29 de novembro de 2016

Capítulo doze

NA VOLTA DAS CATARATAS DO NIÁGARA, LEXA VOA BAIXO E COM CAUTELA. NÃO queremos aparecer em nenhum radar de nave mogadoriana, caso tenham mandado reforços para a região. Estou ao lado de Lexa na cabine, a cachoeira e o campo de batalha se afastando atrás de nós.
A voz de Adam ressoa límpida e animada pelo rádio.
— Ouvi várias conversas da nave de guerra em Chicago. Estão dando pela falta de alguns Skimmers que enviaram para as Cataratas do Niágara. E aquela outra nave de Toronto está a caminho daí. Vocês saíram um pouco antes que eles chegassem — informa Adam. — O mogadoriano nascido naturalmente no comando dessa missão está preocupado, pois os Skimmers pararam de fazer contato. Acho que vocês são os responsáveis por isso, certo?
Eu dou uma risada.
— Não, foram os novatos.
— Ah, que bom — responde Adam, surpreso.
— Acabar com uma tripulação de mogs é como uma iniciação — comento.
Lexa ergue os olhos, franzindo a testa. Desvio o olhar.
— Deve ter ajudado o fato de haver ordens para levá-los vivos — acrescenta Adam.
— Sério?
— Sim. Acho que o comandante queria dá-los de presente a Setrákus Ra.
Reviro os olhos.
— Bem, ele se ferrou.
— De toda forma — prossegue Adam —, esse comandante está pedindo permissão para deixar Chicago, ainda mais porque as ordens para o bombardeamento não vieram. Ele quer vigiar a pedra de loralite nas cataratas para o caso de mais algum Garde se teleportar para lá.
Faço uma careta. Essa era exatamente a preocupação de Ella.
— Não vão encontrar nada — digo a Adam. — Nós cuidamos da pedra.
Ainda nas cataratas, enquanto Sam e Daniela levavam os quatro novos Gardes para a nave, fui até onde Ella mantinha uma estranha interação com a rocha azul-cobalto. Ela estava com os braços em torno do mineral liso, pressionando o rosto na superfície. A pedra pulsava energia lórica e, por um instante, tive receio de que Ella estivesse prestes a se teleportar. Ou fazer algo ainda mais estranho.
— Ella, você está pronta para ir? — perguntei, baixinho, sem querer perturbá-la.
A resposta não veio de imediato. A pedra de loralite, por sua vez, emitiu um forte brilho e ficou transparente por um momento, as veias de energia elétrica visíveis lá dentro. Então, um instante depois, a pedra foi se apagando e o tom de azul-cobalto sumiu, deixando a rocha como tantas outras que se projetavam em torno das quedas.
Ella virou, franziu a testa e limpou as mãos.
— Pronto — disse ela.
Eu não me mexi. Só apontei para a pedra.
— O que você acabou de fazer?
— Eu a desliguei — respondeu. — Não quero que ninguém se teleporte para cá, já que os mogadorianos sabem do local.
— Você pode controlá-las?
— Não sabia que podia, até tentar. — Os olhos de Ella estavam brilhando, literalmente. — Lá no Santuário, desde que eu... caí na energia, me sinto conectada.
— Conectada a quê? A Lorien?
— Sim. E à Terra. A tudo. Mas está passando. Seja lá o que Legado fez comigo, acho que os efeitos não vão durar. — Ella começou a caminhar para a nave. — Vamos. Preciso ter uma conversa bem desagradável com John.
Fiz que sim com a cabeça, como se entendesse o que estava dizendo. Concluí que era melhor deixá-la fazer o que quisesse. Ella já passou por muita coisa, viu muito mais do que eu poderia imaginar. É melhor que se encarregue do lado místico. Eu fico com o trabalho sujo.
— Seis, você está aí?
A voz impaciente de Adam chega pelo rádio. Eu estava viajando, lembrando de Ella e de seu efeito sobre a loralite. Do seu lugar atrás dos controles, Lexa olha para mim com a sobrancelha erguida.
— Sim, me desculpe, estou aqui — respondo. — E o que os mogs decidiram? Vão sair com a nave de guerra?
— Eles estão perdidinhos. Com Setrákus Ra fora da jogada, só ficam gritando uns com os outros. Alguns acham que o Adorado Líder iria apoiar a decisão do comandante de perseguir os Gardes; outros acham que ele está louco por questionar as ordens de Setrákus Ra, que os mandava ficarem onde estão. Vocês bagunçaram feio a operação deles, Seis.
Eu estaria mentindo se não admitisse que me sinto um pouco orgulhosa ao ouvir as palavras de Adam. Ainda assim, uma voz irritante no fundo da minha consciência sabe que não foi o suficiente. Uma hora, Setrákus Ra voltará, e essa vantagem temporária vai terminar.
— Toda a cadeia de comando está começando a se desmanchar — continua Adam, empolgado. — Quer dizer, não há nenhuma página no Grande Livro que diga aos mogs o que fazer se seu líder imortal de repente desaparecer. John e eu achamos que devemos nos aproveitar disso antes que Setrákus Ra acorde e reafirme seu controle.
— Você tem alguma ideia?
— Acho que sim. — Adam faz uma pausa. — Mas pode ser um pouco perigoso.
— O que não é perigoso? — rebato.
Quando Adam encerra a comunicação, Lexa olha bem nos meus olhos. Percebo que ela tem algo a dizer, então fico na cabine.
— Esses garotos que pegamos... — diz ela em voz baixa.
— O quê?
— Você acha que eles parecem prontos?
— Nós nove estávamos prontos quando entramos nesta nave? — respondo.
Lexa me encara. Olho de volta, e ela acaba voltando a atenção para a janela da frente, deixando o assunto para lá. Saio do assento, abro a porta da área de passageiros e observo os recém-chegados.
Vejo Fleur, o cabelo louro puxado para trás e molhado de suor e água do rio. Então entendo por que Nove ficou ofegante como um cachorro de desenho animado quando a viu no vídeo. Ela é linda. Só que os braços, os ombros e a lateral de seu pescoço estão com marcas de queimadura deixadas pelas armas a laser – pele queimada e bolhas. Ela estremece quando Daniela pressiona com cuidado uma compressa fria em suas feridas.
— Você vai ficar bem — diz Daniela. — John pode curar essas queimaduras em dois segundos. Você vai ficar novinha em folha.
Fleur assente, embora o movimento pareça bastante desconfortável. Ela precisa cerrar os dentes para conseguir falar.
— Você... Isso já aconteceu com você antes? — pergunta ela, com sotaque.
Daniela sopra uma de suas tranças do rosto.
— Na verdade, até agora escapei dos tiros. Mas só estou nessa história de defender o planeta desde que a invasão começou. Então, ainda dá tempo.
— Ah — responde Fleur, parecendo quase decepcionada. — Pensei que você fosse um deles. Ou que pelo menos, hum, já fizesse isso há um tempo.
Daniela sorri, mas balança a cabeça. Para mim, é uma loucura que Daniela esteja sendo vista como uma Garde veterana. Ela sobreviveu ao ataque a Nova York; não é pouca coisa. Mas não significa que não seja inexperiente. Nós, Gardes originais, tivemos anos de treinamento para uma batalha como aquela. Os mais novos não terão esse luxo. Estão sendo atirados direto no fogo.
Daniela percebe que estou olhando para ela. Então deixa Fleur com a compressa fria e vem se juntar a mim na entrada da cabine.
— Estão bem? — pergunto a ela.
— Eles vão sobreviver — responde. — O garoto dos insetos não me deixa cuidar dele.
Ela está falando de Bertrand. Eu o vejo deitado de lado na ala médica. Parece um garotinho assustado. Tem queimaduras de arma a laser, assim como Fleur, mas a maioria nas costas e nas nádegas.
— Por quê? — pergunto a Daniela.
— Ou ele não quer que eu veja sua bunda, ou está envergonhado por ter corrido dos mogs.
— Ele só correu depois de fazer os insetos obstruírem os motores de um daqueles Skimmers e derrubá-lo — digo. — Não tem do que se envergonhar. Cara, sabe quantas vezes eu fugi ou fiquei invisível para me esconder quando era nova? Não se pode lutar o tempo todo.
Daniela ri.
— Quando era nova — repete ela. — Você é o quê... dois anos mais velha do que eles? É, você é quase uma senhora, Seis.
— Eu me sinto assim — respondo, abrindo um sorriso.
Daniela está certa. Os quatro são apenas um ou dois anos mais novos do que eu, no máximo. Mesmo assim, parecem só crianças para mim. Até Ella parece mais velha. Mas talvez eu esteja confundindo idade com austeridade.
Olho para Nigel. Ele era a essência da confiança naquele vídeo do YouTube, o líder óbvio do grupo desordenado. Ele ainda está tentando transmitir isso, os braços esticados por cima do espaldar de dois bancos, tentando parecer supercasual em sua primeira viagem em uma nave alienígena. Sua roupa punk, salpicada de sangue e lama, parece uma fantasia de criança. Enquanto o observo, ele enfia a mão esguia no colete e pega uma embalagem toda amassada de cigarro. Encontra um que está quase inteiro e o coloca entre os lábios. Mas não consegue acendê-lo. Suas mãos estão tremendo demais.
— Não pode fumar aqui — digo a ele.
Não é verdade. Não existe nenhuma regra sobre fumar nesta maldita nave, e, se houvesse, não me importaria que quebrassem. Só quero dar a ele um motivo para não continuar a lutar com o isqueiro.
Nigel guarda os cigarros e abre um sorriso torto.
— Esperava que alienígenas tivessem uma perspectiva mais esclarecida sobre câncer de pulmão, com seus poderes de cura e tudo o mais — responde Nigel, estalando os dedos em um gesto ansioso. — Então, hã... vamos para a próxima briga agora ou...?
— Relaxa. Estamos indo para um lugar seguro. Se tudo der certo, chega de briga por hoje.
Eles nem sequer deveriam estar lutando.
Uma voz na minha cabeça. Na última fileira da área de passageiros, Ella olha por cima do encosto de um assento. Seus vívidos olhos elétricos encontram os meus.
O que você quer dizer?, pergunto por telepatia, me lembrando de quando Lexa quis saber se eu achava que o grupo estava pronto.
Eles estão sendo corajosos, mas há muito medo, diz Ella. Nós nascemos para a guerra, Seis. Até eu passei anos me preparando para essa possibilidade. Eles tiveram horas. Deveríamos protegê-los, não enviá-los para a batalha.
Como se aproveitando a deixa, Fleur começa a chorar baixinho. Daniela vai consolar a menina e acaricia suas costas.
Temos outra escolha?, pergunto a Ella. É agora ou nunca. Vencer ou morrer.
Quando tudo estava perdido em Lorien, os Anciões nos mandaram para a Terra para que continuássemos lutando, responde Ella. Setrákus Ra não quer destruir este planeta; quer colonizá-lo. Se não conseguirmos impedi-lo, estes novos Gardes podem formar o cerne da futura resistência.
É uma perspectiva sombria, comento.
Quando se pode ver o futuro, é melhor traçar planos para todas as eventualidades.
Tenho que admitir que Ella pode estar certa. Alguns desses garotos seriam só mais uma preocupação se os levássemos para o ataque à base de Setrákus Ra. Passaríamos metade do tempo tendo que garantir que não morressem.
Bem, acrescenta Ella, lendo minha mente. Há uma exceção.
Nós duas olhamos para Ran, com uma postura rígida na cadeira, as mãos nos joelhos, as palmas para cima, quase como se estivesse meditando. Dos quatro, ela é a única que não parece abalada. Estava pronta para nos explodir quando aterrissamos na queda d’água e provavelmente teria nos matado se Nigel não tivesse impedido. Ela já deve ter passado por muita coisa.
Ran percebe que a observo e olha para mim. De acordo com Nigel, ela mal fala nossa língua. Ran continua me encarando, então abaixa a cabeça e depois volta a se concentrar na parede à sua frente.
Qual é a dela?, pergunto.
Já sofreu grandes perdas e viveu momentos de muita dor, responde Ella, de um jeito enigmático. É uma guerreira. Então faz uma pausa. Sinto muito, Seis. Eu não deveria estar espiando a mente deles, nem lhe contando tudo isso.
Cruzo os braços e penso nesses quatro novos integrantes, nos Gardes humanos que estão surgindo pelo mundo inteiro, sabendo que Ella ainda está me ouvindo.
A Entidade avaliou os humanos para quem concederia Legados? Ou foi aleatório? Eles foram selecionados pelo potencial? A Entidade os colocou em lugares onde sabia que seriam necessários?
Você poderia fazer as mesmas perguntas a nosso respeito, responde ela.
Isso não é uma resposta.
Não?
Olho irritada para Ella, mas seus olhos estão fechados e ela não está mais na minha cabeça.
Talvez seja melhor não saber quanto de nossas vidas é sorte e quanto é destino.
Melhor seguir em frente. Se os mantivermos vivos por tempo o bastante, talvez um dia esses garotos reflitam sobre essas mesmas questões existenciais quando estiverem prestes a fazer algo heroico. Com sorte, nessa época estarei viva e já aposentada, morando em uma ilha.
Em uma ilha com Sam. Se existe alguém no planeta que merece os Legados que ganhou, é ele. Não pode ser só coincidência. A Entidade deve ter reconhecido tudo o que ele e sua família têm feito para ajudar os Gardes. Ele é o único caso em toda essa confusão cósmica de Legado que faz sentido para mim.
Observo Sam da entrada da cabine enquanto ele olha fixamente pela janela, mordendo o lábio, perdido em pensamentos. Já vi essa expressão antes, assim como já vi o que vem em seguida – ele ergue as sobrancelhas e se encolhe como se tivesse acabado de levar um banho de água fria. É a cara que Sam faz quando tem uma ideia.
Ele se levanta depressa e vem até mim, corando um pouco quando percebe que eu o estava observando esse tempo todo.
— Ei, posso dar uma olhada numa coisa na cabine? — pergunta.
Eu levanto uma das sobrancelhas.
— Você não vai derrubar a nave de novo, não é?
— Não está nos meus planos.
Dou uma olhada em Ella por um tempo, depois entro com Sam na cabine de piloto e fecho a porta. Lexa nos encara.
— Você ainda tem um daqueles dispositivos de camuflagem mogs instalados aqui, não tem? — indaga Sam.
Lexa faz que sim e aponta para um ponto abaixo do painel de instrumentos, onde vários fios foram arrancados do console e ligados a uma caixa negra de aparência comum.
— Ali.
Sam se inclina para dar uma olhada, depois pega a caixa nas mãos, observando com atenção.
— O que ele está fazendo? — pergunta Lexa para mim. — Eu deveria me preocupar?
— Sam me garantiu que não vai derrubar a nave.
— Ah, que bom — responde Lexa.
Enquanto Sam está concentrado no dispositivo de camuflagem, eu me sento no braço da cadeira de Lexa.
— Ei, me desculpe por ter perdido a paciência antes — digo. — Você está certa. Alguns desses novatos provavelmente não estão prontos. Eles se saíram bem hoje, talvez tenham tido um pouco de sorte, mas fora Ran e Daniela...
Balanço a cabeça.
— Então você entende o que quero dizer — responde Lexa. — Tudo bem que não sou nenhuma Cêpan, mas eles precisam de treinamento antes de fazer qualquer coisa.
— Não podemos esperar que todos eles lutem. Ainda não — concordo. — Seria quase cruel que eles se deparassem com Setrákus Ra agora.
— Sempre pensei isso em relação aos Gardes — admite Lexa. — E vocês tiveram anos de treinamento, graças ao encantamento de proteção. Não há nada protegendo esses humanos.
Sam para de analisar o dispositivo de camuflagem.
— Olha, não sei quanto aos outros humanos com habilidades especiais, mas não ficarei de fora de jeito nenhum quando formos enfrentar Setrákus Ra.
Talvez seja uma boa hora para mudar de assunto.
— O que você está fazendo aí, afinal?
Ele segura o dispositivo de camuflagem.
— Acho que, com meu Legado, sei lá... talvez eu possa falar com essa coisa. Meu pai e os cientistas têm tentado duplicar a frequência. Talvez eu consiga ajudar de alguma forma.
Se Sam estiver certo e puder usar o Legado para descobrir a frequência do dispositivo de camuflagem mogadoriano, então ele tem exatamente o Legado de que precisamos.
Isso não pode ser pura sorte, não é mesmo? É destino.
Sorrio para Sam.
— Se você conseguir, Sam, quando tudo acabar, vou dar um jeito para que ergam uma estátua em sua homenagem.
Ele sorri para mim e depois volta a atenção para o dispositivo. Olho por cima do ombro e penso mais uma vez nos humanos que passaram a nos acompanhar.
Sam, Daniela, esses outros...
Sinto que estamos caminhando rumo à batalha final. Mas esse não precisa ser o caminho deles. Podemos ir com tudo para cima de Setrákus Ra e mesmo assim não conseguirmos ganhar. Ou podemos proteger alguns deles e deixá-los prontos para continuar se falharmos.
Suspiro. Eu me pergunto se foi assim que os Anciões se sentiram quando nos mandaram para cá.
Não é fácil decidir o que podemos sacrificar.

5 comentários:

  1. cada vez que mudo um capitulo já sinto falta da historia toda vei mds n acredita que tá acabando

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  2. Coitada da Fleur, alguém chma o Gui pra consolar ela.

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  3. Onde e que estão os comentarios??!!

    Amei este cap.

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  4. Que legado foda esse do sam ❤

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  5. Essa Ran veio para causar muitos impactos, impactos explosivos para ser mais exato 💥💥

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