29 de novembro de 2016

Capítulo oito

NUNCA POSTAR NADA NA INTERNET. ESSA É TIPO, A REGRA NÚMERO 1.
Tudo bem que todos nós, em algum momento, já quebramos essa regra e acabamos sendo caçados por mogs. Às vezes o desespero supera a vontade de não ser idiota.
Acontece. Não estou julgando.
Mas, cara, é burrice postar coisas na internet.
O vídeo, obviamente feito com um celular, começa com uma queda d’água violenta. Uma imensa cachoeira, que logo reconheço como as Cataratas do Niágara, aparece na tela. Quem quer que esteja filmando isso está de pé em uma área gramada no nível da queda da cachoeira.
— Minha nossa, é muito barulhento!
A câmera balança enquanto a pessoa que segura o telefone se afasta da cachoeira correndo. Naqueles poucos segundos em que a imagem fica sacudindo, capto alguns detalhes: uma menina loura – que parece uma modelo de embalagem de cerveja importada – está na beira do penhasco, bem ao lado de uma saliência irregular com uma pedra de um azul inacreditável.
Loralite. A pedra voltou a se desenvolver, como Ella disse que aconteceria.
Antes que eu examine o mineral com mais atenção, a câmera é estabilizada e virada, mostrando o rosto espinhento de um adolescente. Ele é magro, com um moicano descolorido, quase branco, e uma barba bem rala e esparsa. Usa um colete de brim coberto de remendos de outros tecidos, uma camiseta surrada, e, embora eu não veja seus pés, aposto que está de coturno. Eu o reconheço da conferência telepática realizada por Ella. É um dos garotos que pareciam mais ansiosos para ouvir o chamado de John.
Mesmo depois de se afastar da beirada, o garoto ainda tem que berrar para ser ouvido por causa do barulho da cachoeira.
— Olá, John Smith e superamigos! Vocês estão aí? Aqui é Nigel Rally. Nós nos conhecemos naquela... hã. Na coisa. Encontramos suas pedras, e, sabe, tem sido muito divertido passear pelo mundo e tal, mas quando vocês vão aparecer para nos buscar?
Não me surpreende nem um pouco que esses Gardes de outros países estejam confusos. John disse a eles para virem nos ajudar e Ella explicou que poderiam usar as pedras de loralite para se teleportar ao redor do globo só pensando em um local. Mas Setrákus Ra interrompeu nossa reunião antes que lhes déssemos alguma pista concreta sobre como nos encontrar, o que não é exatamente uma tarefa fácil, levando em conta que estamos escondidos.
— Encontrei alguns outros enquanto dava a volta ao mundo — continua Nigel, e vira a câmera para mostrar os arredores. — Deem um tchauzinho para John Smith, protetor do mundo e irmão mais velho ausente que, pelo que parece, esqueceu de nos buscar.
Atrás de Nigel, a garota loura que eu tinha visto antes acena. Ao lado dela está um rapaz atarracado de cabelo castanho, que dá tchau sem jeito. Logo o reconheço: é o alemão que falou na conferência, Bertrand, o apicultor que controla insetos. Além disso, um pouco afastada dos outros, está uma garota asiática de aparência frágil que olha inexpressivamente para a câmera antes de fazer um tímido sinal de paz.
— Esses são Fleur e Bertrand — narra Nigel. — E ali... bem, acho que ela se chama Ran. Não fala nada de inglês, ainda mais depois que aquela pirralha megapsíquica de olhos brilhantes parou de traduzir.
Nigel vira a câmera de volta para ele.
— Então, olha, estamos nas Cataratas do Niágara, se você ainda não percebeu. Decorei o máximo de lugares que pude naquele mapa que você nos mostrou por cinco segundos, mas nunca estive nos Estados Unidos, por isso tive que rodar um pouco pela Europa até encontrar o bom Bertrand aqui. E acabamos nos juntando a outros no caminho... — Nigel suspira. — Quantos lugares estranhos naquele seu mapa, hein, John Smith! Novo México? Que droga de lugar é esse? Bertrand esteve aqui uma vez para passar as férias com a família, então...
Nigel baixa a voz.
— Se você estiver me vendo, major John, estamos esperando uma carona. Se não, bem, acho que vamos na direção da nave de guerra alienígena mais próxima e torcer para dar tudo certo. Falou!
E assim termina o vídeo no YouTube. Está anexado aos comentários do vídeo que Sarah fez para apresentar John ao mundo, e já tem uma tonelada de curtidas e visualizações. Nigel postou o vídeo há cerca de três horas. Eu, John, Ella, Adam, Nove, Sam e Daniela estamos todos ao redor de um celular que Daniela pegou de um dos soldados.
Estamos no quarto de John. Antes de iniciarmos o vídeo, não pude deixar de notar alguns detalhes sombrios no cômodo. A cama estava intocada, e havia marcas chamuscadas no papel de parede cafona, como se John tivesse socado a parede com o Lúmen aceso. Ninguém comenta nada sobre isso, embora Sam erga uma sobrancelha quando percebe que estou observando o local.
— A Fleur é minha, falei primeiro — diz Nove assim que o vídeo termina.
Dou uma cotovelada nas costelas dele, e Daniela faz uma careta.
— Você é nojento.
— Estou muito solitário — responde Nove.
— O vídeo foi postado há três horas — explica Adam, ignorando Nove. — Tenho monitorado transmissões mogadorianas, e parece que eles acabaram de descobrir isso. As naves de guerra mais próximas das Cataratas do Niágara estão em Toronto e Chicago. Eles vão mandar Skimmers.
— Postar na web — retruca Nove, com um tom repreensor. — Erro de amador.
— Todos já fizemos isso — digo. — Então os mogs estão com uma vantagem. Vamos pegar alguns jatos e ir para lá.
— Não devemos chamar atenção, por isso nos escondemos aqui — afirma John. — É melhor fazermos isso sem o pessoal do Lawson ficar sabendo.
Lanço a John um olhar confuso.
— Não sei bem quais são os planos dele para os Gardes humanos — continua ele. — Até concluirmos que ele é confiável, quero que a gente os traga para cá. Não quero deixar para Lawson a decisão de quem está pronto para lutar e quem precisa da sua “proteção”.
— Ei, pera, o que você acha que vai acontecer? — pergunta Daniela.
— Não sei — responde John, com um suspiro. — Alistamento forçado em uma organização militar secreta? Quem sabe?
— Você aprende a não confiar muito nas pessoas que estão no poder quando passa por tudo o que já passamos — digo a Daniela.
Ela assente.
— Não parece mesmo boa coisa.
— Já falei com Lexa por telepatia — avisa Ella, os olhos ainda faiscando energia lórica. — Ela está preparando nossa nave.
— Maravilha! — exclama Nove, e bate palmas. — Vamos salvar alguns novatos.
— Preciso que você fique aqui comigo — diz John a Nove, que não consegue esconder a decepção.
— Ah, fala sério — retruca ele. — Para que você precisa de mim?
— Acha que eu não preferia estar lá fora lutando? — pergunta John, o tom resignado. — Vamos ter que ajeitar algumas coisas se quisermos entrar escondidos em uma nave de guerra. Preciso da sua ajuda. Seis pode cuidar dessa situação nas cataratas.
— Deixa comigo. — Sorrio para John, tão ansiosa quanto Nove para voltar a lutar. Olho para os outros. — Vocês estão dentro?
— Acho melhor eu ficar para monitorar as comunicações dos mogs. Eles não sabem que estamos ouvindo, então poderei informar a situação deles a vocês — explica Adam. — Também tenho uma reunião com Malcolm e alguns engenheiros para pensarmos em uma forma de copiar os dispositivos de camuflagem.
— Eu vou com você — diz Sam para mim.
— Eu também, se não tiver problema — acrescenta Daniela.
— E eu — completa Ella.
Ao ouvir isso, todos ficamos em silêncio. Vi Ella morrer ontem. Não sei se já está pronta para o combate. Acho que ela sente esse clima – provavelmente porque pode ler nossas mentes – e nos encara com as mãos nos quadris.
— Se os mogs chegarem lá primeiro e esses outros Gardes tiverem que fugir, posso rastreá-los por telepatia — declara ela, um tom desafiador permeando sua voz, que continua ressonante e parecida com a de Legado. — Vou ficar bem.
— Tudo certo por mim — digo.
— Por mim também — acrescenta John. — Levem os Chimæra com vocês.
— Vamos levar uns dois — respondo. — Vou deixar vocês com reforços aqui também, caso aconteça mais alguma coisa.
John concorda.
— Apenas se certifiquem de levar armas suficientes para derrubar qualquer coisa que os mogs enviem.
— Ah, não se preocupe — garanto a ele. — Vamos fazer mais do que derrubá-los.


Quinze minutos depois, estamos na garagem subterrânea de Patience Creek. Assim como o restante deste esconderijo empoeirado, a garagem não é tão sofisticada quanto as das outras instalações militares em que já estivemos, ainda mais as aprimoradas por tecnologia mogadoriana, como Dulce e Ashwood. Ainda assim, a garagem é grande e tem o pé-direito alto, com espaço suficiente para abrigar um comboio de Humvees blindados e alguns tanques. Eu esperava que o teto abobadado fosse se abrir, com uma rampa se estendendo até a saída, mas os espiões que construíram este lugar não o planejaram assim. Só há um enorme túnel escavado em uma parede, mal iluminado e nada elaborado, resumindo-se a madeira grossa apoiada na terra batida. O túnel é largo o bastante para um tanque passar, e leva a uma caverna discreta a alguns quilômetros de Patience Creek. Se a pequena pousada que esconde tudo isso fica no meio do nada, então a saída da caverna está à direita do nada. Em resumo, ninguém nunca nos veria indo ou vindo.
Lexa passou a nave pelo túnel na noite anterior. Ela conseguiu, mas não sem alguma dificuldade. Ela já havia descido a rampa e embicado a frente da nave para a saída quando entramos na garagem.
A caminho dali, pegamos dois Chimæra no pequeno laboratório de Malcolm Goode. A maioria dos militares acha que ele é um gênio excêntrico. Talvez seja, de certa forma. Os animais aleatórios que andam com ele como se fossem bichos de estimação não contribuem muito para as pessoas pensarem diferente. Mesmo que Walker e sua equipe tenham ficado sabendo sobre os Chimæra depois das lutas em Ashwood Estates, ainda estamos tentando manter a existência deles em segredo. Nunca se sabe o que alguns desses malucos do governo seriam capazes de fazer se tivessem a oportunidade de realizar experiências com uma forma de vida alienígena.
Pegamos Regal, cuja forma preferida é um gavião, e Bandit, que anda por aí como um guaxinim. Os outros Chimæra ficaram com o pai de Sam, observando-o realizar uma série interminável de testes com o dispositivo de camuflagem mogadoriano, para tentar descobrir uma maneira de copiar sua frequência. Adam está com ele, sugerindo quais tecnologias terrestres seriam capazes de igualar o sinal. Até agora não tiveram sorte, assim como a equipe de engenheiros militares que trabalha na sala ao lado.
Na garagem, Lexa desce a rampa para nos encontrar.
— Podemos ir? — pergunto a ela.
— Acabei de checar tudo — responde Lexa. — Forçamos muito a nave ao sairmos do México, e ela foi atingida por alguns disparos da Anubis. Mas a garota está pronta para voar.
Daniela balança a cabeça e olha para a nave.
— Estou prestes a entrar em um óvni — diz ela.
— É — confirma Sam.
Ele abre um sorriso gentil para mim, depois leva Daniela e os Chimæra até a nave.
Assim como eu, Ella não entra logo atrás deles. Ela respira fundo, um pouco trêmula, me encara com seus olhos faiscantes e se arrasta pela rampa. Só consigo me mover quando Lexa toca meu cotovelo.
— Está tudo bem — diz ela, baixinho. — Eu... limpei tudo lá dentro.
Assinto.
— Tenho muitas lembranças ruins nessa nave.
— Eu sei — fala Lexa. — Quando a guerra acabar, você pode me ajudar a destruí-la.
Sorrio diante dessa dupla visão: destruir a nave e pôr um fim à guerra. Subo a rampa, alguns passos atrás de Lexa.
No topo, paro e dou uma olhada geral na garagem. Vejo alguns soldados andando ali por baixo, certificando-se de que os veículos estão todos funcionando. Sei que nos viram. Alguns estão até nos encarando abertamente. No entanto, nenhum deles faz qualquer menção de nos impedir.
Lá no elevador, noto Caleb e Christian. Eles não estavam ali quando entramos. Alguém deve ter relatado nossa presença, e os dois vieram para nos observar. Eles olham para mim, os rostos impassíveis. Sorrio e aceno, embora eles me deem arrepios. Os gêmeos me ignoram.
Isso quer dizer que Lawson sabe que algo está acontecendo e que estamos deixando a base. Bem, isso é um problema para John.
Na nave, a área de passageiros está impecável. Usando os controles touchscreen que cobrem as paredes, Lexa faz alguns assentos saírem do chão, e todos se acomodam e colocam o cinto. As camas estão escondidas sob o piso – incluindo aquela em que Sarah Hart deu seu último suspiro. Minha boca de repente fica seca. Detesto estar aqui outra vez.
Sento no banco de copiloto ao lado de Lexa enquanto ela liga a nave. Sam chega por trás de mim e se abaixa, com a mão no encosto do meu assento.
— Você está bem? — pergunta ele, baixinho.
— Estou — respondo de pronto.
Sam olha por cima do ombro como se estivesse tentando imaginar a cena horrível que se passou ali no dia anterior. Então, balança a cabeça.
— Ainda não consigo acreditar. Continuo esperando que ela, sei lá, apareça em algum lugar. Viva...
Quando a voz de Sam falha, dirijo-me a Lexa.
— Os mogs ficaram sabendo antes de nós. Precisamos ir às cataratas depressa.
— Ah, não se preocupe — responde ela enquanto aumenta lentamente a potência dos motores. — Chegaremos lá bem rápido.
Lexa olha para Sam e acrescenta:
— É melhor você se sentar e colocar o cinto.
Toco a mão de Sam.
— Vamos nos concentrar nas pessoas que ainda podemos salvar, está bem?
Sam olha para mim uma última vez antes de ir para a área de passageiros e colocar o cinto de segurança. Assim que ouve o clique do cinto, Lexa empurra a alavanca de aceleração.
— Lá vamos nós!
A nave entra no túnel. Exceto por uma lufada de ar, a decolagem é silenciosa, o zunido dos motores quase inaudível mesmo quando aceleramos. Não deve haver mais do que dois metros de distância entre nós e as paredes que passam depressa. Posso jurar que ouvi a nave arranhar o túnel algumas vezes. Lexa se concentra à frente, lidando com as curvas como se já tivesse feito isso uma centena de vezes.
— Ah, merda, merda, merda... — ouço Daniela murmurar atrás de mim.
Fazemos uma curva suave, e lá está o céu, um ponto branco que fica cada vez maior à medida que nos aproximamos velozmente. Então, com uma sensação quase física de projeção, estamos ao ar livre, ganhando altitude, sobrevoando primeiro uma estrada de terra e, em seguida, o Lago Erie. Não consigo conter um suspiro de alívio quando o túnel claustrofóbico fica para trás.
— Rápido o bastante para vocês? — pergunta Lexa, com um sorriso.
— Sim! — grita Daniela lá de trás.
— Você poderia ter esperado sairmos daqui para acelerar tanto — digo, ainda que abrindo um sorriso para Lexa.
— E qual seria a graça? — responde ela.
Mesmo voando a toda velocidade com Lexa, ainda estamos a cerca de uma hora das Cataratas do Niágara. Quando fica claro que o curso já foi definido e estamos no caminho certo, solto o cinto e vou lá atrás checar os outros.
Assim como na viagem de volta do México, Ella está com o corpo encolhido, os braços em volta dos joelhos e os olhos fechados. É curioso, mas os Chimæra parecem atraídos por ela, os dois estão aconchegados ao seu lado. Eu me pergunto se é por causa da energia lórica emanada ou simplesmente porque ela parece precisar de consolo.
Do outro lado do corredor, Daniela observa Ella como se estivesse tentando entendê-la. Então me olha quando me aproximo e aponta com a cabeça para a garota.
— O que há com ela? — pergunta, com cautela.
— Ela...
Ella abre um olho e me interrompe.
— Eu morri ontem. Por um tempinho.
— Ah — responde Daniela.
— E então me liguei a uma entidade que ainda meio que está em mim.
— Ok, isso é normal.
— Leva algum tempo para se acostumar — admite Ella, e em seguida fecha os olhos de novo.
Daniela me encara com os olhos arregalados como se perguntasse se aquilo tudo é real. Eu dou de ombros, e ela suspira, recostando-se no assento.
— Cara, eu devia ter ficado em Nova York. Tudo bem, lá tinha alienígenas. Mas não eram alienígenas zumbis.
— Não sou um zumbi — retruca Ella, sem abrir os olhos.
Ao lado de Daniela, Sam tira um videogame portátil antigo do bolso.
— Liga — sussurra ele para o aparelho com insistência. — Liga.
Ele ergue o olhar quando sente que Daniela e eu o observamos.
— O que foi?
Inclino a cabeça de lado.
— Por que você está com isso?
— Essa coisa é dos anos 1980, não é acionada por voz, cara — acrescenta Daniela.
Aponto para o aparelho.
— Tem um botão para ligar do lado.
— Achei que você tivesse dito que estava sem pilha — comenta Daniela.
Sam parece um pouco incomodado com todo o falatório.
— Encontrei algumas — responde Sam para Daniela sem lhe dar muita atenção, mas olhando para mim. — E não o trouxe para, tipo, passar o tempo antes de salvarmos pessoas. Trouxe para tentar recriar o que aconteceu antes. No nosso quarto.
Daniela ergue as sobrancelhas.
— E o que aconteceu no seu quarto?
— Sam estava cheio de energia — conto.
— É mesmo? — diz Daniela, sorrindo para Sam até ele corar um pouco.
— Literalmente — responde ele. — Acho... bem, Seis acha que eu posso estar desenvolvendo outro Legado. Como se eu pudesse controlar equipamentos eletrônicos ou algo assim.
Daniela cruza os braços.
— Cara, isso é muito melhor do que ter olhos de pedra.
Sento ao lado de Sam, de modo que ele fica entre mim e Daniela, então me debruço para conversar com a garota.
— Como você soube que estava recebendo um Legado? — pergunto, querendo saber se é diferente com os humanos.
— Parecia que minha cabeça ia explodir se eu não... sei lá... colocasse aquilo para fora? — responde Daniela. — A adrenalina estava a mil. Tudo aconteceu muito rápido.
— Faz sentido. Costuma ser assim. Os Legados aparecem quando você precisa muito. Os instintos tomam conta. Depois, você aprende a controlá-los melhor.
Daniela me ouve, então se recosta e começa a massagear as têmporas. Ela olha fixamente para a parede à nossa frente.
— É, dá para sentir agora. Eu poderia fazer aquilo de novo, se quisesse, sem sentir tanta dor.
— Por favor, não transforme a nave em pedra enquanto estamos voando — pede Sam, então se vira para mim. — Minha telecinesia apareceu quando John estava prestes a ser atacado por um piken. Seria bom se eu pudesse desenvolver um novo Legado sem essa coisa toda de enfrentar uma situação de vida ou morte. Quer dizer, se os Legados se manifestam quando precisamos deles, eu diria que agora seria um excelente momento. Considerando a situação do planeta, nós precisamos de verdade.
— Então, continue tentando — digo, fazendo sinal para Sam voltar a atenção para o Game Boy antigo. — Quem sabe se você imaginar que algo horrível está prestes a acontecer?
Ele franze a testa.
— Não deve ser difícil.
Sam volta a falar sem parar com o videogame. Nada acontece. De tempos em tempos, ele fecha os olhos e range os dentes, como se estivesse tentando se convencer de que está enfrentando uma situação de pânico e terror. Gotas de suor se formam em sua testa. Ainda assim, ele não consegue ligar o aparelho. Encosto a cabeça, fecho os olhos e fico ouvindo seu mantra.
— Liga, liga, liga...
— Estamos a cerca de dez minutos do destino — diz Lexa da cabine, algum tempo depois.
Abro os olhos e observo a cabine. O assento do copiloto está ocupado por Regal, o gavião empoleirado no encosto da cadeira, encarando o caminho à frente enquanto voamos depressa por entre as nuvens. Ella ainda está descansando ou meditando, não sei bem. Bandit, por sua vez, anda de um lado para outro no corredor, ansiando pela aterrissagem. Daniela está de olho no guaxinim, e parece um pouco nervosa também, conforme nos aproximamos do que pode ser uma batalha. Então me ocorre que tudo aquilo ainda é extraordinariamente novo para ela. Não faz nem uma semana que Daniela tem Legados e já precisa se acostumar a se lançar em situações perigosas ao lado de animais alienígenas que mudam de forma.
— Não se preocupe. Podemos cuidar disso — digo a ela, me inclinando por cima de Sam, mesmo sem fazer ideia do que vamos enfrentar quando chegarmos às cataratas.
— Estou bem — afirma Daniela para me tranquilizar.
Eu me viro para falar alguma coisa com Sam, mas paro quando noto seu olhar de profunda concentração. As sobrancelhas estão arqueadas, e ele encara o Game Boy inerte como se fosse seu pior inimigo.
— Liga — diz ele, entredentes.
Dou um pulo quando o jogo de repente ganha vida. Sam se atrapalha com o aparelho quando se vira e sorri para mim.
— Você viu isso?! — pergunta ele.
— Aham — responde Daniela, curvando-se sobre o aparelho. — Seu dedo estava no botão.
— Não estava, não!
— Você conseguiu, Sam! — digo, apertando sua perna.
Estou tão eufórica quanto ele.
Ella abre os olhos e observa a cena com um sorriso discreto.
— Parabéns, Sam — diz ela.
— Foi diferente? — pergunto. — Você lembra como fez isso?
— É difícil explicar — diz Sam, encarando o videogame como se ainda não acreditasse no que acabou de acontecer. — Tentei imaginar o circuito. No início, era só uma figura que criei na cabeça. Não sei como é um Game Boy por dentro ou como ele funciona. Mas, então, sei lá, a imagem começou a ficar cada vez mais nítida. Como se um diagrama estivesse se formando na minha mente. No começo, era tudo uma bobagem inventada, mas aos poucos foi virando... sei lá. Algo lógico? Como se eu estivesse aprendendo como era a máquina. Ou a máquina estivesse me dizendo como funciona. Faz sentido?
— Não — responde Daniela na mesma hora.
— Parece um pouco com a forma como eu uso a telepatia — comenta Ella.
Dou de ombros para Sam.
— Bem, o que funcionar está valendo. Consegue fazer de novo?
— Acho que sim — responde Sam, e mais uma vez se concentra no videogame.
Desta vez, ele levanta a voz como se estivesse repreendendo um animal de estimação por mau comportamento.
— Desliga.
O Game Boy pisca, desligando.
— Legal — diz Daniela. — Você está fazendo de verdade.
Em vez de dar meus parabéns a Sam, inclino a cabeça para o lado. Algo não está certo. O vento fora da nave de repente ficou muito mais forte. Levo um instante para entender por quê.
— Estamos caindo — observa Ella.
Os motores da nave pararam de zumbir.
— Gente! — Da cabine, vem a voz de Lexa, um pouco em pânico. — A nave está com algum problema! Os sistemas simplesmente desligaram!
Ouço Lexa acionando alavancas e apertando botões na cabine, depois xingando cada um deles quando nada funciona para religar os sistemas. Entendendo a situação, Bandit corre para baixo de um assento e coloca as patas sobre a cabeça. Um rápido olhar pela janela me mostra que estamos perdendo altitude rapidamente. Voamos por um campo de golfe, uma pequena cidade, um rio.
Daniela e eu nos viramos para Sam ao mesmo tempo. Os olhos dele estão arregalados. Ele engole em seco.
— Ops.

10 comentários:

  1. Hahahahaha esse Sam é muito foda!!!!!

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  2. Imagina o Sam olhando pra Anubis e falando. DESLIGA! hahahahahahahahahahahaha

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    1. kkkk com certeza ele desligaria o planeta inteiro ,ops.

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  3. Eita porra!!! Kkkkk Sam ta quase um Super Choque! Ops msm, tipo o nome usando aquelas luvas.

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  4. Sam seu fofo!!! Tanta não se mata tá amore!!!

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  5. Eu sabia que isso ia acontecer, é óbvio mano, eles n deviam tentar ai. kkkkkkkkkk pqp viu

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  6. KKKKKKKKKKKKKK nunca ri tanto nesse livro

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  7. O rapaz descobre que pode ligar e desligar aparelhos com a mente e o que ele faz? Pratica esse legado, que ele não sabe controlar, dentro DE UMA NAVE QUE FUNCIONA A O QUE??? ENERGIA!!! Muita inteligencia, né Sam?!

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