15 de novembro de 2016

Capítulo II: A Batalha das Lágrimas Inumeráveis

Muitas são as canções ainda cantadas e muitas as histórias ainda contadas pelos Elfos acerca da Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Inumeráveis, na qual tombou Fingon e a flor dos Eldar feneceu. Se voltassem todas a ser contadas agora, a vida de um homem não chegaria para as ouvir. Aqui serão, portanto, recontados apenas os feitos que se relacionam com o destino da Casa de Hador e dos filhos de Húrin, o Firme.
Tendo, finalmente, reunido toda a força que podia, Maedhros marcou um dia, amanhã do solstício de Verão. Nesse dia, as trombetas dos Eldar saudaram o nascer do Sol, e no leste foi erguido o estandarte dos filhos de Fëanor, e no oeste o estandarte de Fingon, Rei dos Noldor.
Então Fingon olhou das muralhas de Eithel Sirion e o seu exército estava disposto em ordem de batalha nos vales e nas florestas do leste das Ered Wethrin, bem escondido dos olhos do Inimigo; mas ele sabia que era muito grande. Pois estavam ali reunidos todos os Noldor de Hithlum, aos quais se tinham juntado muitos Elfos das Falas e de Nargothrond; e tinha grande força de Homens. A direita estava estacionada a hoste de Dor-lómin e toda a valentia de Húrin e Huor, seu irmão, aos quais se juntara Haldir de Brethil, membro da sua família, com muitos homens das florestas.
Depois Fingon olhou para leste e a sua visão élfica distinguiu, muito ao longe, uma poeira e o refulgir de aço como estrelas numa neblina, e ele soube que Maedhros avançara; e com isso rejubilou. Em seguida olhou na direção das Thangorodrim, viu uma nuvem escura e um fumo preto a subir; e ficou a saber que a ira de Morgoth fora ateada e que o desafio deles seria aceite.
Uma sombra de dúvida toldou-lhe o coração. Mas nesse momento soou um grito, transportado pelo vento do sul e passando de vale para vale, e Elfos e Homens ergueram as suas vozes, maravilhados e jubilosos. Pois, sem ser solicitado nem aguardado, Turgon abrira o cerco de Gondolin e vinha com um exército de dez mil soldados, com resplandecentes cotas de malha, e longas espadas, e uma floresta de lanças. Depois, quando Fingon ouviu, ao longe, a grande trompa de Turgon, a sombra desvaneceu-se, o seu coração animou-se e ele gritou fortemente: “Utúlie’n aurë! Aiya Eldalië ar Atanatami, utúlie’n aurë! O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e Pais dos Homens, o dia chegou!” E todos quantos ouviram a sua voz poderosa ecoar nos montes responderam, gritando: “Auta i lómë! A noite está a findar!”
Não tardava muito para a grande batalha começar, pois Morgoth sabia grande parte do que faziam e planejavam os seus inimigos e gizara os seus planos contra a hora do seu ataque. Uma grande força saída de Angband aproximava-se já de Hithlum, enquanto outra ainda maior ia ao encontro de Maedhros para impedir a união das potências dos reis. E aqueles que vinham contra Fingon vestiam todos de tom pardo e não mostravam qualquer aço desembainhado, o que lhes permitiu estarem j á avançados nas areias da Anfauglith antes de a sua aproximação se tornar notada.
Então os corações dos Noldor enfureceram-se e os seus capitães quiseram atacar os inimigos na planície, mas Fingon mostrou-se contrário a isso.
— Cuidado com a perfídia de Morgoth, senhores! — aconselhou. — A sua força é sempre maior do que parece e o seu objetivo diferente do que aparenta. Não reveleis a vossa própria força, mas deixai o inimigo esgotar o seu primeiro ataque contra os montes.
Pois era desígnio dos reis que Maedhros marchasse abertamente sobre a Anfauglith com toda a sua força de Elfos, e de Homens, e de Anões; e quando, como esperavam, ele tivesse levado os principais exércitos de Morgoth a ripostar, Fingon avançaria do Ocidente e o poderio de Morgoth ficaria como que apanhado entre martelo e bigorna e seria destroçado. O sinal para isso seria o acender de um grande feixe de luz em Dorthonion.
Mas o comandante de Morgoth a ocidente recebera ordens para atrair Fingon para fora dos seus montes por todos os meios que pudesse. Ele avançou, portanto, até a frente da sua hoste ser detida diante da corrente do Sirion, das muralhas da Barad Eithel at é ao Pântano de Serech; e os postos avançados de Fingon podiam ver os olhos dos seus inimigos. Mas o seu desafio não recebeu nenhuma resposta e as provocações dos seus Orcs vacilaram ao depararem com as muralhas silenciosas e a ameaça oculta atrás dos montes.
Então o comandante de Morgoth enviou cavaleiros com ofertas de negociações e eles chegaram às próprias muralhas exteriores da Barad Eithel. Levavam consigo Gelmir, filho de Guilin, um senhor de Nargothrond, a quem tinham aprisionado na Bragollach e cegado, e os seus arautos mostraram-no, gritando: “Temos muitos mais assim na nossa terra, mas tereis de vos apressar se quiserdes encontrá-los. Pois, quando regressarmos, trataremos todos eles de igual modo.” E deceparam os braços e as pernas de Gelmir e deixaram-no ali.
Por pouca sorte, naquele ponto das fortalezas exteriores encontrava-se Gwindor, filho de Guilin, com muita gente de Nargothrond; e ele marchara, de fato, para a guerra com todas as forças que conseguira reunir, levado pelo desgosto causado pelo aprisionamento do irmão.
Agora a sua ira era como uma labareda e ele saltou para o cavalo, e com ele muitos cavaleiros, e perseguiram e mataram os arautos de Angband. Seguidos por toda a gente de Nargothrond, penetraram profundamente nas fileiras de Angband. E, vendo isto, a hoste dos Noldor como que se incendiou e Fingon pôs o seu elmo branco, fez soar as suas trombetas e toda a sua gente irrompeu dos montes numa investida súbita.
A luz do desembainhar das espadas dos Noldor era como um fogo num caniçal, e tão terrível e veloz foi o seu ataque que os desígnios de Morgoth quase baquearam. Antes que pudesse ser reforçado, o exército-armadilha que enviara para oeste foi destroçado e destruído e os estandartes de Fingon passaram pela Anfauglith e foram erguidos defronte das muralhas de Angband.
Na dianteira desse combate esteve sempre Gwindor e a gente de Nargothrond, e nem mesmo então puderam ser contidos. Irromperam pelas portas exteriores e chacinaram os guardas no interior dos próprios pátios de Angband; e Morgoth tremeu no seu trono, ouvindo-os bater às suas portas. Mas Gwindor caiu numa armadilha e foi aprisionado vivo e a sua gente chacinada, pois Fingon não pôde ir em seu socorro. Através das muitas portas secretas das Thangorodrim, Morgoth fez avançar a sua força principal, que mantivera de reserva, e Fingon foi rechaçado com grandes perdas das muralhas de Angband.
Depois, foi na planície de Anfauglith, no quarto dia da guerra, que começou a Nirnaeth Arnoediad, cuja tristeza história alguma pode relatar. De tudo o que aconteceu na batalha travada a leste: da derrota de Glaurung, o Dragão, pelos Anões de Belegost, da traição dos Easterlings, do destroçar da hoste de Maedhros e da fuga dos filhos de Fëanor, nada mais é aqui acrescentado. A oeste, a hoste de Fingon bateu em retirada pelas areias e aí morreram Haldir, filho de Halmir, e a maioria dos Homens de Brethil. Mas no quinto dia, quando a noite caía e ainda se encontravam longe das Ered Wethrin, os exércitos de Angband cercaram o exército de Fingon, lutaram até ser dia e avançaram cada vez mais. Com a manhã chegou a esperança, pois ouviram-se as trombetas de Turgon, enquanto ele marchava com a hoste principal de Gondolin; pois Turgon estivera estacionado a sul, guardando as passagens do Sirion, e evitara que a maioria da sua gente participasse na precipitada investida. Agora apressava-se a ir ao encontro do irmão.
Os Noldor de Gondolin eram fortes e as suas fileiras cintilavam como um rio de a ço ao sol, pois as espadas e os arneses dos mais modestos guerreiros de Turgon valiam mais do que o resgate de qualquer rei entre os homens.
A falange da guarda do Rei penetrou nas fileiras dos Orcs e Turgon abriu caminh até junto do irmão. E diz-se que o encontro de Turgon com Húrin, que estava ao lado de Fingon, foi ditoso no meio da batalha. Então, durante algum tempo, as hostes de Angband foram forçadas a recuar e Fingon reatou a sua retirada. Mas, depois de ter rechaçado Maedhros a oriente, Morgoth dispunha agora de grandes forças e, antes de conseguirem chegar ao abrigo dos montes, Fingon e Turgon foram atacados por uma maré de inimigos três vezes superior ao total da força que lhes restava. Gothmog, capitão-mor de Angband, chegara e abriu uma cunha negra entre as hostes élficas, cercando o rei Fingon e repelindo Turgon e Húrin na direção do grande pântano do Serech.
Depois voltou-se para Fingon. Foi um embate sinistro. Por fim, Fingon ficou só, com a sua guarda morta em seu redor, e lutou contra Gothmog, at é um Balrog vir por trás dele e o envolver numa faixa de aço. Então Gothmog abateu-o com o seu machado negro e uma chama branca irrompeu do elmo de Fingon, quando ele se fendeu. Assim caiu o rei dos Noldor; e, já no chão, foi espancado com clavas e o seu estandarte azul e prata espezinhado no charco do seu sangue. A batalha estava perdida, mas ainda Húrin, e Huor, e o que restava da Casa de Hador permaneciam firmes com Turgon de Gondolin, e as hostes de Morgoth não conseguiam conquistar as passagens do Sirion.
Então, Húrin falou a Turgon, dizendo:
— Ide agora, Senhor, enquanto é tempo! Pois sois o último da Casa de Fingolfin e em vós reside a derradeira esperança dos Eldar. Enquanto Gondolin existir, Morgoth continuar á aconhecer o medo no seu coração.
— Agora Gondolin não pode permanecer oculta por muito tempo e, se for descoberta, cairá — respondeu Turgon.
— No entanto, se resistir durante um pouco mais, da vossa casa vir á a esperança para Elfos e Homens — disse Huor. — Uma coisa vos digo, Senhor, com os olhos da morte: embora nos separemos aqui para sempre, e eu não volte a ver as vossas muralhas brancas, de vós e de mim uma nova estrela nascerá. Adeus!
Maeglin, filho da irmã de Turgon, que se encontrava perto, ouviu estas palavras e não as esqueceu. Então Turgon acatou o conselho de Húrin e Huor e deu ordens para que a sua hoste iniciasse a retirada para as passagens do Sirion, e os seus capit ães Ecthelion e Glorfindel guardaram os flancos à direita e à esquerda para que ninguém do inimigo pudesse ultrapassá-los, porque a única estrada daquela região era estreita e passava perto da margem ocidental da crescente corrente do Sirion. Mas os Homens de Dor-lómin guardavam a retaguarda, como Húrin e Huor queriam; pois, nos seus corações, não desejavam sair das Terras Setentrionais e, se não conseguissem regressar vitoriosos às suas casas, ali permaneceriam até ao fim. Foi deste modo que Turgon abriu caminho para sul, até que, chegado atrás da guarda de Húrin e Huor, passou o Sirion e escapou. Desapareceu então nas montanhas e ficou oculto dos olhos de Morgoth. Mas os irmãos reuniram à sua volta o que restava dos homens fortes da Casa de Hador e, passo a passo, recuaram até ficarem atrás do Pântano de Serech e terem a corrente do Rivil à sua frente. Aí permaneceram e não avançaram mais.
Então todas as hostes de Angband se precipitaram para eles, cortaram a corrente com os seus mortos e cercaram o remanescente de Hithlum como uma maré alta à volta de um rochedo. Aí, quando o Sol se dirigia para oeste e as sombras da Ered Wethrin escureciam, Huor caiu, trespassado por uma seta envenenada num olho, e todos os valentes homens de Hador tombaram chacinados à sua volta. Os Orcs deceparam-lhes as cabeças e empilharam-nas como um monte de ouro no Sol poente.
Por fim, Húrin ficou sozinho. Então largou o escudo, pegou no machado de um capitão orc e brandiu-o com as duas mãos. Canta-se que o machado fumegou no sangue negro da guarda troll de Gothmog até ela definhar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava bem alto: “Aure entuluva! O dia voltará.” Setenta vezes soltou ele esse grito, mas, por fim, apanharam-no vivo por ordem de Morgoth, que pensava causar-lhe assim mais mal do que com a morte. Por isso, os Orcs agarraram Húrin com as mãos, que continuaram agarradas a ele apesar de lhes decepar os braços; e o seu número não parava de ser renovado, até que Húrin caiu enterrado debaixo deles.
Então Gothmog amarrou-o e arrastou-o para Angband, escarnecendo-o.
Assim terminou a Nirnaeth Arnoediad, quando o Sol descia para além do mar. A noite caiu em Hithlum e soprou do Ocidente uma forte tempestade de vento. Grande foi o triunfo de Morgoth, embora nem todos os objetivos do seu rancor tivessem sido concretizados. Um pensamento o transtornava profundamente e turvava a sua vitória com inquietação: Turgon escapara à sua rede, ele que fora, de todos os seus inimigos, aquele que mais desejara aprisionar ou destruir. Pois Turgon, da grande Casa de Fingolfin, era agora, por direito, rei de todos os Noldor, e Morgoth temia e odiava a Casa de Fingolfin, porque escarnecera dele em Valinor e desfrutava da amizade de Ulmo, seu inimigo, e também por causa dos ferimentos que Fingolfin lhe infligira em combate. Acima de tudo, Morgoth temia Turgon, pois de longa data, em Valinor, o seu olhar brilhara sobre ele e, sempre que Turgon se aproximava, uma sombra negra descia sobre o seu espírito, prenunciando que, algures no futuro ainda oculto pelo destino, sobre ele se abateria a ruína vinda de Turgon.

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