16 de novembro de 2016

Capítulo IX: A morte de Beleg

Beleg procurou Túrin entre os mortos para o sepultar, mas não conseguiu encontrar o seu corpo. Soube assim que o filho de Húrin ainda estava vivo e fora levado para Angband; mas teve de permanecer na Bar-en-Danwedh até as suas feridas sararem. Decidiu então, com pouca esperança, tentar descobrir o rasto dos Orcs, e encontrou a sua pista perto dos Vaus do Teiglin. Aí tinham-se dividido, seguindo alguns pelas orlas da Floresta de Brethil, na dire ção do Vau do Brithiach, enquanto outros viravam para oeste. Pareceu-lhe, assim, claro que devia seguir aqueles que tinham ido diretamente, e com a maior velocidade, para Angband, a caminho do Desfiladeiro de Anach. Por isso, continuou a viajar por Dimbar, subiu o Desfiladeiro do Anach em Ered Gorgoroth, as Montanhas do Terror, e daí passou para as terras altas de Taur-nu-Fuin, a floresta sob a noite, uma região de pavor e negro encantamento, de vagueação e desespero.
Surpreendido pela noite naquela terra má, quis o acaso que Beleg visse uma pequena luz entre as árvores e, indo na sua direção, encontrasse um Elfo deitado a dormir debaixo de uma grande árvore morta: ao lado da sua cabeça estava uma lanterna, da qual caíra a cobertura. Então Beleg acordou o adormecido e deu-lhe lembas, e perguntou-lhe que destino o levara para aquele terrível lugar. Ele disse-lhe que se chamava Gwindor, filho de Guilin.
Beleg olhou-o, pesaroso, pois Gwindor mais não era do que uma sombra curvada e tímida da sua anterior estatura e disposição, quando, na Batalha das Lágrimas Inumeráveis, aquele senhor de Nargothrond cavalgara até às próprias portas de Angband e aí fora aprisionado. Pois poucos dos Noldor que Morgoth fazia cativos eram mortos, devido à sua arte de minerar metais e pedras preciosas; e por isso, em vez de ser morto, Gwindor foi posto a trabalhar nas minas do norte. Estes Noldor possuíam muitos dos candeeiros fëanorianos, que eram cristais pendentes de uma fina rede de malha, cristais que brilhavam sempre com uma radiancia interior azul, maravilhosa para encontrar o caminho na escuridão da noite ou em túneis; e destes candeeiros nem eles próprios conheciam segredo. Muitos dos elfos mineiros escapavam assim da escuridão das minas, pois sabiam abrir o seu caminho para a saída; mas Gwindor recebeu uma pequena espada de um que trabalhava nas forjas e, quando fazia parte de um grupo que minerava pedras preciosas, atacou subitamente os guardas. Conseguiu fugir, mas com uma das mãos decepada; e agora jazia, exausto, sob os grandes pinheiros de Taur-nu-Fuin.
Por Gwindor ficou Beleg a saber que o pequeno grupo de Orcs que se encontrava à frente deles, e dos quais se escondera, não levava cativos e seguia a grande velocidade: uma guarda avançada, talvez, levando notícias a Angband. Ao ouvir isto, Beleg desesperou: pois supusera que as pistas que vira seguir para oeste, depois dos Vaus do Teiglin, eram as de uma hoste maior que, à maneira dos Orcs, fora pilhar nas terras em busca de comida e saque, e podia estar agora de regresso a Angband pela “Terra Estreita”, o comprido desfiladeiro do Sirion, muito para oeste. Se assim fosse, a sua única esperança era regressar ao Vau do Brithiach e seguir depois para norte, para Tol Sirion. Mas, mal tomara tal decisão, ouviram o barulho de uma grande hoste que se aproximava através da floresta, vinda do Sul. Escondidos atrás de uma árvore, viram os servos de Morgoth passar, lenta mente, carregados de saque e cativos e rodeados por lobos. E viram Túrin com as mãos acorrentadas a ser fustigado por chicotes.
Então Beleg falou do que o levava a Taur-nu-Fuin e Gwindor tentou dissuadi-lo da sua busca, dizendo-lhe que serviria apenas para se juntar a Túrin no tormento que o esperava. Mas Beleg recusava-se a abandonar Túrin e, estando desesperado, acendeu de novo a esperança no coração de Gwindor. Prosseguiram, pois, juntos, seguindo os Orcs até eles saírem da floresta nas encostas altas que desciam para as dunas áridas da Anfauglith. Aí, à vista dos picos das Thangorodrim, os Orcs acamparam num pequeno vale desprotegido, à volta de cuja orla colocaram lobos de sentinela. Depois entregaram-se à pândega e a empanturrarem-se com o seu saque; e, após atormentar os seus prisioneiros, a maior parte deles adormeceu, embriagada. Por essa altura, o dia findava e estava a ficar muito escuro. Irrompeu do oeste uma tempestade e a trovoada ribombava ao longe, enquanto Beleg e Gwindor avançavam cautelosamente para o acampamento.
Quando todos os que lá se encontravam estavam a dormir, Beleg pegou no arco e, na escuridão, atingiu quatro dos lobos de sentinela do lado sul, um por um e silenciosamente. Entraram então, com grande perigo, e encontraram Túrin agrilhoado de pés e mãos e amarrado a uma árvore. A toda a volta havia, cravadas no tronco, facas que tinham sido arremessadas pelos seus torturadores; ele, porém, não estava ferido, mas sim inconsciente, mergulhado numa letargia induzida por drogas ou num sono de absoluta fadiga. Então Beleg e Gwindor cortaram as cordas que o prendiam à árvore e levaram-no para fora do acampamento. Mas, como era pesado de mais para se afastarem muito, não foram mais longe do que um denso bosque de árvores espinhosas que se erguia nas encostas sobranceiras ao acampamento. Aí deitaram-no, ao mesmo tempo que a tempestade se aproximava mais e os relâmpagos dardejavam nas Thangorodrim. Beleg desembainhou a sua espada, Anglachel, e com ela cortou os grilhões que imobilizavam Túrin. Mas, naquele dia, o destino foi mais forte, pois a lâmina de Eöl, o elfo negro, escorregou na sua mão e picou o pé de Túrin.
Então ele acordou repentinamente, tomado de fúria e medo, e, vendo um vulto inclinado para si no negrume, com uma espada desembainhada na mão, levantou-se com um grande grito, convencido de que os Orcs voltavam para o atormentar. Debatendo-se com ele no escuro, pegou na Anglachel e matou Beleg Cúthalion, julgando que era um inimigo.
Mas, quando se ergueu, descobrindo-se liberto e pronto para vender cara a vida contra inimigos imaginários, um grande relâmpago brilhou sobre eles e, à sua luz, viu o rosto de Beleg. Imóvel como uma pedra, e silencioso, fitou aquela terrível morte e teve consciência do que fizera. Tão terrível era a sua face, iluminada pelos relâmpagos que dardejavam em redor, que Gwindor se assustou e encolheu no chão, sem ousar levantar os olhos.
Mas agora, em baixo, no acampamento, os Orcs tinham sido acordados pela tempestade e pelo grito de Túrin, de cujo desaparecimento se deram conta. No entanto, não organizaram nenhuma busca para o encontrar, pois estavam aterrorizados pela trovoada que vinha do Oeste, convencidos de que tinha sido enviada contra eles pelos grandes inimigos de além do mar.
Soprou então um vento, e caíram grandes chuvas, e das alturas da Taur-nu-Fuin desceram torrentes revoltas. E embora Gwindor gritasse a Túrin, avisando-o do grande perigo em que se encontravam, ele não respondeu, mas ficou sentado, imóvel e sem chorar, ao lado do corpo de Beleg Cúthalion, caído na escura floresta e morto pela sua mão, precisamente quando cortava os grilhões de servidão que o aprisionavam.
Quando a manhã chegou, a tempestade tinha prosseguido para leste sobre Lothlann e o Sol outonal subia quente e luminoso; mas os Orcs, odiando isto quase tanto como a trovoada e convencidos de que Túrin fugira para longe daquele lugar e todos os vestígios da sua fuga tinham sido levados pela chuva, partiram, apressados, ansiosos por regressar a Angband. Gwindor viu-os marchar muito ao longe, rumo ao norte, pelas areias fumegantes da Anfauglith. Aconteceu assim que regressaram a Morgoth de mãos vazias, deixando atrás de si o filho de Húrin, sentado, enlouquecido e inconsciente, nas encostas da Taur-nu-Fuin, carregando um peso maior do que o dos seus grilhões.
Então Gwindor despertou Túrin para que o ajudasse a sepultar Beleg, e ele levantou-se como um sonâmbulo. Juntos depositaram Beleg numa campa pouco funda e colocaram ao seu lado Belthronding, o seu grande arco, que era feito de madeira de eixo preta. Mas Gwindor tomou a temível espada Anglachel, alegando ser melhor ela cobrar vingança aos servos de Morgoth do que ficar inútil na terra; e ficou também com as lembas de Melian, para os fortalecerem nos ermos.
Assim terminou Beleg Arco Forte, o mais leal dos amigos, o maior conhecedor de tudo quanto se abrigava nas florestas de Beleriand nos Tempos Antigos, às mãos daquele a quem mais amava; e essa mágoa ficou marcada no rosto de Túrin e nunca se desvaneceu.
Mas a coragem e a força renovaram-se no Elfo de Nargothrond que, saindo de Taurnu-Fuin, levou Túrin para muito longe. Nem uma só vez, enquanto vagueavam juntos pelos longos e penosos caminhos, Túrin falou, caminhando como alguém sem vontade ou objetivo enquanto o ano ia declinando e o Inverno se acercava das terras setentrionais. Mas Gwindor estava sempre ao lado dele, para o proteger e guiar, e assim passaram para oeste, pelo Sirion, e chegaram finalmente ao Lago Belo e a Eithel Ivrin, a nascente de onde o Narog rompia sob as Montanhas da Sombra. Aí Gwindor falou a Túrin, e disse-lhe:
— Desperta, Túrin, filho de Húrin! No lago de Ivrin há riso infinito. E alimentado pelas inexauríveis nascentes de cristal e protegido de conspurcação por Ulmo, senhor das águas, que esculpiu a sua beleza em tempos antigos.
Então Túrin ajoelhou e bebeu dessa água e, de súbito, as lágrimas soltaram-se, finalmente, e foi sarado da sua loucura.
Aí compôs uma canção para Beleg, à qual chamou Laer Cú Beleg, a Canção do Grande Arco, e cantou-a alto, descuidando o perigo. Gwindor depôs a espada Anglachel nas mãos dele e Túrin percebeu que era pesada e forte e possuidora de grande poder; mas a sua lâmina era negra e baça e os seus gumes cegos. Então Gwindor disse:
— Esta é uma estranha lâmina, diferente de quantas vi na Terra Média. Assim como tu, chora por Beleg. Mas conforta-te, pois regresso a Nargothrond da Casa de Finarfin, onde nasci e vivi antes do meu sofrimento. Irás comigo e serás sarado e renovado.
— Quem és tu?
— Um Elfo errante, um cativo fugido a quem Beleg encontrou e confortou — respondeu Gwindor. — Contudo, em tempos fui Gwindor, filho de Guilin, um senhor de Nargothrond, até ir para a Nirnaeth Arnoediad e ser escravizado em Angband.
— Então viste Húrin, filho de Galdor, o guerreiro de Dor-lómin? — perguntou Túrin.
— Não o vi, mas corre em Angband o boato de que ele ainda desafia Morgoth e que este lhe lançou uma praga, a ele e a todos os seus familiares.
— Acredito que sim — respondeu Túrin.
Depois levantaram-se e, partindo de Eithel Ivrin, viajaram para sul ao longo das margens do Narog, até serem capturados por batedores dos Elfos e levados como prisioneiros para a fortaleza oculta.
Assim chegou Túrin a Nargothrond.

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