18 de novembro de 2016

Capítulo 5

Túnis, Tunísia

Menos de uma hora depois, eles acharam um hotel e Atticus guiava o grupo por Túnis na Avenida Habib Bourguiba. Amy tinha que admitir que Ian estava certo. A avenida era mesmo elegante. Ela não viu nenhuma discoteca, mas encontrou clientes de aparência elegante entrando e saindo de lojas ou descansando nas esplanadas. A própria rua estava cheia de árvores figueiras-benjamim bem cuidadas e postes de luz pretos ornamentados. Tudo isso ficava abaixo de um céu azul reluzente.
— Att — Jake disse. — Você tem certeza de que a biblioteca do papai é para esse lado?
— Sim. Por aqui e pela medina...
— Medina? — Dan perguntou.
— É como a parte velha da cidade — Atticus explicou. — Bem, a parte velha da cidade que ainda está de pé. Havia uma grande cidade neste local cerca de três mil anos atrás. A parte realmente velha da cidade são as ruínas púnicas de Cartago ao norte.
— Ruínas púnicas? — Dan perguntou. — Tipo, uma ruína de penicos?
— Não — Atticus disse. — Púnica como fenícia. Veja. Certo. Nós não sabemos tanta coisa concreta sobre Cartago, mas achamos que talvez tivesse sido fundada por uma rainha fenícia chamada Elissa. Só que, quando Virgílio escreveu sobre ela em Eneida, decidiu chamá-la de rainha Dido. De qualquer forma, o que nós sabemos sobre ela é uma mistura de lenda e possivelmente fatos.
— Isso inspira muita confiança, Atticus — Dan comentou.
— Dá um tempo! Estamos falando de, tipo, três mil anos de história aqui. De qualquer forma, a lenda e talvez o fato, com sorte, é que Elissa e seu irmão Pigmalião deveriam compartilhar o trono de Fenícia quando o pai deles morressem. Porém Pigmalião matou o pai deles e então assassinou o marido de Elissa. Não sendo suicida, eu acho, Elissa pegou parte de seu povo e fugiu o mais longe que podia de seu irmão.
— Aparentemente — Jake tomou a palavra — os moradores locais não ficaram muito entusiasmados em tê-la e a seu povo aqui, então ela disse ao rei que só queria a terra que pudesse ser coberta por um único couro de boi. Quando ele concordou, ela rasgou o couro em tiras superpequenas e o espalhou na colina inteira. Enganou o cara totalmente.
— Ou  Amy disse — ela fez o que tinha que fazer para proteger a si mesma e a seu povo.
— Certo — Jake respondeu. — O fim justifica totalmente os meios.
— Eu não disse isso!
— Então — Dan interrompeu enquanto se colocava entre Amy e Jake, os empurrando para lados opostos da calçada. — Se Cartago era tudo isso, então por que sabemos tão pouco sobre ela?
— Porque — Jake respondeu — Roma a apagou completamente depois da Terceira Guerra Púnica.
— Então depois dos romanos — Atticus continuou — esse lugar foi conquistado novamente pelos vândalos. Não, não esse tipo de vândalo, Dan. Eles eram uma tribo germânica que conquistou a maior parte do Norte da África e do Mediterrâneo. E depois pelos bizantinos e mais tarde pelos árabes. Então os franceses a conquistaram, e agora eles estão por corta própria.
— Cara, todo mundo queria um pedaço de Cartago.
— Era uma boa localização estratégica e a agricultura era incrível, aparentemente. Quando Roma estava no poder, eles chamavam o lugar de celeiro do império.
— Eles plantavam algum silphium? — Amy perguntou.
Atticus deu de ombros.
— Olivia parece achar que sim — Dan observou. 
— Tudo o que sabemos é que ela acha que silphium tinha uma conexão com Cartago — Atticus respondeu. — O que isso é, ninguém sabe. Leonardo da Vinci sugeriu que ela procurasse por isso na “Ilha do Ateniense”, mas já que Atenas era a capital da Grécia e não uma ilha, Olivia achou que era a ideia dele de uma piada.
— Hilária — Dan disse.
— Então o que é silphium, exatamente? — Amy perguntou.
— Algum tipo de planta. — Jake disse. — Nós nem sequer sabemos exatamente qual a sua aparência, já que está extinta faz tipo, mil anos.
Amy balançou a cabeça.
— Se não sabemos sua aparência, como podemos ter certeza de que está extinta? Quero dizer, pode haver bosques dessa coisa e nós não saberíamos.
Eles seguiram da Habib Bourguiba alinhada de figueiras-benjamim para uma ampla praça que parecia ser de mármore branco entrecruzado com padrões geométricos finos. Elevando-se na frente deles estava um grande edifício de pedra com um túnel cortado em forma de arco no meio.
— Bab el Bahr! — Atticus ficou maravilhado. — Antigamente a medina inteira era cercada por um muro de pedra. O muro se foi, mas esses portais permaneceram.
A praça estava cheia de pessoas se deslocando em todas as direções. A algazarra das conversas em francês e árabe se misturava com o som de uma fonte e com os gritos dos vendedores em barracas cobertas por guarda-sóis.
Amy segurou o fôlego quando eles começaram a descer a estrada para a medina. Era incrivelmente estreita, cercada por fileiras de barracas dos comerciantes encostadas contra os prédios de dois, três andares de ambos os lados. Os quiosques estavam cheios de mercadorias dispostas em mesas e penduradas nos tetos das barracas. Para qualquer lado que as crianças olhassem, havia pilhas brilhantes de bronze e estanho, além das cerâmicas elegantes e peças de tecidos em vermelhos, verdes e azuis ofuscantes. Becos escuros e artérias sinuosas deixavam a estrada principal em uma confusão de direções.
Quando Amy se virou para Dan, percebeu que ele fazia a mesma coisa que ela. Observava telhados e janelas abertas, examinava o rosto dos vendedores que pareciam estar por todos os lugares. Já era uma segunda natureza deles, procurar por uma emboscada. Algo chamou a atenção de Amy e ela saiu da rua para ir ao quiosque de um comerciante.
— O que foi? — Dan perguntou, se aproximando dela.
— Olha para isso, Dan, não são bonitos?
Amy pegou um dos potes de cobre do homem e o entregou ao seu irmão.
— Uma hora — ela sussurrou. — Na tenda do vendedor de tapetes.
Dan levantou o pote de cobre contra a luz, então o virou como se estivesse à procura de um defeito. Jake e Atticus apareceram atrás dele.
— O que foi? — Jake perguntou.
— Ah, nada — Amy disse para Jake apenas alto o suficiente para que ele pudesse ouvir. — Nós estávamos dando uma olhada nesses jarros para a Nellie. Você sabe como ela adora ser emboscada com presentes.
Dan colocou o pote no lugar.
— Cara com o chapéu? — ele perguntou. — Não parece com nenhum dos que a gente já viu.
— Quem sabe quantos capangas o Pierce tem — Amy sussurrou de volta.
— Tem mais um — Atticus disse. — Perto da banca de flores. Ocidental. Novo na área.
— Com você sabe?
— A cara dele está rosa —  Jake explicou. — Queimadura de sol.
— O que fazemos? — Dan perguntou.
— O seguimos. — Jake disse. — Vemos o que podemos descobrir.
Amy pensou nisso por um segundo, depois afastou-se da banca.
— Não. Nós vamos voltar para o hotel.
— Mas ele pode nos levar direto para a base deles — Jake sussurrou urgentemente. — Nós poderíamos ver quanto eles são, descobrir seus planos...
— Nos matar. Não — Amy reforçou. — Nós vamos seguir o plano! Pegar o silphium e nos mandar.
Mas Jake já estava em movimento. Amy tentou agarrar sua manga, mas ele era rápido demais. Jake se jogou no mar de compradores e desapareceu ao virar a esquina. Amy se virou para descobrir que o homem no chapéu tinha desaparecido também.
— Fiquem aqui! — ela gritou para Dan e Atticus antes de mergulhar na multidão. Jake sequer se preocupava que podia se matar?
Amy lutou para atravessar a medina lotada. Apesar de seus esforços, ela parecia esbarrar em clientes a cada passo, ganhando insultos em pelo menos três línguas diferentes. Ela procurou no caos por Jake ou pelo homem com o chapéu, mas tudo o que via eram os quiosques e corpos e estradas sinuosas.
— Ele tá ali! — Dan exclamou.
Jake apareceu na outra extremidade do beco, correndo por uma rua paralela à deles.
— Eu disse pra vocês dois esperarem! — Amy gritou por cima do ombro enquanto corria atrás de Jake.
Amy gritou interiormente quando Dan a ultrapassou, correndo para travessa que ligava as duas ruas. Jake tinha desaparecido de novo na hora que eles chegaram no beco, mas Amy viu o homem com o chapéu enquanto ele se dirigia para um templo maometano imponente.
— Se nós pegarmos aquela rua, podemos ficar entre ele e Jake — Amy falou.
Bronze e ferro caíram ruidosamente contra o chão quando Amy passou por mais vendedores, empurrando suas barracas. Ela ignorou suas exclamações, mantendo o olho no homem enquanto ele deslizava habilmente entre a multidão. Quando eles estavam a poucos metros da praça, o homem dobrou em um beco que tinha cobertura de pedra. Meio segundo depois, Jake saiu da multidão e o seguiu para lá.
Amy, Dan e Atticus pararam na entrada do beco, ofegantes. Amy calculou seu comprimento. Era mais longo e estreito que as ruas.  O sol forte só conseguia iluminar os primeiros metros, e qualquer coisa além disso estava num negrume tão escuro que parecia noite. Em algum lugar lá embaixo, Jake estava sozinho com um monstro.
Amy olhou para Dan, que arquejava atrás dela. Ele assentiu com a cabeça e os dois começaram a se mover. Atticus começou a se juntar a eles mas Amy o impediu.
— Precisamos de um vigia — ela sussurrou.
— Mas...
Amy colocou um dedo nos lábios para silenciar Atticus e então seguiu Dan dentro do beco.
Estava mas escuro do que ela imaginara e cheio de um cheiro azedo de lixo amontoado. Os sons da cidade e dos mercados foram silenciados pela as paredes do beco, enchendo o túnel com um silêncio sussurrante. Amy seguiu em frente, seu corpo em estado de alerta. Dan tinha deslizado mais a frente e estava perdido nas sombras. Amy sentiu o pânico tomar conta dela. Então um único raio de sol de uma abertura no telhado de pedra desceu a cerca de nove metros a frente. Houve um clarão branco quando o homem do chapéu entrou nele.
— Amy Cahill — o homem falou. Sua voz era agradável, mas tinha um sotaque britânico duro. — E Dan e Jake. Acredito que aquele seja Atticus Rosenbloom vigiando o beco. Estou certo?
Amy encontrou uma pedra de pavimentação solta a seus pés. Ela a pegou e a segurou, preparada.
— O que você quer?
— Conversar.
— Sobre o quê?
O homem se virou para ela, enfiando uma mão dentro da jaqueta.
— Ele tem uma arma! — Jake gritou quando saltou da escuridão a apenas alguns metros de Amy.
O homem estava preparado para isso, no entanto. Ele girou em direção a Jake, mas Amy saltou e empurrou Jake contra a parede de tijolos, se colocando entre ele e o mercenário britânico.
— Amy! Jake!
Era Atticus. Uma maré de corpos o empurrava, forçando-o a entrar no beco. Mais dos capangas de Pierce. Era uma armadilha! Amy se virou novamente para o homem de chapéu na hora em que Dan o acertou por trás.
— Dan!
Não havia nada a fazer senão lutar. O homem tropeçou com a pancada de Dan, mas conseguiu empurrá-lo para o lado, fazendo-o cambalear mais para dentro do beco. Era a distração perfeita. Jake apareceu ao lado de Amy e juntos eles pegaram o homem pelos ombros e o arremessaram na parede. Ele atingiu os tijolos com um som satisfatório, e Jake se virou para ele. Houve um estalo quando o seu punho atingiu o queixo do homem, fazendo-o cair na sujeira.
Jake olhou para Amy, mas eles mal tiveram um segundo para relaxar antes que uma explosão de luz branca preenchesse o beco. Amy cambaleou para trás, protegendo os olhos. Houve outro clarão, e mais um. Dessa vez vindo do homem do chão. Sua mão tinha saído da jaqueta e ele segurava algum tipo de dispositivo.  Não uma arma, mas...
— Sorriam, crianças!
Tudo entrou em foco. Não era uma arma. Era uma câmera. Um flash disparou e Amy se virou para a massa de pessoas para encarar um fuzilamento de flashes. Todo mundo estava gritando. Uma mulher ligeira em um terno bege empurrou um microfone na cara dela.
— Amy! Você planeja brutalizar outra pessoa quando estiver em Túnis ou só esse repórter inocente?
Amy abriu a boca, atordoada. Os repórteres avançaram, aglomerando as crianças para mais dentro do beco. Dan se levantou e juntou-se a Amy e Jake. O homem com o chapéu se ergueu, câmera na mão. Havia sangue escorrendo pelo seu queixo, mas ele estava sorrindo.
— Ei, Jake! Qual é a sensação de participar de uma conspiração criminosa global?
— Foi difícil arrastar seu irmãozinho inocente para isso também?
— Dan! Será que algum dia você limpará seu nariz sem precisar da aprovação de sua irmã mais velha?
— Nos deixe em paz! — Amy gritou e correu até eles, tentando passar através da multidão, que tinha se tornado tão espessa quando uma floresta. Mãos se estendiam até ela de todas as direções enquanto os repórteres empurravam seus cartões de visitas nos bolsos dela.
— Me liga, Amy!
— Qual é a sensação de ser pessoalmente responsável pela morte de Evan Tolliver?
Amy virou-se para repórter, sua mão se fechando em um punho. Mas Jake apareceu num lado dela e Dan no outro. Eles a arrastaram pela multidão enquanto os repórteres tiravam fotos atrás de fotos. Atticus os esperava na entrada do beco com um táxi parado em ponto morto, as portas traseiras abertas.
Jake e Dan jogaram Amy dentro do táxi e depois saltaram atrás dela. Atticus pulou para o banco da frente e bateu a porta.
— Vai! — Atticus gritou. — Agora!
— Inacreditável — Jake disse, segurando sua mão machucada. — Eles são piores que os capangas do Pierce.
Amy olhou para Jake do outro lado do banco de trás do táxi.
— É — ela disse. — E você deu a eles exatamente o que queriam.

3 comentários:

  1. O prêmio de família mais idiota do ano vai para a família Cahill

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    1. Eu vou concorda com essa afirmação
      . ~Tephi

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  2. Já ganhou!Já ganhou!

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