29 de novembro de 2016

Capítulo nove

— TEM CERTEZA DE QUE A GENTE DEVERIA ESTAR FAZENDO ISSO? — PERGUNTA NOVE.
— É a única opção.
Caminhamos por um dos muitos corredores idênticos de Patience Creek. Embora a maioria deles esteja em constante atividade com a presença dos militares, esta parte das instalações parece quase abandonada. Estamos na pequena área destinada a deter os presos e, no momento, há apenas um ali.
— Com todos esses novos Gardes surgindo pelo mundo, é provável que um deles tenha o Legado de voar — sugere Nove.
— Talvez um deles tenha — respondo. — Mas não temos tempo para encontrá-lo.
— Tudo bem, tudo bem — aceita Nove, por fim, balançando a cabeça. — Mas que fique registrado que sou contra.
— Sim, já entendi. Você enfiou uma placa de rua no peito dele há alguns dias.
— Ah, essa sim é uma lembrança agradável.
— Sua cautela já ficou bem clara.
— Vou matá-lo se ele tentar alguma coisa.
Olho para Nove.
— Eu sei. Por que acha que fiz você vir junto?
Nove e eu paramos de falar quando chegamos à cela acolchoada onde mantemos Cinco preso. A porta de aço reforçado só tem uma pequena escotilha para servir como janela e abre por meio de uma roda pesada, parecida com um volante, como em um cofre de banco ou um submarino. Há dois guardas na frente, fuzileiros navais de aparência austera com rifles de assalto automáticos, que seriam inúteis se Cinco escapasse. Os dois parecem surpresos de nos ver.
— Preciso dele — digo aos guardas, apontando para a porta trancada.
Eles trocam um olhar.
— É um prisioneiro — afirma um deles.
— Eu sei. É nosso prisioneiro — respondo.
— Nós não temos intenção alguma de deixá-lo solto por aí — acrescenta Nove.
Um dos guardas se afasta e murmura algo em um rádio comunicador. Não faço nada. Melhor dar a entender que respeito a autoridade de Lawson.
O guarda volta, dá de ombros e pega o chaveiro.
— O general gostaria que você fosse falar com ele... sobre outra questão — diz o guarda enquanto destranca um mecanismo que mantém uma roda de três pinos no lugar.
— Ih, você está encrencado — comenta Nove.
— Pode avisar que vou falar com ele assim que terminarmos aqui — respondo ao fuzileiro.
Imagino que Lawson já tenha ficado sabendo que Seis e os outros deixaram a base sem notificá-lo. Não tenho qualquer intenção de perder meu tempo explicando nossos passos para o general; se ele quiser saber das novidades, pode vir me procurar. Tenho mais o que fazer. Mas é claro que não digo nada disso para o guarda.
A roda range quando o soldado a gira, a porta se abre e os dois guardas se afastam depressa.
— Eu estava me perguntando quando você viria.
Cinco está sentado de pernas cruzadas no chão da cela acolchoada e sorri para mim e para Nove. Ele está com os braços presos em uma camisa de força, com uma calça de pijama folgada e descalço. O chão é como uma grande almofada. Não há nada naquele espaço que Cinco possa tocar para ativar seu Externa. O pior que poderia acontecer seria ele transformar a pele em algodão.
Não supervisionei a prisão de Cinco. Não estava em condições emocionais de me preocupar com ele, então Nove e Sam cuidaram disso. A cela acolchoada parece ter sido projetada especificamente para detê-lo. Sorte que os espiões que construíram aquele lugar estavam preparados para todas as possibilidades, até mesmo a de que um dos colegas perdesse a cabeça em um cenário pós-apocalíptico.
O rosto de Cinco ainda está machucado e inchado no ponto onde Nove o acertou logo após a batalha na Ilha da Liberdade. Ao prenderem o traidor ali, Sam e Nove tiraram o pedaço sujo de gaze que cobria seu olho. A órbita vazia me encara.
— Preciso de sua ajuda — digo, e as palavras deixam um gosto amargo na minha boca.
Cinco inclina a cabeça para focar o olho bom em mim.
— Você salvou minha vida, John. Sei que nunca mais vai confiar em mim. Não depois de tudo o que aconteceu. Mas estou ao seu dispor.
Ao meu lado, Nove geme.
— Ai, acho que vou vomitar.
Cinco se vira para Nove.
— Sabe, eu assumo a responsabilidade pelas minhas ações, Nove. Sei que o que fiz foi... equivocado. Mas quando você vai assumir sua parte?
— Minha parte?
— Sempre falando um monte de besteiras — rosna Cinco. — Se você calasse a boca de vez em quando...
— Então, minhas piadas transformaram você em um traidor psicótico — diz Nove.
Vejo que seus punhos estão cerrados. Ele olha para mim.
— Vir aqui foi má ideia, John.
Balanço a cabeça.
— Olha, quando tudo isso acabar, se vocês dois quiserem se trancar em uma jaula para resolver seus problemas de uma vez por todas, por mim tudo bem. Mas não podemos perder mais tempo.
Nove franze a testa e fica em silêncio. Cinco continua me encarando, como se pudesse ver dentro de mim. Depois de um segundo, ele estala a língua.
— Quanta coisa mudou de um dia pro outro — retruca Cinco. Em seguida, se dirige a Nove, como se eu não estivesse na cela. — Ontem ele estava fazendo tudo o que podia para nos impedir de nos matar, lembra? O bonzinho. Agora está tudo diferente.
Ele me dirige um sorriso que parece quase orgulhoso.
— Conheço esse olhar, John. Você não estava pronto antes, mas agora está.
— Pronto para quê? — pergunto, me repreendendo por morder a isca tão fácil.
— Para a guerra — responde Cinco. — Pronto para fazer o que for necessário para vencer. Talvez pronto para fazer mais do que o necessário. Será? — Ele olha para Nove outra vez. — Você também vê, não é? Ele é como nós dois agora. Sedento por sangue.
Nove não reage de imediato. Seu olhar parece meio incerto, mas percebo que, apesar do ódio que sente por Cinco, concorda com ele. Como eu poderia não ter mudado, depois do que aconteceu? Se estou sedento por sangue, se estou disposto a fazer o que for preciso para acabar com Setrákus Ra, bem, não sinto vergonha por isso.
Ignoro toda a conversa e olho Cinco em seu único olho.
— Preciso que você me ensine a voar.
Cinco se concentra por um instante e então flutua. De pernas cruzadas e com a cabeça raspada, pairando a um metro do chão, ele parece uma versão distorcida de um monge.
— É isso que você quer? — pergunta ele.
Observo a maneira como ele flutua.
— Não é o bastante.
Ele franze a testa.
— Você pode copiar os outros Legados, como Pittacus Lore, não é? Vi o que fez em Nova York, com a garota nova, a dos olhos de pedra. Só teve que observar o Legado dela. Portanto, observe.
Não foi tão simples como Cinco pensa. Em primeiro lugar, eu estava desesperado. Parece que isso sempre ajuda na hora de dominar Legados. Também senti o poder aumentando enquanto tentava curar a dor de cabeça de Daniela. Meu Ximic se ligou diretamente ao poder em desenvolvimento, e eu de fato senti como funcionava. Acho que foi por isso que consegui copiar o Legado de cura de Marina, sem nem mesmo saber o que estava fazendo, e fui capaz de recriar a invisibilidade de Seis sem problema. Eu já havia sentido esses Legados antes, pois eles foram usados em mim, experimentei os poderes. Ver Cinco flutuar como um Buda sociopata não chega nem perto do contato de que preciso.
— Copiei o Legado de Daniela no calor do momento. Além disso, pude sentir como funcionava — explico a Cinco. — Olhar para você não vai me ajudar.
— Já fiz você voar antes — lembra Cinco. — No dia em que nos conhecemos. Não lembra como foi?
— Provavelmente como ser carregado por um cretino gorducho — dispara Nove.
Ignorando a piadinha, fecho os olhos e tento lembrar como foi voar com Cinco. A sensação de ausência de peso, minhas pernas balançando, o pensamento de que ele poderia me deixar cair a qualquer momento...
Olho para meus pés e não me surpreendo quando vejo que ainda estou no chão.
— Lembro como foi ser carregado. Isso é muito diferente de me lançar no ar por conta própria.
Cinco parece pensativo. Quase nostálgico. Nunca vi algo assim em seu rosto, que costuma estar cheio de raiva.
— Voar parece muito com telecinesia — descreve Cinco, após um instante. — Como quando se visualiza um objeto que se quer mover pelo ar. Basta imaginar que acontece, e acontece. Vocês já fizeram essa bobagem um milhão de vezes, assim como eu, não foi?
Nove e eu concordamos.
— Bem, imagine que você está fazendo isso com o próprio corpo — continua Cinco. Ele se mexe na camisa de força e franze a testa. Estava tentando abrir os braços e esqueceu que estavam presos junto ao peito. — Estenda os braços e imagine cordas passando por baixo deles, puxando-o para cima.
— Como um fantoche — sugere Nove.
— Como um ator em uma peça — rebate Cinco, irritado. — Elevando-se acima do palco. Gracioso.
— Ainda mais idiota — retruca Nove.
— Tente, John — diz Cinco, em um tom gentil. — Estenda os braços. Imagine que está preso com firmeza a cabos. Imagine que sua telecinesia pode manipular esses cabos, depois pare de imaginar e faça.
Mesmo não me sentindo confortável por ter aulas com Cinco, estendo os braços para os lados. Eu me concentro e tento imaginar cordas sendo passadas em torno de mim, me prendendo ao teto, como fui instruído. Puxo essas cordas com minha telecinesia. Imagino meus pés saindo do chão, meu corpo sem peso no ar.
E então acontece. Algo se encaixa, e sinto meus tênis deixarem de tocar o chão.
Flutuo a apenas alguns centímetros, mas ainda assim... está acontecendo.
— Vá com calma — diz Cinco, sua voz como um sussurro. — Isso. Concentre-se em manter o corpo reto. Continue puxando as cordas.
Mesmo ouvindo o conselho, não consigo deixar de conferir meu progresso. Há uns trinta centímetros separando o chão e meus pés, e ver isso é desorientador. Meu instinto é mover os braços como se eu estivesse perdendo o equilíbrio. De repente, meu corpo volta-se para a frente, ainda flutuando, mas horizontalmente, virado para o chão.
— Concentre-se! — dispara Cinco. — Lembre-se das cordas!
Os gritos não ajudam. Eu me lembro das cordas imaginárias, mas, em vez de movê-las devagar para voltar a ficar de pé, as puxo mentalmente com força demais, me sentindo frustrado. Disparo como um foguete e sinto minha coluna bater com força no teto, e em seguida caio de cara no chão. Para minha sorte, o piso da cela de Cinco é acolchoado.
Atrás de mim, ouço Nove tentando abafar o riso. Começo a me levantar e olho para ele.
— Você poderia ter me pegado.
Nove ri e me imita, balançando os braços no ar em busca de equilíbrio.
— Ah, cara, isso foi muito bom. Eu nem me toquei.
Fico de pé. Cinco ainda flutua sem esforço à minha frente. Pelo menos ele não acha meu fracasso hilário, como Nove.
— É um começo — diz ele, e dá de ombros. — Por sinal, não recomendo praticar onde há um teto. Eu costumava treinar sobre a água, assim as quedas não machucam tanto.
— Quanto tempo? — pergunto. — Quanto tempo você demorou para dominar o voo?
Cinco bufa.
— Não é como atirar bolas de fogo, John. É mais como reaprender a andar. Levei uns meses.
— Não tenho tanto tempo. Preciso voar até uma das naves de guerra o mais rápido possível.
Ele ergue uma das sobrancelhas.
— Nossa, isso parece interessante.
— Você não foi convidado — diz Nove na mesma hora.
Cinco suspira.
— Se você está determinado a fazer isso sozinho, há outra técnica de treinamento que poderia tentar.
— Qual?
Mal termino a pergunta e Cinco me acerta na barriga com o ombro. Fico sem ar na mesma hora. É como uma bala de canhão. Sem poder usar os braços para me agarrar, é pura força que mantém Cinco pressionado contra mim. Nós caímos para fora da cela, passando direto por Nove, que não reage rápido o suficiente. Os fuzileiros gritam de surpresa.
Baixamos a guarda por um segundo e é isto o que acontece. Como fomos estúpidos!
Cinco me joga contra a parede oposta à cela, bem alto, e minha cabeça chega a roçar o teto. Ouço os gritos dos soldados e o barulho das armas sendo engatilhadas.
— Não! — grita Nove. — Vão acertar John!
Cinco voa para longe de mim, e eu começo a deslizar pela parede. Mas ele não me solta; só está procurando uma posição melhor. Enquanto caio, ele passa as pernas em torno do meu peito. Um dos meus braços está preso junto à lateral do corpo, mas consigo soltar o outro.
Acendo o Lúmen com a mão livre e agarro a perna de Cinco, tentando me soltar. Queimo a calça de pijama, ouço a pele de sua perna crepitar e então...
Vuush!
A pele de Cinco se transforma em fogo, seu Legado entrando em ação. Mesmo que eu seja imune a queimaduras, pulo para trás, surpreso. A camisa de força incendeia e se desfaz, pedaços em chamas caindo no chão do corredor. Ele não precisa mais das pernas para me agarrar. Então se abaixa e aperta meu pescoço com as mãos chamuscantes.
— Obrigado pelo fogo, John, seu idiota arrogante e previsível!
Ele nos leva para cima e bate meu corpo com força contra o teto. Em seguida, volta para baixo depressa, me arremessando no chão. Nove salta para nos alcançar, e Cinco me usa como escudo. Ouço Nove grunhir quando minhas pernas acertam sua cabeça.
Começo a subir outra vez, e Cinco me leva pelo corredor a toda velocidade.
— Sabe aquela primeira vez em que voei com você? Deus do céu, como eu queria soltá-lo! Você nem imagina. Hora de realizar o desejo!
É vertiginoso. Vamos batendo em portas, entrando em celas vazias e chegando a novos corredores, onde somos recebidos por gritos de pânico. Cinco aproveita todas as oportunidades de me esmagar em uma parede, no teto ou no chão. Às vezes é difícil saber em que superfície minhas costelas estão batendo, de tão confuso. Vejo Nove correndo atrás de nós e percebo que ele caminha pelas paredes, usando seu Legado antigravidade para não precisar se desviar das pessoas. Cinco deve tê-lo visto também, porque volta e meia disparamos em direção a ele como um meteoro. Nove tem que mergulhar para fora do caminho para não ser esmagado ou queimado, e, antes que possa se recuperar, Cinco já dobrou outra esquina.
Estou por conta própria.
Como sou à prova de fogo, não me preocupo com a pele flamejante de Cinco. O que de fato me assusta é a maneira como suas mãos apertam minha traqueia. Toda vez que Cinco me atira em uma nova superfície, afrouxa um pouco as mãos, e isso me dá uma chance de respirar. Sendo jogado para todo lado daquele jeito, é um esforço constante buscar oxigênio.
— O Adorado Líder veio até mim em um sonho! — grita Cinco na minha cara, e sua órbita vazia está preenchida pelo fogo. — Ele disse que me perdoaria se eu lhe contasse onde encontrar você. Eu garanti que faria ainda melhor e o mataria com minhas próprias mãos!
Um grunhido de raiva escapa da minha garganta dolorida. Já chega!
Bato com os punhos nos braços de Cinco, tentando fazê-lo me soltar. Ele geme, mas não larga meu pescoço. Começamos a trombar na parede, depois, no teto, e em todas as vezes Cinco me coloca na frente, para amortecer o impacto.
Inclino a cabeça para trás, me certifico de estar mirando bem nos olhos de Cinco e lanço a petrificação de Daniela.
Ele é rápido demais. Assim que o raio sai de meus olhos, Cinco levanta a mão para impedir que acerte em cheio seu rosto. Mas pelo menos me livro dessa garra no meu pescoço. Cinco solta uma risadinha assustadora quando a mão vira pedra, então cobre meu rosto com esse novo apêndice poderoso. Ele mantém a pressão, cobrindo meus olhos para que eu não tente usar o Legado novamente.
Ainda assim, é um alívio. Com apenas uma mão apertando minha garganta, consigo respirar um pouco. E não só isso: agora estou em vantagem. Agarro Cinco pelo pescoço e giro, tentando garantir que ele se machuque na próxima queda. Atingimos alguma coisa – deve ser o chão, ainda não posso ver – e logo procuro me certificar de que estou prendendo Cinco. Assumindo o controle, jogo todo o meu peso contra ele, acertando-o no chão várias vezes.
Ele tira a mão de pedra dos meus olhos, e vejo a dor em seu rosto. As chamas que cobriam seu corpo se apagaram, deixando para trás somente a pele normal e frágil. Eu não paro. Continuo atirando seu corpo no chão. Agora é Cinco quem está com dificuldade para respirar.
— John... John... olha para baixo! — diz ele com esforço.
É provável que seja só outro truque. Mas noto algo na maneira como Cinco fala isso, como se toda a maldade em sua voz tivesse desaparecido.
Olho para baixo e vejo o chão a cinco metros de nós. Não estou batendo com Cinco no piso, e sim no teto.
Estou voando. Estou no controle.
— Você disse... disse que foi no calor do momento — geme Cinco. — Achei que um pouco de motivação... pudesse ajudá-lo a aprender. A fazer... fazer por instinto.
Não sei o que responder. Solto o ar e minha fúria se dissipa, mas ainda estou pressionando Cinco contra o teto. Devagar, mantendo o controle, nos levo flutuando até o chão. Olho ao redor. Estamos em um corredor da enfermaria da base. Está deserto aqui. Ao longe, ouço passos apressados em um corredor próximo. É provável que sejam Nove e os soldados tentando nos alcançar.
— Havia jeitos melhores de fazer isso — digo, virando para Cinco.
Ignoro o fato de que ele está nu, pois toda a roupa foi queimada quando ele transformou a pele em fogo.
— Os resultados são inquestionáveis — responde Cinco, encurvado.
Ele ergue a mão que transformei em pedra diante do rosto. Vejo pela maneira como os músculos do braço se flexionam que ele está tentando mexer os dedos, mas não consegue.
— Que esquisito.
Cinco transforma o corpo em pedra para igualar tudo. Quando volta ao normal, a mão continua transformada. Ele franze a testa.
— Que merda. Isso é permanente?
— Não sei — respondo. — Posso tentar curá-la.
— Por favor — diz ele, estendendo a mão.
Seguro o braço de Cinco e deixo meu Legado de cura correr para ele. É preciso um pouco mais de esforço do que o normal; o Legado tem que passar pela pedra fria e encontrar algum tecido vivo para reconstruir. Por fim, a rocha começa a se desintegrar, revelando a pele lisa por baixo.
— Você podia deixar só meu mindinho assim — pede Cinco de repente, como se tivesse acabado de ter uma ideia. — Não preciso dele.
Faço uma careta. Ele quer que eu deixe o dedo assim para que possa se transformar em pedra sempre que quiser. Balanço a cabeça.
— De jeito nenhum.
— Qual é, John! — diz ele, e sorri para mim, com sangue nos dentes. — Você não confia em mim?
Em resposta, curo o restante da mão. Mas ainda não solto o braço.
— Quando estávamos lutando, você disse que Setrákus Ra apareceu para você em um sonho. Era só provocação?
— Não, isso aconteceu — afirma Cinco. — Mas não aceitei a oferta. Cansei de acreditar no que aquele velho cretino diz.
Antes que eu o pressione mais, Nove dobra a esquina a toda velocidade. Com minha audição aprimorada, identifico outros dez pares de pés correndo um pouco atrás. Também ouço os cliques de armas automáticas. Imediatamente estendo as mãos em direção a Nove e me coloco entre ele e Cinco. Depois desse método de ensino maluco, não quero que a situação saia ainda mais do controle.
— Eu estou bem! — grito. — Foi apenas um mal-entendido!
Nove derrapa até parar, os punhos fechados. Ele está ofegante, e em seguida ergue uma das sobrancelhas, olhando para um ponto atrás de mim.
Cinco solta um grunhido de surpresa.
— Hã, John... — diz, com esforço.
Eu me viro e o vejo parado como uma estátua. Ele mal respira. Um pedaço de gelo paira no ar, bem à frente de seu rosto. A ponta brilha no corredor bem-iluminado, afiada como um punhal. O fragmento está a um fio de distância de seu olho remanescente.
Marina está a poucos metros de distância, o bastante para Cinco não conseguir pegá-la. O cabelo dela está completamente embolado e tampando um dos lados do rosto. A aparência é a de quem acabou de acordar, a não ser pelos olhos – eles brilham, arregalados, focados em Cinco.
— Marina, calma — começo a dizer.
Ela não ouve.
— O que eu lhe disse, Cinco? — pergunta ela, a voz fria. — O que eu disse que aconteceria se visse você outra vez?

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