18 de novembro de 2016

Capítulo 6

Para se certificarem de ter despistado os repórteres, Atticus fez o motorista levá-los em um passeio de alta velocidade por Túnis. Eles estavam em uma rodovia, e depois não estavam. Perto de um lago, na Habib Bourguiba, de volta na medina. Um silêncio tenso encheu o táxi o caminho todo. Amy olhava para fora de uma janela quanto Jake olhava por outra. Dan se contorcia entre eles.
— Para onde agora? — Dan perguntou a Amy, quebrando o silêncio. — Pro hotel?
— Aqueles repórteres estarão vigiando cada hotel em Túnis à nossa procura — Amy disse. — Att, diga ao motorista para nos levar ao seu pai. Precisamos completar pelo menos alguma coisa.
Minutos depois, o táxi derrapou até parar do lado de fora dos portões de um edifício ornamentado. Os três saíram do banco de trás enquanto Atticus pagava o motorista. Assim que Jake se apresentou para os guardas que estavam dentro da biblioteca, todos eles receberam crachás e guiados até uma porta dupla.
— Posso ver o livro de Olivia mais uma vez? — Atticus pediu.
Amy procurou em sua mochila e o entregou. Era incrível observá-lo, ela pensou. Noventa por cento das vezes, Atticus parecia como qualquer garoto de doze anos na rua, mas não quando lia. Ele então parecia mais velho que ela. Ele se perdia no que estava fazendo, sua testa franzida e os olhos tão afiados quanto vidro. Ela tinha as notas decodificadas em sua mochila, mas era como se Atticus nem precisasse delas. Quando ele resolvia um código, conseguia ler através dele.
Jake estava observando seu irmão, também, claramente tão impressionando quanto ela. Quando Jake percebeu Amy o olhando, ele se virou para ela, seu rosto brilhando em um sorriso. Amy sentiu um choque de nervos e se afastou dele, continuando a andar pelo corredor.
Pequenos escritórios forravam o hall dos dois lados, cada um com cientistas em ternos de tweed e uniformes de laboratório o suficiente para encher uma universidade. Todos estavam inclinados sobre pedras antigas e pergaminhos. Até seus murmúrios soavam inteligentes.
— Uau — Dan disse. — Esse lugar é o centro dos nerds. Amy, nós temos que arrumar um emprego pra você aqui.
Eles chegaram no fim do corredor, onde havia um escritório com uma placa escrita Dr. Rosenbloom.
— Ok — Jake disse. — Vocês dois esperam aqui enquanto Atticus e eu vemos o que podemos fazer.
Jake estava prestes a fechar a porta atrás deles, mas Amy enfiou a mão entre a porta e o batente. Ela chiou de dor, mas conseguiu a manter uma fresta aberta sem atrair a atenção de Jake.
O escritório do Dr. Rosenbloom lembrava a Amy de uma biblioteca que tinha sida atingida por um tornado. Livros, diários e jornais cobriam cada centímetro do lugar, a maioria deles sublinhada, destacada e empoeirada. Pratos velhos e canecas manchadas com chá estavam empilhados em torres ao lado de correspondências entreabertos. O lugar não parecia sujo, na verdade, parecia como o lugar de um homem com um milhão de pensamentos passando por sua cabeça de uma vez.
A única parte do escritório que estava bem ordenada eram as estantes cheias de livros relacionadas com a obsessão singular do Dr. Rosenbloom – civilizações antigas ou perdidas. Amy ficou chocada com a quantidade e a variedade deles. Livros dos Ancestrais Pueblo People e dos Minocas e dos Olmecas ladeavam outras civilizações perdidas e mais fantasiosas como El Dorado.  Duas estantes inteiras estavam cheias com nada além de livros sobre Atlantis.
Nós definitivamente viemos ao lugar certo, Amy pensou.
— Atticus! Jakey! — O Dr. Rosenbloom apareceu na porta dos fundos do escritório, sorrindo. Ele abriu os braços e puxou os filhos contra o peito, irradiando alegria. Amy tinha que admitir que o Dr. Rosenbloom era meio atraente. Ele era uma mistura perfeita de Jake e Atticus. Possuía os ombros largos e o queixo quadrado de um atleta, mas tinha as roupas amassadas e os óculos de aro grosso de um itinerante pateta/gênio.
O melhor de tudo era quão claramente ele amava seus filhos. Amy sentiu uma pontada no fundo de seu peito. Ela olhou para Dan e adivinhou por seu olhar sombrio e focado ao observá-los que ele sentia o mesmo. Um pai de verdade. Algo que eles tiveram por tão pouco tempo.
O Dr. Rosenbloom tirou pilhas de livros e papéis das cadeiras de seu escritório e abriu espaço para os garotos. Ele tinha dois sacos de papel na mão e os colocou sobre a mesa.
— Ok! Primeiro de tudo, eu peguei almoço para gente. Tajine malsouka! Isso vai deixar vocês malucos, rapazes. É uma espécie de torta de frango feita com massa folhada. Minha amiga Amina quem fez.
Jake e Atticus trocaram um olhar entretido. O pai deles sempre tinha uma amiga que fazia coisas para ele comer. O Dr. Rosenbloom abriu um saco e tirou o que pareciam ser fatias grossas de torta embrulhadas em papel encerado. O escritório se encheu com o cheiro de frango picante e pão quente. Amy teve que segurar no ombro do Dan para impedi-lo de escancarar a porta e entrar lá.
— Então me contem tudo! — o Dr. Rosenbloom pediu através de uma boca cheia com torta. — Como está a escola?
— Ótima! — Atticus respondeu, talvez rápido demais. — O estudo independente está indo muito bem.
— Incrível — Dr. Rosenbloom disse. — Harvard não vai saber o que os acertou quando você for lá. O que os trazem a Roma, no entanto? Estou feliz por terem vindo, é claro, mas foi tão repentino. Está tudo bem?
— Está! — Jake confirmou. — Nós só queríamos ver você. E o Atticus tem umas perguntas. Sobre seu estudo independente.
— Fico feliz em ajudar. O que é?
— Bem, estou pesquisando agricultura — Atticus explicou. — Particularmente sobre as maiores plantações da Roma e quem os produzia fora da Itália.
— Assunto fascinante.
Dan revirou os olhos e Amy deu uma cotovelada em suas costelas.
— É mesmo — Atticus continuou. — Mas eu continuo esbarrando em uma plantação do qual eu não consigo achar muito. Silphium.
O Dr. Rosenbloom assentiu ansiosamente, engolindo um bocado da torta.
— Hmm. Bem, isso é provavelmente porque não há muita coisa para se falar. Era uma das maiores e mais procuradas plantas de seu tempo, que foi de VII a.C. até o primeiro século d.C. Os romanos diziam que seu peso valia em prata.
— Então pra quê servia? — Jake perguntou.
O Dr. Rosenbloom riu.
— Para tudo, aparentemente. As pessoas a usavam como tempero em suas comidas e como remédio de uso geral. Curava tudo o que você conseguir nomear. Ou era o que diziam. Aqui, rapazes, peguem mais.
O Dr. Rosenbloom entregou a Jake e Atticus fatias frescas de torta.
— Bem, se era tão ótima assim, por que ficou extinta? — Jake perguntou. — Por que as pessoas não plantaram mais?
— Ninguém sabe realmente — o Dr. Rosenbloom disse, inclinando-se para trás e espanando migalhas de sua gravata amarrotada. — Talvez a tenham comercializado rápido demais e tiveram uma falha na safra. Algumas pessoas dizem que só crescia selvagemente e não podia ser cultivada, mas parece improvável.
— Era plantado aqui em Cartago?
— Cartago? — Dr. Rosenbloom perguntou. — Não, a plantação principal ficava em Cirene, se me lembro bem. É a Líbia de hoje. Fica perto, mas não me lembro de ter lido nada sobre ser plantada aqui Por quê?
— Só parte do projeto — Atticus falou rapidamente — como um tipo de caça ao tesouro. Nós devemos tentar achar um pouco, e meu orientador disse que poderíamos tentar aqui.
— Uma caça ao tesouro? De algo que não existe. Atticus, isso é uma total perda de tempo. Quem é o seu orientador? Eu deveria ligar para ele e tirar uma satisfação.
Dr. Rosenbloom pegou o telefone de sua mesa.
— Não! — Atticus disse. — Está tudo bem. Sério. 
Atticus se levantou para impedir seu pai, e quando o fez, o livro de Olivia caiu de sua mão para cima da mesa.
— O que é isso?
— Nada! É só...
Amy reprimiu uma exclamação quando o Dr. Rosenbloom pegou o diário da mesa e o abriu.
— Sério — Jake acrescentou. —Não é nada. Só...
Jake parou. Uma transformação quase física modificou o Dr. Rosenbloom enquanto ele lia. Seus traços suaves e brilhantes ficaram cinza pálido. Amy começou a entrar, mas Dan a deteve.
— Pensei que tivessem vindo aqui para me ver — o Dr. Rosenbloom disse com uma carranca obscura.
— Pai... — Jake começou.
— Olivia CAHILL!? — ele gritou, brandindo o livro em seus rostos. — Eu falei que não queria vocês envolvidos com os Cahill nunca mais.
  — Nós não estamos. Só estávamos...
  — Não minta para mim, Jake!
O grito do Dr. Rosenbloom ecoou no pequeno escritório.
— Nós falamos pra eles que veríamos o que poderíamos descobrir sobre o silphium. — Atticus disse. — E só.
— Vocês viram as histórias sobre eles nos jornais — o Dr. Rosenbloom falou. — Na TV. É disso que vocês querem fazer parte? Vocês querem ser famosos?
— Aquelas histórias não são verdadeiras! — Atticus protestou.
— Pense no seu futuro, Atticus. E no do Jake. Eu sei que você acha que a Amy e o Dan são seus amigos, mas se eles fossem, não deixariam que se envolvessem nessas coisas. — Ele ergueu o livro entre eles. — Os Cahill não ligam para ninguém além deles mesmos e seus jogos estúpidos, e nunca ligarão!
Amy desabou no chão atrás da porta, fechando os olhos como se pudesse bloquear tudo, mas as palavras eram como facas que a rasgavam. Houve um baque quando o Dr. Rosenbloom atirou o livro de Olivia sobre a mesa.
— Isso não é um jogo — Jake gritou. — É importante, e Amy e Dan...
Jake de repente ficou em silêncio, e Amy olhou de volta para a sala. O livro de Olivia estava aberto em cima da mesa e o Dr. Rosenbloom se debruçava sobre ele, completamente absorto em alguma coisa que chamou sua atenção. Ele pegou o livro da mesa e o colocou no colo, virando rapidamente as páginas.
— Pai? — Atticus chamou.
O Dr. Rosenbloom levantou uma mão e virou outra página. Os traços de mágoa sumiram de seu rosto e foram substituídos pela mesma expressão focada que Atticus exibia quando lia.
— Não é possível — o Dr. Rosenbloom murmurou para si mesmo, balançando a cabeça. — Isso não é possível.
— O que não é possível? — Jake perguntou. — Pai!
— Estava bem debaixo do meu nariz o tempo todo!
Jake estendeu a mão sobre a mesa e balançou o braço de seu pai, forçando-o a desviar sua concentração do livro. O Dr. Rosenbloom o fechou.
— Quero vocês dois em um avião de volta para Roma.
Jake começou a protestar, mas o Dr. Rosenbloom o interrompeu.
— Sem discussões. Vocês vão embora essa noite, e me ligam assim que chegarem.
— Mas o que você leu? — Jake perguntou enquanto seu pai atravessava a sala, enchendo uma maleta bagunçada com papéis e pilhas de livros de suas prateleiras.
— Essa noite, Jake!
O Dr. Rosenbloom vestiu um casaco e se dirigiu para a porta. Amy e Dan pularam para frente, se escondendo atrás da porta quando o Dr. Rosenbloom a abriu e atravessou o corredor rapidamente. Seus passos ecoavam no piso, passando por seus colegas de trabalho espantados. Papéis voaram de sua mala semiaberta. Uma porta no fim do corredor se abriu e ele foi embora.
Jake e Atticus se juntaram a Dan e Amy no corredor agora silencioso.
— Ahn... pessoal? — Dan disse. — O que diabos foi isso?
— Não faço ideia — Atticus disse, visivelmente abalado.
— Eu nunca o vi assim antes.
— É melhor vocês três voltarem ao hotel —  Amy falou. — Procurem no livro e descubram o que ele viu. Tem que ser importante.
— O que você vai fazer? — Dan perguntou.
— Vou para as ruínas de Cartago. Tem um museu lá também. Talvez eu consiga aprender mais alguma coisa.
— Eu vou com você — Jake falou.
— Não — Amy disse rapidamente, já correndo pelo corredor. — Você fica aqui e ajude os outros.
— Mas, Amy...
Amy abriu as portas duplas, tropeçando no calor forte de Túnis. Ela foi para a lateral do edifício e ficou fora de vista antes de se apoiar contra a parede. Ela ficou surpresa ao descobrir que sua respiração estava ofegante e seu coração, acelerado. As palavras do Dr. Rosenbloom ecoavam em sua cabeça. Os Cahill não ligam para ninguém além deles mesmos.
Atrás dela, as portas da biblioteca se abriram e vozes preencheram o pátio. Dan, Jake e Atticus. Amy se afastou da parede e desapareceu nas ruas e Túnis.

2 comentários:

  1. Não faço ideia — Atticus disse, visivelmente abalada.



    Tia, o Att é um garoto

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    Respostas
    1. Ops!
      E como dito outro dia, você é o irmão mais novo chatinho. Não o sobrinho :P

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