18 de novembro de 2016

Capítulo 23

Ilha de Spitsbergen, Arquipélago de Svalbard

Tudo ao redor de Amy era neve. Ela afundava na neve a cada passo e os flocos eram soprados tão densamente através do ar que Amy mal podia ver um metro à frente. Não que houvesse qualquer coisa para ver. Ela andava fazia pelo menos uma hora e a paisagem ao redor ainda era nada além de campos vazios, a monotonia de vez em quando por uma coluna de cinza de pedra.
Amy puxou um dispositivo GPS do bolso de seu casaco pesado e tirou a neve do rosto com as luvas grossas.
Sua posição era marcada por um ponto azul movendo-se lentamente por Spitsbergen, uma ilha no meio do Oceano Ártico. Ela fazia parte dos territórios remotos de Svalbard na Noruega e ficava no Círculo Ártico, a menos de mil e duzentos quilômetros do Polo Norte. Seu ponto rastejava ao longo da estrada que ligava o aeroporto de Longyearbyen, onde tinha aterrissado apenas algumas horas atrás, ao Silo Global de Sementes de Svalbard.
Tão pequeno como o aeroporto era, ela poderia ter tomado um táxi para levá-la para o silo.
O piloto tinha feito um grande esforço para salientar que, embora o termômetro mostrasse agradáveis dois graus lá fora, os ventos aumentariam radicalmente o risco de hipotermia, estivesse o tempo frio ou não. Amy não estava disposta a se arriscar com um motorista, no entanto. A mídia já poderia ter transmitido a sua localização em todo o mundo. Se esse fosse o caso, ela tinha certeza que os homens de Pierce não perderiam a oportunidade de organizar um pequeno acidente para ela, e ela não podia deixar ninguém se envolver.
Por mais difícil que fosse alcançar a habilidade necessária, Amy ficou aliviada quando soube que o banco de sementes era aberto apenas duas vezes por ano para aceitar novas remessas de sementes. Não haveria outra alma em Svalbard por meses, e isso significava que não haveria ninguém que pudesse machucar.
A tela do GPS pulsava. Ela estava quase lá. A neve caindo desviou para o lado pelo vento e Amy avistou um brilho ondulante ao longe. Ela guardou o GPS no bolso e se arrastou durante os últimos noventa metros até uma colina rochosa. Amy se moveu cuidadosamente, meio curvada, as mãos enluvadas agarrando as pedras e as botas grossas chutando qualquer fenda que pudesse encontrar. Finalmente, o terreno irregular deu lugar a uma estrada plana coberta por uma fina camada de neve.
Amy podia distinguir as linhas cinzentas de entrada para a abóbada do Silo Global de Sementes de Svalbard. Era um retângulo de aço simples, com cerca de seis metros de altura fixado na beira da estrada como um marcador funerário imenso. Um quadrado na parte superior do monólito brilhava em padrões alternantes de turquesa e azul. Amy tinha lido sobre ele no voo e sabia que ele fora concebido para evocar os céus acima do Círculo Ártico.
Um corredor de aço levava da entrada da instalação para o banco de neve atrás. Além disso, a estrutura mergulhava no arenito da montanha, entrando por quase cento e vinte metros de rocha sólida antes de ramificar-se para as áreas refrigeradas de armazenamento de sementes. Eles precisariam daquilo para refrigerar qualquer coisa à geladeira. Até isso parecia insano para Amy, mas era para manter as sementes em uma constante de zero graus. A ideia era que as sementes armazenadas funcionassem como uma espécie de sistema de backup para cada planta na terra. Se alguma árvore no meio da selva de repente fosse extinta, sem problema; com as sementes guardadas no silo eles poderiam trazê-la de volta. Eles devem ter ficado emocionados ao receber a silphium. Uma planta trazida de volta dos mortos!
Amy puxou um par de binóculos de sua mochila e examinou a área. A neve ao longo da estrada e perto da porta era fresca, sem marcas de passagens recentes. Ela verificou a estrada atrás dela. Nenhum sinal dos homens de Pierce lá. Alguns edifícios ficavam a um quilômetros ou mais ao sul, mas Amy não viu qualquer luz proveniente deles. Amy desejava que o isolamento deixasse sua mente à vontade, mas ela sabia quão treinados os homens de Pierce eram. Se eles não quisessem ser vistos, eles não seriam.
Amy guardou os binóculos e atravessou a estrada, inclinando-se contra o vento. Quando chegou perto, puxou um computador de mão com uma série de fios prendendo-se em um cartão-chave. Amy colocou o cartão no leitor na porta e a máquina começou a trabalhar. Logo houve um clique e a porta se abriu. Amy olhou para o corredor do outro lado. Buscou trilhas do lado de dentro, sinais de que alguém tivesse estado lá, mas o chão estava limpo.
Amy fechou a porta atrás dela, enchendo a escuridão com a névoa de sua respiração.
Ela estava fora do vento, mas não estava mais quente no interior das instalações. Felizmente, ela não teria que ficar ali por muito tempo. Os silos de sementes ficavam cerca de cem metros a frente, selados atrás de portas anti-explosão. Logo à direita ficava um pequeno escritório para a equipe. Era para onde ela ia.
Amy se arrastou pelo corredor com seus nervos em alerta máximo. Ela estava dolorosamente consciente de que estava no lugar perfeito para ser emboscado.
Se os homens de Pierce a cercassem, não haveria fuga e nem testemunhas.
O escritório não era nada mais do que algumas mesas e cadeiras com computadores. Um termostato ficava em uma parede, mas não havia nenhuma válvula para ligar o aquecimento. Ela entraria e sairia antes mesmo de ser ativado. Amy tirou as luvas e apertou o botão de energia no terminal mais próximo. A tela do computador se acendeu cheia de ícones desconhecidos e texto em norueguês.
Não que isso importasse. Tudo o que tinha a fazer era ficar on-line e baixar um programa de um site para Pony poder acessar lá de Attleboro. Uma vez feito isso, a tela pulsou verde três vezes e, em seguida, um crânio verde fluorescente apareceu junto com as palavras que VOCÊ. FOI. DOMINADO!!!
Amy revirou os olhos e esperou até que o crânio desapareceu, substituído por um cursor verde.
Conectado. Amy digitou e clicou em enviar.
Minutos se passaram enquanto ela esperava por uma resposta.
Amy ergueu os dedos livres até sua boca e soprou, ansiosa por um pouco de calor. Vamos, Pony. Onde você está?
Ela olhou para o corredor. Ele estava vazio, mas seu coração começou a bater rápido de qualquer maneira. O silêncio era intenso, como estar no fundo do mar. Ela podia sentir a montanha inteira pressionando para baixo sobre seus ombros.
Amy quase pulou quando o computador apitou.

Sim?

— Ele pode ser um gênio — Amy falou em voz alta. — Mas sua memória poderia claramente ser um pouco mais trabalhada.
As portas do silo, ela digitou, com os dedos já duros por causa do frio. Lembra-se? Você precisa invadir o sistema e descobrir onde o silphium está, em seguida, abrir a porta do cofre para que eu possa chegar a ele.
Certo! Claro! Estou trabalhando nisso.
Pony voltou um pouco mais tarde. Cofre #1 – Fileira #8 – Silo #63. Houve um barulho-metálico em uma parte do corredor.
Amy espiou para fora enquanto uma das portas de segurança se abria.
Você é o melhor, Pony! Amy digitou, mas não houve resposta. Aquele rapaz precisava treinar seriamente suas habilidades sociais.
Uma rajada de ar frio atingiu Amy logo que ela entrou no cofre número um. Era como estar no meio de um freezer supercongelado. Sua respiração condensou em nuvens brancas e a pele de suas mãos e rosto queimava com o frio. Amy puxou as luvas de volta e apertou o capuz em seu rosto. Eu só tenho que entrar e sair, ela pensou.
O cofre em si era tão grande quanto um campo de futebol, com o teto com cerca de nove metros de altura. Nichos azuis percorriam todo o comprimento do chão e o caminho até o teto. Cada uma estava preenchida por fileira após fileira de caixas de plástico cinza.
Amy encontrou seu caminho para a fileira número oito e, em seguida, correu seu comprimento até que encontrou o silo 63. Dentro havia um grande número de pacotes de alumínio, cada um marcado com o nome das sementes dentro. Seus dedos frios se atrapalharam com os envelopes lisos até que ela encontrou o que estava procurando. Amy pegou o pacote e segurou-se de ler o rótulo:

Silphium. Cinco (5) sementes.

Consegui, Amy pensou.
— Foi uma proeza o que fez com todos aqueles repórteres.
Amy virou para encontrar um homem de pé no final do corredor, apoiado casualmente contra as prateleiras. Ele era alto e musculoso e vestia por inteiro um uniforme preto, o que fazia seus olhos azuis chocantes se destacarem ainda mais. Amy escondeu o pacote de silphium atrás dela. Seus músculos estavam tencionados, prontos para entrar em ação.
— Felizmente, estamos bastante adaptados — disse ele com um dar de ombros. — Viajando mais leve agora, então não levantamos quaisquer suspeitas na mídia. Adaptar ou morrer. Essa é a regra, não é?
As unidades de refrigeração foram ativadas novamente com um forte barulho de ar, e o homem se virou. Amy se impulsionou do chão, balançando sua mochila pesada enquanto corria diretamente para ele. Ela golpeou o homem em seu ombro, pegando-o de surpresa e empurrando para trás por tempo suficiente para ela acelerar além dele, os braços de pulsando. A porta estava à vista. Ela estaria ali fora em segundos, aí poderia...
Amy se chocou naquilo que parecia ser uma parede de tijolos e saiu voando para trás. Ela bateu no chão e o pacote de silphium atravessou o concreto. Outro dos homens de Pierce entrou pela porta, cruzando os braços sobre o peito enorme.
O homem de olhos azuis riu quando foi até Amy.
— Eu disse que estávamos viajando mais rápido. Você não acha que isso significava que eu seria burro o suficiente para vir até aqui sozinho, não é?
O mercenário na porta estendeu a mão para a arma na cintura, mas o homem de olhos azuis mandou-o embora.
— Vá pegar o caminhão.
O homem enorme desapareceu de volta para o corredor.
O vento uivava enquanto a porta externa era aberta e depois. O homem de olhos azuis pegou o pacote de silphium do chão enquanto se aproximava dela.
— Por que você percorreu todo o caminho até aqui para pegar um pacote de sementes? — Seus olhos perfuraram os de Amy, mas ela não disse nada. O homem deu de ombros e rasgou o pacote, virando-o para que as sementes caíssem no chão de concreto. Ele ergueu a bota sobre a pilha.
— Não!
Amy correu para detê-lo, mas já era tarde demais. O salto da bota desceu. Quando ele levantou-o novamente, as sementes tinham sido reduzidas a pó. Amy olhou para o pó, um abismo escuro se abrindo dentro dela. A próxima coisa que ela soube era que o homem a segurava pelos tornozelos e puxara para perto. Amy lutou, mas ele era muito forte. Ele segurou-a de ponta cabeça com uma mão enquanto tirava todas as proteções contra o frio que ela vestia com a outra.
— Agora, vamos tentar pensar em uma boa manchete — o homem de olhos azuis disse enquanto enrolava as roupas em uma bola e as enfiava na mochila junto com seu telefone e o resto de seus suprimentos. — Que tal, “Conhecida encrenqueira vandaliza famoso marco só para ficar presa e morrer congelada”?
— Você não tem que fazer isso — Amy falou enquanto o homem atirava a mochila por cima do ombro e se dirigia para a porta. — Por favor, me escute. Você não pode...
A porta se fechou atrás dele. Amy saltou e atirou-se para ele, batendo no aço enquanto as trancas eram ativadas.
— Espere! Por favor!
A porta exterior foi fechada com um som profundo e, em seguida, fez-se silêncio. Amy deslizou porta abaixo até estar sentada no chão.
O sistema de refrigeração foi ativado novamente, enviando rajadas de vento gelado em todas as direções.
O homem a tinha deixado só com um fino suéter e o macacão térmico. Nenhum casaco. Sem capuz. Sem luvas. Sem calças de neve. Ela podia sentir sua pele congelando e depois o frio se infiltrando mais fundo, estendendo os dedos para seus ossos. Amy colocou os braços em torno de si mesma enquanto olhava através do cofre de aço e concreto que seria seu túmulo.

2 comentários:

  1. Pfvr olhem o lado da Amy imaginem pessoas te culpando pela morte de alguem e vc tbm se culpando pela morte de alguem q vc gostava ...
    eu ate hj me sinto culpada de uma vez q tava brincando com minha amiga e ela se machuco imagina se fosse mais serio ?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!