16 de novembro de 2016

Capítulo IV: A partida de Túrin

Três homens apenas encontraram finalmente o caminho de regresso a Brethil através da Taur-nur-Fuin, um caminho maléfico. E quando Glóredhel, filha de Hador, soube da queda de Haldir, a dor foi grande e ela morreu.
A Dor-lómin não chegavam notícias. Rían, mulher de Huor, fugiu, angustiada, para os ermos; mas foi ajudada pelos Elfos Cinzentos de Mithrim e, quando Tuor, seu filho, nasceu, eles adotaram-no. Mas Rían foi para o Haudh-en-Nirnaeth, onde se deitou e morreu.
Morwen Eledhwen permaneceu em Hithlum, silenciosa na sua dor. Seu filho Túrin tinha apenas nove anos e ela estava de novo grávida. Os seus dias eram cruéis. Os Easterlings chegaram à região em grande número, trataram cruelmente o povo de Hador, roubaram-lhe todas as suas posses e escravizaram-no. Levaram todas as pessoas das terras de Húrin capazes de trabalhar ou ter alguma utilidade, mesmo jovens raparigas e rapazes, e aos velhos mataram-nos ou expulsaram-nos para morrerem à fome. Mas ainda não ousavam pôr as mãos na Senhora de Dor-lómin, ou expulsá-la da sua casa, pois corria entre eles o boato de que ela era perigosa, e uma bruxa que tinha trato com os demônios brancos: pois era assim que conheciam os Elfos, a quem detestavam e temiam ainda mais. Pela mesma razão, temiam e evitavam as montanhas, nas quais muitos dos Eldar tinham procurado refúgio, sobretudo no sul da terra. E depois de saquearem e atormentarem, os Easterlings recuaram para norte. Pois a casa de Húrin ficava no sudeste de Dorlómin e as montanhas estavam perto; na verdade, o Nen Lalaith descia de uma nascente sob a sombra do Amon Darthir, sobre cuja espalda havia um desfiladeiro íngreme. Por aí podiam os intrépidos atravessar as Ered Wethrin e descer pelos poços de Glithui para Beleriand. Mas tal não era do conhecimento dos Easterlings e tão pouco, ainda, de Morgoth; pois toda essa região, enquanto a Casa de Fingolfin existiu, esteve protegida contra ele e nenhum dos seus servidores aí entrara. Ele confiava que as Ered Wethrin eram uma barreira intransponível, tanto contra a fuga do norte como contra um ataque vindo do sul. E não havia, de fato, nenhuma outra passagem, para os desprovidos de asas, entre Serech e, muito para oeste, o sítio onde Dor-lómin tinha Nevrast como vizinha.
Assim aconteceu que, depois das primeiras incursões, Morwen foi deixada em paz, embora houvesse homens emboscados nas florestas próximas e fosse perigoso afastar-se para longe. Sob o teto de Morwen permaneciam ainda Sador, o carpinteiro, alguns homens e mulheres idosos e Túrin, a quem ela mantinha perto, no interior da cerca. Mas a propriedade de Húrin não tardou a entrar em decadência e, embora trabalhasse duramente, Morwen era pobre e teria passado fome não fora a ajuda que lhe era enviada secretamente por Aerin, parente de Húrin, a quem um certo Brodda, um dos Easterlings, tomara à força como esposa. As esmolas eram amargas para Morwen, mas ela aceitava essa ajuda para o bem de Túrin e do seu filho ainda não nascido, e também porque, como dizia, vinha do que era seu. Pois fora o tal Brodda que se apoderara das pessoas, dos bens e do gado das terras de Húrin e os levara para o seu próprio domínio. Era um homem ousado, mas de pouca importância entre os seus antes de virem para Hithlum. Por isso, ávido de riqueza, estava disposto a apoderar-se de terras que outros da sua espécie não cobiçavam. Vira uma vez Morwen, quando cavalgava para a sua casa para uma pilhagem, mas fora tomado por um grande pavor dela. Pensava que fitara os olhos terríveis de um demônio branco e tomara-o um pavor mortal de que alguma desgraça se abatesse sobre ele. Por isso, não pilhara a casa dela nem descobrira Túrin, pois, de contrário, a vida do herdeiro do legítimo senhor teria sido curta.
Brodda escravizou os Cabeças de Palha, como chamava ao povo de Hador, e pô-los a construir um palácio de madeira na terra a norte da casa de Húrin. E os seus escravos eram reunidos como gado numa vacaria, mas mal guardados. Entre eles ainda se encontravam alguns que não se tinham deixado intimidar e estavam prontos para ajudar a Senhora de Dor-lómin, mesmo correndo perigo. E deles chegavam secretamente notícias a Morwen, embora nelas houvesse pouca esperança. Mas Brodda tomou Aerin como esposa e não como escrava, pois havia poucas mulheres entre os seus seguidores e nenhuma que se comparasse com as filhas dos Edain. E ele esperava fazer para si um senhorio daquela região e ter um herdeiro para a governar depois dele.
Do que acontecera e do que poderia acontecer em dias futuros Morwen pouco disse a Túrin, que por seu lado receava quebrar o silêncio da mãe com perguntas. Quando os Easterlings chegaram pela primeira vez a Dor-lómin, ele perguntara à mãe:
— Quando regressará o meu pai, para expulsar estes horrendos ladrões? Por que não vem ele?
E Morwen respondera:
— Não sei. É possível que tenha sido morto ou que esteja cativo; mas também é possível que tenha sido repelido para muito longe e não possa ainda regressar pelo meio dos inimigos que nos cercam.
— Então penso que morreu — disse Túrin, e na presença da mãe conteve as suas lágrimas —, pois ninguém seria capaz de o impedir de regressar para nos ajudar, se estivesse vivo.
— Não creio que nenhuma dessas coisas seja verdade, meu filho — respondeu Morwen. À medida que o tempo passava, o coração de Morwen ia entristecendo por causa do seu filho Túrin, herdeiro de Dor-lómin e Ladros; pois não via para ele esperança melhor do que a de tornar-se escravo dos Easterlings, antes de ficar muito mais crescido. Por isso, lembrou-se das palavras que trocara com Húrin e o seu pensamento voltou-se de novo para Doriath. Por fim, resolveu mandar Túrin embora em segredo, se conseguisse, e rogar ao rei Thingol que o acolhesse.
E, enquanto estava sentada a meditar nisso, ouviu claramente, no seu pensamento, a voz de Húrin dizer-lhe: Vai sem demora! Não esperes por mim! Mas o nascimento do seu filho aproximava-se e a estrada seria difícil e perigosa. Quanto mais demorasse, menor seria a esperança de fuga. E o seu coração continuava a iludi-la com não admitida esperança; o seu pensamento mais profundo pressentia que Húrin não estava morto, e ela ficava à espera de ouvir os seus passos nas horas insones da noite, ou acordava a pensar que ouvira no pátio o relinchar de Arroch, o seu cavalo.
Além disso, embora quisesse que o filho fosse acolhido nos salões de outrem, conforme era costume daquele tempo, ainda não estava pronta para humilhar o seu orgulho e ser uma hóspede por esmola, nem mesmo de um rei. Por isso, a voz de Húrin, ou a recordação da sua voz, foi ignorada e o primeiro fio do destino de Túrin foi urdido.
O Outono do Ano da Lamentação aproximava-se sem que Morwen se tivesse decidido, e depois foi acometida pela pressa; pois o tempo para viajar era curto, mas ela temia que Túrin fosse levado se esperasse pelo Inverno. Easterlings rondavam à volta da cerca e espiavam a casa. Por conseguinte, disse subitamente a Túrin:
— O teu pai não vem. Tens, pois, de partir, e depressa. Ele assim o desejaria.
— Partir? — gritou Túrin. — Para onde iremos? Para além das Montanhas?
— Sim, para além das montanhas, muito para sul. Para sul: aí poderá haver alguma esperança. Mas eu não disse que nós tínhamos de partir, meu filho. Tu tens de partir, mas eu devo ficar.
— Não posso ir sozinho! — protestou Túrin. — Não vos deixarei. Porque não havemos de ir juntos?
— Eu não posso ir — disse Morwen. — Mas não irás sozinho. Mandarei Gethron contigo e Grithnir também, talvez.
— Não mandareis Labadal?
— Não, pois Sador é coxo — respondeu Morwen — e a estrada será difícil. E como és meu filho e os tempos estão sinistros, não suavizarei as palavras: podes morrer nessa estrada. O ano está a terminar. Mas, se ficares, esperar-te-á um fim pior: ser um escravo. Se queres ser um homem, quando chegares à idade de o ser, farás como te mando, corajosamente.
— Mas deixar-vos-ei só com Sador, o cego Ragnir e as mulheres idosas — protestou Túrin. — Não disse meu pai que sou o herdeiro de Hador? O herdeiro deveria ficar na casa de Hador para a defender. Quem me dera agora ter ainda a minha faca!
— O herdeiro deveria ficar, porém não pode — respondeu Morwen. — Mas poderá regressar um dia. Coragem! Seguir-te-ei, se as coisas piorarem; se puder.
— Mas como me encontrareis, perdido no deserto? — perguntou Túrin e, de súbito, o coração não lhe obedeceu e ele chorou abertamente.
— Se choras, outras coisas te encontrarão primeiro — avisou Morwen. — Mas eu sei para onde vais e, se lá chegares e lá permaneceres, aí te encontrarei, se puder. Pois vou enviar-te ao Rei Thingol de Doriath. Não preferes ser hóspede de um rei a ser um escravo?
— Não sei. Não sei o que é um escravo.
— Vou mandar-te embora daqui para que não precises de aprender o que é — respondeu Morwen. Depois colocou Túrin à sua frente e fitou-o nos olhos, como se tentasse deslindar algum enigma neles. — É difícil, Túrin, meu filho — disse, por fim. — E não apenas para ti. Muito me custa decidir, em dias t ão cruéis, qual é o melhor procedimento. Mas procedo como penso que é certo, pois por que outro motivo haveria de me separar daquilo que me é mais querido em tudo o que me resta?
Não voltaram a falar do assunto um com o outro e Túrin sentia-se magoado e confuso. De manhã foi procurar Sador, que estivera a partir galhos secos para o lume. Era escassa a reserva de que dispunham, pois não se atreviam a embrenhar-se pelas florestas. Sador apoiou-se na sua muleta e olhou para a grande cadeira de Húrin, que fora atirada, por acabar, para um canto.
— Ela terá de ir — disse. — Pois nos tempos que correm só é possível satisfazer as necessidades mais ínfimas.
— Não a quebres ainda — pediu Túrin. — Talvez ele volte para casa e depois fique satisfeito ao ver o que fizeste para ele, na sua ausência.
— Falsas esperanças são mais perigosas do que temores — disse Sador —, e não nos aquecerão neste Inverno. — Passou a mão pelos entalhes da cadeira e suspirou. — Desperdicei o meu tempo, embora as horas tenham parecido agradáveis. Mas estas coisas têm vida curta e a alegria de as fazer é o seu único e verdadeiro fim, parece-me. E agora acho melhor devolver-te o teu presente.
Túrin estendeu a mão, mas logo a recuou.
— Um homem não volta a receber o que deu.
— Mas, se ela é agora minha, não poderei dá-la a quem quiser?
— Sim — disse Túrin —, a qualquer homem menos a mim. Mas porque desejarias dá-la?
— Não me resta esperança de a usar em tarefas dignas. Não haverá trabalho para Labadal nos dias vindouros, a não ser trabalho de escravo.
— O que é um escravo? — quis saber Túrin.
— É um homem que foi um homem mas é tratado como um animal — respondeu Sador. — Alimentado apenas para se manter vivo, mantido vivo apenas para labutar, labutando apenas por medo da dor ou da morte. E destes ladrões pode receber dor ou morte apenas por puro divertimento. Ouvi dizer que escolhem alguns dos pés-ligeiros e os perseguem com cães de caça.
Aprenderam mais depressa com os Orcs do que nós com o Povo Belo.
— Agora compreendo melhor as coisas — disse Túrin.
— É uma pena que tenhas de compreender tais coisas tão cedo — disse Sador. Depois, vendo a expressão estranha do rosto de Túrin, perguntou-lhe: — O que é que compreendes agora?
— O motivo por que a minha mãe me vai mandar embora — respondeu Túrin, e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Ah! — disse Sador, e murmurou para consigo: “Mas porque demorou tanto?” Depois, voltando-se para Túrin, acrescentou: — Essa não me parece uma notícia para lágrimas. Mas não deves repetir as decisões da tua mãe em voz alta a Labadal, nem a ninguém. Hoje em dia, todas as paredes e cercas têm orelhas, orelhas que não crescem em cabeças claras.
— Mas preciso de falar com alguém! Sempre te contei coisas, Labadal. Não quero deixar-te. Não quero deixar esta casa ou a minha mãe.
— Mas, se não o fizeres, em breve haverá um fim definitivo para a Casa de Hador, como deves compreender. Labadal não quer que partas; mas Sador, servo de Húrin, sentir-se-á mais feliz quando o filho de Húrin estiver fora do alcance dos Easterlings. Bem, bem, não há remédio, temos de nos despedir. Agora não aceitas a minha faca como presente de despedida?
— Não! A minha mãe diz que vou para os Elfos, para o Rei de Doriath. Lá posso obter outras coisas como a faca. Mas não poderei mandar-te quaisquer presentes, Labadal. Estarei muito longe e sozinho.
E então Túrin chorou, mas Sador disse-lhe:
— Então? Onde está o filho de Húrin? Pois ouvi-o dizer, não há muito tempo: Partirei como soldado com um rei élfico, assim que for capaz.
Túrin conteve as lágrimas e respondeu:
— Está bem: se essas foram as palavras do filho de Húrin, ele deve honrá-las e partir. Mas, sempre que digo que farei isto ou aquilo, as coisas parecem muito diferentes quando chega a altura de o fazer. Agora estou relutante. Preciso de ter cuidado e não voltar a dizer tais coisas.
— Será, de fato, melhor — disse Sador. — E isso que muitos homens ensinam e poucos homens aprendem. Não penses nos dias invisíveis. O de hoje é mais do que suficiente.
Túrin foi preparado para a viagem, despediu-se da mãe e partiu em segredo com os seus dois acompanhantes. Mas quando eles lhe disseram que se voltasse e olhasse para trás, para a casa de seu pai, então a angústia da separa ção dilacerou-o como uma espada, e ele gritou: “Morwen, Morwen, quando voltarei a ver-vos?” Mas Morwen, parada no limiar da casa, ouviu o eco desse grito nos montes arborizados e agarrou-se com tanta força à trave da porta que os seus dedos ficaram dilacerados. Este era o primeiro dos infortúnios de Túrin.
No início do ano, depois de Túrin ter partido, Morwen deu à luz a filha, a quem chamou Niënor, que significa Luto; mas Túrin já estava muito longe quando ela nasceu. Extensa e terrível era a sua estrada, pois o alcance do poder de Morgoth chegava muito longe; mas ele tinha como guias Gethron e Grithnir, que tinham sido jovens no tempo de Hador e, apesar de serem agora idosos, eram valentes e conheciam bem as terras, pois tinham viajado com frequência por Beleriand em tempos anteriores. Assim, mercê do destino e da coragem, atravessaram as Montanhas Sombrias e, descendo ao Vale de Sirion, penetraram na Floresta de Brethil; e por fim, fatigados e enfraquecidos, atingiram os limites de Doriath. Mas a í sentiram-se confusos, ficaram enredados nos labirintos da Rainha e vaguearam, perdidos, por entre a floresta ínvia, até todos os seus mantimentos se esgotarem. Estavam à beira da morte, pois o Inverno avançava, frio, do norte; mas não seria tão leve o tormento de Túrin. No momento em que se deitavam, entregues ao desespero, ouviram soar uma trompa. Beleg, o Arco Forte, andava a caçar naquela região, pois residia sempre nos pântanos de Doriath e era o mais importante habitante das florestas daquele tempo. Ao ouvir os gritos deles, veio ao seu encontro e, depois de lhes dar de comer e beber, ficou a saber os seus nomes e de onde vinham, e o espanto e a compaixão apoderaram-se dele. Olhou com simpatia para Túrin, pois ele tinha a beleza da mãe e os olhos do pai, e era resoluto e forte.
— Que mercê gostarias de receber do rei Thingol? — perguntou Beleg ao rapaz. — Gostaria de ser um dos seus cavaleiros, para combater contra Morgoth e vingar o meu pai.
— Pode ser que isso venha a acontecer, quando o número dos teus anos for maior. Pois, embora sejas ainda pequeno, possuis os predicados de um homem valente, digno de ser filho de Húrin, o Firme, se tal fosse possível. — Pois o nome de Húrin era honrado em todas as terras dos Elfos.
Assim, Beleg tornou-se de bom grado guia dos viajantes e conduziu-os a um pavilhão onde vivia naquele tempo com outros caçadores e aí ficaram instalados enquanto um mensageiro ia a Menegroth. E quando chegou a notícia de que Thingol e Melian receberiam o filho de Húrin e os seus guardiões, Beleg conduziu-os por caminhos secretos ao Reino Escondido.
Assim chegou Túrin à grande ponte sobre o Esgalduin e transpôs as portas dos palácios de Thingol; e, como criança que era, olhou para as maravilhas de Menegroth, que nenhum homem mortal antes vira, com a única exceção de Beren. Então Gethron pronunciou a mensagem de Morwen perante Thingol e Melian; e Thingol recebeu-os amavelmente e sentou Túrin no seu joelho em honra de Húrin, o mais poderoso dos Homens, e de Beren, seu familiar. E aqueles que tal viram ficaram maravilhados, pois era sinal de que Thingol aceitava Túrin como filho adotivo; e isso não era, naquela altura, coisa feita por reis, e muito menos uma coisa que um rei Elfo fizesse por um Homem. Depois Thingol disse-lhe:
— Aqui, filho de Húrin, será a tua casa; e em toda a tua vida serás tido como meu filho, embora homem seja. Receberás sabedoria para além da medida dos Homens mortais e as armas dos Elfos serão colocadas nas tuas mãos. Talvez venha o dia em que recuperarás as terras de teu pai em Hithlum, mas por agora vive aqui com amor.
Assim começou a estada de Túrin em Doriath. Com ele permaneceram durante algum tempo Gethron e Grithnir, seus acompanhantes, apesar de ansiarem por regressar para junto da sua senhora, em Dor-lómin. Depois, a idade e a doença abateram-se sobre Grithnir, que ficou junto de Túrin até à morte; mas Gethron partiu e Thingol mandou uma escolta guiá-lo e protegê-lo, além de levar notícias de Thingol para Morwen. Chegaram finalmente a casa de Húrin e, ao saber que o filho fora recebido com honra nos palácios de Thingol, Morwen sentiu aliviado o peso da sua dor. Os Elfos levavam também prendas valiosas de Melian e uma mensagem convidando-a a regressar com os homens de Thingol a Doriath. Pois Melian era sensata e previdente e esperava evitar assim o mal que estava preparado no pensamento de Morgoth. Mas Morwen recusava-se a sair da sua casa, porque o seu coração não mudara e o seu orgulho continuava elevado; além disso, Niënor era uma bebê de colo. Por conseguinte, ela despediu-se dos Elfos de Doriath com agradecimentos e presenteou-os com as últimas pequenas coisas de ouro que lhe restavam, ocultando assim a sua pobreza; e pediu-lhes que levassem a Thingol o Elmo de Hador. Mas Túrin ficara sempre à espera dos mensageiros de Thingol e, quando eles regressaram sozinhos, fugiu para as florestas e chorou, pois tinha conhecimento do convite de Melian e esperara que Morwen viesse. Este foi o segundo infortúnio de Túrin. Quando os mensageiros comunicaram a resposta de Morwen, Melian encheu-se de compaixão, compreendendo o estado de espírito dela; e compreendeu também que o destino que pressagiara não podia ser facilmente afastado.
O Elmo de Hador foi depositado nas mãos de Thingol. Era feito de aço cinzento adornado com ouro e tinha gravadas runas de vit ória. Havia nele um poder que protegia quem o usasse de ferimento ou morte, pois a espada que o atacasse quebrar-se-ia e o dardo que o atingisse saltaria para o lado. Tinha sido forjado por Telchar, o ferreiro de Nogrod, cujos trabalhos eram famosos. Tinha uma viseira (no estilo das usadas pelos anões nas suas forjas para protegerem os olhos) e o rosto de quem a usasse infundiria medo nos corações de todos quanto o observassem, mas estava protegido contra dardo e fogo. No seu cimo erguia-se, desafiadora, a imagem de Glaurung, o dragão, pois fora feito pouco depois de ele ter saído dos portões de Morgoth. Hador, e depois dele Galdor, haviam-no usado com freq üência na guerra, e os corações da hoste de Hithlum elevavam-se quando o viam erguido, bem alto, no meio da batalha, e gritavam: “Tem mais merecimento o Dragão de Dor-lómin do que o verme de ouro de Angband!”
Mas Húrin não usava o Elmo do Dragão com facilidade, e de qualquer modo não o usaria, pois costumava dizer: “Prefiro olhar para os meus inimigos com o meu verdadeiro rosto.” Apesar disso, contava o elmo entre os bens mais valiosos da sua casa.
Ora, Thingol tinha em Menegroth enormes armeiros cheios de grande abundância de armas: metal lavrado como carapaças de peixes que brilhavam como água ao luar; espadas e machados, escudos e elmos forjados pelo próprio Telchar ou pelo seu mestre Gamil Zirak, o Velho, ou por ferreiros élficos ainda mais hábeis. Pois algumas coisas receberam como dádiva vinda de Valinor e tinham sido trabalhadas por Fëanor com a mestria que nenhum outro artesão superara em todos os dias do mundo. No entanto, Thingol segurou o Elmo de Hador como se o seu próprio acervo oculto fosse de pouca monta, e referiu-se-lhe com palavras corteses, dizendo:
— Altiva a cabeça que usou este elmo, que os antepassados de Húrin carregaram.
Depois ocorreu-lhe um pensamento e mandou chamar Túrin, a quem disse que Morwen mandara para o seu filho uma coisa muito poderosa, a herança dos seus antepassados. “Aceita agora a Cabeça de Dragão do Norte”, disse-lhe, “e usa-a bem quando o tempo chegar.”
Mas Húrin era ainda demasiado novo para erguer o elmo e não fez caso, por causa da mágoa do seu coração.

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