25 de novembro de 2016

Capítulo 7

Attleboro, Massachusetts

— Venha para mim, Debi baby... — Pony usou seu mouse como uma pistola, os dedos voando sobre o teclado de seu fiel computador Ponyrific. Ele tinha dado o nome de Ponyrific porque o tinha montado a partir das melhores partes das melhores máquinas para atender às suas necessidades especiais.
Ele fez uma pausa para alcançar uma fatia de pizza que destruiu em duas enormes mordidas. Pony era um hacker magro e eternamente faminto de óculos escuros, um velho profissional aos dezenove anos. Ele usava seu cabelo longo puxado para trás em um rabo de cavalo, mantendo-o longe do rosto. Sua “cara de cão triste”, como Nellie uma vez o chamou. Ele sorriu, pensando em Nellie. Ela era uma garota maluca legal.
Ele tinha recebido um monte de atribuições difíceis desde que começara a trabalhar para as crianças Cahill, mas isto era novo. Amy tinha pedido que ele encontrasse uma ligação entre Debi Ann Pierce e uma Deborah Starling, ou qualquer conexão com os Cahill. Amy estava convencida de que elas eram a mesma pessoa, e Pony confiava em Amy. Ela era uma criança afiada. Ele teria pensado que era incrível que ela tivesse apenas dezesseis anos, se não conhecesse tantos prodígios de computação que tinham a mesma idade.
Normalmente, esta tarefa seria mamão com açúcar para um cowboy digital – seu termo preferido – como Pony. Abaixo dele, até. Mas, enquanto vasculhava a Internet, procurando por cada menção a Debi Ann Perce, estava começando a ficar desanimado. Ele tinha chegado a nada. Havia um monte de material sobre Debi Ann, principalmente entrevistas de revistas sobre a sua receita favorita e sua vasta coleção de ursos de pelúcia. Em lugares onde pareceria óbvio lhe perguntar sobre seu contexto familiar, havia um silêncio estranho.
E então ficou claro para ele. Alguém havia feito uma limpeza. Uma limpeza muito completa.
O Sentido Pony começou a formigar.
Tudo o que poderia ser usado para conectar Debi Ann e os Cahill tinha sido excluído.
Completamente.
Isso era quase impossível de fazer. A internet era um vasto mar de palavras e imagens, incontrolável, cheio dos cantos mais escondidos do passado.
Essa era a sabedoria convencional, de qualquer maneira.
Você não deveria ser capaz de fazer uma limpeza na Internet.
Uma limpeza significava que alguém estava escondendo algo grande. Isso significava que havia uma informação suculenta ali fora em algum lugar para ser apanhada.
E apenas um cowboy poderia apanhá-la.
Iuuupi-uou-uou-ei.
Pony estalou os dedos, inclinou a aba de um chapéu de cowboy imaginário, murmurou, “Tarde, madame”, para a professora imaginária e se pôs a trabalhar.
Agora que ele descobriu o que tinha acontecido com qualquer indício de uma ligação entre Debi Ann e os Cahill, Pony tinha certeza de que poderia encontrar uma maneira de contornar isso.
Com uma mão ele tateou ao redor da caixa de pizza para mais um pedaço. Nada além de papelão.
A pizza tinha ido embora. Ele franziu a testa e voltou a trabalhar. Aqui, ele estava trabalhando nas mais elegantes instalações que já tinha visto – o comando central na propriedade Cahill – onde eles tinham tudo o que um hacker poderia querer: um satélite privado, equipamentos top-de-linha, segurança personalizada, firewalls pesados... tudo. Mas parecia que ele não conseguia pizza o suficiente para alimentar a equipe técnica.
Pony tinha o seu próprio canto privado no centro do comando, o vasto cômodo onde os garotos Cahill faziam as suas coisas. Era uma experiência nova e estranha para Pony trabalhar com outras pessoas, fazer parte de uma equipe. Esse não era o Modo Hacker, e levou algum tempo para se acostumar. Ian Kabra, o inglês esquivo, não era o cara mais amigável que Pony já conhecera, mas tinha um pensamento rápido, bom com estratégias furtivas. Pony dava a Hamilton Holt um amplo espaço – Ham era um cara grande e rápido para dar um soco, o que Pony estava ansioso para evitar. Mas ele tinha que admitir que Ham tinha um nariz para a segurança e era um hacker decente ele mesmo. Pony achava Jonah Wizard o melhor. Jonah era descontraído, mas elegante, e entendia que Pony não era apenas um cientista da computação – ele era um artista. Era necessário um sentido altamente refinado do ritmo e finesse para navegar na web do modo como Pony fazia. Ele era fã de hip-hop desde sempre, e Jonah era um de seus rappers favoritos.
Pena que o cara estivesse em hiato. Mas agora que Pony estava dentro do complexo Cahill, ele entendeu por que Jonah queria estar fora do centro das atenções. Para esta família, o centro das atenções siginificava nada além de problemas
Pony tinha feito um pesquisa sobre a família Starling até que encontrou uma foto antiga em um site de genealogias. Estava intitulada A FAMILIA STARLING, 1975, e mostrava quinze pessoas, adultos e crianças de todas as idades, que pareciam ter se reunido para um aniversário ou alguma outra grande ocasião.
Mas, estranhamente, Pony notou algo enquanto olhava mais de perto, ele estavam todos fantasiados. Um menino marcado como FRANK STARLING usava uma peruca branca arrepiada, óculos e um grande bigode branco à la Albert Einstein. Havia uma mulher, Candice Jonse Starling, vestida como Marie Curie, com tinta verde em suas mãos – para indicar envenenamento por radiação, Pony assumiu. Ela segurava um copo. Um homem de cabelos grisalhos apresentado como Eustace Starling segurava um triciclo à moda antiga com uma enorme roda da frente, fantasiado como Thomas Edison. Estavam todos, até o último membro da família, vestidos como cientistas famosos, e cada um tinha um nome abaixo... exceto uma garotinha com cerca de cinco anos de idade, segurando binóculos na frente dos olhos enquanto um chipanzé de brinquedo descansava a seus pés. Seu traje, Pony adivinhou, era uma versão jovem de Jane Goodall. Ela era a única sem um nome Starling ligado a ela. Talvez ela fosse filha de um vizinho e não fizesse parte da família, mas era improvável, já que ela estava fantasiada como os outros. Pony tinha um palpite.


Houve apenas mais uma pessoa – além do cowboy digital que era ele – com habilidade de hacking para esse tipo de operação.
April May.
Pony invadiu os arquivos do Boston City Hall para verificar o nome de solteira de Debi Ann. Lá estava preto no branco: Debi Ann Stapleton. Mas enquanto procurava, descobriu que o nome tinha sido “corrigido” recentemente. Por sua Alteza Suprema, sem dúvida.
Ele se sentou para admirar o trabalho dela. Ela era um gênio, e completamente. Ela não deixou passar nada. Era por isso que Pony suspeitava que ela o deixara seguir seu rastro desse modo. O que ela estava planejando? Estava tentando dizer-lhe alguma coisa?
Ou estava tentando enganá-lo?
Jonah Wizard passou pelo comando central, à procura de algo para comer.
— Ei, cara, você comeu toda a pizza?
Pony deu de ombros.
— Tenho trabalhado dez horas seguidas. Preciso de algo para me manter de pé.
— Parece que terei que comer sushi novamente — Jonah bufou. — Continue o que quer que você esteja fazendo.
Jonah estendeu a mão casualmente para Pony bater enquanto ele se afastava. Pony tentou agir com naturalidade quanto a isso, mas uau, Jonah Wizar simplesmente lhe cumprimentou com um high five. Como se não fosse grande coisa.
Trabalho em equipe tinha suas vantagens. Às vezes.
É um mundo novo, P-Man, ele disse a si mesmo.
Tocou mais uma vez no chapéu de cowboy imaginário e voltou a trabalhar.

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