29 de novembro de 2016

Capítulo onze

— MARINA, PRECISO QUE VOCÊ SE ACALME.
Uma má escolha de palavras. Percebo na mesma hora.
— Não diga para eu me acalmar, John — responde ela, furiosa. — Eu acordo. Não sei onde estou. E este... este desgraçado é a primeira coisa que eu vejo?
A estaca de gelo letalmente afiada ainda paira muito perto do olho bom de Cinco.
Eu poderia usar meus poderes para abaixar o sincelo, mas a probabilidade de cravá-lo no rosto de Cinco por acidente é alta. Ele deve saber disso também, porque está imóvel, congelado como a arma de Marina, as mãos espalmadas ao lado do corpo para mostrar que está desarmado. Desarmado e nu, na verdade.
— Você está em segurança — digo a Marina.
— Me perdoe, mas não parece.
Olho por cima do ombro. Atrás de mim, seguindo o corredor, há uma dezena de soldados com equipamento completo. Suas armas não estão em riste. Acho que não sabem muito bem o que pensar da cena, mas ainda assim a visão não indica muita cordialidade. Nove está a alguns metros deles, de braços cruzados, boca fechada. Não dá para esperar que ele apoie Cinco. Na verdade, Nove deve estar se esforçando muito para não encorajar Marina.
— Estamos em uma base militar secreta perto de Detroit — explico a Marina, mantendo o tom neutro. — Você foi ferida na batalha contra Setrákus Ra. Eu a curei, e você estava repousando.
— Então Setrákus Ra ainda está vivo.
— Está — respondo. — Mas Seis causou um bom estrago. Ele ainda não cumpriu a ameaça de ataques. Temos tempo, não muito, mas o suficiente para planejar o próximo passo...
— E este aqui?
O gelo balança em frente ao rosto de Cinco. Ele se encolhe, e Marina responde aproximando ainda mais a estaca. Cinco volta a ficar imóvel.
— Nós o capturamos em Nova York. Ele é nosso prisioneiro.
— Não parece.
— Ele estava me ajudando com uma coisa. Mas vai voltar para a cela agora. Não vai?
Cinco olha em minha direção por um instante. Ele engole em seco e inclina a cabeça para trás, assentindo com cuidado.
— Sim — diz ele em voz baixa.
Marina bufa quando ele fala. Então se vira, e eu percebo que, em meio à raiva e à confusão que sentiu ao ver Cinco, ela quer confiar em mim.
— Por favor, Marina — peço. — Sei o que estou fazendo.
Aos poucos, ela começa a baixar o sincelo. Na mesma hora Cinco corre e me coloca entre ele e Marina. Então olha para ela, uma mistura de medo e vergonha no rosto, depois dispara em direção a Nove e aos soldados.
— De todos os horrores que já vi na guerra, este é o pior — observa Nove, quando Cinco se aproxima sem roupa.
Alguns soldados riem. Eu balanço a cabeça – esse é exatamente o tipo de comentário que pode tirar Cinco do sério.
Para meu alívio, ele só endireita os ombros e não responde. Os soldados abrem passagem, murmurando uns com os outros. Cinco ignora todos eles. Por enquanto, parece satisfeito em voltar para a cela por vontade própria. Isso é bom. Talvez esteja aprendendo a escolher suas brigas.
— O show acabou, pessoal! — grita Nove, dispersando a multidão.
Ele dobra a esquina atrás de Cinco, gritando para um soldado:
— Cumpra seu dever com a pátria e arrume uma calça para esse garoto!
Eu e Marina ficamos a sós. Ela faz o gelo flutuar até sua mão e o pega no ar, depois quebra a ponta afiada e pressiona o que restou na testa. Então me olha com um sorriso trêmulo.
— Desculpe se eu reagi... mal. Acordar aqui e encontrá-lo, eu só... estou tentando não ser tão... vingativa.
— Minha reação teria sido a mesma. — Indico com a cabeça o pedaço de gelo em sua testa. — Como está se sentindo? A cabeça ainda incomoda?
— Só um pouco — responde ela. — Eu me lembro de Setrákus Ra batendo meu corpo no chão, e então...
— Você estava mal — digo. — Fiz o melhor que pude para curá-la.
— Você salvou minha vida — declara Marina, tocando meu braço. — Eu estava à beira da morte. No precipício. Sei disso.
Ergo uma das sobrancelhas. Marina está certa; ela quase não resistiu no caminho até aqui. Mas, pela maneira como falou, posso notar que há algo mais.
— Enquanto eu estava apagada, sonhei com Setrákus Ra. Ou ele invadiu meu sonho. Ele fingiu...
Um ar de profunda repulsa cruza o rosto de Marina. Ela estremece. O gelo em sua mão racha e se expande, e uma camada de pó cobre seus dedos.
— Ele assumiu a aparência do Oito. Tentou me convencer a... desistir.
Olho na direção em que Cinco saiu. Ele também mencionou ter sonhado com Setrákus Ra. Só porque ele ainda não está totalmente recuperado, não significa que não pode continuar nos perseguindo por telepatia.
— Ele apareceu em sonho para Cinco também — conto a Marina. — Pediu que entregasse a Garde.
Marina arqueia uma das sobrancelhas.
— E o que Cinco fez?
— Ele se recusou — respondo. Acreditei quando Cinco disse que não havia traído a gente, mas sei que não posso exigir a mesma atitude de Marina. — De toda forma, nós o trouxemos para cá de olhos vendados. Ele não poderia nos entregar nem se quisesse.
— Setrákus Ra deve ter vindo até mim porque eu estava vulnerável, e até Cinco porque... bem, a história dos dois... — Marina faz uma pausa, pensando em voz alta. — Será que mais alguém...?
— Não, estive com todo mundo hoje de manhã; eles teriam dito alguma coisa — respondo, embora algo me incomode.
— Então Cinco e eu somos os alvos fáceis — constata Marina, franzindo a testa. — Isso é desanimador.
— Ele está desesperado — digo, embora não saiba se acredito nisso. — Não sabe onde estamos, mas nós sabemos que está ferido e onde encontrá-lo. Assim que resolvermos algumas coisas para os militares, vamos para West Virginia acabar com isso.
Marina olha para mim, confusa. Então me toco da quantidade de informações que ela perdeu no curto período em que ficou inconsciente. Eu a acompanho de volta à enfermaria. Não há muita coisa lá, fora algumas camas separadas por cortinas e aparelhos de monitoramento. O lugar está deserto, já que Marina era a única paciente. Agora que estamos sozinhos, eu me apresso para deixá-la a par de tudo.
Conto a ela sobre a batalha em Nova York, o chamado do presidente, a origem de Patience Creek e a nomeação do general Lawson como comandante especial. Sei que devo soar... prático demais, como um general inteirando um soldado das novidades, mas não consigo evitar.
Marina ouve com paciência, mas noto seus olhos se estreitarem à medida que me observa.
— John — interrompe ela, quando faço uma pausa para respirar —, onde estão os outros? Estão todos bem?
Olho para o chão. É quando percebo por que estou contando tudo com tantos detalhes. Claro, Marina precisa saber em que pé está a guerra, mas é mais do que isso.
Ela não sabe.
Não toquei no nome de Sarah.
Ainda não tive que fazer isso. Não tive que dar a notícia a ninguém. Nem sequer disse as palavras em voz alta.
Marina me olha, na expectativa. Ela sabe que algo está errado.
— A Sarah... — Passo as mãos pelo rosto. Não consigo dizer isso olhando para Marina, então encaro o chão. — Ela não resistiu.
Marina cobre a boca com a mão.
— Não!
— Ela estava tentando ajudar Seis, e Setrákus Ra... — Balanço a cabeça, tentando não visualizar a cena. — Ela salvou Seis, mesmo ferida, mas perdeu muito sangue...
Marina me abraça com força. Só então percebo como estou tenso, tão rígido que mal consigo relaxar. Mas isso não detém Marina. Solto o ar em um longo suspiro e fico surpreso ao me sentir estremecer. Está tudo tão caótico que não me dei conta de como precisava de consolo. Por um instante, descanso a cabeça em seu ombro, e sinto algo em mim se partir. Minha visão fica embaçada, e abraço Marina também, talvez com mais força do que deveria, embora ela não diga nada.
Percebo que minhas bochechas estão molhadas. Solto Marina e limpo o rosto.
— Meu Deus, John, eu sinto muito. Eu... — Marina para e olha para as próprias mãos. — Se eu não tivesse... Poderia ter feito alguma coisa. Poderia tê-la salvado.
— Não — respondo. — Nem pense nisso. Não é verdade, e pensar assim não ajuda em nada.
Nós dois ficamos em silêncio, sentados um ao lado do outro em uma das camas duras da enfermaria. Marina se apoia em mim e segura minha mão. Então ficamos encarando o piso cheio de pontinhos.
Algum tempo depois, Marina começa a falar em voz baixa.
— Assim que Oito foi morto, fiquei com muita raiva. Não só pela forma como aconteceu. Não só por eu estar apaixonada por ele. É que... todos nós já perdemos alguém, sabe? Mas Oito... ele foi a primeira pessoa com quem eu imaginei um futuro. Faz sentido? Crescer em um convento, com Adelina evitando me treinar, negando a guerra iminente... era como saber que um desastre estava por vir e não tomar nenhuma precaução. Como se o fim estivesse logo ali na esquina, a apenas algumas cicatrizes de me alcançar. Eu rezava com as irmãs, ouvia falarem sobre o céu em que os humanos acreditam, mas nunca ousava me imaginar nesse mundo. Eu nunca imaginava como seria o depois, fosse lá o que viesse. Não até conhecer Oito. Com ele, comecei a ser capaz de imaginar o que poderia acontecer no futuro. E o presente ficou melhor também. Quando Cinco o matou, tudo isso foi tirado de mim. Eu me senti... ainda me sinto... traída. Roubada.
Assinto enquanto Marina fala.
— Conheci Sarah logo depois da terceira cicatriz, quando eu era o próximo. Marcado para morrer. Devia ter sido a pior época da minha vida, mas, de alguma forma, ao conhecê-la, tudo melhorou. Meu Cêpan, Henri, achou que eu estivesse louco. Mas acho que ele acabou entendendo. Ela me deu algo por que lutar. Mais ou menos como você disse; parecia que enfim havia algo além de apenas sobreviver e depois continuar tentando sobreviver. E então...
— E então... — repete Marina, com voz triste e pensativa. — Então, o que fazemos?
— Não há mais nada a fazer, a não ser terminar logo — digo, sentindo meus músculos se retesarem.
Marina não solta minha mão.
— No Santuário, antes de Setrákus Ra destruí-lo, a Entidade loriena me deixou falar com Oito — conta Marina.
Olho para ela, espantado. Eu nem sequer sabia que algo assim era possível. Ela dá um sorriso triste em resposta.
— Foi muito rápido, apenas alguns segundos. Mas era ele mesmo, John. E isso me fez ter fé de que pode haver algo mais. Não se resume a escuridão e morte.
Viro o rosto para o outro lado. Sei que ela está tentando me trazer esperança. Mas ainda não estou pronto. A única coisa que desejo é vingança.
— Depois fui tomada por uma grande sensação de paz. Minha raiva sumiu. — Marina ri com aspereza, como se lembrasse do que aconteceu poucos minutos antes, quando quase arrancou o único olho de Cinco. — É óbvio que não durou muito. Eu tentei... sempre tentei... viver de maneira honrada e justa, da forma como os Anciões gostariam. Em face de tudo o que aconteceu, tentei me controlar. Mas bastou ver Cinco no corredor para despertar o que há de pior em mim, para a raiva voltar.
— Talvez esse não seja o pior — digo a Marina. — Talvez seja apenas o que se precisa ser agora.
— E quem seremos depois, John?
— O depois não importa mais — respondo. — Já perdemos tanta coisa... Se não vencermos, se não detivermos Setrákus Ra, então de que adiantou tudo isso?
Percebo que a mão de Marina começou a emanar um frio doloroso. Em vez de afastar a minha, acendo o Lúmen. Envio calor para ela.
— Sem a Sarah, não me importo com o que possa acontecer comigo — continuo. — Só quero destruí-los, destruir Setrákus Ra, de uma vez por todas. É tudo o que importa.
Marina assente. E não me julga pelo que eu disse. Acho que me entende. Ela sabe como é querer se lançar e seguir adiante para não desmoronar.
— Só espero que ainda reste algo das pessoas que costumávamos ser, que reste algo de nós para reconstruir, quando tudo isso acabar — declara Marina.
— Também espero — admito.
— Que bom. Agora, vamos começar.

8 comentários:

  1. que lindo esse momento,de solidariedade , de entendimento
    "Percebo que a mão de Marina começou a emanar um frio doloroso. Em vez de afastar a minha, acendo o Lúmen. Envio calor para ela.
    "— Só espero que ainda reste algo das pessoas que costumávamos ser, que reste algo de nós para reconstruir, quando tudo isso acabar — declara Marina.
    — Também espero — admito.
    — Que bom. Agora, vamos começar.

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  2. melhor livro, demorou mais tá ai vlw Karina

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  3. JOHN SMITH E MARINA? PODE, ARNALDO?

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  4. Jonh e Marina, gostei eles merecem depois de tudo.

    Obs: Primeiraaaaaa

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  5. Seria melhor se ela tivesse arancado o outro olho ao cinco!!

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  6. — Cumpra seu dever com a pátria e arrume uma calça para esse garoto! KKKKK 9 eh mt foda

    Eu shippo marina e john da tipo aquele ngc de fogo e gelo

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