15 de novembro de 2016

Capítulo III: As palavras de Húrin e Morgoth

Por ordem de Morgoth, os Orcs reuniram então, com grande trabalho, todos os corpos dos seus inimigos, assim como todos os seus arneses e armas, e empilharam-nos no meio da planície de Anfauglith num enorme monte que podia ser visto de longe e a que os Eldar chamaram Haudh-en-Nirnaeth. Mas a erva irrompeu ali e cresceu de novo, alta e verde, apenas sobre aquele monte em todo o deserto, e desde então nenhum servo de Morgoth pisou a terra sob a qual as espadas dos Eldar e dos Edain eram consumidas pela ferrugem. O reino de Fingor já não existia e os Filhos de Fëanor vagueavam como folhas sopradas pelo vento. Nenhum dos Homens da Casa de Hador regressou a Hithlum, nem notícia alguma da batalha e do destino dos seus senhores. Mas Morgoth enviou para lá Homens que estavam sob o seu domínio, os escuros Easterlings, e encerrou-os nessa terra e proibiu-os de lá saírem. Isto foi tudo quanto lhes deu das fartas recompensas que lhes prometera se atraiçoassem Maedhros: perseguir e pilhar os velhos, as crianças e as mulheres do povo de Hador. Aos restantes Eldar de Hithlum, todos aqueles que não escaparam para os ermos e as montanhas, levou-os para as minas de Angband, onde se tornaram seus escravos. Mas os Orcs andavam livremente por todo o Norte e avançaram resolutamente para sul, até Beleriand. Aí permanecia ainda Doriath, e também Nargothrond; Morgoth, porém, pouca atenção lhes prestava, quer porque pouco sabia a seu respeito, quer porque a hora deles ainda estava para chegar nos desígnios da sua perversidade. Mas o seu pensamento não deixava de regressar a Turgon.
Por conseguinte, Húrin foi conduzido à presença de Morgoth, pois este sabia, graças aos seus poderes e aos seus espiões, que ele tinha a amizade do Rei; e tentou intimidá-lo com o olhar. Mas Húrin ainda não podia ser intimidado, e desafiou Morgoth. Em consequência disso, Morgoth mandou acorrentá-lo e submetê-lo a tortura lenta. Passado algum tempo, porém, veio a ele e ofereceu-lhe a escolha entre partir livre para onde quis esse e receber poder e hierarquia como o mais elevado de todos os capitães de Morgoth, bastando-lhe para isso revelar onde Turgon tinha a sua fortaleza e tudo o mais que soubesse das intenções do Rei. Mas Húrin, o Firme, zombou dele, dizendo:
— Cego és, Morgoth Bauglir, e cego ser ás sempre, capaz de ver apenas as trevas. Desconheces o que rege os corações dos Homens e, mesmo que o conhecesses, não saberias usá-lo. Mas tolo é aquele que aceita o que Morgoth oferece. Receberás primeiro o preço e negarás depois a promessa, e eu receberia apenas a morte se te dissesse o que queres saber.
Então Morgoth riu-se e disse:
— A morte virás ainda a suplicar de mim como uma dádiva.
Depois levou Húrin para o Haudh-en-Nirnaeth, que tinha sido recentemente erigido e fedia a morte. E Morgoth colocou Húrin no seu topo e disse-lhe que olhasse para oeste, na direção de Hithlum, e pensasse na mulher, no filho e nos outros familiares.
— Pois eles vivem agora no meu reino — declarou — e dependem da minha clemência.
— Clemência é coisa que não tens — respondeu Húrin. — Mas não chegarás a Turgon através deles, porque desconhecem os segredos dele.
Então a ira dominou Morgoth, que disse:
— E todavia posso chegar a ti e a toda a tua amaldi çoada casa, e dobrar-se-ão à minha vontade, ainda que sejam todos feitos de aço.
Pegou numa longa espada que se encontrava à mão e quebrou-a perante os olhos de Húrin, cuja face foi atingida por um fragmento; mas ele nem estremeceu. Então, Morgoth, estendendo o longo braço na direção de Dor-lómin, amaldiçoou Húrin e Morwen e a sua descendência, dizendo:
— Vê! A sombra do meu pensamento abater-se-á sobre eles aonde quer que vão e o meu ódio persegui-los-á até aos confins do mundo.
Mas Húrin rebateu:
— Falas em vão. Pois não podes vê-los nem dominá-los de longe; não enquanto mantiveres essa forma e continuares a desejar ser um rei visível na Terra.
Então Morgoth virou-se para Húrin e disse:
— Tolo, insignificante entre os Homens, que já de si são os menos importantes entre todos os que falam! Acaso viste os Valar ou mediste o poder de Manwë e Varda? Conheces o alcance do seu pensamento? Ou pensas, porventura, que o pensamento deles está em ti e podem proteger-te de longe?
— Não sei — respondeu Húrin. — Mas assim poderia acontecer, se fosse essa a sua vontade. Pois o Grande Rei não será destronado enquanto Arda perdurar.
— Tu o dizes — replicou Morgoth. — Eu sou o Grande Rei: Melkor, o primeiro e o mais poderoso de todos os Valar, que existia antes do mundo e o fez. A sombra do meu desígnio pesa sobre Arda e tudo quanto nela há se verga, lenta e seguramente, à minha vontade. Mas sobre todos a quem amas o meu pensamento pesará como uma nuvem de Condenação e mergulhá-los-á nas trevas e no desespero. Aonde quer que vão, o mal surgirá. Quando quer que falem, as suas palavras transmitirão maus conselhos. O que quer que façam, voltar-se-á contra eles. Morrerão sem esperança, amaldiçoando tanto a vida como a morte.
Mas Húrin respondeu:
— Esqueces com quem estás a falar? As coisas que dizes já as disseste há muito tempo aos nossos pais, mas nós escapamos da tua sombra. E agora sabemos a teu respeito, pois olhamos para os rostos que viram a Luz e ouvimos as vozes que falaram com Manwë. Antes de Arda existias, mas outros também existiam e não foste tu que a fizeste. Nem és o mais poderoso de todos, pois consumiste a tua força em ti mesmo e desperdiçaste-a no teu próprio vazio. Agora não és mais do que um escravo fugido dos Valar, cujas correntes ainda te esperam.
— Aprendeste de cor as lições dos teus mestres — disse Morgoth. — Mas essa tradição infantil não te ajudará, agora que todos eles debandaram.
— Uma última coisa te direi então, escravo Morgoth — continuou —, e não é ditada pela tradição dos Eldar, mas chegou ao meu coração nesta hora. Não és o senhor dos Homens, e nunca serás, mesmo que toda a Arda e Menel fiquem sob o teu domínio. Para além dos Círculos do Mundo não perseguirás aqueles que te renegam.
— Para além dos Círculos do Mundo não os perseguirei — respondeu Morgoth. — Pois para além dos Círculos do Mundo só há o Nada. Mas dentro deles não me escaparão, até no nada entrarem.
— Mentes — disse Húrin.
— Tu verás e confessarás que não minto — afirmou Morgoth. E, levando Húrin de novo para Angband, sentou-o numa cadeira de pedra num lugar alto das Thangorodrim, de onde ele podia ver de longe a terra de Hithlum, a ocidente, e as terras de Beleriand, ao sul. Aí ficou aprisionado pelo poder de Morgoth, o qual, de pé ao lado dele, o amaldiçoou de novo e sobre ele lançou o seu poder, para que não pudesse sair daquele lugar, nem morrer, enquanto Morgoth o não libertasse.
— Fica aí sentado — disse Morgoth —, e olha para as terras onde o mal e o desespero se abaterão sobre aqueles que me entregaste. Pois Ousaste zombar de mim e questionaste o poder de Melkor, Senhor dos destinos de Arda. Doravante, com os meus olhos verás e com os meus ouvidos ouvirás, e nada te será ocultado.

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