que está ouvindo.
— Phiri afirma que... graças à sabedoria do Adorado Líder, ela ganhou Legados — traduz Adam, sua voz quase abafada pela risada de Phiri Dun-Ra.
— Mentira — retruco. — Mesmo que seja verdade, esses poderes não são Legados.
— Nós o vimos fazer isso — intervém Marina, em um tom baixo de medo. — As pessoas trabalhando com ele naquela máquina... ele deu telecinesia a elas.
— Aquelas pessoas pareciam doentes. Disformes.
Essa observação vem de Caleb e são suas primeiras palavras desde que chegamos aqui. Olho para ele, que está encarando as costas das mãos como se quisesse ver se há alguma coisa correndo pelas veias. Christian, por sua vez, permanece imóvel e em silêncio.
— Ele teve centenas de anos para aperfeiçoar seu experimento — comenta John. — Só precisava de acesso a mais matéria-prima.
— E nós arrumamos para ele — digo, balançando a cabeça.
Ouvimos então uma nova voz pela transmissão. Não uma voz, na verdade... um grito. Um grito angustiado que parece vir de um garoto sendo torturado. Todos na sala ficam em silêncio quando Phiri Dun-Ra volta a falar, apesar da gritaria, em um tom alegre e entusiasmado.
— Mas que droga é essa? — pergunta Lawson.
Adam engole em seco.
— Ela diz que é um Garde que capturaram na Cidade do México. Um humano. Estão extraindo seus Legados. Matando-o.
— Desligue — pede Marina, parecendo que vai vomitar.
Adam se vira primeiro para mim, depois para John. Nós dois concordamos. Esse tipo de coisa não pode ficar sem resposta.
— Vai — diz John.
Adam chega para a frente, mas não desliga a transmissão. Em vez disso, pega um microfone e abre um canal.
Lawson se aproxima para deter Adam, e os gêmeos fazem o mesmo, mas John coloca a mão no peito do velho, impedindo-o.
— Eles podem rastrear nosso sinal? — sussurra Lawson com os olhos arregalados.
— Não — murmura John em resposta. — Ele já cuidou disso. Nós somos um fantasma.
Lawson não parece convencido. Ele lança um olhar na direção de Noto. O agente assente, confirmando o que John disse.
De toda forma, é tarde demais. Adam já começou a falar.
— Phiri Dun-Ra é uma mentirosa — anuncia Adam em inglês, embora aumente a aspereza de sua voz com o sotaque gutural mogadoriano.
Deve estar falando em inglês para que a gente entenda... para que Lawson saiba que ele não está entregando nenhum segredo.
— Ela só está dizendo isso para aumentar o próprio poder.
Os gritos param. Algumas vozes confusas respondem em mogadoriano. Então, ouvimos a voz de Phiri Dun-Ra, mais alta que todas as outras.
— É você, Adamus? — pergunta ela, rindo. — Como entrou neste canal, garotinho?
Adam a ignora e continua:
— Meu nome é Adamus Sutekh, filho do general Andrakkus Sutekh. Enfrentei meu pai em um único combate e o derrotei. Arranquei a lâmina da mão de seu cadáver e a guardei para o uso que deveria ter. Eu a usei para matar um lorieno. Um lorieno que se chamava Setrákus Ra.
Ouvimos gritos. Gritos indignados em mogadoriano vindos de uma dezena de vozes diferentes. Não consigo deixar de sorrir ao ver o caos e o pânico criados por apenas algumas palavras.
Phiri Dun-Ra grita para se sobressair na confusão:
— Essas palavras não passam de mentiras de um mogadoriano desonrado! Um traidor de nossa raça!
— Então, deixe o Adorado Líder me responder! — berra Adam em resposta. — Talvez ele possa falar pelo buraco que fiz em seu peito! Phiri Dun-Ra sabe da verdade, meus irmãos, e agora quer nos governar lançando mão das mesmas mentiras que Setrákus Ra usou por séculos. Não deixem que isso aconteça!
— Isso é uma blasfêmia! — exclama Phiri.
— Deixe-o responder, então! — vocifera Adam outra vez. — Deixe o imortal Setrákus Ra responder, se ele ainda respira.
Por um instante, todas as linhas ficam em silêncio, esperando que algo aconteça.
Mas só há silêncio vindo de Phiri Dun-Ra.
— Você vai pagar — sibila ela, por fim. — Vai pagar por sua falta de fé.
Quando ela encerra a comunicação, escutamos um bipe agudo. Na mesma hora, as dezenas de capitães de naves de guerra que ouviam a conversa começam a gritar uns com os outros.
Adam desliga o microfone e se volta para nós.
— Agora, vamos deixar que se matem.

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