29 de novembro de 2016

Capítulo dezoito

— SERÁ QUE ELE ESTÁ BEM? — PERGUNTA ADAM.
Olho para o hangar por um instante. Ele não nota, já que seu rosto está enterrado em um emaranhado de fios e cabos. Está deitado de costas sob o painel aberto de um Skimmer. Suas mãos trabalham depressa para desconectar o dispositivo de camuflagem.
— John ainda está vivo, se é o que você quer saber — respondo.
Até agora, não senti nenhuma cicatriz nova queimar no tornozelo.
Adam se senta. Estou perto dele, agachada, a cabine deste Skimmer aberta. Tenho uma arma mog nas mãos e miro na porta de entrada, só para o caso de algum mog passar por John e interromper o que estamos fazendo. Até então, está tudo tranquilo.
— Não é isso o que eu quero dizer, e você sabe — fala Adam.
— No sentido psicológico?
— É.
Saímos do Skimmer e passamos para o próximo. Coloco o dispositivo de camuflagem em uma caixa de ferramentas que esvaziamos, empilhada entre as outras, que já enchemos.
— Acho que ele está tão bem quanto qualquer um de nós — respondo. — Quer dizer, o que você esperava?
— Não sei — admite Adam. — Mas ele anda me assustando um pouco.
Não falo mais nada. Seria mentira dizer que as mudanças que têm acontecido com John não são um pouco assustadoras. Ele ainda é o mesmo cara que eu conheci, em quem confio, que eu adoro... só que, com algo a mais. Com poder. E sede de vingança.
Talvez seja exatamente do que precisamos.
Um alarme dispara, e as luzes do hangar começam a piscar. Adam remove outro dispositivo de camuflagem antes de seus olhos arregalados me encararem.
— Acho que isso é um mau sinal — digo.
Adam dá de ombros.
— É o alerta máximo. Para intrusos ou ataques.
— Então eles sabem que estamos aqui.
— Iam acabar descobrindo. Se John agiu no mesmo ritmo que demonstrou aqui, esse alarme está uns vinte minutos atrasado.
Seguimos para o próximo Skimmer, e seguro a arma com um pouco mais de firmeza. Antes de subirmos a bordo, algo chama minha atenção. Um zumbido na central de comunicações do hangar. Coloco a mão no ombro de Adam.
— O que é isso?
Ele inclina a cabeça para escutar melhor, mas o alarme é muito mais alto. Corremos até o painel de controle a tempo de ouvir uma voz rude rosnando em mogadoriano.
Adam imediatamente olha para a entrada escancarada do hangar, aquela por onde entramos.
— Os Skimmers em patrulha detectaram o alarme. Estão pedindo confirmação.
Quando Adam explica isso, duas pequenas naves de reconhecimento entram no nosso campo de visão, deslizando em direção à zona de aterrissagem.
— Ótimo — digo. — Prepare-se para a luta.
— Não necessariamente — responde Adam.
Seus dedos pairam sobre um botão vermelho no painel de controle.
As duas naves se aproximam. Posiciono minha mão na nuca de Adam, pronta para nos tornar invisíveis em um instante. Mas, quando os Skimmers estão prestes a chegar ao hangar, Adam aperta o botão. Duas pesadas portas de segurança se fecham de repente, como mandíbulas de aço, isolando a área de aterrissagem. Os Skimmers não têm a menor chance de mudar de curso. Sentimos um tremor quando as duas naves se chocam na lateral da enorme nave de guerra. Adam e eu cambaleamos para a frente e para trás com o impacto. Ouço a explosão, e uma fina língua de fogo passa por entre as portas pesadas.
— Isso deve mantê-los afastados por um tempo — diz Adam.
Ele mexe em mais alguns controles no painel para trancar bem as portas.
— Perfeito — respondo. — Agora só temos que nos preocupar com os milhares de mogs presos aqui com a gente.
Como se estivesse esperando a deixa, a porta que dá para a nave se abre.
Imediatamente aponto minha arma naquela direção, o dedo no gatilho.
— Calma, sou eu — diz John.
Ele entra no hangar, acompanhado por BK e Dust, que estão com uma aparência monstruosa. Os dois Chimæra montam guarda na porta, os dentes à mostra, prontos para pegar algum mog que os tenha seguido. John respira com dificuldade e está soltando fumaça. Alguns pontos de sua camisa pegaram fogo, e há queimaduras de armas mogs em seus ombros, braços, peito e pernas. Ele não parece sequer notar. Adam e eu trocamos um olhar.
— John, você está...? — Balanço a cabeça, sentindo que é idiotice perguntar se ele está bem. — Você está ferido.
Ele para diante das prateleiras de armamento mogadoriano. Em seguida, olha para si mesmo, como se ainda não tivesse percebido.
— Ah, sim.
E começa a passar as mãos pelas feridas que vê nos braços, usando o Legado de cura para cicatrizá-las, depois faz uma pausa. Estreita os olhos por um instante, e as lesões pelo seu corpo começam a se fechar, todas ao mesmo tempo.
— Uau, isso é novo — digo.
— Pois é — responde John, também parecendo um pouco surpreso.
Seu olhar está meio distante, como se ainda estivesse sob efeito da adrenalina da batalha.
— Tudo anda... mais fácil desde que comecei a usar meu Ximic.
Adam vai até a porta para checar o corredor. Ele faz questão de coçar atrás das orelhas de Dust, o que, graças à forma bestial do Chimæra, faz um som de lixa. A cauda enorme do animal bate no chão de metal.
— Mais fácil — repete Adam, observando as condições de John. — Você... já matou todos eles?
John se agacha em frente às prateleiras de armamentos. Empurra de lado armas e baterias, procurando alguma coisa.
— Não. Eles são muitos — responde, sem hesitar. — Estou me reorganizando. Assim como eles. Não vão sobreviver a outra rodada.
— O que está procurando? — pergunto.
— Granadas, ou qualquer coisa explosiva — diz ele. — Algo que eu possa jogar neles.
— Há alguns galões de combustível ali — indico.
John olha para os vasilhames usados para encher os Skimmers. Ergue um com telecinesia.
— Perfeito. Eu acho. — Ele olha para Adam. — A nave aguenta a explosão de um desses, certo?
Adam franze os lábios.
— Provavelmente. Não daria para voar espaço afora nela, mas deve aguentar bem na atmosfera da Terra.
— Ótimo — responde John. Ele olha para a caixa cheia de dispositivos de camuflagem. — Vocês estão indo bem?
— Estamos quase terminando — digo.
Então Dust solta um grunhido baixo, e Adam se abaixa e rola, se afastando da porta. BK arqueia as costas, pronto para atacar. De onde estou, ouço a porta do hangar ser destrancada.
— Alguns deles estão chegando — sussurra Adam.
— Eles acham que estou ferido — diz John, e revira os olhos. — Imaginei que mandariam alguns pra cá, para tentar me derrotar.
John caminha direto naquela direção e, assim que a porta é aberta, seus olhos emitem um raio prateado ondulante de energia. Corro para seu lado a tempo de ver cerca de uma dezena de mogs armados, todos transformados em pedra, bloqueando o corredor em frente à porta. John ergue a mão, e o ar fica frio. Uma torrente de estacas de gelo do tamanho de pregos de trilhos ferroviários é disparada, desintegrando os mogadorianos de pedra.
— Você aprendeu isso também, é?
— Alguns Legados acabam vindo mais fácil que outros.
Com os mogs destruídos, John se vira para mim. É como se ele tivesse acertado uma mosca.
— Vou tomar a ponte. Uma ajuda seria bem-vinda.
Instantes depois, estamos seguindo John pelos corredores segmentados da nave de guerra. Parece que entramos em uma zona de guerra. Tenho que cobrir a boca e o nariz com a curva do braço para não inalar tanta cinza mogadoriana no ar, isso sem falar na fumaça preta acre que sai de uma seção onde parece que o inferno se materializou.
— Você fez tudo isso? — pergunto.
John confirma. Ele trouxe um dos tanques de combustível, carregando-o com telecinesia.
— Para que você precisa disso? — indago, apontando para o vasilhame. — Parece que seu Lúmen está funcionando muito bem.
Ele flexiona as mãos em resposta. Noto que a pele está em um tom forte de rosa, como se John tivesse acabado de mergulhar as mãos em água quente. Ao que parece, não se curaram com o resto dos ferimentos.
— Posso ter exagerado com o fogo — diz John, pensativo. — Fritado algumas terminações nervosas ou algo assim.
— Então imagino que você ainda tenha algumas limitações.
— É o que parece.
John franze a testa com a ideia. E acrescenta:
— De toda forma, há vários deles bloqueando a passagem para a ponte. É um gargalo. Lutei de igual para igual com eles o máximo que pude. Então, concluí que precisava ser criativo.
— Matar de forma mais inteligente, não mais violenta — comento, com sarcasmo.
Após uma curta caminhada através de mais detritos e carnificina, chegamos ao corredor que leva à ponte. John levanta a mão e nos faz parar, não nos deixa dobrar a esquina.
— A esta altura, imagino que eles estejam atirando em tudo o que se mova — avisa John.
— Estratégia lógica — responde Adam.
John olha para o tanque de combustível e o ar no corredor fica frio. Aos poucos, uma camada de gelo começa a se formar em torno do galão de metal até o recipiente ser camuflado. Quando a bola de demolição congelada está pronta, John forma pontas de gelo afiado por toda a superfície. Algumas racham e quebram, e ele tem que refazer o trabalho.
— Ainda não dominei a técnica — diz ele, enquanto Adam e eu observamos.
— Você está indo bem — respondo. — Caramba! Bem demais.
Após alguns minutos de trabalho, John tem uma pedra de gelo cheia de pontas com um núcleo de combustível.
— Você vai atirar isso neles — observo.
John faz que sim.
— Quer me ajudar? Uma força telecinética a mais seria ótimo.
Com meu consentimento, John se vira em direção a Adam e aos Chimæra.
— Isto não deve acabar com todos, mas com certeza vai assustá-los. Quando ouvirem a explosão, venham depressa.
— Pode deixar — responde Adam, preparando uma arma que pegou no hangar.
John segura minha mão, então faz o tanque de combustível coberto de gelo flutuar até ficar à nossa frente, para nós dois colocarmos a mão nele. Ficamos invisíveis, o tanque desaparecendo junto com a gente, e nos aproximamos da curva. Minha mão começa a ficar dormente, mas a temperatura não parece incomodar John.
Há marcas de fogo pelas paredes, da luta que John travou mais cedo com aquele grupo entrincheirado de mogs. No final do corredor, mais de uma centena de nascidos artificialmente cobre uma pequena escada, colados uns nos outros. O ar entre nós está enevoado e cheio de partículas suspensas. As armas deles estão a postos, mas tudo o que veem é o corredor vazio.
Isso muda quando John e eu atiramos com força a bola de gelo em direção a eles. O projétil fica visível assim que se separa de nós e deve parecer uma pedra vinda do nada.
Nós a jogamos em cima dos mogs, esmagando os primeiros deles. Em seguida, a fazemos correr de um lado para outro, empalando um grupo com as pontas de gelo.
Os mogs logo se recuperam da surpresa e começam a disparar contra nossa armadilha gelada. Explodem as pontas afiadas e começam a desbastá-la. Alguns parecem confiantes.
Mas então um tiro atinge o centro da esfera e detona o tanque de combustível. A força da explosão me derruba. John cai para o lado, batendo o ombro na parede, mas mantém o equilíbrio. Meus ouvidos zumbem. O corredor está cheio de uma fumaça negra sufocante, pelo menos até eu conjurar um vento para soprar aquele ar horrível até a ponte mogadoriana. Enquanto Adam me ajuda a levantar, vejo BK e Dust saírem correndo e saltarem nos poucos que sobreviveram à explosão.
— Isso funcionou melhor do que o esperado — observa Adam.
— Nem fala! — exclamo.
Da ponte, ouvimos gritos em mogadoriano. Não são gritos de guerra. São gritos de desespero e estão sendo respondidos por uma voz feminina fria, que eu reconheceria em qualquer lugar.
Phiri Dun-Ra. Alguém, provavelmente o capitão da nave, está falando com ela pelo rádio.
— O que eles estão dizendo? — pergunta John a Adam quando nos reunimos e seguimos em direção à ponte.
Adam se esforça para ouvir. Encontramos pequenos focos de fogo, pilhas de cinzas e pedaços de gelo derretendo ao longo da escada. Subimos com cuidado.
— O comandante está avisando que sua nave foi atacada. Está implorando por reforços. Quer falar com o Adorado Líder — traduz Adam.
— Estão mandando reforços? — pergunta John.
Adam balança a cabeça.
— Ela está culpando o comandante. Dizendo que ele não deveria ter deixado seu posto em Chicago. Diz que isso é uma punição por sua falta de fé, que ele não é digno de comandar.
— Ah, não se esqueça da gente, Phiri. Puxa vida — resmungo em deboche.
Caminhamos pela ponte como se a nave fosse nossa, porque, bem, ela é. Há uma cúpula de vidro que vai até o chão, o que nos dá uma ampla visão das cataratas. Uma dezena de pequenas estações está ligada a cadeiras, cada uma ocupada por um mogadoriano encarregado de pilotar a nave de guerra, e não de lutar. O comandante, com um uniforme preto e vermelho austero, cravejado de mais ornamentos do que qualquer outro, está diante de uma tela holográfica que transmite uma imagem da cara feia de Phiri Dun-Ra. Ela é a primeira a nos ver entrar na sala e, sem dizer mais nem uma palavra ao comandante, interrompe a comunicação.
— Pelo visto, ela não queria conversar — digo.
A maioria dos mogs logo pula de suas estações, todos prontos para atirar. Arranco as armas deles usando telecinesia, e John empala cada um com uma lança de gelo. Esses caras são mogs nascidos naturalmente, e, ao contrário dos nascidos artificialmente, não se desintegram tão rápido quanto os outros. Na verdade, alguns deles derretem apenas em parte, deixando para trás corpos deformados.
O comandante, de olhos arregalados, em um gesto que ele deve saber que é inútil, pega uma espada como a que o pai de Adam usava e grita:
— Vocês nunca tomarão minha nave!
Antes que ele termine a frase, um disparo arranca a cabeça do comandante. Todos nós viramos em direção a um jovem mog armado, seu rosto numa mistura de alívio e resignação. John levanta a mão para matar esse último sobrevivente.
— Não! — grita Adam, e pisa forte.
Uma onda sísmica faz a nave inteira balançar, e o chão onde Adam bateu o pé se amassa como papel-alumínio. John chega a perder o equilíbrio, mas só por um instante.
Ele usa o Legado de voo para flutuar até assumir uma posição vertical, olhando confuso para Adam.
— Não... não o matem — pede Adam.
O mog em questão, mais ou menos da nossa idade e bem forte, de cabelo escuro e curto, joga sua arma de lado e cai de joelhos à nossa frente.
— Meu nome é Rexicus Saturnus — diz o mog, embora eu tenha a sensação de que Adam já sabe disso. — E estou à sua mercê.

5 comentários:

  1. livro é show quero vê jhon matar esse povo todo

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  2. sdds Sara mds perdeu sentido sem ela, faz muita falta na historia

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  3. ha ha ha ,eu tava esperando que ele aparecesse!yup! ass.atrevido(gui)

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  4. acho q vai aparecer outros mogs com legados do numero 2 e 3

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