18 de novembro de 2016

Capítulo 3

Delaware. Produtos farmacêuticos Trilon.

Cada centímetro quadrado do corpo de Nellie Gomez coçava.
Ela tentava ser tão sutil quanto podia, mas aquilo a estava deixando maluca. Ela esfregou uma coxa na outra e apertou as costas contra o encosto da cadeira, mas a coceira não parou. Nellie percebeu que era o resultado de uma garota que só usava jeans rasgados e camisetas da Bikini Kill ser forçada a vestir um terno feito de lã abafada pinicante; uma blusa de poliéster e meias feitas de algum tipo de mistura profana de seda artificial e, ela tinha certeza, palha de aço.
E seu cabelo! O maior insulto de todos era ser forçada a ficar em frente a uma pia e lavar todo o seu cabelo negro gótico e substituí-lo por... castanho! Castanho cor de rato. Marrom chato, superchato.
Supere isso, Gomez, ela disse a si mesma. Se precisa de um terno para descobrir o que Pierce está fazendo aqui e impedi-lo, que seja o terno então. E se eu conseguir encontrar o Sammy enquanto estou aqui, melhor ainda.
Nellie abriu a pasta em seu colo e folheou o currículo que tinha forjado na noite anterior. Olhando para o layout limpo e as referências pontuais, Nellie com certeza se contrataria. E ela sabia que cada descrição de trabalho e referências naquilo eram falsas. Até o nome que ela usou era falso.
— Srta, ahn, Gormey?
Nellie pulou de sua cadeira para encarar um homem magro de cabelo negro penteado para cima de modo a disfarçar sua careca parado na porta do escritório.
— Esta é eu! Quero dizer, sou eu! Quero dizer... — Nellie respirou profundamente pelo nariz agora sem piercing e lhe entregou seu currículo. — Eu sou Nadine Gormey. Sou eu. Estou aqui para a entrevista.
O homem fez sinal para Nellie se sentar na cadeira ali dentro, em seguida, deu a volta e tomou seu lugar na mesa de frente para ela. Enquanto ele lia seu currículo, Nellie levou uma unha pintada sob a sua manga e coçou seu pulso agora vermelho.
— Tenho que deixar claro que a posição que está tentando preencher é bastante abaixo do que está acostumada — o homem com o penteado ridículo falou.
— Está tudo bem!
— Mas alguém com suas qualificações — ele falou, maravilhado com seu currículo. — Quero dizer, ter liderado um laboratório inteiro em Harvad quando ainda era universitária!
— Sim, porém penso que é sempre importante se manter treinado nos fundamentos, entende? Como... — Nellie tirou uma folha de papel com colas do seu bolso e colocou sobre a perna — como executar uma recristalização ou como calcular a diluição de uma solução.
— Bem, duvido que a senhorita seja chamada para fazer algo tão básico, mas aplaudo sua ideologia. Honestamente, Srta. Gormey, esse é um dos currículos mais impressionantes que vejo em muito tempo. Mas — ele se inclinou sobre a mesa, como uma espécie de pedido de desculpas — eu seria negligente se não ligasse, pelo menos, para uma de suas referências.
O coração de Nellie acelerou. Ela sabia que era uma possibilidade, mas tinha esperado que isso não fosse acontecer.
— É claro — Nellie disse entredentes. — Eu entendo completamente.
Nellie cruzou os dedos enquanto o homem escolhia um número e discava. Faça isso funcionar e eu nunca mais pisarei fundo no acelerador sem motivo! Eu nunca vou dirigir na contramão em ruas de um sentido só. Ou nas calçadas.
— O que você quer? — Uma voz britânica explodiu no viva-voz. — Depressa, por favor, estou prestes a pegar um voo.
Nellie nunca tinha se sentido tão feliz em ouvir a voz altiva e irritante de Ian Kabra.
— Uh, sim, Dr., hum, Kabra. Aqui é George Takahashi da Tri...
— Vá direto ao assunto! Isso é sobre Gormey, eu presumo. Nadine Gormey? O senhor já a contratou?
— Bem, não, eu só estava pensando se...
— O que diabos há de errado com você, homem! — O viva-voz vibrou quando Ian gritou.
Você é um gênio, Nellie pensou. Retiro cada pensamento ruim que eu já tive sobre você.
— Em todo o tempo que passei nos laboratórios de química de Harvad — Ian continuou — Nadine Gormey foi, sem dúvidas, a única gênia certificada que eu já encontrei. Só um completo idiota seria tão estúpido em não contratá-la no segundo em que ela entrou em seu escritório. Você é um completo idiota?
— Não! Eu só pensei...
— Bem, pare de pensar, Jim!
— É George, na verdade. Veja, eu...
— E fique de joelhos e implore – IMPLORE! – para Nadine Gormey assumir essa armadilha de rato que você está liderando! Implore e só talvez ela se permitirá trazer a brilhante luz da razão e do rigor científico para esse poço de mediocridade que o senhor chama de laboratório. Tenha um bom-dia!
— Bem...
— Eu disse “Tenha um bom dia!”
A linha ficou muda. George estava pálido e suado. Até seu bigode estava tremendo. Ele se controlou e olhou lentamente para Nellie.
— Então... quando você pode começar?

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Concordo.Sempre gostei dele,mesmo quando era um idiota.

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  2. Eu tambem! Mudando de planos, sou amyan de novo. Mas a proposito, o que o Ian tem a ver com o laboratorio do pierce?

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