29 de novembro de 2016

Capítulo dezesseis

— SÓ PRECISO DE UM POUCO MAIS DE TEMPO — DIZ SAM. — JURO QUE POSSO fazer funcionar. Quer dizer, pode até já estar funcionando. Não tenho como testar...
Está amanhecendo. Ele caminha em frente à nossa cama, falando rápido. Percebo uma pilha de latinhas de refrigerante amassadas com logos muito antigas na mesa atrás dele. Acho que a bebida, apesar de velha, não perdeu a cafeína. Eu o observo com paciência, um pequeno sorriso nos lábios.
— Meu pai tentou me dar um curso intensivo de eletromagnetismo — continua Sam. — Frequências, ultravioleta, hã, a ionosfera. Sabe o que é a ionosfera?
Faço que não.
— É, nem eu. Quer dizer, não sabia até meu pai explicar, e agora sei mais ou menos. A ionosfera é parte da atmosfera. É tipo o campo de força da natureza. As ondas de rádio se refletem nela. Se alguém quiser entender como um campo de força funciona fora da ficção científica, precisa começar por aí. Ou pelo menos poderia, antes de os alienígenas invadirem a Terra e mudarem nosso entendimento de, bem, da coisa toda...
— Você está fugindo do assunto, Sam.
Na noite passada, eu já estava na cama quando ele entrou no quarto. Ouvi, ainda meio sonolenta, Sam reclamar que Malcolm o fizera ir para a cama – como se ele fosse uma criança, e não alguém tentando salvar o mundo. Ele ficou se revirando ao meu lado por um tempo. Por fim, acabou se levantando para trabalhar na escrivaninha do quarto. E por trabalhar quero dizer que ele sussurrava insistentemente um monte de frases sem sentido para um monte de aparelhos portáteis – o já infame Game Boy, uma série de telefones celulares, tablets, um e-reader. Os sussurros de Sam me ajudaram a voltar a dormir.
— Desculpa. Então alguns dos engenheiros que trabalham no dispositivo de camuflagem tentaram aprofundar mais a explicação sobre campos de força... Sabia que os militares já fizeram um protótipo? Ele consegue impedir que as coisas entrem, mas não dá para ver através dele, então você ficaria protegido, mas cego. De toda forma, acho que eles acabaram concluindo que era um desperdício de tempo explicar tudo isso, já que tecnicamente eu nem terminei o ensino médio.
— Eles não sabem o que estão fazendo ao subestimar você — digo, com um sorriso sonolento.
Sam segura em uma das mãos o dispositivo de camuflagem mogadoriano que desinstalou da nossa nave e, na outra, um velho celular de flip, levantando-os e abaixando-os como se fosse uma balança.
— Você está debochando de mim?
— Não. Continua.
— Então, meu pai e a equipe de cientistas já descobriram mais ou menos como essa coisa funciona — prossegue Sam, segurando a caixa preta que permite que os Skimmers passem ilesos pelos campos de força das naves de guerra. — Há uma emissão de frequência ultrassônica que, de acordo com os caras lá embaixo, conseguiríamos copiar sem problemas. O que vem atrasando os cientistas é que a onda sonora parece... hã... engrossada, de alguma forma, acho que foi o que disseram, para que possa levar um pacote de dados até a nave. Esses dados identificam o Skimmer como aliado. O problema é que essa inscrição está em um código que não entendemos, que nem podemos criar ainda, em uma linguagem de programação que nenhuma das nossas máquinas consegue ler...
— Sam — interrompo assim que ele faz uma pausa para respirar. — Tenho certeza de que tudo isso é muito interessante, mas...
— Hã, não é, não — responde Sam, com um sorriso sem graça. Ele deixa de lado o dispositivo de camuflagem e esfrega a nuca. — Tudo bem, indo direto ao ponto...
— Por favor.
— Todos esses caras lá embaixo estão tentando copiar o tal pacote de dados. Mas é difícil, porque, primeiro, eles não têm tecnologia mog para trabalhar, e, segundo, se tivessem, ainda precisariam aprender a usá-la. Então eu estava pensando... por que não deixamos as máquinas fazerem o trabalho por nós?
— Sei... — digo, gesticulando para fazê-lo explicar mais depressa.
Sam levanta o celular.
— Estava conversando com esse cara aqui.
— Conversando com ele?
— Bem, falando com ele... ele não responde. Não da mesma forma que você, pelo menos. — Ele abre e fecha o flip, como uma boca. — Disse a ele para copiar o sinal do dispositivo de camuflagem. A coisa toda. Som e dados. Quer dizer, não precisamos entender como funciona, Seis. Só precisamos copiar.
Observo o celular com mais atenção.
— Por que você escolheu essa porcaria de celular?
— Para mim, é mais fácil trabalhar com equipamentos antigos, porque são menos complexos — explica ele, dando de ombros. — Eles ouvem melhor.
— E você acha que funcionou? Que ele ouviu você?
— Não sei — diz Sam. — Sei que está emitindo a frequência, mas não sei se também copiou o pacote de dados. A menos que...
— A menos que você use isso para passar por um campo de força.
— Bingo! — exclama Sam, e joga o celular para mim.
Eu o pego e dou uma olhada. O plástico está quente ao toque, e só tem oitenta e três por cento de bateria.
— Emitir nessa frequência consome muita bateria, e o aparelho está fazendo isso o tempo todo desde que ordenei — diz Sam. — E, quando desliga, o telefone esquece o que eu disse. Mesmo com essas limitações, acho que ele vai ser muito útil para a gente.
Faço que sim, lembrando que Lawson planeja coordenar um ataque mundial às naves de guerra. Se tudo correr bem hoje de manhã e roubarmos os dispositivos de camuflagem nas cataratas, então teríamos o quê? Centenas de dispositivos? Isso representaria centenas de mísseis para os exércitos do planeta inteiro bombardearem as naves gigantescas. Quantas vezes teremos que acertá-las para abatê-las? Tenho a impressão de que querem fazer todos os disparos possíveis, e um pouco mais.
Olho para um ponto atrás de Sam. Os aparelhos estão todos ligados a filtros de linha sobrecarregados. E vejo que ele deixou um extintor de incêndio perto, por via das dúvidas.
Ao notar para onde estou olhando, ele diz:
— Se estiver funcionando, já ensinei todos esses aparelhos aí a falar como o dispositivo de camuflagem. Estou ficando muito bom nisso. Acho. Parece que está ficando mais fácil, pelo menos. Embora talvez eu não esteja fazendo nada e isso seja apenas um placebo de Legado. — Sam suspira, cansado, e balança a mão como se quisesse deixar esse pensamento de lado. — Vou usar meu Legado em todo aparelho ao meu alcance até descobrir se funciona ou não.
Ele suspira de novo.
— Ou talvez eu só tenha desperdiçado um dos últimos dias da minha vida falando com um monte de celulares velhos como um maluco. Nada de mais.
Pulo da cama e beijo Sam.
— De jeito nenhum. Vai funcionar.
Ele sorri, segurando minha mão.
— Mas tome cuidado na missão, está bem?
— Quando eu não tomo cuidado?


Lá embaixo, no hangar, um grande espaço foi liberado, pois os Humvees foram estacionados de forma paralela, incrivelmente perto das paredes. Os veículos estão dispostos em ordem, um bem ao lado do outro, para que possam sair depressa a qualquer hora, em comboio. Pela precisão na maneira como os veículos foram posicionados, eu diria que foi obra de alguém com TOC ou com telecinesia.
Os novos Gardes – Nigel, Fleur, Bertrand, Ran e Daniela – estão em fileira no espaço aberto. Parecem sonolentos, nervosos, empolgados. Daniela acena quando me vê. Sorrio para ela.
Caleb e Christian estão separados dos outros adolescentes, mais perto dos fuzileiros navais que ficam de plateia do que de seus colegas Gardes. Como de costume, o rosto de Christian está impassível. Caleb, por outro lado, parece mais atento que o irmão.
— Vamos lá, primeira lição. Vocês todos têm telecinesia, certo?
Nove passeia pela fila de novos recrutas, esperando a resposta. Eu me encolho ao ver o que ele tem na mão. Uma pistola semiautomática, provavelmente emprestada, ou talvez roubada, de um dos soldados ao lado. Nove gira a arma no dedo indicador como se fosse um caubói de filme de faroeste.
Os novos recrutas assentem, respondendo à pergunta. Fora Daniela, todos parecem intimidados pelo modo “sargento” de Nove. E com razão, pois assim que respondem ele aponta a arma para cada um deles.
— Legal. Então quem quer tentar parar uma bala?
— Vou transformar seu traseiro em pedra se apontar essa coisa para mim de novo — retruca Daniela.
Nove sorri e desvia a arma. Se achasse que ele iria mesmo atirar em um dos novatos, eu me meteria. Mas ele não é tão burro assim. Eu acho.
Nigel olha para os colegas Gardes. Quando fica claro que ninguém mais vai se voluntariar, ele toma coragem e dá um passo à frente.
— Então tá, cara — diz Nigel, estendendo a mão hesitante em um sinal de “pare”, enquanto Nove aponta a arma para ele. — Eu vou tentar.
Nove sorri.
— Muito corajoso da sua parte, John Lennon...
— John Lennon era um palerma.
— Mesmo que fosse — continua Nove —, aposto que ele tinha mais bom senso do que seu traseiro magrelo. Parar balas é avançado demais para vocês. E, ainda que você conseguisse, se é para enfrentar mogadorianos, o que é o mais provável, aqueles cretinos usam armas de energia. Não dá para desviar energia com telecinesia. Então, qual é a coisa mais inteligente, segura e fácil de se fazer?
— Desarmar o inimigo — responde Caleb, mais ao lado.
Nove aponta para ele com a mão livre.
— Muito bem, gêmeo esquisito número um. — Então olha de novo para Nigel. — Vamos lá. Tira a arma da minha mão.
Nigel fecha a cara, irritado por receber um sermão. Mesmo assim, faz um movimento de pegar e arrancar. Nove tropeça para a frente como se tivessem puxado seu braço, mas continua segurando a arma com firmeza.
— Até que você tem bastante poder — comenta Nove. — Mas está puxando meu braço inteiro. Concentre-se na arma. Seja preciso. Mais alguém quer tentar?
Nove olha para o grupo. Estreita os olhos em direção a Ran, e a garotinha japonesa olha para ele, inexpressiva.
— Ela entende alguma coisa do que estou dizendo?
— Ela não fala muito — responde Fleur. — Mas achamos que entende.
— Hum — diz Nove.
Ele aponta a arma para Ran. No mesmo segundo, ela levanta a mão depressa e o cano da arma acaba amassado como papel, o mecanismo do gatilho beliscando o dedo de Nove. Ele deixa cair a arma com um grito.
— É isso aí! — exclamo.
Nove me lança um olhar irritado, mas percebo que é tudo encenação. Ele está tão impressionado quanto eu. Depois olha de volta para o grupo e balança a cabeça.
— Essa é outra maneira de fazer o que eu disse.
Há uma pequena agitação no elevador quando John, Marina e Adam entram. Ella e Lexa seguem logo atrás deles, junto com um saltitante Bernie Kosar. Por último chega Dust, de volta à forma de lobo, parecendo muito mais saudável do que quando o vi pela última vez. Todos se posicionam ao meu lado, com exceção de Lexa, que vai preparar a nave.
É hora de partir.
Ao perceber o olhar de John, Nove passa pelos Gardes humanos distribuindo armas descarregadas.
— Pratiquem uns com os outros — diz ele. — Volto mais tarde e espero que até lá estejam pelo menos dez vezes mais poderosos.
Daniela ergue uma das sobrancelhas, olhando além de Nove, para mim e para John.
— O que vocês estão fazendo? Vão deixar a gente aqui?
John gesticula, indicando que devemos seguir para a nave de Lexa, e todos nós – humanos, lorienos e mogadoriano regenerado – nos reunimos na base da rampa. Até mesmo Caleb e Christian se juntam à reunião improvisada.
— Vamos atacar de surpresa uma das naves de guerra mogadorianas — conta John, a voz rouca, com cara de quem não pregou o olho. — Só eu, Adam e Seis vamos de fato invadir a nave. Os outros serão apenas reforços caso algo dê errado. — Ele olha para os humanos. — Vocês devem ficar aqui, aprimorar seus poderes. Não precisaremos de vocês desta vez. É um risco desnecessário.
Fleur e Bertrand parecem aliviados. Daniela balança a cabeça e enfia o dedo no peito de John.
— Salvei seu traseiro em Nova York — diz ela. Então aponta para os outros humanos. — E agora sou rebaixada a recruta com esses idiotas?
— Você prometeu ação — reclama Nigel.
John suspira.
— Olha, fazemos isso há muito mais tempo do que vocês. Foi estúpido da minha parte pedir que entrassem nessa luta sem um treinamento adequado. Agora, a melhor coisa que podem fazer para ajudar a Terra é se aprimorarem, ficarem mais fortes. A ação vai chegar.
Nigel olha para Bernie Kosar.
— Vocês estão levando um beagle.
— Eles também têm um lobo — ressalta Bertrand. — Posso perguntar por que vocês têm um lobo?
— Esse cachorrinho faria você borrar as calças — diz Nove a Nigel.
— De toda forma, TALs não estão autorizados a participar dessa missão — intervém Caleb.
— Ei, não ferra, Capitão América — responde Nigel. — Estou pronto para lutar.
— Ah, garoto — retruca Nove. — Não está, não.
— Olha, o que John quer dizer é o seguinte — falo, cruzando os braços. — Caso a gente morra, o que não é tão difícil, vocês é que terão que salvar o mundo. Então, é melhor que não estejam lá.
— Que maravilha, Seis — murmura Marina, balançando a cabeça.
Nove bate as mãos.
— Vamos nessa.
Deixamos os Gardes humanos para trás e embarcamos na nave de Lexa. Minutos depois, estamos de cinto e saindo em disparada pelo túnel, fazendo o mesmo percurso do dia anterior.
Assim que a nave se estabiliza, John se levanta.
— Tem uma coisa que não falei quando ainda estávamos lá. Eu não queria que os militares ficassem sabendo.
Todo mundo olha para ele com curiosidade.
— Do que você está falando? — pergunto.
— Não vamos roubar só os dispositivos de camuflagem — responde John. — Vamos roubar a nave de guerra também.

3 comentários:

  1. não tem a opção TOOOOOOOP DEMAIS :D hahahahah esses finaizinhos de capítulo são os melhores! e espero que não seja só eu que imagino todos os personagens com os atores do filme kkkkk...

    ResponderExcluir
  2. É tao chato não ter nenhum comentario aos finais dos capitulos, da uma certa solidão kkkk é mais divertido quando vemos os pontos de vista dos outros :) Mas to AMANDOOOO esse final.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!