18 de novembro de 2016

Capítulo 22

Nellie se sentiu ficar tensa enquanto passava pelos quartos dos pacientes ligados a máquinas bipantes e equipamentos que zumbiam.  Ela vinha prometendo a si mesma por dias que viria ver Fiske e continuava evitando o encontro, dizendo que a investigação na Trilon era muito importante. Mas finalmente as desculpas não funcionavam mais. Não que ela não amasse Fiske, ela apenas odiava hospitais. Mesmo quando luxuosos como o Instituto Callender, eles ainda a assustavam.
Ela tinha doze anos quando sua avó teve câncer, e Nellie nunca havia superado vê-la deitada no branco austero do quarto. Como se estar doente não fosse ruim o suficiente, a avó de Nellie ainda era obrigada a aguentar a luz fluorescente e o cheiro de desinfetante. Parecia como insulto definitivo. E a comida! Hospitais deveriam ser sobre amor, cura e conforto, sobre guisado de carne temperado com a quantidade certa de tomilho e alecrim. Em vez disso, sua avó ganhava uma carne misteriosa e alface congelado. A sobremesa era um cubinho triste de gelatina.
Como alguém deveria abraçar a vida comendo esse lixo? Por que eles iriam querer isso?
Bem, não será assim com o Fiske, Nellie pensou, balançando a cesta de vime de piquenique que tinha trazido com ela. Ela tinha esperado demais para visitar, mas compensaria agora. Eu vou curar esse homem!
— Nellie Gomez! — Fiske praticamente saltou da cama quando ela entrou em seu quarto.
— Fiske!
Nellie tentou esconder seu choque ao vê-lo. O relatório que ela recebeu das crianças era que o Fisk estava cinza como água suja e mais enrugado que um homem dez anos mais velho que ele.
Esse certamente não era o caso agora. Fiske praticamente brilhava. Sua pele estava lisa e corada, seus olhos brilhantes.
— Você está incrível!
Fiske riu, alto e calorosamente.
— Você também, como sempre. É um incentivo de melhoras que vejo em suas mãos?
— É, mas acho que eu deveria encontrar alguém que está realmente doente e dar pra ele!
— Se me der um pouco da sua deliciosa comida, eu me esforçarei para parecer adequadamente moribundo. Agora, traga aqui, Nellie! Traga aqui!
Fiske esfregou as mãos com a ansiedade de uma criança quando Nellie pousou a cesta e a abriu.
— Certo — ela disse, tirando um monte de potes de plástico. — Nós temos uma grande tigela de canja de galinha acompanhada de bolinhos de massa seguidos por um corte de porco saturado com cidra de maçã, arroz pilaf, salada verde mista e de sobremesa...
Nellie abriu a tampa de um dos potes.
— Torta de banana!
— Torta de banana! — Fiske exclamou. — Meu favorito! Eu mal sei por onde começar.
Nellie deu a ele uma colher grande de prata.
— Canja de galinha — ela disse.
— Com prazer!
Nellie achou um assento ao lado da cama, sorrindo quando Fiske comia com um prazer óbvio.
— Delicioso! — ele disse através da boca cheia. — Maravilhoso. Agora me conte as novidades. Como estão Dan e Amy? E a caçada?
Fiske terminou a canja e foi para cima da carne de porco, sem nem se preocupar em usar garfo e faca. Ele pegou com os dedos e arrancou nacos com os dentes.
— Hã... eles estão bem — Nellie respondeu, distraída pelo espetáculo de Fiske comendo como um tigre faminto. — Eles acharam os bigodes e agora estão em Túnis procurando pelo silphium. Acho que Amy está sentindo o estresse, entretanto. Ela mandou a maior parte do grupo de volta para América.
— Excelente! — Fiske disse. — Excelente.
— Excelente? Porque seria...
— Amy está sentindo seu poder, Nellie. Sua maestria. Ela está virando ela mesma. Quando uma pessoa faz isso, os outros podem começar a sentir... como eu posso dizer isso? Como âncoras em vez de velas. Consegue me entender? Minha nossa, essa carne de porco está deliciosa!
— Fiske, você tem certeza de que está bem? Você parece...
— Minha querida, eu não me senti tão bem desde que tinha dezesseis anos. Não! Esqueça isso. Mesmo assim eu não me sentia tão forte, tão rápido, tão... sintonizado. Estou vendo coisas que nunca vi antes. O mundo está claro para mim como um painel de vidro recém-lavado.
Nellie pegou o telefone ao lado da cama de Fiske. 
— Sabe, talvez eu deva falar com seu méd.. AI!
A mão de Fiske apareceu do nada e agarrou o pulso de Nellie. Ela exclamou quando seus ossos se curvaram sobre a pressão, prontos para quebrar.
— Fiske, você está me machucando!
Ele puxou a mão de volta como se tivesse sido eletrocutado. Sua boca se abriu e seus olhos ficaram frios e ocos. Seus ombros caíram. De repente, a mão que tinha o aperto de um torno há um segundo estava tão fraca quanto a pata de um gatinho.
— Ah, Nellie. Ah, Nellie. Eu sinto muito. Não!
Lágrimas começaram a se encher nos olhos de Fiske. Elas corriam pelo seu rosto enquanto ele voltava a si como um pedaço de papel sendo amassado lentamente.
— Eu sinto muito. Eu não... Eu não sei o que aconteceu. É como se eu não conhecesse minha própria força. Eu ajo antes mesmo de eu pensar. O que está acontecendo comigo?
Nellie empurrou o cesto de comida para o lado e colocou uma mão reconfortante no ombro de Fiske. Seu rosto estava vermelho como uma beterraba, suas feições franzidas. Ele parecia uma criança confusa.
— Está tudo bem — ela disse calmamente, acariciando seu rosto. — Você vai ficar bem. Nós só vamos falar com o seu médico. Ok?
Fiske agarrou-se à ideia como uma boia salva-vidas.
— Sim! — ele disse. — Fale com o Dr. Callender. Ele sempre sabe o que...
Antes que ele pudesse terminar sua frase, os olhos de Fiske se fecharam e sua respiração ficou regular. Ele estava dormindo, os braços cruzados sobre o peito, abraçando-se. A mão logo abaixo do queixo tremia visivelmente. Nellie saiu do quarto em direção ao posto dos enfermeiros do lado de fora. Os olhos da enfermeira se arregalaram quando Nellie caminhou na direção dela.
— Ei! Você! Eu quero ver o Dr. Jeffrey Callender. Agora!

* * *

Nellie esperava do lado de fora do escritório do Dr. Callender, batendo o pé impacientemente enquanto ele conversava detrás de sua mesa com uma mulher jovem vestida num blazer vermelho brilhante. Fiske tinha sido um dos homens mais fortes e no controle que ela já conhecera. Quando as crianças foram vê-lo, disseram que ele parecia cansado e fraco, mas não comentaram nada sobre uma reação como essa.
— Srta. Gomez?
Nellie olhou para cima quando o Dr. Callender acenou para ela entrar. A mulher de blazer vermelho empurrou Nellie ao passar pela porta.
— Ei! — Nellie disse.
A mulher de vermelho não disse uma palavra. Ela já tinha um telefone celular junto à orelha e falava nele enquanto ela andava.
— Algumas pessoas edem licença! — Nellie gritou.
A mulher sequer se virou. Nellie revirou os olhos e estava prestes a entrar no escritório quando viu algo familiar pendurado na parte de trás da bolsa da mulher – um cartão branco estampado com um grande A vermelho. Embaixo estava o logotipo da Trilon.
— Srta. Gomez?
Nellie se sacudiu e entrou no escritório do Dr. Callender. Ele era um homem pequeno com óculos da moda e a cabeça coberta por grossos cabelos castanho-escuros.
— Desculpe por fazê-la esperar — ele disse. — Encontrar-se com representantes farmacêuticos é, infelizmente, necessário. Como posso ajudá-la? A senhorita queria falar sobre o Sr. Cahill.
— Sim, eu preciso saber o que está acontecendo e preciso saber agora.
O Dr. Callender levantou as mãos em sinal de rendição.
— É claro — ele disse. — O Sr. Cahill passou por um momento muito difícil, uma grande quantidade de estresse.
Nellie estreitou os olhos.
— Ele lidou com estresse a sua vida inteira.
O médico balançou a cabeça tristemente.
— Às vezes, os que parecem ser os mais fortes são os mais em risco. Eles carregam o mundo nas costas, nunca imaginando um momento em que não consigam lidar com o peso.
— Mas o que nós fazemos? Como nós...
— O curamos? — Dr. Callender perguntou. — Se fosse assim tão fácil. Estou tentando diferentes tipos de medicamento e estamos fazendo terapia intensiva, mas é uma questão de tempo.
Nellie se sentiu afundar.
— Você está dizendo que é possível que ele vá...
— O estresse é uma coisa insidiosa, Srta. Gomez — o Dr. Callender disse. — É quase impossível sabermos realmente seus efeitos, ou, quando os efeitos tomem posse, as perspectivas a longo prazo. Como você disse, no entato, o Sr. Cahill é muito forte. Eu estou otimista.
Nellie assentiu, entorpecida. Ela se levantou da cadeira, ainda em transe.
— Obrigada pelo seu tempo.
Ela tropeçou para fora do escritório e para o corredor movimentado.
— Desculpe — ela dizia quando esbarrava com enfermeiros e visitantes. — Com licença.
Os pensamentos sobre Fiske rapidamente mudaram para Amy e Dan. Seria Fiske uma visão do futuro deles? Uma vida de estresse e perigo acabaria com eles, também? Nellie estremeceu. Seus pequenos nunca tinham parecido tão distantes.
Uma risada no final do corredor chamou sua atenção.
A mulher de blazer vermelho saía do escritório de outro médico. Ela acenou e então foi para o fim do corredor, na mesma direção que Nellie ia, seus saltos agulha batendo contra o linóleo. A bolsa estava pendurada ao lado, o cartão-chave com o grande A vermelho balançando para frente e para trás.
Nellie endireitou os ombros, seus olhos fixos no cartão-chave. Ela não podia estar ao lado de Amy e Dan agora porque tinha uma missão a cumprir.
Nellie começou a percorrer a passagem, rezando para que suas costas fossem mais fortes do que as de Fiske.

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