29 de novembro de 2016

Capítulo dezenove

PASSAMOS A CHAMAR O CARA DE REX PARA FACILITAR.
Descobrimos que essa é a segunda vez que Adam salva sua vida. A primeira foi após uma explosão na base de Dulce. Adam cuidou de Rex até ele se recuperar, e os dois viajaram juntos por um tempo. Rex acabou ajudando Adam a ter acesso às instalações mogs na Ilha Plum, onde faziam experiências com nossos Chimæra. Ele inclusive ajudou Adam a fugir quando os animais foram libertados. Rex pensava que isso era apenas para pagar sua dívida e que não significava trair seus companheiros mogs, embora fosse as duas coisas.
— Acha que dá para confiar nele? — pergunta Nove.
— Adam confia — respondo. — Eles passaram semanas juntos. Adam cuidou dele até que se recuperasse.
— É, mas... — Nove baixa a voz. — Goste ou não, Rex é um deles.
Estamos na ponte da nave de guerra, já sem ninguém além de nosso grupo. Levamos a nave pelo Rio Niágara, à procura de um lugar seguro para pousar e pegar o esquadrão canadense de Operações Especiais. Lexa trouxe Nove e os outros quando o céu ficou livre dos Skimmers desgarrados e as tropas terrestres mogadorianas foram eliminadas.
A nave de guerra cuidou de todos eles, sem nem sequer descarregar todo o poder de seus canhões de energia. Adam e Rex manejaram as armas, trabalhando juntos.
— Ele matou seu comandante — conto a Nove. — E nos ajudou a acabar com os mogs que estavam em patrulha.
— Desespero — responde Nove. — O cara teria feito qualquer coisa para salvar o próprio traseiro. Você sabe que os mogs nascidos naturalmente não dão a mínima para os nascidos artificialmente. Talvez Rex explodisse um milhão deles para poder continuar vivo.
— Talvez.
Nove e eu estamos no posto do comandante, olhando para as várias estações lá embaixo. Dali, podemos ver Adam e Rex pilotando a nave e conversando entre si sem serem ouvidos. Seis e Marina estão lá com os dois mogs, cuidando dos controles e conversando com Adam.
— Acha que eles não são capazes de mudar? — pergunto a Nove. — Adam mudou.
— Sim, mas sempre achei que foi porque ele transou com a Número Um ou algo assim.
Olho para ele com ar cansado.
— O que foi? — indaga Nove.
Balanço a cabeça.
— De toda forma, Rex é apenas um mog. Mesmo se quisesse nos trair, o que ele poderia fazer?
O que deixo no ar é que acabei de matar uma nave inteira de mogadorianos. Um único sobrevivente não vai impedir meu plano. Quanto à minha pergunta sobre a capacidade dos mogadorianos de mudar, não sei se quero saber a resposta. Fica mais fácil se pensarmos neles como inimigos cruéis que nunca dão ouvidos à razão e que são incapazes de entender o que é justiça ou misericórdia. Mas, quanto mais conheço Adam, e agora Rex, quanto mais vejo mogadorianos como aquele que morreu pensando que seu “deus” Setrákus Ra o abandonara, mais me pergunto se eles não são apenas um povo que sofreu lavagem cerebral. Com o tempo, será que eles poderiam mudar? Não vou parar e perguntar aos invasores se eles gostariam de ser reabilitados.
É tarde demais para isso. Mas me pergunto o que vai acontecer quando eu cortar o cérebro de sua sociedade distorcida – quando eu matar Setrákus Ra.
Pretendo descobrir em breve.
— Ele não tem más intenções.
Nove dá um salto, e eu fico tenso quando Ella aparece de repente atrás de nós. Ela abre um sorriso discreto, e por um instante me pergunto se está se divertindo por andar tão assustadora ultimamente. Seus olhos faíscam energia lórica enquanto ela nos observa.
— Deus do céu, Ella — diz Nove, recuperando o fôlego. — Você leu a mente dele ou algo assim?
— Sim — responde ela. — O mog tem dúvidas quanto à moralidade de seu povo desde que conheceu Adam. E tinha muito medo de tomar uma atitude, até que você lhe deu uma oportunidade, John.
— Bem, isso me faria dormir melhor, se eu planejasse dormir em qualquer lugar desta nave asquerosa — diz Nove, já perdendo o interesse. — Talvez devêssemos deixar Adam ter uma boa conversa com o resto dos mogs, hein? Dar uma de assistente social com eles.
Ignoro Nove e me viro para Ella.
— Sabe aquela pedra de loralite que você desligou perto das cataratas? Pode reativá-la?
— Posso — responde ela.
— Então vamos.
— Beleza, até mais! — diz Nove, franzindo a testa quando saímos.
Caminho com Ella pelos corredores vazios da nave de guerra. Os sinais da batalha que travei com a tripulação estão por toda parte: marcas de queimado, detritos, painéis danificados. Não comentamos nada até quase chegarmos ao hangar. Por fim, Ella quebra o silêncio:
— Você está bravo comigo.
Passo a mão pelo cabelo e sinto que está grudento e emaranhado pelo suor.
— Eu... não. Sim. Não sei.
— Você preferia que eu tivesse avisado Sarah. Ou você.
Balanço a cabeça.
— Não faz diferença agora, não é mesmo? — Diminuo o passo e viro para ela. — Em suas visões...
— Já disse: não vou mais ver o futuro.
— Quando você fazia isso, então. Você me via assim? Via o que eu me tornei?
— O que você se tornou, John? — pergunta Ella, inclinando a cabeça.
Mordo as bochechas antes de responder. Lembro-me de como Seis e Adam me olharam durante o ataque à nave.
— Algo que meus amigos temem.
Com hesitação, Ella estende a mão e acaricia meus dedos.
— Eles não têm medo de você, John. Eles temem por você.
Balanço a cabeça. Não sei bem o que ela quer dizer. Mas já perdi muito tempo. Ainda há tanto o que fazer...
É claro que, mesmo que eu esteja me esforçando ao máximo para não demonstrar, sinto um cansaço que nunca experimentei antes. É mais do que exaustão. É como se cada átomo do meu corpo estivesse se partindo, como se eu tivesse explodido, mas meu corpo ainda não soubesse. Fazer tanto poder passar através de mim, usar tantos Legados diferentes, isso tem um preço. O que me segurava no final da batalha era a adrenalina.
Mas ainda estou de pé. Isso significa que ainda estou na luta.
Entramos no hangar. Lexa está ao lado de sua nave, o modelo lórico se destacando como uma placa de néon entre todos aqueles Skimmers mogadorianos.
— Precisa de uma carona até lá embaixo? — pergunta Lexa, parecendo ansiosa para sair da nave de guerra.
— Não, eu me viro.
Seguro Ella pela cintura e voamos através das portas reabertas do hangar em direção ao céu azul. Meu corpo dói pelo esforço, mas não quero perder nem os segundos que Lexa levaria para ligar a nave.
É uma viagem curta de volta às quedas e à pedra inativa de loralite. Lá embaixo, vislumbro destroços de Skimmers, o que sobrou quando voltamos as armas dos mogs contra eles. Também vejo a maior parte de nossos amigos canadenses vigiando os arredores da pedra de loralite.
— Você está ficando bom nisso — diz Ella quando pousamos.
— É, obrigado.
Os soldados mais próximos ficam boquiabertos. Ainda não se acostumaram a ver pessoas voando, eu acho. Enquanto caminhamos até a pedra de loralite, Ella se vira para mim.
— Você vai atrás de Setrákus Ra em breve, não vai?
Eu faço que sim.
— Vai precisar do meu Dreynen — avisa ela.
— Eu sei.
— Na verdade, estou surpresa por você ainda não ter tentado aprendê-lo.
Olho para a nave de guerra pairando acima de nós.
— Eu precisava dos outros Legados primeiro. Precisava ter certeza de que eu conseguiria passar pelos guardas de Setrákus Ra e chegar até ele. O Dreynen só tem uma utilidade.
Assim como todos os outros Legados que já vi, sinto o Dreynen à espreita dentro de mim. Uma negatividade, um vácuo, uma ausência fria. Na verdade, não quero experimentá-lo. Parece errado.
Como se estivesse lendo minha mente, Ella me encara com um ar sombrio.
— Quando eu era prisioneira na Anubis, Setrákus Ra me fez treinar o Dreynen em Cinco. Não foi divertido.
— Treinar em Cinco. Eu devia ter pensado nisso — digo, meio que brincando, meio que falando sério.
— Setrákus Ra pode eliminar Legados com um pensamento. Ainda não cheguei a esse nível. Ainda estou presa à habilidade de carregar objetos. Talvez você aprenda mais rápido do que eu...
— Isso é um exagero — respondo. — Ainda nem tentei.
Ella franze os lábios.
— Na verdade, pode ser até melhor. Faça uma arma carregada de Dreynen, como Pittacus Lore. Assim, mesmo que ele consiga neutralizar seus Legados primeiro, você ainda terá com o que atacá-lo.
— Boa ideia — respondo, inconscientemente tocando a lâmina de Cinco, que está coberta e escondida no meu braço. — Obrigado.
À esquerda, um dos militares de alta patente se aproxima, receoso, segurando um telefone via satélite. Faço uma pausa para dar atenção a ele, e Ella segue em direção à pedra de loralite.
— Seu comandante está na linha — diz o militar, entregando o telefone.
— Eu não tenho comandante — respondo.
O militar dá de ombros, como se fosse apenas o mensageiro.
Pego o telefone, sabendo que é Lawson, à espera de um relatório do andamento da missão. Antes de falar com ele, vejo Ella envolver com os braços a pedra de loralite, que passa de um cinza opaco comum a um azul radiante em questão de segundos.
Alguns dos soldados em volta soltam uma exclamação de surpresa. Ella encosta o rosto na pedra, deixando a energia restaurada pulsar pelo corpo.
— Alô, aqui é o John — falo ao telefone.
— Que história é essa de tomar uma nave de guerra mogadoriana? — berra Lawson ao telefone.
— Achei que como eu já estava lá... — respondo.
Lawson suspira no meu ouvido.
— Bem, melhor acreditar que é uma monstruosidade a menos para abater. Por outro lado, isso deve ter deixado Setrákus Ra ainda mais furioso. Sinto que este cessar-fogo não vai durar muito se você continuar a tomar as naves dele.
— Não preciso de outras — digo, tranquilizando o general. — Temos o que você queria. Pode combinar com os outros exércitos. Diga a eles para ir até os locais com pedras de loralite que lhe mostrei, que meu pessoal vai entregar os dispositivos de camuflagem.
— Espero que seja o bastante — resmunga Lawson, hesitando. — Os cabeçudos aqui não fizeram muito progresso. Por outro lado, se você sozinho consegue abater uma nave de guerra... Mas, caramba, sabe que ainda tem algumas pairando sobre Washington e Los Angeles, não é? Isso sem falar da grandona em West Virginia.
Olho para o céu enquanto Lawson fala. Será que eu poderia fazer tudo isso outra vez? Tomar outra nave de guerra desse jeito que estou me sentindo? Flexiono as mãos, sentindo o ardor nos dedos do qual não consegui me livrar. Pedi a Marina para usar seu Legado de cura, mas ela disse que não verificou nada de errado. A única explicação plausível é que forcei demais meus poderes, e essa é a reação do meu corpo. Assim como não podemos curar exaustão, não podemos curar esgotamento por excesso de uso de um Legado.
Quanto ainda posso lutar antes de precisar de um bom descanso? Um descanso.
Que engraçado. Como se houvesse tempo, com naves de guerra pairando sobre cerca de vinte cidades, só esperando que Setrákus Ra termine seus experimentos doentios e fique mais forte, antes de atacarem. Não há tempo para descanso. Então, na verdade, a questão é até que ponto posso forçar a barra, quanto estrago posso causar até não aguentar mais?
Acho que vou descobrir.
— Verei o que posso fazer. Enquanto isso, cuide para que seu pessoal esteja pronto para atacar assim que possível.
Antes que Lawson responda, eu desligo.
Depois de terminar com a pedra de loralite, Ella volta para perto de mim. Jogo o telefone via satélite para ela, que o pega.
— Diga aos outros para combinar com Lawson a entrega dos dispositivos de camuflagem — peço. — Nós nos encontramos em West Virginia. Levem a nave de guerra. Vamos derrubar a Anubis e acabar com Setrákus Ra.
— Hum, está bem — responde Ella, e levanta uma sobrancelha. — O que você vai fazer?
Viro na direção da nave roubada, ainda visível no horizonte.
— Vou repetir o que fiz.
Ella arregala os olhos.
— Outra nave de guerra?
— Estou só me aquecendo.
— Espere, John...
Antes que Ella tente me convencer a desistir, estou de volta ao ar, voando como um raio para longe das Cataratas do Niágara. É assim que tem que ser. Preciso continuar em ação. Não importa quão cansado eu esteja, preciso continuar lutando.
O sol já está começando a baixar no céu. Levei a maior parte do dia para chegar ali, tomar a nave, organizar todo mundo. Devagar demais. Procuro voar mais rápido, e a sensação é estranha, como mergulhar para cima em uma piscina. Resolvo ir para Washington. Não sou um GPS, então não sei muito bem para onde estou indo, mas imagino que, se seguir na direção sudeste, vou começar a ver monumentos e cidades que reconheço, e acabarei chegando lá.
Digo a mim mesmo que assim será mais rápido, serei mais eficiente, e que, no final das contas, será mais seguro para os outros. Mesmo assim, deveria ter trazido pelo menos Bernie Kosar comigo. Ele e Dust foram fundamentais cobrindo minha retaguarda, e ele se acomodaria perfeitamente no bolso do colete até que fosse necessário.
Ah, droga. Meu colete.
Olho para meu tronco e então percebo. Sou um idiota. Fui atingido por vários disparos de armas mogadorianas durante o ataque à nave de guerra. O dispositivo de camuflagem que eu levava preso ao peito e a bateria que lhe dava energia estão destruídos. Estou voando por aí com duas peças de plástico inúteis amarradas ao meu tronco.
Balanço a cabeça de desgosto e solto o colete, deixando-o cair no chão lá embaixo.
Não posso voltar às cataratas. Ella com certeza já deu a notícia a essa altura, e eles vão tentar me convencer a não ir sozinho. Parte de mim sabe que é uma ideia maluca, que não resistiria a um confronto com Seis e Marina. Não, não posso voltar lá.
Vou ter que fazer uma parada em Patience Creek. O risco de ouvir uma lição de moral é menor por lá.
Por sorte, não estou muito longe do Lago Erie e, quando eu chegar perto, não vai ser tão difícil encontrar o caminho que Lexa fez hoje cedo. Depois de apenas algumas descidas em direções erradas – e um momento em que fiquei preso em um banco de nuvens, sem conseguir me orientar – vejo a pousada falsa às margens do lago.
Mesmo pegando algumas rotas erradas, a viagem ainda foi mais rápida do que com o Skimmer. E olha que comecei a usar esse Legado de voo há pouco tempo.
Meu plano é entrar voando na caverna alguns quilômetros ao sul do complexo, disparar através do túnel e entrar direto na garagem subterrânea, onde sei que estão os dispositivos de camuflagem. Entrar e sair em um instante. Só que algo não me parece certo quando me aproximo da cabana principal.
O sol está apenas começando a se pôr, fazendo as árvores projetarem longas sombras pelo chão. Sei que Lawson mantém alguns soldados escondidos ali, como sentinelas. Talvez a iluminação estranha esteja dificultando minha visão, mas juro que não os vejo.
Voo mais baixo e observo outra coisa. Há um SUV preto do governo estacionado no cascalho em frente à casa. Isso é estranho. O sigilo do lugar só tem se mantido porque todo mundo usa a entrada da caverna. Ninguém da equipe de Lawson cometeria a burrice de estacionar um veículo claramente do governo bem na frente de um local ultrassecreto.
Mas então lembro que emprestei um desses carros para outra pessoa. Por uma questão pessoal.
Mark James.
Aterrisso a alguns metros da varanda de Patience Creek. À esquerda, o balanço de pneu preso a um bordo velho oscila para a frente e para trás. Tudo parece tranquilo e normal, mas tenho a estranha sensação de estar sendo observado.
Logo vejo Mark. Ele está de pé na porta de Patience Creek, de costas para mim. Na última vez em que o vi, ele estava péssimo e me deu um soco na cara. Agora está rígido, a cabeça inclinada de uma forma estranha.
— Mark — digo com cautela. — Você voltou.
Ele se vira para mim, os movimentos espasmódicos. Percebo de imediato como sua pele está pálida, as veias negras formando uma teia de aranha no rosto. Os olhos estão arregalados. Ele está chorando, mas, fora isso, seu rosto não demonstra qualquer emoção. Percebo que seus dedos estão em forma de garra, como se ele estivesse paralisado.
— Sinto... sinto muito, John — balbucia com dificuldade.
— Mark...
— Eles m... m... me obrigaram.
Eu quase consigo me desviar a tempo. Três tentáculos de gosma negra se estendem na minha direção, a ponta de cada um afiada como uma broca. Um perfura a parte de trás do meu ombro, o outro atravessa meu quadril e o terceiro penetra minha axila quando levanto a mão para me defender. É como ser esfaqueado por algo vivo, algo que escava. Sinto os tentáculos entrando cada vez mais fundo. Meu Legado de cura começa a funcionar, tentando combatê-los. Quando isso acontece, uma queimação ácida toma conta de cada uma das minhas terminações nervosas. Eu grito e caio de joelhos.
— Nós o obrigamos — diz uma voz feminina alegre. — Mas não tivemos que nos esforçar muito.
Eu a reconheço do intercomunicador mog e das histórias dos outros. A mog nascida naturalmente diante de mim é Phiri Dun-Ra.
Giro na grama para olhá-la. Ela está sem o braço esquerdo, que foi substituído por uma massa retorcida da gosma negra de Setrákus Ra, espessa e oleosa, com a forma de uma árvore morta. Os três tentáculos que perfuram meu corpo saem direto dela.
Tento arrancá-los com as mãos, mas a gosma se endurece ao toque tornando-se afiada, e a única coisa que consigo é me cortar.
Tento afastá-la com telecinesia. Não funciona.
Nada funciona.
Enquanto eu me debato, vejo faíscas de energia lórica pulsando para fora de mim, percorrendo o tentáculo até Phiri Dun-Ra e gotejando para dentro do braço dela. Seus olhos reviram por um instante. Então, ela estende o braço normal, a palma da mão para cima.
A mão de Phiri Dun-Ra brilha. Uma bola de fogo se ergue da palma, as chamas em tom de roxo.
— Ah, isso é legal, John Smith — diz ela. — Eu poderia me acostumar com isso.
Mais mogs começam a emergir das árvores ao redor de Patience Creek. Não sei como não os notei antes; há tantos deles... Mas então vejo um sair de uma sombra – literalmente sair de onde não havia nada antes – e percebo que deram um jeito de se teleportar para lá.
Setrákus Ra conseguiu. Alguns desses mogs, como Phiri Dun-Ra, têm Legados.
Não... não vou chamá-los assim. São doentios.
Que palavra Setrákus Ra usou? “Acréscimos.” É o que esses poderes doentios são.
Um mog nascido naturalmente, velho, careca e de uma magreza inacreditável se coloca ao lado de Phiri Dun-Ra. Seus olhos são pretos e vidrados. Ele me ignora, olhando para Mark. O Mog Magro curva o dedo na direção de Mark, e tenho a vaga impressão de um som como gafanhotos andando por entre as folhas.
A gosma sob a pele de Mark se move, e ele é forçado a se mexer. Desce os degraus à frente de Patience Creek aos tropeços enquanto pega algo dentro do casaco, cada movimento parecendo forçado pela dor.
— Ouvimos histórias sobre essas Heranças que vocês, lorienos, receberam de seus pais mortos ou de quem quer que seja — diz Phiri Dun-Ra em tom casual, sorrindo. — Pequenas lembranças de seu planeta morto. Vou contar um segredo para você, John... O Adorado Líder também guardou algumas coisas. Lembranças. Troféus para ajudá-lo a se lembrar de sua primeira grande conquista.
Mark segura algo que parece uma corda, só que tem um tom forte de roxo e brilha.
Algo que não é deste mundo.
Eu reconheço o que é. Claro que reconheço. De uma visão do passado.
É o mesmo laço que Pittacus Lore um dia amarrou no pescoço de Setrákus Ra. Aquele que formou a cicatriz. Pela visão de Ella, lembro que o material é chamado de Voron e só nasce em Lorien, e que meu Legado não vai curar as feridas causadas por ele.
Mark se ajoelha e passa o laço pela minha cabeça.
Phiri Dun-Ra sorri para mim.
— O Adorado Líder achou que você apreciaria a ironia.

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