29 de novembro de 2016

Capítulo cinco

NÃO MUITO SIMPÁTICOS, OS GÊMEOS NOS GUIAM PELOS CORREDORES SINUOSOS do subsolo.
Logo estamos em frente à sala de conferências. Malcolm chega ao mesmo tempo vindo de outro corredor e acena para a gente. Os gêmeos entram depressa, provavelmente com medo de se atrasar, enquanto os Goode e eu ficamos do lado de fora.
Malcolm coloca a mão no meu ombro com delicadeza.
— Como você está, Seis?
Tento abrir um sorriso.
— Estou indo. — Olho para Sam, e o sorriso já não parece tão forçado. — Seu filho está me ajudando a manter o equilíbrio.
Sam fica vermelho e se vira para o outro lado. Malcolm lhe dá um tapinha nas costas.
— Que bom — diz ele. — Em tempos como estes, precisamos apoiar uns aos outros.
— Como está Marina? — pergunto a Malcolm.
Na última vez em que a vi, ela estava sendo levada em uma maca.
— Os médicos disseram que os sinais vitais estão fortes, e ela acordou faz algum tempo para comer um pouco — responde Malcolm. — John a curou, claro, mas quando os ferimentos são graves assim, é melhor não apressar as coisas. Ela está em repouso.
— Seis estava me perguntando sobre Lawson — conta Sam ao pai, baixando a voz, depois olha para mim. — Meu pai estava com a equipe de Walker em Ashwood até todos terem que evacuar o local. Então foram... para onde mesmo?
— A base Liberty. Eu conheci o presidente — responde Malcolm, com um sorriso divertido. — Ele me disse que é um grande fã das minhas pesquisas sobre comunicação intergaláctica. Um belo enrolão, aquele cara.
— O presidente está aqui agora? — pergunto.
— Não, deixei a base às pressas para me reencontrar com vocês, mas a última notícia que recebi foi que Jackson não ficaria parado em um lugar. É mais seguro assim.
— Sei bem como é.
— Um fato interessante que pesquei... — Malcolm baixa a voz, ainda que estejamos sozinhos. — A filha do presidente, Melanie, é uma de vocês.
Ergo as sobrancelhas.
— Mentira! E quando ela vai se apresentar ao serviço?
O sorriso de Malcolm se desfaz.
— Não acho que isso vá acontecer. Mas pelo menos significa que temos o presidente do nosso lado.
— E Lawson responde diretamente a ele...
Sam puxa o pai de volta para o assunto inicial.
— Ah, certo. Bem, é difícil saber qual é a dele — diz Malcolm, pensativo. — Parece ser um cara honesto, embora brutalmente pragmático. É bem conservador, como dizem. Mas, no fim das contas, todos nós queremos a mesma coisa.
— É. Queremos ver os mogs mortos — respondo, apontando com a cabeça na direção da sala de conferências. — Vamos ver o que ele tem a dizer.
Quando entramos, a maior parte do nosso grupo já está sentada em torno de uma mesa longa e oval. John está em uma das pontas, meio largado. Lexa está sentada ao seu lado, e os dois conversam baixinho. Ela estende algo para que ele veja, e reconheço o objeto: é um dos dispositivos de camuflagem que recuperamos no México. Aquele é o segredo para passar pelos escudos que cercam cada nave de guerra mog.
O olhar de John se fixa em mim quando entro, e eu quase congelo. Mas ele acena e volta à conversa com Lexa assim que respondo ao gesto. Acho que o plano é focarmos primeiro na tarefa que temos em mãos e deixar o luto para depois.
Melhor assim.
Nove está sentado do outro lado de John, e ao lado dele está Ella. Seus olhos ainda brilham, o que atrai a atenção dos militares reunidos na sala. Quando nos acomodamos perto deles, Nove se inclina para Ella.
— Então, chaveirinho de led, isso é permanente ou dá para desligar?
Observo a reação de Ella. Fico feliz em ver um discreto e constrangido sorriso se formar em seu rosto. A menina tinha uma queda por Nove, e a reclamação dele sobre o perpétuo show de luzes parece mexer com ela. Então ainda há um pouco da antiga Ella lá dentro. Antes de responder, ela se concentra, e a energia azul-cobalto que faísca em torno do seu corpo diminui um pouco.
— Melhor?
— Só me lembre de trazer óculos de sol quando você estiver por perto — responde Nove.
Ella sorri, desta vez de um jeito mais descontraído, e se inclina em direção a Nove.
— Seis. — Sam me cutuca. — Esta é Daniela. Nós a conhecemos em Nova York.
Do outro lado da mesa está a menina esguia e de tranças que vi pela primeira vez na conferência que Ella realizou durante nossos sonhos e depois de novo na noite passada.
A garota acena sem jeito, parecendo bem desconfortável por estar naquela sala.
— Prazer em conhecê-la — digo. — Sam me contou que você já desenvolveu um Legado além da telecinesia.
— Eu lanço raios pelos olhos que, pelo visto, transformam coisas em pedra — explica Daniela, com cautela. Ela mexe a cabeça, as tranças balançando. — Eu teria dado um jeito no cabelo se soubesse que vocês iam me dar esse superpoder estúpido.
— Entendi — diz Nove, apontando para Daniela. — Por causa da Medusa.
— É, idiota — retruca ela, revirando os olhos. — Você entendeu.
— Gostei dela — digo a Sam.
Embora ninguém tenha nos forçado a escolher assentos em lados opostos da mesa, há uma divisão bem clara entre nós e os militares, que têm o triplo de representantes.
Estão todos perto da cabeceira à qual Lawson está sentado. Quem está mais perto do nosso lado da mesa é Walker, uma divisa humana, pois os lugares dos seus dois lados estão vazios. Ela olha para as anotações à sua frente, e nenhum dos outros funcionários do governo faz qualquer esforço para puxar assunto.
Os gêmeos estão sentados um pouco mais para trás, um de cada lado de Lawson. Parecem guarda-costas. É claro que a maioria das pessoas nesta sala está armada e priorizando a proteção de Lawson. Além dos oficiais sentados à mesa, há um grupo de soldados próximo às paredes, os fuzis apontados para baixo, mas, ainda assim, carregados. Tenho certeza de que daríamos conta de todos eles, com armas e tudo, mas isso não significa que não fico um pouco preocupada por estar tão perto de todo esse poder de fogo.
Na parede atrás de Lawson há um enorme monitor touchscreen, com um mapa-múndi. Em vermelho, há áreas destacadas por assinaturas térmicas ameaçadoras: Nova York, Los Angeles, Londres e cerca de outras vinte cidades. Devem ser os locais em que as naves de guerra da Setrákus Ra estão posicionadas. Além disso, apenas nos Estados Unidos, há um monte de pontos verdes, muito menores que as naves de guerra, mas numerosos. Quando observo com mais atenção, percebo que aqueles sinais formam círculos em torno das áreas ocupadas pelos mogadorianos. Devem ser os grupos de que se falava, pequenos, mas organizados, e prontos para contra-atacar.
Quando desvio o olhar do monitor, vejo Lawson me examinando. Ele me observava enquanto eu estudava seu mapa. Acena discretamente com a cabeça para mim antes de voltar a atenção para o restante da sala.
— Acho que já podemos começar — anuncia, a voz casual, mas potente, com um ligeiro sotaque sulista.
Todas as conversas paralelas se encerram na mesma hora.
Olho em volta. Mark e Adam ainda não apareceram. Abro a boca para comentar isso, mas o militar já está falando.
— Para aqueles que ainda não me conhecem, eu sou o general Clarence Lawson. — A parte do “general” foi claramente direcionada ao nosso grupo, já que não tenho dúvidas de que todos os lacaios militares e do governo o conhecem muito bem. — O presidente me concedeu total autoridade para coordenar a reação do país à invasão mogadoriana.
Lawson faz uma pausa e espera uma resposta. Nenhum de nós diz nada.
Particularmente, não sei bem o que ele espera. Que a gente também se apresente? Viro para o restante da mesa e vejo que John não tira os olhos do general, esperando que continue.
Lawson cruza os braços e limpa a garganta.
— Por favor, me avisem se eu estiver indo rápido demais — diz ele, com um sorriso seco. — Não sou um homem de desperdiçar palavras e não costumo discutir questões de estratégia com adolescentes civis, sejam extraterrestres ou não.
— Entendemos tudo, não precisa se preocupar — diz John, com o olhar inabalável.
O general assente, em seguida se dirige aos humanos sem poderes na sala.
— Quanto ao restante de vocês, tenham em mente que estes jovens provavelmente mataram mais alienígenas hostis do que todos os setores das nossas forças armadas juntos. Respeitem isso e respeitem a presença deles.
Não sei o que pensar do general. Começa nos provocando por sermos jovens e em seguida nos exalta em detrimento dos próprios subordinados. Talvez seja mais um desses caras que tenta manter todos na linha com uma postura sempre negativa.
Lawson pega um tablet e aperta um botão. Um cronômetro aparece na tela atrás dele, destacado em vermelho e com os números em negativo.
— Passamos cerca de dez horas do prazo que Setrákus Ra ofereceu para a rendição incondicional, que incluía entregarmos todos os Gardes tidos como “renegados”, assim como os TALs. Que saibamos, só Moscou obedeceu ao ultimato. O governo russo já prendeu dezenas de jovens desde a noite passada. Nossos agentes relataram que muitos deles nem sequer manifestaram Legados e provavelmente são baderneiros, de quem o governo viu uma oportunidade de se livrar ao mesmo tempo que acalma os inimigos.
— Precisamos fazer algo quanto a isso — interrompe John, com a voz fria e enérgica.
— Concordo. Mas abusos humanitários cometidos por outros governos terão que ficar para depois — responde Lawson. — Para ser franco, devemos considerar um sinal de sorte o fato de somente os russos terem se submetido aos inimigos. Já nos comunicamos com vários de nossos aliados internacionais e os encorajamos a evacuar as cidades ameaçadas por naves de guerra, enquanto organizam em sigilo tropas de contra-ataque, para o caso de descobrirmos como passar pelos escudos mogadorianos. No entanto, se Setrákus Ra de fato cumprir suas ameaças e atacar da mesma forma como fez em Nova York ou Pequim, não sei como os outros países vão reagir. Acho que todos concordamos que esta é uma luta contra o tempo. A questão não é se Setrákus Ra vai agir, mas quando.
Ao ouvir falar em Nova York, Daniela pigarreia alto. John olha para ela, em seguida de volta para Lawson.
— Qual é a situação em Nova York? — pergunta ele.
— A mesma — responde Lawson. — Tropas mogadorianas controlam Manhattan no solo, e nossas forças continuam fazendo triagem para evacuar a população dos bairros mais afastados. Também não é uma prioridade no momento, a menos que a nave de guerra volte.
A informação deixa Daniela inquieta. Depois de ouvir Lawson, ela contrai os lábios e tamborila na mesa, como se precisasse extravasar parte da agressividade. Eu me pergunto se ela perdeu a família na cidade. Ou se seus parentes ainda estão presos lá.
— Vocês estão rastreando a Anubis? — pergunta John.
— Estamos. Depois de atacar seus amigos no México, a capitânia mogadoriana não retornou a Nova York. Nosso pelotão de reconhecimento diz que está em West Virginia, sobre uma montanha no Parque Estadual Hawks Nest. Alguns agentes ProMog que interrogamos afirmam que o lugar é...
— Aham, aham — interrompe Nove, entediado. — A maioria de nós teve o azar de ficar preso lá uma vez ou outra. É a grande base deles.
Quando Nove acaba de falar, o general deixa o silêncio se estender. Atrás dele, os gêmeos parecem irritados com a quebra de decoro. Lawson observa Nove como encararia um cadete rebelde, mas ele nem percebe. Já voltou a desenhar explosões em um bloquinho do exército americano.
— Sabemos sobre a base — diz John, em tom diplomático, ou talvez apenas sem emoção. — Já nos infiltramos lá antes, mas nunca tivemos recursos para atacá-la com eficiência até agora.
Lawson faz que sim com a cabeça e está prestes a falar. Mas, antes que ele comece, me inclino e olho para Ella. Talvez ela saiba por que o bisavô está parado em West Virginia e não cumpriu nenhuma das ameaças.
— Ella, por que Setrákus Ra parou a Anubis lá? O que... o que ele está esperando?
Todos os olhos se voltam para Ella, embora vários dos militares não pareçam muito confortáveis por obter informações de uma pré-adolescente que faísca energia sobrenatural. Ella parece igualmente desconfortável com toda a atenção e, quando abre a boca para responder, emite um clarão inofensivo de energia lórica.
— Você quer...? Quer que eu faça contato com ele?
— Ei, peraí... — falo.
— Você consegue fazer isso sem ele saber? — pergunta John. — Sem se colocar em perigo?
— Acho que sim. Se for rápida — responde Ella, e então, antes que alguém argumente, fecha os olhos.
O brilho que emana de sua pele volta a se intensificar.
Todos na sala ficam em silêncio, observando Ella com cautela. É quase como estar em uma sessão espírita.
— Ela é telepata — explica Sam, meio sem jeito, olhando para os rostos perplexos.
Arfando, Ella abre os olhos. Várias pessoas se assustam, inclusive eu. Não dá para evitar. A menina anda um pouco esquisita.
— Você está bem? — pergunta John.
Ella faz que sim, respirando fundo.
— Ele quase me sentiu — responde, uma ponta de orgulho na voz. — Sua mente está ocupada. Ele foi gravemente ferido. — Então olha para mim, e sinto um aperto no estômago. — Seus assistentes nascidos naturalmente o colocaram em um tonel para acelerar o processo de cura.
— Eles usam os tonéis para criar soldados... — John começa a explicar a Lawson.
— Nós já sabemos sobre os tonéis — interrompe Lawson, balançando a mão. — Você tem ideia de quando ele vai terminar... o que quer que esteja fazendo? Quando os ataques vão continuar?
Ella balança a cabeça.
— Os ferimentos que sofreu foram quase fatais — responde. — Teriam matado alguém sem seus aprimoramentos.
Sinto um pouco de orgulho por isso. Orgulho e uma dor enorme pela oportunidade perdida. Se eu o tivesse acertado com um pouco mais de força...
— Estamos falando de horas? Dias? Uma semana? — insiste Lawson.
— Não sei dizer com certeza. Mais do que horas, acredito, mas talvez não dias... — Ella inclina a cabeça, lembrando-se de outro detalhe que com certeza a preocupa. — Há outros lá embaixo com ele.
— Nos tonéis? — pergunta John.
— Sim — responde Ella.
Nove faz uma careta.
— Tipo, flutuando na gosma juntos? Que nojento!
— Os tonéis funcionam de outra forma, agora que são energizados pelo... pelo que ele roubou de nós — continua Ella. — Enquanto se cura, Setrákus Ra também está trabalhando. Ele está... Não sei ao certo. As pessoas ali... ele os está transformando em algo novo.
Não gosto nada disso. A julgar pelas expressões ao redor da mesa, os outros também não. Lembro-me da visão sobre o passado de Setrákus Ra que compartilhamos – como estava decidido a dar Legados às pessoas. Deve ser o que ele anda fazendo.
Antes que eu diga qualquer coisa, Lawson se intromete, a cabeça inclinada.
— O que Setrákus Ra roubou de vocês?
Ella olha primeiro para mim, depois para John, como se pedisse permissão para contar a Lawson que Setrákus Ra extraiu um monte de energia lórica do terreno no México.
Não sei até que ponto devemos ser honestos com essas pessoas; meu instinto diz que não muito. Tenho certeza de que todos do nosso lado da mesa já imaginam o que aquele cretino está tramando, mas não me parece sensato passar a informação para os militares. Não há necessidade de deixá-los ainda mais desesperados. Ou dar ideia das possibilidades que se abrem ao se explorar um recurso de um modo tão horrendo.
Fico aliviada ao ver John balançar sutilmente a cabeça.
Em seguida, Ella se volta para Lawson.
— Algo precioso para nosso povo — afirma ela.
Lawson parece entender que a história não para por aí, mas não insiste no assunto.
Em vez disso, acena para um dos guardas de pé junto à porta. O cara sai de imediato para buscar algo para o chefe. Não gosto nada disso. Acenos misteriosos são sempre um mau sinal.
— Tudo bem, então. Se estamos prontos para discutir oportunidades de contra-ataque... — começa o general.
— Finalmente — murmura Nove.
— ... todas as nossas fontes de informação devem estar disponíveis — conclui Lawson.
O oficial que Lawson mandou sair da sala volta. Ele vem à frente de dois guardas, ambos armados com fuzis e vestidos com traje completo de combate. Eles não tiram os olhos do prisioneiro que está entre os dois, mãos e pés algemados, com cara de quem está à beira de um colapso.
É Adam.

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