18 de novembro de 2016

Capítulo 26

Amy acordou em um quarto meio-iluminado, os olhos turvos, seu corpo tão pesado quanto um saco de concreto. Houve um som estranho de algo rasgando no ar, como papel sendo rasgado sem parar. Seus músculos doíam quando ela se levantou. Ela estava no que parecia ser um quarto de hotel genérico, com paredes brancas e bege, TV de tela grande, janelas sombreadas.
— Você está em Oslo.
Dan estava sentado em uma mesa do outro lado quarto. Quando ela se virou para ele, um pedaço de papel caiu de suas mãos em uma lata de lixo em seus pés.
— Como...? — Amy começou, recuando da dor que parecia ser vidro moído em sua garganta.
— O capitão do barco falou com Attleboro no rádio — ele disse, sua voz em tom regular. — Eles mandaram um helicóptero para me pegar e depois eu fui te buscar.
— Então você realmente estava lá — Amy falou, quase pra si mesma. — Era você.
— Se tivéssemos chegado lá alguns minutos mais tarde, você estaria morta.
Em vez de alívio na voz de Dan, Amy achou ter ouvido algo mais duro, como uma acusação. Seus braços estavam fracos, mas ela conseguiu tirar o edredom de plumas. Ela recuou com a visão de si mesma. Suas pernas estavam cobertas por manchas feias roxas, assim como seus braços e seu torso. As pontas de três dedos estavam dormentes debaixo de ataduras brancas.
— Nós precisamos ir — ela falou, tentando não gemer enquanto ia para a beirada da cama. — Ainda podemos pegar as sementes em Túnis. Talvez se nós...
Um saco de plástico chocalhou enquanto voava através do cômodo e caía na cama. Estava cheio de pequenas sementes.
Ela olhou para Dan.
— Como?
— Atticus e Jake pegaram um avião para Túnis. Eles rastrearam as sementes através dos amigos do pai deles.
— Está todo mundo bem?
Dan não disse nada. Só assentiu. Ele nem estava olhando para ela.
— Dan...
— Explique como você pôde fazer algo tão completamente insano! — Dan falou, levantando de sua cadeira, seu rosto vermelho de raiva. — Você tem alguma ideia de quão preocupados todos nós estávamos? Você poderia ter se matado!
— Eu fiz o que achei que era melhor — Amy falou, tentando controlar o que estava formando dentro ela. — Eu sou a líder dos...
— Não me venha com essa besteira de “líder dos Cahill”! — Dan gritou. — Nós trabalhamos juntos! Nós sempre trabalhamos. Tudo de bom que a gente já fez, nós fizemos juntos!
— Então por que você está indo embora!? — o grito de Amy parecia ter sido arrancado de dentro dela. Ele chicoteou nas paredes do pequeno quarto. — Eu vi aqueles folhetos, Dan. Aqueles que você tem escondido de mim. O quê? Tudo bem você se mandar, mas eu não?
O rosto de Dan estava tão vermelho que parecia queimar.
— Eu te disse, eu só ia depois que isso acabasse. Depois.
Amy não conseguia controlar as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
— Isso nunca vai acabar! Você mesmo disse isso. Depois que nós lidarmos com Pierce, mais alguém vai aparecer, e então haverá mais alguém depois disso. Se você quer se mandar tanto assim, vai agora!
— É isso o que você quer, Amy? Você quer que eu vá embora? Quer que todos nós vamos embora? Quase morrer lá não mostrou a loucura que aquilo foi?
Dan esperou por uma resposta, esperou por um bom tempo.
— Você não pode ter os dois, Dan — Amy falou, com a voz tão baixa que ele mal conseguiu ouvir.
Dan não conseguia olhar nos olhos da irmã.
— Eu liguei para Jake e Atticus — ele disse. — Eles vão nos encontrar aqui em Oslo amanhã. Assim que fizermos um plano, iremos para a Guatemala. Juntos.
Amy queria protestar, mas ela não tinha forças. Ela assentiu fracamente. Dan enfiou a mão no bolso e jogou um novo celular através do quarto na cama de Amy.
— Do Pony — ele disse. — Para substituir aquele que você perdeu no silo. Ele também queria que eu lhe dissesse que ele sente muito.
— Pelo o quê?
— Ele disse que devia ter algo de errado com a rede. Ele estava esperando em seu computador o tempo todo que você estava em Svalbard, mas não teve notícias suas.
Amy franziu a testa.
— Não estou entendendo. Foi Pony quem me tirou de lá.
Dan balançou a cabeça.
— Ele disse que não teve notícias suas.
— Mas isso não é possível. Se eu não estava falando com ele, então quem...
Dan sacudiu a cabeça e foi para a porta.
— Dan, espere. Por favor.
Ele parou de costas para ela, uma mão na maçaneta. Amy lembrou dos folhetos em sua mochila, cada um preenchido com meninos de sua idade, rindo e sorrindo. Sem preocupações.
— Evan tinha tantos planos — ela falou suavemente, com um tremor em sua voz. — Você sabia que ele e seu pai iam tirar um ano juntos depois que ele se formasse no colégio? Eles iriam para a América do Sul ajudar construir casas para as pessoas que necessitam delas. Depois disso, iriam encontrar a mãe dele na China, porque eles sempre sonharam em ver a Grande Muralha. Eles não tinham ideia que...
As palavras ficaram presas na garganta de Amy, grandes e terríveis demais para serem ditas.
— Eu quero que todos vocês sejam felizes. Você, Jake, Atticus e todos os outros. Eu não quero isso para você. Não quero isso para ninguém. Mas você devia ir embora agora, Dan, antes que seja tarde demais.
Dan parecia prestes a dizer algo, mas não falou. Ele abriu a porta e saiu para o corredor.
— Dan, espera, eu...
A porta se fechou atrás dele com um baque. O silêncio no quarto de hotel se firmou pesadamente sobre os ombros de Amy. Ela olhou para longe da porta e notou que Dan tinha arrastado a lata de lixo de debaixo da mesa. Ela se lembrou do som de papel rasgando e saiu da cama e foi até ela.
Dentro, havia uma bola de papel amassada pintada de azul, amarelo e vermelho. Pedaços de papel caíram de sua mão e para o chão quando ela o desdobrou. Cada um, com suas cores fortes e meninos animados e sorridentes, tinham sido rasgados ao meio e depois rasgados de novo.
O coração de Amy se quebrou, olhando para eles. Ela sabia que parte dela deveria estar feliz, mas de repente o pensamento de Dan ficando tornou sua dor pior do que o pensamento dele indo embora.
Houve um toque suave atrás dela. Amy abriu seu celular novo e viu um e-mail esperando para ser lido. Era de Jake. Ela olhou para ele por um longo tempo, seu estômago revirando, antes de finalmente ter coragem para abri-lo.

Amy,
Eu não acho que haja muito a dizer, ou qualquer coisa que o Dan provavelmente já não tenha dito, mas tem uma coisa que eu tenho que tirar do meu peito.
Primeiro, Atticus e eu estamos contentes por você estar bem. Nós estávamos bem bravos quando você partiu sem a gente, mas isso era porque estávamos apavorados. Nenhum de nós saberia o que fazer se algo acontecesse com você.
Eu quero que saiba que não vou parar de tentar ajudá-la a batalhar contra Pierce.
Mas aceito o que você disse antes de partir e quero que você saiba que eu concordo. Nunca houve nada entre a gente e nunca haverá. Não desperdice mais nenhum minuto se preocupando sobre os sentimentos que nenhum de nós nunca teve.
— Jake

Amy fechou o e-mail e depois se sentou sem se mover por algum tempo. Ela olhou para as paredes frias do quarto, e por um momento sentiu como se estivesse de volta ao silo, presa e sozinha. Amy apertou RESPONDER e começou a escrever:

Jake,
Eu só disse o que disse porque se você soubesse como eu realmente me sentia, teria arrancado o avião do céu antes de me deixar ir sozinha. E preferiria que você me odiasse e vivesse do que morresse porque se importa. Eu não poderia me perdoar se você ou Atticus se machucassem. Mas estou cansada de mentir. E a verdade é que não há ninguém que eu preferiria que estivesse ao meu lado, ninguém com quem eu preferisse ficar furiosa, além de você. Dan falou que as melhores coisas que nós fizemos, nós fizemos juntos. Isso é verdade para nós dois também.
— Amy

Amy olhou para a mensagem, pensando em como o Jake brincou com ela na praia de Túnis, e depois em seu rosto enquanto ela embarcava no avião. Ela destacou o e-mail e pressionou DELETAR.
Assim que apagou o e-mail, entrou em seu navegador e digitou Guatemala e Cristal Despedaçado. Uma longa lista de acessos apareceu e ela entrou neles um por um, examinando cada resultado, fazendo listas de anotações, se perdendo na pesquisa.

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