25 de novembro de 2016

Capítulo 24

Tikal, Guatemala

— Shhh! Espera! Apaguem as luzes!
Hamilton Holt estendeu o braço como um sinal para pararem. Jake desligou a lanterna. Poucos metros adiante, um dos guardas do parque cruzou a ponte em um patrulhamento de segurança. Ele assobiava, com um fuzil pendurado no ombro.
Jake prendeu a respiração. Ele e os outros – Hamilton, Atticus, Ian e Jonah – esperaram sem se mover até que o assobio do guarda diminuísse, depois desaparecesse. Assim que ele ficou fora do alcance, eles relaxaram.
— Ok — Hamilton disse. — Adiante.
— Esse cara não tem ideia do que está para rolar esta noite — Jonah comentou.
— Vamos esperar que não role nada — Jake apontou. — Vamos encontrar o cristal e voltar o mais rápido possível.
Ele estava ansioso para saber se Amy e Dan tinham recuperado o livro e conseguido sair da armadilha vivos. Se precisassem de ajuda, ele queria estar lá, pronto para agir.
Ele acendeu a lanterna e iluminou o mapa que Atticus segurava. Atticus estava encarregado da navegação – traçando a imagem do espelho de sua caminhada anterior para encontrar o tempo oculto que continha o cristal despedaçado. O grupo tinha partido ao entardecer para evitar ser detectado pelos guardas do parque. Mas a selva parecia fervilhar à volta deles.
— Eles estão em alerta máximo por causa dos caçadores ilegais — Atticus teorizou. Ele estudou o mapa e, em seguida, apontou para um caminho estreito. — Por aqui. Não fica muito longe.
Eles partiram de novo, empurrando a densa vegetação para longe dos rostos. A noite estava úmida e pegajosa, e mosquitos zumbiam em seus ouvidos. Uma lua cheia se erguia sobre as copas das árvores, iluminando o caminho mas também a eles, tornando-os mais visíveis para os guardas, ou para quaisquer inimigos que pudessem estar esperando para dar o bote. Felizmente, as árvores faziam muitas sombras para se esconder.
O caminho se dividiu inesperadamente em duas trilhas menores.
— Que direção? — Jonah perguntou.
Jake olhou do mapa para a bifurcação.
— Este — ele disse, mirando sua lanterna na trilha da direita.
— Não, camarada — Ian discordou. — Você está lendo a droga do mapa errado. Estamos indo em direção ao sul, viu? — Ele traçou uma unha bem cuidada ao longo do papel até o templo que eles estavam tentando encontrar.
Jake ficou irritado, mas tentou se conter.
— Eu sei como ler uma “droga de mapa”. E conheço esse parque muito bem até agora. Você acabou de chegar. Nós vamos tomar a bifurcação da direita.
— Ouça — Ian disse, rangendo os dentes. — Eu não faria questão se a vida de Amy não estivesse em jogo. Mas cada segundo conta.
À menção de Amy, os músculos de Jake ficaram tensos.
— Eu sei que a vida de Amy está em perigo. Por isso estou aqui. Se nos apressarmos, poderemos voltar a tempo de ir atrás dela e de Dan...
— Disseram a eles para ir sozinhos. Se nós aparecermos, eles podem ser mortos.
— Eles provavelmente vão ser mortos de qualquer maneira — Jake disse. — E você está disposto a ficar parado e deixar que isso aconteça?
— Eu nunca disse isso...
Jonah se pôs entre Ian e Jake, que se encaravam no escuro.
— Ei, vamos ficar frios. Estamos todos aqui por Amy. Não importa quem está certo ou errado. Tudo o que importa é nós encontrarmos esse maldito cristal e voltamos para Amy e Dan inteiros. Hamilton, em que direção devemos ir?
Jake suspirou e deixou pra lá. Jonah estava certo. Normalmente, tudo sobre Ian fazia Jake querer empurrá-lo na poça de lama mais suja que ele pudesse encontrar, apenas para vê-lo chorar sobre seus sapatos de grife destruídos. No entanto, esta noite, a expressão presunçosa parecia forçada, mais como uma máscara para esconder o que ele realmente sentia. Ele era a pessoa mais arrogante que Jake já conhecera, mas também se preocupava com Amy. Todos eles se preocupavam. Talvez mais do que admitissem.
Muito mais do que eles tinham admitido a ela.
Hamilton ficou boquiaberto com o mapa e balançou a cabeça.
— Esse caminho tem curvas demais, então é difícil dizer...
— Ok, o Hamilton está perplexo — Jonah disse. — Atticus?
— O caminho da direita. Tenho certeza de que é esse no mapa.
— O caminho da direita então — Jonah liderou o caminho, tomando a bifurcação da direita. Jake e os outros o seguiram, com Ian resmungando sobre irmãos ficarem do mesmo lado.
— Exatamente — Jonah parou e se virou para dar um sermão à Ian. — Irmãos ficam do mesmo lado. E nós somos todos irmãos nisso. Então ficamos juntos. Entendeu?
Ian assentiu, e eles continuaram a seguir a trilha. Falou tudo, Jonah, Jake pensou em uma satisfação silenciosa.
Depois de caminharem por mais meia hora, Atticus parou em um aglomerado denso de árvores.
— É aqui.
Jake se esforçou para ver. De onde estavam, o templo parecia um monte de plantas sob a luz da lua, mas ele só podia distinguir as ruínas de uma pirâmides perto das folhas do alto.
— Este templo não foi escavado ainda — Atticus explicou. — O altar pode estar enterrado sob toneladas de pedra.
— Ou algumas dessas pedras poderiam desmoronar enquanto estamos dando olhada ali dentro — Jonah apontou. — E nos esmagar.
— Nós não saberemos até começarmos.
Hamilton já tinha arrancado algumas videiras e encontrou um buraco redondo na pedra. Ele arrancou mais videiras. O buraco começou a tomar forma no luar.
— Parece com... com uma boca — Atticus falou.
— A boca de um jaguar — Ian acrescentou.
— Com dentes — Jonah terminou.
Eles trabalharam em arrancar as videiras, removendo pedras caídas e torrões de terra, até que o buraco se tornou um túnel escuro e longo.
— É esse o caminho para o tempo? — Jonah perguntou.
Atticus olhou para dentro, assentindo.
— Há outras ruínas no complexo de Tikal que têm entradas intimidantes, esôfago de serpentes nas portas, esse tipo de coisa. Mas esse parece bastante assustador.
— Quem vai primeiro? — Ian perguntou.
— Eu vou. — Jake se abaixou e rastejou para dentro do túnel, a lanterna na mão. Os outros seguiram. Algo roçou seu rosto. Ele recuou, se sentou, e bateu com a cabeça no topo do túnel.
— Jake, o que aconteceu? — Atticus perguntou atrás dele.
— Nada. Só uma teia de aranha. — O túnel não parecia ter fim. Ele dava voltas e virava como um labirinto. A cada poucos metros, a luz de Jake refletia em algo branco embutido na parede. Ossos?
— Att, pessoas foram enterradas nesse templo? — ele gritou.
— Provavelmente. Vários dos templos foram usados para sepultamento.
— Ótimo. Só checando. — Ele tentou não pensar no fato de que estava rastejando sobre as mãos e joelhos através de um túnel escuro como breu cheio de ossos.
O túnel gradualmente ficou mais amplo, até que Jake pôde ficar de pé. Ele deu um passo através do que poderia ter sido uma porta ou os restos de um portão e se encontrou sob o luar novamente.
— Todo esse rastejar só para voltar para o lado de fora — Ian resmungou.
— A parte superior do templo deve ter cedido séculos atrás — Atticus observou.
Assim como Att dissera, o templo tinha quatro paredes de pé, mas nenhum telhado. Era como uma praça ou clareira com uma pequena pirâmide de degraus numa das extremidades. As árvores eram tão densas que a luz da lua mal atravessava os galhos, pontilhando o chão com trechos irregulares de luz, como partes de vidro quebrado. Jake apontou sua lanterna para o monólito de pedra à frente. O terceiro andar da pirâmide dentro do templo desmoronara uma parede apodrecera, deixando a estrutura aberta de um lado. Na frente dele estava uma estela com uma cara ameaçadora esculpida na pedra: um nariz grande, olhos semicerrados e uma boca aberta em rugido, como se gritasse, Fique longe!
Ele passou por cima de uma pilha de pedras para entrar na pirâmide. O chão era de rocha, uma fileira de bancos de pedra quebrado, e em uma extremidade uma mesa alta que um dia poderia ter sido parte de um altar. Teias de aranha preenchiam os cantos, e um morcego esvoaçou sobre suas cabeças.
— Sinistro — Jonah comentou.
— Sim, não vamos demorar — Ian disse. — Atticus, onde você acha que o altar ficava?
— Aqui! — Atticus escolheu seu caminho ao longo de pilhas de pedras até a mesa alta contra a parede dos fundos. Ela estava posicionada em uma espécie de cubo, com um nicho esculpido na parede de trás que poderia ter mantido velas ou ícones sagrados. A mesa era decorada com desenhos esculpidos que pareciam familiares para Jake. Alguns eram abstratos, havia labirintos, estrelas e pirâmides, mas outros mostravam homens em poses estranhas vestindo chapéus maias.
Todos os garotos miraram suas lanternas para a parede dos fundos.
— Procurem por uma pedra com uma cor ou textura diferente das outras — Atticus disse a eles. — Ou algo que poderia ter sido colocado mais tarde.
Jake moveu a lanterna metodicamente de pedra em pedra, mas nada pareceu incomum para ele. Em seguida, ele apontou seu feixe na parte frontal da mesa do altar.
— Ei, o que é isso? — ele afastou um pouco de terra e videiras. Havia um desenho grande e familiar. Seu coração começou a acelerar. Ele tinha visto aquilo no livro de Olivia, ele tinha certeza. Quase certeza... Ele afastou mais poeira para ter uma visão mais clara. O desenho mostrava um homem usando um grande cocar com três painéis. Por favor, seja o que eu acho que é, ele rezou. Tudo o que ele precisava era confirmação do Atticus.
— Ei, Att. Acho que esse é O Senhor dos Espelhos.
Atticus correu para Jake. Ele passou as mãos sobre o desenho. Jake prendeu a respiração.
— E então?
— É ele — Atticus sorriu. — O cristal despedaçado deve estar em algum lugar dessa mesa.
Jake soltou a respiração em um suspiro de alívio.
Eles estavam tão perto...
Os outros correram. Todos eles apontaram as lanternas pela mesa, procurando por um pedaço de pedra que parecesse diferente das lajes retangulares de pedra calcária. Jake encontrou algo cintilante, bem abaixo do Senhor dos Espelhos. Posicionado no centro da mesa grossa estava uma pedra quadrada, um pouco mais escura que as outras e macia ao toque.
— Att! Acho que eu achei o cristal!
Atticus ajoelhou-se para examinar a pedra, enquanto os outros se aglomeravam ao redor.
— É isso, o cristal de quartzo despedaçado.
— Finalmente! — Jake exclamou. — Vamos pegar o que precisamos e dar o fora daqui.
Ian pegou um canivete do bolso.
— Essa lâmina deve dar — ele sorriu. — Nós Lucian sempre mantemos nossas lâminas afiadas.
Com a habilidade praticada de um Lucian, Ian raspou pedaços da pedra em uma caixa que Atticus tinha trazido.
— Certifique-se de conseguir o suficiente. Pelo menos 30 gramas.
— Estou trabalhando nisso — Ian respondeu. — Raspar pedra não é fácil, sabe.
Jake olhou para cima e viu os morcegos fazendo um alvoroço através da copa das árvores.
— Depressa — ele pediu. — Nós não queremos ficar aqui por muito tempo. Nunca se sabe quando podemos ser emboscados.
Ele ficou muito quieto e procurou por qualquer som de possíveis intrusos. Pássaros noturnos e macacos farfalhavam através das copas das árvores, mas ele não ouviu passos e não viu nenhuma luz.
— Você pegou o suficiente? — Jonah perguntou.
Ian assentiu.
— A área está livre — Jake disse. — Vamos.
Eles tinham completado sua missão: tinham o cristal, pelo menos. O espírito de Jake se animou enquanto eles marchavam de volta para o hotel. Eles estavam um passo – um grande passo – mais perto de salvar Amy.
Mas então a realidade o acertou, quanto mais passos faltavam, e seu estado de espírito despencou. Quatro dias, ele pensou. Quatro dias.

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