18 de novembro de 2016

Capítulo 4

Em algum lugar sobre o Mediterrâneo.

— Aí está — Atticus falou, sentado ao lado de Dan. — Seu futuro.
Um amontoado de folhetos coloridos estava espalhado no colo de Dan. Ele pegou um e o ergueu. O Atticus estava certo? Era esse o seu futuro?
— Você acha? — Dan perguntou. — Não parece um pouco... ridículo?
— Ah, cara, é completamente ridículo. — Atticus pegou o folheto de Dan. A luz de leitura do avião iluminava uma fila de malabaristas, engolidores de espadas e um palhaço de calças largas. — “Academia Bartleby de Palhaços Mundialmente Famosos.” Já escreveram palavras mais impressionantes? Como você pode não querer isso?
Dan e Atticus tinham ficado a noite anterior imaginando sobre a vida pós-Cahill de Dan junto com intermináveis rodadas de sorvete e refrigerantes italianos. Parecia uma piada no início, mas agora, olhando para os folhetos que eles tinham imprimido no hotel, parecia incrivelmente real. O coração de Dan acelerou enquanto eles os folheava. Cada um desencadeava uma saraivada de fogos de artifício em sua cabeça.
— Eu não sei. — Dan disse. — Se eu fosse para a American School em Roma, nós podíamos sair, tipo, todos os dias. E ainda tem o acampamento de beisebol. E o acampamento de astronauta! Eu podia ir totalmente nesse acampamento de astronauta.
— Você poderia ir em todos! — Atticus disse, seus olhos arregalados de entusiasmo. — É um dos privilégios de ser um dos garotos de treze anos mais ricos do planeta. Você pode fazer o que quiser.
Houve um ding e então a voz do capitão veio do alto-falante, anunciando o pouso em Túnis. Dan dobrou os folhetos e os guardou na mochila. Mesmo com o zíper fechado, Dan podia senti-los lá dentro, a mera possibilidade martelando contra o tecido. Ele colocou a mochila embaixo do assento em frente e se virou para olhar o corredor.
Amy estava sozinha na última fileira, com a cabeça enterrada no livro de Olivia. Exceto por uma rápida conferência com o piloto, foi lá que ela ficou o voo inteiro. Não havia nada de estranho sobre ela estudar, é claro. Apenas era estranho que ela estivesse fazendo isso sozinha. Certamente ela poderia ter usado o cérebro de Atticus ou sua própria memória fotográfica. Dan não podia de deixar de se sentir desconfortável. Amy tinha passado muito tempo sozinha desde a Turquia.
Não, ele se corrigiu. Desde Evan.
O primeiro namorado de Amy, Evan Tolliver, tinha morrido em uma missão Cahill meses atrás e, desde então, Amy passara cada vez mais tempo sozinha, treinando e estudando com uma intensidade que quase assustava Dan.
Dan, e quase todo mundo no mundo, achava que seja lá o que estivesse começado entre ela e Jake seria bom para ela, mas por alguma razão, toda vez que os dois estavam no mesmo lugar, tudo se transformava no tipo de discussão que Dan costuma ter com sua quedinha da quinta série. Quem sabe. Talvez fosse onde Amy e Jake iam parar – puxando cabelo e derrubando o sorvete da mão do outro.
Não que Dan estivesse ajudando com o estresse de Amy. Tinha acabado de anunciar que depois que eles impedissem Pierce, ele deixaria a família Cahill. Deixaria a irmã. Talvez Amy fosse quem precisasse de um mês ou dois na relaxante Academia Bartleby de Palhaços.
Assim que o avião pousou na pista e deslizou para o portão privado, Dan levantou-se.
— Ok, pessoal! — ele anunciou. — Sejam bem-vindos ao belo centro de Túnis! A temperatura local é quente, com uma pequena chance de ficar incrível e ridiculamente quente. Aqui está o plano! Atticus e Jake, vocês dois vão falar com o seu pai e ver o que conseguem descobrir sobre o silphium. Amy e eu iremos às ruínas de Cartago e ver o que achamos lá. Ian e Hamilton, precisamos de um hotel e possivelmente de um guia local.
— Estou certo de que posso encontrar algo no mínimo aceitável — Ian disse.
— Ótimo. E quando estiver lá, não se esqueça de zombar das escolhas de moda dos locais. Eles amam isso. Agora, Jonah e Pony...
— Dan, espere!
A cabeça de todo mundo se virou para o fundo do avião, onde Amy estava de pé com sua mochila pendurada ao ombro.
— Mudança de planos — ela falou. — Exceto por Dan e eu, todo mundo irá voltar para Attleboro.
Jake ficou ereto em sua poltrona.
— O quê? Por quê?
Amy levantou a mão para silenciar todo mundo.
— A única maneira de encontrarmos a tempo tudo o que precisamos para o antídoto é se nós nos dividirmos em equipes.
Amy ergueu vários maços de papéis preenchidos com sua caligrafia.
— Eu copiei o livro de Olivia em maços separados — ela explicou. — Nós teremos três equipes de pesquisa e uma equipe de busca. Cada equipe de pesquisa será responsável por um dos ingredientes. Tudo o que vocês aprenderem será passado para mim e Dan, e nós os buscaremos. Jonah e Hamilton, vocês serão o time Tikal. Ian e Pony estão encarregados de Angkor. Jake e Atticus, vocês continuarão com o silphium.
— Podemos fazer a pesquisa melhor daqui — Jake disse. — Vendo que é onde a coisa você sabe, está.
— Exatamente! — Dan interferiu. — E, além disso, Amy, nós dois não podemos falar com o Dr. Rosenbloom. Da última vez que ele nos viu, ele ligou para a Interpol. Ele nos odeia. Certo, Att?
— Não! — Atticus disse. — Claro que não. Meu pai só... 
Dan olhou para seu amigo com uma sobrancelha levantada. Atticus corou.
— Tá, tudo bem. Ele odeia. Tipo, pra caramba.
— Atticus e Jake podem falar com ele pelo telefone e reportar para a gente — Amy disse.
— Agora espera um minuto — Jake disse. — Você pode ser a líder dos Cahill. Mas, como você adora nos lembrar, Atticus e eu não somos Cahill. Então se acha que pode nos impedir de ficar em Túnis e ver nosso próprio pai, você está louca.
— Eu não estou tentando impedi-lo de ver seu pai — Amy respondeu. — Só estou tentando terminar o trabalho.
— Pessoal, pessoal, pessoal — Dan chamou, se forçando entre a Amy e o Jake. — Vocês darão ao nosso amigo Pony uma impressão errada sobre nós. Ele não sabe que enquanto discutimos ocasionalmente, nós todos compartilhamos um amor profundo e um respeito inabalável que se eleva acima de discussões insignificantes.
— Isso não é insignificante — Jake comentou. — Ela não tem o direito de fazer isso.
— Não. — Amy concordou. — Ele não tem o direito de...
— Ei! — Dan chamou, separando os dois. — Sabe do que precisamos? Pizza! Ou o equivalente local. Nós daremos uma beliscada e então nos sentaremos e bolaremos um plano juntos.
Amy empurrou Dan e Jake para sair do avião.
— Nós não temos que ficar parados conversando — ela disse. — O plano está feito.
— Amy, espere! — Dan chamou, mas ela já tinha ido.
Todos que ficaram no avião se viraram e olharam silenciosamente para Dan. Ele andou delicadamente em direção à saída do avião, seu melhor sorriso falso estampado no rosto.
— Não se preocupe, pessoal. Esse é um soluço menor causado por, ahn, jet lag agudo. Por que vocês não simplesmente aproveitam aqui no avião? Eu volto logo!
Dan correu para fora do avião antes que alguém pudesse dizer uma palavra. Ele encontrou sua irmã andando sob o sol intenso da tarde em direção ao portão.
— Amy! Ei, Amy. Espere! — Dan chamou, correndo para alcançá-la. — O que foi tudo isso?
— Esse não é futebol infantil. — Amy disse sem perder o passo. — Nós não temos tempo para nos certificar de que todo mundo está jogando na posição desejada. Temos trabalho a fazer.
— Trabalho que fazemos melhor quando estamos todos juntos. Sério, Amy, eu não acho...
Amy pegou algo de sua mochila e o empurrou contra o peito de Dan. Um jornal.
— O que é isso?
Amy não disse nada. Dan pegou o jornal e abriu. Seus olhos se arregalaram quando ele virou de página a página.
— Mas isso... nada disso é verdade — ele falou atabalhoadamente. — Ele não pode simplesmente...
— Ele pode. — Amy disse. — Qualquer um que ande com a gente é um alvo, Dan, e Pierce não está mais brincando. O FBI já está procurando pela gente lá em casa. E se as histórias do Pierce os convencerem de ir atrás dos outros também? Pense na carreira musical de Jonah. Ou como o Atticus quer ir para Harvard. Você e eu temos que estar aqui, Dan, eles não.
— Só o fato de eles voltarem para casa não significará que eles estarão seguros.
— Não, mas eles estarão mais seguros — Amy devolveu. — É o melhor que podemos fazer.
Algo dentro de Dan afundou dolorosamente. O jornal pendia em suas mãos.
— Jake e Att tem que ficar — ele falou. Amy começou a dizer algo, mas Dan a interrompeu. — Nós não podemos perder tempo mandando-os para casa só para eles falarem com o pai deles pelo telefone. O único jeito de terminarmos isso a tempo é se eles estiverem aqui.
Eles ouviram um rugido atrás deles quando outro avião decolou nos céus acima de Túnis.
— Tá. — Amy concordou. — Mas assim nós terminarmos aqui, os dois voltam para Attleboro. Sem discussões. De acordo?
Dan encarou os olhos verdes de sua irmã. Pela primeira vez, eles pareceram como pedras.
— Concordo.

* * *

Amy observou Dan em pé na frente do avião, desviando-se de perguntas raivosas de Hamilton e Ian. Ele devia ser convincente, já que tinha conseguido convencê-los a voltar ao avião. Dan subiu as escadas para ajudar Jake e Atticus com suas coisas, deixando Ian sozinho no fundo do jatinho.
O coração de Amy doía quando Ian olhou para ela do outro lado da pista. Ele era um Kabra, por isso sua mágoa estava escondida atrás de um véu de orgulho, mas Amy conseguia vê-la claramente enquanto o sol do deserto queimava acima de sua cabeça. Ela sabia que o fazia para o próprio bem de Ian, mas também sabia o quanto a missão o distraía do que ele perdeu. Talvez um dia ele entendesse.
Amy se virou, fixando seus olhos no terminal e indo para a saída.
— Amy! Espera!
Ela se virou para ver Pony correndo atrás dela.
— Desculpe! — Pony disse quando alcançou ela, bufando e ofegando. — Quase esqueci! — Ele tirou um pequeno envelope almofadado do bolso e o entregou. — Um pacote chegou pra você em Attleboro. Queria trazer pra você.
— Obrigada.
Pony correu de volta para o jato, dizendo adeus a Jake e Atticus enquanto Dan os levava para fora do avião. Amy virou o pacote. Seu nome e seu endereço estavam na frente, mas não havia endereço de retorno. Ela o abriu e tirou uma única folha de papel.

Amy,
Desculpe novamente por ter estragado as coisas com o soro. Dei uma olhada pelo laboratório e descobri como fazer mais uma dose. Pensei que você talvez precisasse.
Sammy Mourad

Amy voltou a procurar no envelope, o coração acelerado. Ela achou algo dentro e o pegou. Era um pequeno frasco de vidro, cheio pela metade com o soro.
— Ei, Amy, o que você tem aí? — perguntou Dan.
Amy colocou o frasco de volta no envelope e o enfiou na mochila.
— Nada. — ela disse. — Nadinha mesmo.

3 comentários:

  1. Eu sempre achei que juntar um super gênio e um estrategista fosse dar num cara sem muito bom senso (o P. por exemplo)mas esse Sammy é um tanto absurdo

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  2. Amy tem que parar com essa mania de proteção.

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  3. Realmente, queria que pelo mebos ian ficasse

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