29 de novembro de 2016

Capítulo dezessete

HÁ UM PELOTÃO DA UNIDADE DE OPERAÇÕES ESPECIAIS CANADENSE ACAMPADO EM um trecho de floresta cinco quilômetros ao sul das Cataratas do Niágara. São cerca de cinquenta homens fortes, preparados para se deslocar rapidamente, mas também equipados com armas poderosas, incluindo mísseis terra-ar. De onde estão, não é possível ver a nave de guerra que viemos tomar. É óbvio que fizeram questão de ficar fora de vista. No entanto, alguns batedores estão de olho nas cataratas, transmitindo imagens granuladas da nave de guerra que paira no ar, dos Skimmers vasculhando a floresta ali perto, de tropas terrestres de guerreiros nascidos artificialmente inspecionando a pedra de loralite inativa.
Eles nos passam todas essas informações assim que aterrissamos e, fora isso, não interferem em nada. Até que gosto da hospitalidade canadense.
Se alguma coisa der errado na nave de guerra, a pequena equipe de Operações Especiais vai cobrir nossa retirada. Segundo o comandante, nossa sobrevivência é a única prioridade. Eles foram informados sobre nosso “valor estratégico”.
Tudo isso graças ao general Lawson. Acho que às vezes não é tão ruim ter o governo do seu lado.
Ainda na nave de Lexa, parada ao lado dos Humvees da equipe de Operações Especiais, visto um colete improvisado. Há um dispositivo de camuflagem na parte da frente, ligado a uma bateria costurada às pressas na parte de trás. É o que vai me permitir entrar na nave de guerra.
— Tem certeza de que não posso ir? — pergunta Nove, pela vigésima vez.
— Só dá para transportar dois — respondo. — Seis precisa vir para me cobrir com a invisibilidade, e Adam é fundamental para...
— Pilotar a nave roubada — interrompe Adam, balançando a cabeça.
Olho para ele, e o vejo passando a mão pelo cabelo preto. Parece cético. Na verdade, a maioria dos meus amigos ficou assim depois que revelei meu plano de tomar a nave. Adam continua:
— Sabe, eu só pilotei uma nave de guerra em um simulador. E também não é trabalho para uma pessoa só. Não se você quiser usar as armas.
— Confio em você — respondo. — Na pior das hipóteses, atiramos aquela coisa nas cataratas. Uma a menos para nos preocupar.
— Quantos mogadorianos deve ter naquela nave? — pergunta Marina, dirigindo a pergunta a Adam.
Ele me lança um olhar incerto antes de responder:
— Provavelmente milhares. Para tomar o controle da nave, teremos que alcançar a ponte.
— E onde fica a ponte? — pergunto a Adam.
— Presumindo que a gente entre pelo hangar, fica no extremo oposto da nave.
— Milhares — repete Marina.
— Pelo menos alguns deles estão patrulhando a área, por isso estão mais espalhados — acrescenta Adam, embora pareça apreensivo.
— É um exército — constata Marina, balançando a cabeça. — Isso é loucura, John. Roubar os dispositivos de camuflagem debaixo do nariz deles era uma coisa, mas enfrentar todos eles sozinhos...
— Não estaremos sozinhos.
Na frente do colete preso ao peito, abro um bolso com zíper. Na mesma hora, Bernie Kosar se encolhe até o tamanho de um rato. Com um olhar para seu companheiro Chimæra, Dust faz o mesmo. Deixamos os outros em Patience Creek com instruções para tomar conta dos Gardes humanos. Eu me agacho e pego os dois Chimæra, mantendo-os em segurança no bolso do colete. Marina ergue uma das sobrancelhas para mim.
— Então passamos de milhares contra três para milhares contra cinco — retruca Marina. Ela limpa a garganta. — John, eu sei o que você está sentindo...
Eu a interrompo com um gesto e olho em seus olhos. Sei que nossas chances não parecem boas. Sei que pareci um pouco frio nos últimos dias, talvez meio maluco, e tenho certeza de que a impressão que estou dando não melhorou nada desde o sonho sombrio que compartilhei com Setrákus Ra ontem à noite. Dá para perceber pela forma como todos me olham que pareço um pouco desequilibrado. Mas, mesmo que isso seja verdade, sei que vou conseguir. Sinto o poder correndo por mim. Uma nave de guerra não vai me deter.
— Você tem que acreditar em mim — digo a Marina, transmitindo segurança no meu tom, torcendo para que ela sinta minha certeza, para que veja isso em meus olhos. — Sei o que estou fazendo. Tenho tudo sob controle.
— Olha — diz Seis antes que Marina ou Nove protestem —, Adam e eu vamos priorizar tirar os dispositivos de camuflagem dos Skimmers sem sermos notados. Seguiremos o plano original. E John vai focar em deter os mogs. Se matar alguns milhares deles no processo, melhor. Se não, damos o fora.
Marina solta o ar pelo nariz.
— Como vamos saber se vocês estão em apuros?
Ella ergue a mão. A garota não falou muito desde o dia anterior, e fico feliz por isso. Na última vez em que conversamos, foi demais para processar. A centelha que brilha em seus olhos está um pouco mais fraca.
— Vou ficar de olho neles por telepatia — declara.
— E, se estivermos em apuros, vocês vão me ouvir chamar — acrescento.
— Ah — fala Marina, a cabeça inclinada. — Você pode fazer isso agora.
Lexa está apoiada na porta da cabine, ouvindo tudo o que dizemos sem fazer comentários.
— Tenho outro dispositivo de camuflagem instalado na nave — diz ela. — Vamos passar pelo campo de força sem problemas, mas vocês vão ter que deixar uma porta aberta para nós.
— Não será necessário — respondo.
Seis bufa.
— Vamos deixar uma passagem aberta para vocês, Lexa. — Ela me lança um olhar bastante expressivo. — Melhor prevenir do que dar uma de idiota.
— E levem alguns dos canadenses junto — acrescenta Adam, depois me encara. — Sabe, se der problema.
Verifico outra vez se está tudo preso ao meu colete e se o dispositivo de camuflagem está ligado, em seguida olho uma última vez para os outros.
— Tudo certo?
Como ninguém responde de pronto, desço a rampa de metal e saio da nave de Lexa em direção à manhã enevoada. Há um esquadrão de soldados parado ali perto, esperando para conferir se vamos precisar deles para alguma coisa, o resto da unidade cobrindo o perímetro em meio às árvores. Ainda é estranho, para mim, estar o tempo todo rodeado por homens e mulheres armados à espera dos meus comandos.
Ou da minha salvação. Respiro fundo e inclino a cabeça para trás, olhando o céu cinzento e as pontas finas dos pinheiros.
— Tem certeza de que sabe o que está fazendo? — pergunta Seis ao meu lado, em voz baixa, para que os outros não a ouçam.
Adam está alguns metros atrás, ainda na rampa.
— Eu tenho que fazer isso — digo a ela, também mantendo a voz baixa. — Preciso saber do que sou capaz.
— Sabe que isso soa um pouco suicida, né?
— Estou longe de ser suicida — respondo, irritado.
— Só lembre que você não está sozinho — responde Seis, e me dá um tapinha no ombro. — Conheço a sensação de querer se atirar para cima do inimigo até um dos dois ser destruído, mas...
Enquanto ela fala, uma lembrança surge na mente de Seis com uma força que não consigo ignorar. Ainda estou tentando dominar a telepatia. A parte mais difícil é deixar que os pensamentos dos outros sejam particulares. Eles chegam do nada na minha mente, indesejados, como essa visão de Seis em pé diante de um buraco enorme no chão, o vento rodopiando à sua volta, metal e detritos de rocha rasgando o ar. Do outro lado do buraco está Setrákus Ra, fugindo, enquanto a ataca com a própria telecinesia. E ao lado dela...
Ao lado dela está Sarah. Ela puxa o braço de Seis, tenta fazê-la sair do turbilhão de estilhaços em torno delas.
México.
Eu me encolho com a lembrança – tudo isso inunda meu cérebro em menos de um segundo – e Seis para de falar e me olha de um jeito engraçado.
— Você está bem?
— Estou — respondo, e me protejo telepaticamente, isolando minha mente.
Preciso de mais prática em vários desses poderes, mas não há tempo.
Seis franze a testa, mas não insiste. Ela enfia a mão no bolso e pega um velho celular de flip, então o abre para checar o display.
— O que é isso? — pergunto, querendo mudar de assunto.
— A tentativa de Sam de copiar o dispositivo de camuflagem — responde Seis, segurando o telefone. — Ele quer que eu teste antes que a bateria acabe.
Eu não sabia que Sam tinha progredido. O telefone não parece grande coisa, mas Sam nunca me decepcionou. Toco o dispositivo de camuflagem mogadoriano preso ao colete.
— Devemos usar esse negócio aí em vez disso?
— Hã, não vamos fazer testes enquanto estivermos voando — diz Adam, juntando-se a nós. — Se tudo correr bem, teremos várias oportunidades de experimentar o dispositivo de Sam.
Seis assente e guarda o telefone. Olho de um para outro.
— Prontos?
— Pronto — responde Adam.
Seis olha para nós.
— E como exatamente vamos fazer isso?
Dá algum trabalho até nos arrumarmos. Seis monta nas minhas costas, enganchando as pernas ao redor da minha cintura. Abraço Adam por trás, minhas mãos em volta de seu peito. De onde está, Seis passa a mão por mim e toca o ombro de Adam, para caso precise assumir e nos tornar invisíveis. Sinto BK e Dust se contorcendo no bolso, tentando ficar confortáveis. A cena deve ser ridícula; vejo alguns risos discretos e sobrancelhas levantadas nos rostos dos soldados ali perto, e tenho certeza de que ouço Nove assoviar para nós da nave de Lexa.
O constrangimento é só temporário, porque logo ficamos invisíveis.
— É você que está fazendo isso ou sou eu? — pergunta Seis.
— É melhor nós dois fazermos — respondo. — Só tenho esse Legado há alguns dias. Posso cometer algum erro.
— Ah, que encorajador — comenta Adam.
— Não se preocupe — digo a ele. — Só estou um pouco inseguro em relação a voar.
— Mas é o que nós...
Antes de Adam chegar a uma conclusão, eu nos lanço no ar. Não é a decolagem mais graciosa. Uso muito mais força do que o necessário, mas funciona, e logo estamos sobrevoando as copas das árvores. Lembro o que Cinco me ensinou — não pensar muito no que estou fazendo e confiar nos meus instintos. Isso significa ir rápido e seguir adiante. As mãos de Adam se agarram em meus braços, e ouço Seis rindo junto ao meu ouvido enquanto o vento açoita nossos rostos.
— Isto é tão estranho — diz ela. — Eu me sinto um fantasma.
— Vamos torcer para que isso não se torne realidade — grita Adam em resposta.
É estranho mesmo: estar invisível, voando pelo céu, como se fôssemos a própria brisa. Eu queria ter mais tempo, ou talvez a capacidade, para apreciar a sensação.
Tudo o que penso é no que está à frente, e que logo entra em nosso campo de visão.
A gigantesca nave de guerra metálica em forma de escaravelho paira sobre as Cataratas do Niágara, projetando uma sombra escura na água que corre. A nave não é tão grande quanto a Anubis, mas ainda é uma visão bastante assustadora.
— Lá está a pedra de loralite — anuncia Seis. — Aquela, hã, de um cinza comum lá embaixo.
Olho para um trecho da mata no mesmo nível do início das quedas. Não identifico a pedra daquela altura, mas é fácil ver o grupo enorme de mogadorianos vigiando a área. Também vejo os três Skimmers abatidos pelos Gardes humanos. Outras naves pequenas cruzam o ar em torno da nave de guerra, patrulhando a mata em círculos lentos. Voando, eu nos aproximo do alvo e vou observando tudo lá embaixo.
— John — chama Adam enquanto examino as patrulhas mogs. — John!
Levanto os olhos assim que ouço o zumbido do motor de um dos Skimmers. Está praticamente acima de nós, uma nave de reconhecimento voltando para a nave de guerra. O piloto não pode nos ver, mas a proximidade é perigosa. Eu nos viro para a direita e impeço por pouco nossa colisão com uma das asas finas do Skimmer.
— Merda! — grita Seis, com dificuldades para se segurar, suas unhas arranhando meu pescoço.
Rolamos no ar. O rodopio me desorienta, e por um instante estamos mergulhando rumo às corredeiras. Meus dedos se afrouxam, e Adam escorrega alguns centímetros. Eu o pego por baixo dos braços.
Rangendo os dentes, eu nos estabilizo e retomo o controle do voo. Os dois passam a se segurar com um pouco mais de força.
— Desculpem — digo.
— Retiro qualquer apreensão que tinha em relação ao seu plano — declara Adam, ofegante. — Se isso significa nunca mais voar com você de novo, roubo uma dezena de naves de guerra.
O Skimmer que nos fez perder o curso voa devagar até o hangar da nave de guerra, e as portas atrás dele ficam abertas. Apesar do susto, é o momento perfeito. Ganho velocidade, planejando atravessar aquelas portas.
Quando nos aproximamos da nave de guerra, o campo de força enfim se torna visível. Não é possível vê-lo até que já se esteja correndo em sua direção. Quando se está a cerca de cem metros, o ar ao redor da nave de guerra parece dobrar como vapor subindo da calçada em um dia quente. Noto uma fraca grade de energia, como uma rede em torno da nave, que emite um tom suave de vermelho. Isso me lembra a aura que rodeava a base na montanha em West Virginia, a que me deixou mal por dias depois que dei de cara nela.
— Temos certeza de que este dispositivo de camuflagem vai funcionar, não temos? — pergunto, tarde demais, já que não tenho habilidade de voo para frear tão rápido.
— Noventa e nove por cento — responde Adam.
Atingimos o campo de força.
E passamos.
Ouço um zumbido suave e sinto uma vibração elétrica nos dentes quando atravessamos o campo, mas, fora isso, estamos bem. Deslizo para a frente, diminuindo a velocidade para não bater quando entrarmos no hangar mogadoriano. Segundos depois estamos na nave de guerra, bem quando o Skimmer que seguimos aterrissa.
Eu nos mantenho flutuando por um tempo para entender o ambiente. Embora Ella tenha me mostrado a Anubis, nunca estive em uma dessas naves. O hangar é uma área imensa, com pé-direito alto e dezenas de Skimmers dispostos em fileiras. Parece que só um quarto da frota está patrulhando as cataratas, e isso é bom para nós, já que precisaremos das naves paradas para desmontá-las. Fora os Skimmers, não há muitas estruturas, apenas um monte de maquinário para consertos, algumas prateleiras com armas a laser e tanques de combustível.
Há também cerca de cinquenta mogadorianos, concentrados em tarefas diversas, incluindo a pequena tripulação do Skimmer que seguimos até ali. Eles saem da nave e começam a abastecê-la.
Devagar, desço nosso grupo até o chão. Os tênis de Adam guincham quando tocam a superfície, e ele quase perde o equilíbrio.
Nenhum dos mogs nota.
Seis, você está cobrindo Adam?, pergunto por telepatia.
Sinto o braço de Seis se tensionar nos meus ombros enquanto falo em sua mente. Ela muda de posição, provavelmente para segurar melhor o mogadoriano, o que é difícil, já que não podemos nos ver.
Estou, pensa ela em resposta, após um instante.
Solto os dois, mantendo apenas minha invisibilidade.
Vou esvaziar o lugar.
Você precisa de aju...?, pensa Seis de volta, mas encerro a telepatia antes de receber mais alguma coisa.
Eu não preciso de ajuda.
Com cuidado, arregaço a manga da camisa. Estava com algo que eu não queria que os outros me vissem usando, por medo das sensações ruins que poderia provocar. Na verdade, eu mesmo estou feliz por não ter que ver, já que continuo invisível. Se visse, talvez me perguntasse o que me tornei.
Zim.
Armo a lâmina que Cinco usava no braço. Nós a confiscamos em Nova York, e eu a peguei nas coisas de Nove hoje de manhã. É a ferramenta letal perfeita para um trabalho como este. Uma lâmina afiada e silenciosa.
Flutuo pelo hangar, para não fazer barulho. De um lado da sala, há um painel com um interfone e algumas telas de vídeo. Meios de comunicação. Dois mogs estão sentados lá no momento em que me aproximo, assistindo a transmissões ao vivo enviadas pelos Skimmers que patrulham as quedas.
Enfio a lâmina de Cinco na base do crânio deles, em sequência, tão rápido que um não percebe que o outro foi pulverizado.
Eu me viro. Nenhum dos mecânicos ou pilotos mogadorianos notou.
Não vou deixar que ninguém escape. Não vou deixar que ninguém peça ajuda.
Então, sigo eliminando-os metodicamente pelo hangar. Apanho os que estão sozinhos primeiro, os que estão isolados. Chego flutuando, bem na frente de seus rostos horrorosos, e a lâmina entra fácil. Não deixam escapar sequer um grito. A certa altura, talvez depois do décimo ou do vigésimo, minha mente entra no piloto automático. Parece que é outra pessoa ali. É como se só estivesse acontecendo na minha frente.
Eu sou um fantasma. Um fantasma vingativo.
Mato com rapidez. Com misericórdia. Uma morte melhor do que estes cretinos deram ao povo de Nova York ou a qualquer um entre as milhões de pessoas que assassinaram.
Sarah.
Depois de alguns minutos, um dos mogs grita em sinal de alerta. Isso ia acabar acontecendo, com todo o pó flutuando pelo ar, e restando apenas metade deles.
Começam a me procurar freneticamente. Um deles grita algo em mogadoriano e cai de joelhos, parecendo histérico. Outros fazem o mesmo. Não sei bem o que pensar. A maioria corre para as prateleiras de armas ou para a área de comunicações vazia.
Disparos zunem pelo ar, vindos da direção do painel de comunicação. Disparos de armas que não vejo. Parece que Seis e Adam pegaram os armamentos que queriam, depois voltaram para garantir que os mogs fossem eliminados. Bem pensado.
Acho que, no fim das contas, eu precisava mesmo de uma ajudinha.
Não demora muito para esvaziarmos o hangar. Despreparados e enfrentando adversários invisíveis onde achavam estar seguros, os mogs não têm a menor chance.
Quando o último mog é apenas poeira no para-brisa de um dos Skimmers, fico visível. Seis e Adam logo fazem o mesmo, ambos com armas a laser nas mãos. Adam vira para mim, de olhos arregalados, talvez um pouco atordoado pelo massacre.
— Merda, John — diz Seis, erguendo uma das sobrancelhas ao ver minha arma. — Isso foi bem tenso.
Ela corre até as portas duplas que separam o hangar do resto da nave e verifica se há reforços à espera. Nós eliminamos os mogs antes que eles acionassem o alarme, mas alguém passando por perto poderia ter ouvido os disparos. Seis levanta o polegar.
— Tudo certo.
Olho para Adam e aponto para o local onde um mog caiu de joelhos.
— Aquele que entrou em pânico. O que ele estava dizendo?
Adam engole em seco.
— Ele disse que Setrákus Ra os abandonou. Que suas vidas chegaram ao fim agora que o Adorado Líder está morto.
— Então alguns deles acreditam nisso de verdade — comenta Seis.
— Pois é — responde Adam. — Ainda mais depois que John começou a brincar de ira divina.
— Eles ainda não viram nada — digo.
Abro o bolso do colete e solto Bernie Kosar e Dust. Eles assumem suas formas de beagle e lobo e parecem felizes por sair do cativeiro. Poeira fareja o chão até se encaminhar para a saída onde está Seis. BK se senta ao meu lado e lambe meus dedos.
Ele parece preocupado, se é que isso é possível para um cão. Eu o ignoro.
— Ok, quanto tempo até perceberem que acabamos com todos os mecânicos? — pergunta Seis, aproximando-se depois de deixar Dust vigiando as portas.
Adam dá de ombros.
— Depende do horário da próxima patrulha.
— Não se preocupem — digo, caminhando em direção às portas duplas. — Concentrem-se em pegar os dispositivos de camuflagem. Eu cuido do resto.
— Tenha cuidado — pede Seis.
Passo pelas portas, com BK e Dust nos meus calcanhares. O pequeno corredor em frente ao hangar está vazio, então aproveito para me agachar e falar com os Chimæra.
Cubram minha retaguarda. Só conseguirei se nenhum deles chegar por trás, me pegando de surpresa. E não queremos que ninguém passe por nós e alcance Adam e Seis.
Enquanto eu falo, os dois Chimæra se transformam em criaturas mais imponentes. Ainda mantêm a forma canina, mas têm músculos fortes e garras afiadas, uma couraça resistente e presas terríveis. A única forma de diferenciar um do outro é a faixa cinzenta de pelo que corre pela coluna de Dust.
— Vocês estão ótimos, garotos — digo, então me levanto e começo a adentrar a nave.
A próxima porta tem uma eclusa de ar que me exige alguma força para abrir. Ao passar, vejo um corredor austero, com uma iluminação vermelha e portas de ambos os lados. Dois mogadorianos vêm andando na minha direção, estudando um mapa digital das Cataratas do Niágara.
Voo para a frente, apunhalo o primeiro no olho e agarro o outro pelo pescoço.
— Para que lado fica a ponte? — pergunto.
Ele aponta para a frente. Eu quebro seu pescoço.
Não quero que nenhum mog fique para trás, então vou de sala em sala. Deixarei a ponte por último.
A primeira área em que entro parece um alojamento. As paredes são em forma de colmeia, com camas estreitas em forma de pílula. Basicamente, mogs nascidos de forma artificial dormem uns em cima dos outros. Há centenas deles ali, em repouso, muitos recebendo por via intravenosa aquela gosma negra que Setrákus Ra tanto ama, ganhando acréscimos enquanto dormem. Imagino que durmam em turnos, descansando para o próximo ataque.
Hoje o despertador deles é uma bola de fogo.
Estendo as mãos e deixo sair dos meus dedos o máximo de fogo que posso controlar. Libero energia até minhas roupas começarem a soltar fumaça. Logo há uma parede de fogo, consumindo a sala. Sinto o cheiro de plástico queimado e um odor de podre que sei que é a gosma negra fervendo.
O fogo começa a se espalhar, fora do meu controle. Só então me ocorre que não quero causar nenhum dano irreparável à nave. Assim que esse pensamento me passa pela cabeça, a sensação nas minhas mãos muda. Paro de atear fogo na sala para pulverizar o espaço chamuscado com cristais de gelo.
Um dos Legados de Marina. Eu nem tinha percebido que o aprendera. Funciona de modo tão semelhante ao meu Lúmen que é como colocar um carro em marcha à ré.
Os mogs que escaparam dos beliches e evitaram se carbonizar logo são apanhados por uma rajada de estacas congeladas.
A confusão no alojamento chama a atenção dos demais. Quando eu saio, um pequeno grupo de soldados corre na minha direção. BK e Dust resolvem o assunto rapidamente, surgindo das salas ao lado quando os inimigos se aproximam.
Os mogs não estão preparados para isso, percebo. Nem um pouco.
Agora eles sabem como é.
Fico invisível antes de passar pelas próximas portas. De imediato, sou recebido por uma voz robótica alternando entre inglês e mogadoriano.
— Renda-se ou morra — diz a voz. — Baixem as armas.
E ainda:
— Adorado Líder.
É um curso de idiomas, percebo. Os mogs estão praticando inglês. E isso não é tudo...
Mais para o fundo da sala, vejo um estande de tiro. Alvos em forma de pessoas gritam e correm por um fundo em constante mudança, mostrando cidades famosas da Terra: Nova York, Paris, Londres. Há um painel digital exibindo a pontuação do atirador, que está estacionada no zero, já que ninguém está usando o programa.
Os mogs em treinamento me ouviram chegar. Deixaram de lado suas tarefas e formaram dois grupos, ladeando a porta, armas a postos. Se eu simplesmente entrasse aqui, eles teriam me eliminado.
Pena que eu sou um tipo diferente de alvo.
Caminho em silêncio até o meio da sala e fico visível. Os mogs gritam, surpresos, e começam a atirar. Depressa, fico invisível outra vez e voo para o alto, acima dos disparos. Eles acabam acertando uns aos outros no fogo cruzado.
Elimino os sobreviventes enquanto flutuo sobre eles. Apunhalo-os com a lâmina de Cinco, acertando-os com fogo e gelo a curta distância, transformando outros em pedra com um olhar.
Alguns deles tentam sair da sala. Mas BK e Dust estão à espera do lado de fora, recebendo-os com garras e presas.
Enquanto estou esvaziando a sala de treinamento, um alarme estridente dispara. O som ecoa por toda a nave e é acompanhado pelo pulsar rítmico da fraca iluminação vermelha que reflete pelas paredes e pelos tetos.
Já era o elemento surpresa. Eles sabem que estou chegando.
Quando rumo para a ponte, o corredor está livre de inimigos. Alguns passos atrás de mim, BK e Dust rosnam seu alerta. É quase certo que os mogs recuaram para uma posição defensiva, um ponto de estrangulamento, de onde podem disparar todo o seu poder de fogo sobre mim.
Bem, vamos ver o que eles têm.
Duas portas duplas altas surgem à minha frente. A ponte fica atrás delas. O alarme continua a soar; as luzes, a piscar.
Quando estou a uns cinco metros do meu objetivo, as portas se abrem com um ruído hidráulico.
Além delas há uma escadaria larga que leva para outro andar. No topo da escada, dá para ver de relance as janelas abobadadas da área de navegação da ponte, mostrando o céu azul do Canadá. O centro de controle da nave. Com certeza, o comandante nascido naturalmente está em algum lugar por ali.
No meu caminho estão cerca de duzentos mogadorianos. A primeira fileira está de bruços; a segunda, ajoelhada; a seguinte, de pé; a fileira atrás deles, no primeiro degrau; e assim por diante, preenchendo toda a escada. Cada um deles aponta uma arma para mim.
Há um tempo, isso teria me aterrorizado.
— Vamos lá! — grito para eles.
O corredor crepita de energia quando centenas de armas são disparadas ao mesmo tempo.

5 comentários:

  1. esse John cherou maconha e fumou pó.. só pode

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  2. mogadoriando:corram!a ira divina nos alcançou!a morte chegou!uaah! jonh:localizar,perfuarar,matar,localizar,perfurar,matar(modo automático) não tenho pena de lixo mogadoriano,a que se faz,a que se paga,mas caramba coitado do jonh,lidando com uma sede se vingança tao forte assim...bem,ja foi já aconteceu,agora meu amigo jonh,3 palavras:LOCALIZAR,PERFURAR,MATAR! ass.atrevido ps.meu nome é gui:)

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  3. krl ele vai derrotar milhoes de mogs sozinho

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  4. É só eu ou mais alguém imagina o adam parecido com um certo filho de Hades
    ;-)
    Ass:bia

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