25 de novembro de 2016

Capítulo 23

Instituto Callendar, Cidade de Nova York

Nellie encontrou Fiske encostado na cama vestindo uma camisola de hospital. Havia uma nova tensão no ar do Instituto Callender. Por um lado, a equipe tinha mudado, e alguns dos profissionais pela qual ela passara no hall pareciam terrivelmente musculosos para ser enfermeiros. Quando ela abriu a porta para o quarto do Fiske, seus olhos se arregalaram de medo. Ele relaxou quando viu que era Nellie. Mas ela não gostou do primeiro olhar em seu rosto. O que geralmente acontecia quando a porta de seu quarto era aberta?
— Fiske, como você está? — Ela arrastou uma cadeira até o lado da cama.
Fiske umedeceu os lábios.
— Nellie, graças a Deus... — Sua boca parecia seca. Ele tinha dificuldade pra falar.
— Quer um pouco d’água? — Nellie tinha trazido algumas guloseimas para ele, mas ele não parecia ser capaz de comer, muito menos aproveitá-las. Ela colocou água em um copo de papel.
Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurá-lo. 
— Aqui, deixe-me te ajudar.
Ela segurou o copo enquanto ele bebia alguns goles. Nellie nunca o tinha visto tão fraco. Ele não estava melhorando nem um pouco. Estava piorando.
— Fiske, eu preciso falar com você. Preciso que me diga qualquer coisa que saiba sobre o soro. Absolutamente qualquer coisa...
Fiske olhou para a parede. Ele estava ouvindo?
Nellie seguiu seus olhos, tentando descobrir o que era tão fascinante. Ela não conseguia ver nada na parede além de uma pintura de uma paisagem marinha.
— É um caso de vida ou morte — Nellie continuou — Entenda, Amy...
Ele não estava escutando, ela tinha certeza disso.
Ele ficou boquiaberto para a parede em horror, incapaz de desviar os olhos.
— Fiske? O que foi?
Ele não respondeu, mas estava com aquele olhar assustado de novo.
— Fiske?
— Tem um portal. Você vê? — ele apontou um dedo trêmulo para a parede, que parecia completamente sólida para Nellie. — Um buraco se abriu ali mesmo, levando a outra dimensão... 
Nellie foi para a parede, tocou nela, bateu nela.
— Eu não vejo nada. Nenhum portal, Fiske.
— Grace! Pelo amor de Deus, Grace, se afaste desse portal!
Nellie correu de volta para o lado de Fiske.
— Eu não sou a Grace. Eu sou a Nellie.
— Psiu! Esconda-se, Grace. Eles vão te ouvir!
Ele está alucinando, Nellie percebeu.
— Espera! — Ele se inclinou para longe dela. — Você não é a Grace!
Ótimo. Ele estava voltando ao normal.
— Exatamente, Fiske. Eu sou... 
— Eu sei quem você é — Fiske chiou — você está aqui pra me pegar, não está? Você está tentando me matar!
— Fiske, não, eu sou a Nellie! Eu estou tentando te ajudar!
— Enfermeiro! Enfermeiro! — Fiske apertou o botão de chamada e um dos enfermeiros musculosos irrompeu no quarto.
— Está tudo bem aqui?
Fiske não respondeu. Ele estava tremendo e confuso.
— Tudo está ótimo — Nellie disse. — Ele ficou um pouco agitado sobre uma piada que contei, mas está bem agora.
— Ele parece cansado. O horário de visitas acabou. — O enfermeiro puxou Nellie e a empurrou com firmeza pela porta.
Nellie empurrou de volta.
— Espera, por favor. Só me dê mais alguns minutos com ele. Só mais alguns minutos.
Os bíceps do enfermeiro incharam quando ele cruzou os braços musculosos sobre o peito e franziu a testa.
— Cinco minutos. Depois você dá o fora daqui.
Nellie fechou a porta firmemente atrás do enfermeiro que partiu. O que estava acontecendo ali? O Instituto Callender era reverenciado como um dos melhores hospitais do mundo. E ainda assim... Os sintomas de Fiske atingiram Nellie como estranhamente familiares: tremores, visões, paranoia, oscilações extremas de humor...
O soro.
Fiske estava tomando o soro? Ou alguém estava dando a ele? E se sim, como o hospital colocou as mãos nele? Não importava, Nellie decidiu. O ponto principal era tirar Fiske de lá antes que ele fosse envenenado até a morte.
Ela se sentou na cama ao lado do Fiske, que tinha se acalmado um pouco. Ela deu a ele mais água.
— Se sentindo melhor?
Ele assentiu.
— Fiske, acho que eles estão testando o soro em você. — Ela não terminou o resto do pensamento, que o soro o estava matando, e a Amy também. — Eu tenho que te tirar daqui. Nós podemos fazer o check-out? Vou levá-lo para Attleboro ou a algum outro lugar onde você será bem cuidado. O principal é que você não pode ficar aqui.
— Sim — ele murmurou com uma voz rouca. — Eu quero ir embora.
— Ótimo. Conversarei com o Dr. Callender e arranjarei tudo. Estarei de volta em dez minutos.
Nellie correu pelos corredores ocupados. Havia câmeras a cada poucos metros, e mais postos de enfermeiros do que a maioria dos hospitais tinha. Postos de enfermeiros ou postos de segurança?
Ela encontrou o escritório do Dr. Callender. Sua secretária a impediu de entrar, dizendo que ele estava no telefone. Nellie esperou, e alguns minutos mais tarde, a secretária disse que ela podia vê-lo. O médico sorriu quando Nellie entrou.
— Srta. Gomez. A que devo o prazer?
— Eu vim apenas para ver Fiske Cahill e... ele me disse que gostaria de fazer o check-out. Hoje.
O sorriso do Dr. Callender esmaeceu um pouco e ele juntou as pontas dos dedos.
— Entendo. Bem, temo que isso não seja possível.
— Não? Ele está aqui voluntariamente, não é?
— Sim, ele foi internado voluntariamente, e normalmente estaria autorizado a entrar e sair quando quisesse.
— Então qual o problema?
— Você disse que veio apenas para vê-lo. Como ele pareceu para você?
— Bem... — Nellie hesitou. Se ela admitisse que ele parecia bastante doente, isso enfraqueceria seu caso de destituição. — Ele parecia bem. O ponto principal é que ele quer ir embora. Então se o senhor apenas me desse os papéis para assinar ou seja lá o que nós temos que fazer...
— O Sr. Cahill não pode ir embora. Sinto muito. — O sorriso do Dr. Callender era largo e lupino agora, e o pulso de Nellie começou a acelerar. Ela sentiu o perigo, mas não tinha certeza do por que.
— Ele pode e vai. Vou tirá-lo daqui agora, e o senhor não pode me impedir.
— Srta. Gomez, o Sr. Cahill não está mentalmente bem. Legalmente, eu devo mantê-lo aqui se o julgar como um perigo para si ou para os outros, e ele certamente é um perigo para si mesmo, no mínimo.
Parecia impossível aquele sorriso lupino ficar mais largo, mas ficou. Nellie estremeceu.
— Ele está perfeitamente bem — ela insistiu. — Eu quero uma segunda opinião.
— A senhorita é muito bem-vinda a fazer isso. Qualquer médico que o examinar chegará à mesma conclusão.
Ele está certo, Nellie pensou amargamente. Fiske estava alucinando – porque eles o estavam drogando. Seus olhos baixaram para um papel na caixa de entrada do Dr. Callender. Um relatório sobre os resultados de algumas pesquisas farmacológicas – do Dr. Huang da Trilon Laboratories. A pele de Nellie se arrepiou. De repente, ela sabia.
Ele era parte daquilo. Parte da coisa toda.
Ela não conseguia respirar.
— E agora, Srta. Gomez, você sairia por bem? — o Dr. Callender perguntou. — Ou gostaria que eu chamasse um dos enfermeiros para acompanhá-la?
Ela tremia, mas tentou esconder. Ela não podia confiar em ninguém. Nem mesmo num médico renomado. Nellie sentia como se uma corda estivesse se fechando ao redor de seu pescoço. Fiske estava sendo mantido prisioneiro, e envenenado em nome da pesquisa. Amy estava a quatro dias restantes da morte. E o Dr. Callender trabalhava para Pierce.
Dr. Callender apertou um botão.
— Marco, você poderia, por favor, levar a Srta. Gomez para fora?
A porta se abriu e um homem calvo e corpulento em um uniforme de segurança entrou.
— Isso não será necessário. — Nellie passou pelo homem e para fora da porta. — Eu posso sair sozinha.
Ela tremia na viagem inteira de volta para Delaware. Ela tinha que achar um jeito de tirar Fiske do Hospital da Morte do Dr. Callender.
Esse teria sido um bom nome para uma banda punk se não fosse tão real.
Se apenas Sammy estivesse livre, ele poderia ajudá-la. Mas o seu trabalho no laboratório era importante demais. Ele era sua única esperança agora.
Nellie entrou em seu escritório e verificou a conta Nível 1. Alguém tinha lhe enviando uma receita de tagine de frango. Estranho. Quem neste lugar sequer sabia que ela gostava de cozinhar?
Sammy, ele sabia.
A receita era uma mensagem codificada. Tinha que ser, porque qualquer prato que pedia por uma xícara de sal não ia ter um bom gosto.
Nellie se posicionou para trabalhar em decodificar a mensagem. Ela reconheceu a receita do seu livro de receitas marroquino favorito. Ela encontrou a receita online. Não pedia uma xícara de chá, é claro – e sim uma colher de chá. Havia quarenta e oito colheres de chá em um copo de sal. Talvez esse fosse um código do alfabeto simples. Nellie esperava que sim – decodificação não era seu ponto forte. Ela contou 48 caracteres do número 1 em “1 xícara de sal” e parou em um G. Então talvez G se igualasse a A? Ela tentou decodificar a mensagem, mas não funcionou.
Vamos, Sammy. Não dificulte as coisas para mim.
Mas ela sabia que ele não podia fazer algo fácil demais – ou óbvio demais – ou ele seria pego.
Então ela notou que a receita de Sammy pedia duas xícaras de manteiga – algo verdadeiramente insano – e que a receita verdadeira pedia por duas colheres de sopa.
Aha.
Havia dezesseis colheres de sopa em uma xícara. Talvez décima sexta letra fosse o equivalente da letra número 2, B?
Sim. Trabalhando em mais uns erros como esse – 1kg de cuscuz a deu o equivalente de C – Nellie conseguiu decodificar a mensagem de Sammy:

Pierce sabe sobre o antídoto. Ele quer usá-lo para fazer uma versão menos letal do soro. Me forçou a trocar as medidas e trabalhar em combinar o antídoto e o soro. Se ele for bem-sucedido, o antídoto de Amy não funcionará no soro de Pierce. Nós não teremos uma maneira de pará-lo. Ficaremos impotentes.
Tentarei sabotar. Assim que terminar, quero explodir esse lugar. E não deixar nada para trás.

Nellie mordeu o lábio. Como Pierce sabia sobre o antídoto? Só havia um jeito em que ela podia pensar: o livro de Olivia Cahill. Seus homens deviam tê-lo achado quando Dan o perdeu na selva.
Então eles estavam metidos em ainda mais problemas do que sabiam. Amy estava morrendo. Eles ainda tinham que encontrar o cristal despedaçado, e perderam o livro que lhes diziam como preparar o antídoto. E acima de tudo, Pierce sabia que os pequenos tinham encontrado um jeito de pará-lo.
Os meninos de Attleboro tinham voado para Guatemala para ajudar Dan e Amy obterem o cristal despedaçado e o livro – que eles pensaram estar sendo mantidos por chantagistas. A coisa toda era uma armadilha. O livro nem estava lá. E só ela podia avisá-los.

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