18 de novembro de 2016

Capítulo 2

Roma. O dia seguinte.

Amy Cahill estava correndo contra o tempo.
Ela tinha conseguido passar da área de embarque direto para a pista sem ninguém vê-la, mas seus perseguidores eram inteligentes. Não levaria muito tempo até que eles a achassem. O jato particular estava logo à frente, com o tanque cheio, os motores já girando em um gemido agudo. Ela tinha que subir a bordo e decolar, depressa, antes que a vissem.
Ela espiou pela lixeira na qual ela estava se escondendo. Alguns membros da tripulação estavam ao redor do avião fazendo os preparativos finais, além deles, o caminho estava livre. Amy apertou a mochila contra si e começou a se mover.
— Amy Cahill!
Amy se apertou contra a lixeira quando as portas do aeroporto para a pista de decolagem se abriram. Seus perseguidores desciam a escada até o asfalto.
— Amy! Cadê você?
Ela tinha que distraí-los. Amy achou o que precisava a poucos passos de distância. Ela saiu correndo de seu esconderijo para pegar uma lata de metal de uma prateleira. Derramou o seu conteúdo na lixeira, em seguida, puxou um fósforo do bolso da jaqueta. A lixeira se iluminou com um estrondo profundo, explodindo em uma parede de fogo. Amy virou de costas contra o metal que se aquecia rapidamente e empurrou.
— A-my! — alguém cantarolou em tom de zombaria. — A-my Ca-hill! Saia, saia, onde quer que você esteja.
Amy cravou seu tênis no asfalto e fez força contra a lixeira, sua espinha queimando contra o aço quente, até que a sentiu ceder. As rodas guincharam e começaram a girar. Amy grunhiu e deu outro empurrão, e o impulso assumiu. A lixeira correu pela pista, o fogo subindo ao vento.
Exclamações vieram de todos os lados enquanto a tripulação gritava freneticamente em italiano. Seus perseguidores se dispersaram, metade deles correndo de volta para o terminal para chamar ajuda, enquanto os outros correram para a lixeira. Ela tinha cerca de dois minutos de caos. Era tudo o que precisava.
Amy correu pela pista até o jatinho que a esperava. Dan e Ian estavam em pé e se dirigiam para o tumulto quando ela subiu as escadas correndo.
— Amy, o que está acontecendo? — Dan perguntou.
— Os homens do Pierce! Diga ao piloto que nós temos que decolar!
— Mas e os outros?
— Agora!
Dan desapareceu na cabine do piloto.
— Amy, está tudo bem? — Ian perguntou. — Eram os homens do Pierce? Aqueles brutamontes te machucaram?
— Eu estou bem. Nós só precisamos...
— Ei! O que vocês estão fazendo!? — Amy congelou, de costas para a porta. Ela lentamente se virou para enfrentar seus perseguidores.
— Nós só fomos pegar uns lanches!
Jonah e Jake estavam ao pé da escada. Atticus, Pony e Hamilton estavam atrás deles, segurando sacolas de plástico que se esticavam sob o peso das garrafas de refrigerante, das batatas fritas, dos biscoitos e dos doces.
— Não olhe pra mim — Jake disse enquanto conduzia o grupo para trás dela e até o avião — falei para eles para irmos logo.
— Os chapas não conseguem se conter quando veem comida — Jonah disse.
Os meninos passaram por Amy, se jogando em seus assentos e pegando lanches e videogames. O som de conversa rapidamente encheu a cabine. Ian não se moveu de seu lugar na primeira fila de assentos. Ele observava Amy atentamente, uma pergunta não formulada em seu olhar.
A porta da cabine se abriu novamente.
— O piloto falou que decolamos em cinco minutos — Dan disse. — Ei, o que aconteceu com os capangas do Pierce?
Amy se encontrou procurando por uma resposta, mas Ian pulou para salvá-la.
— Alarme falso — ele disse. — Podem tomar seus lugares.
Amy passou correndo por todos até o fundo da aeronave. Assim que o jatinho estava no ar, ela garantiu que os meninos estavam distraídos e, em seguida, puxou o jornal daquela manhã de dentro de sua mochila. Olhando para ele, ela sentiu o mesmo enjoo de quando o tinha visto pela primeira vez na banca do aeroporto.
Os Cahill eram a família mais poderosa que a história já havia conhecido, mas agora enfrentavam seu maior desafio – J. Rutherford Pierce, um magnata da mídia que sonhava com dominação mundial. Ele já tinha manipulado um membro da família Cahill, um cientista chamado Sammy Mourad, para ganhar acesso ao segredo mais be, guardado dos Cahill: um soro que garantiria força e inteligência quase sobre-humanas a qualquer um que o bebesse. Amy e os outros, com medo do que o soro faria ao mundo nas mãos de alguém como Pierce, estavam atrás de um antídoto e já tinham um componente dele, os bigodes de um leopardo de Anatólia. Só faltavam mais seis e eles parariam Pierce de vez.
  Infelizmente, Pierce não estava parado de braços cruzados enquanto eles procuravam. Ele não só mandou capangas aprimorados com o soro, mas os estava atacando diariamente em seus vários jornais e programas de TV. Primeiro ele tinha se contentado em atormentar Amy e Dan com histórias bobas sobre o que ele chamava de “viagens irresponsáveis pelo mundo” e o que os irmãos chamavam de TENTAR SALVAR O MUNDO! – ou fofocas estúpidas sobre Amy e Ian ou Amy e Jake.
Mas agora tudo tinha mudado. Amy ergueu o jornal de seu colo. Pierce não estava mais só os atormentando. Estava assediando-os.
— Está tudo bem?
Amy pulou. Ian estava debruçado sobre o assento em frente a ela.
— Está. — Amy disse enquanto rapidamente guardava o jornal em sua mochila. — Está tudo bem. Só... fazendo alguma pesquisa.
— Ah, bem, não faz mal saber demais — Ian comentou, deixando-se cair no assento do outro lado do corredor. — Falando nisso, você sabia que a Avenida Habib Bourguiba em Túnis é conhecida no mundo inteiro como a Champs-Élysées do Oriente Médio? Os cafés. As lojas. As discotecas.
Amy não conseguiu evitar uma risada.
— As discotecas? Honestamente, Ian, quem ainda usa a palavra “discoteca”?
— Bem, os tunisianos, eu espero — ele resmungou. — Então, o plano é contar com o pai dos Rosenbloom? Ele é um cientista de algum tipo?
Amy colocou a mochila de lado.
— Um arqueólogo. Aparentemente, sua paixão é civilizações perdidas. Ele está em Túnis estudando as ruínas de Cartago.
Amy esperava que o Dr. Rosenbloom fosse capaz de ajudar. Ele certamente teria que dar uma pausa em seu trabalho. Amy e Dan tinham encontrado um livro antigo deixado para eles por Olivia Cahill, uma das fundadoras da família Cahill. O livro dava instruções de como criar o antídoto, mas muito dele estava codificado. As análises de Atticus e Jake das notas de Olivia os faziam ter certeza de que o próximo ingrediente do antídoto era uma planta nativa da área próxima da Tunísia, chamada silphium. É claro que, porque nada era fácil, silphium estava tão extinta quanto o leopardo de Anátolia.
Ian se virou para olhar a janela ao lado dele, onde o sol coloria as nuvens de dourado e laranja.
— Sabe, é engraçado — ele comentou. — Eu estava falando ao celular com a Nellie quando os outros saíram para buscar comida e eu a vi saindo para a pista. Mas não vi nenhum dos homens do Pierce.
Amy podia sentir Ian examinando-a, esperando por uma resposta. Quando não conseguiu uma, ele olhou para o corredor, certificando-se que os outros estivessem absorvidos em seus jogos. Ele se inclinou para perto, e quando voltou a falar, sua voz era baixa e hesitante, como se estivesse escolhendo seu caminho através de um campo minado.
— Dado os eventos... recentes — ele começou, com dificuldade de se referir à morte de sua irmã mais nova, Natalie. — Eu, também, às vezes me senti tentado a me isolar, mas, para minha surpresa, descobri que ter pessoas ao meu redor, mesmo... — ele olhou para os outros no avião — essas pessoas, de algum modo alivia...
— Os homens do Pierce estavam lá — Amy disse entredentes. — Eu não estou mentindo.
— Eu nunca sugeri que você estava. — Ian respondeu — simplesmente...
— Amy?
O turbilhão de ansiedade no estômago de Amy se duplicou quando ela viu Jake de pé no corredor diante dela.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Nós só estávamos conversando um pouco — Ian respondeu por ela. — Nada para você se preocupar.
— Atticus tem umas ideias que quer contar a você — Jake disse a Amy.
Ela começou a se levantar, mas Ian colocou a mão sobre a dela, mantendo-a no lugar.
— Se você continuar incomodando Amy a cada coisinha... 
— Talvez você deva deixar a Amy decidir o que é coisinha e o que não...
— Rapazes! — Amy gritou.
Ian e Jake se calaram instantaneamente, tão chocados de ouvi-la gritar quanto ela.
— Eu só preciso de um minuto — ela falou. — Ok? Sozinha? Jake, vou com você daqui a pouco.
Houve uma pausa tensa e então Jake se afastou para a frente do avião. Ian estava prestes a dizer algo, mas Amy olhou para o outro lado, e um segundo depois ele se levantou e saiu também.
Amy fechou seus olhos e tentou acalmar sua mente, mas continuava escutando o som de sua própria voz elevada. Há algum som pior, Amy pensou, do que a sua própria voz gritando com as pessoas que você ama? Não só isso, mas ela podia sentir o jornal na mochila ao lado dela, como uma coceira exigindo ser coçada. Amy pegou o jornal e o abriu sobre o colo. 
Na manchete se lia: A TEIA DE MALDADE DOS CAHILL


De cada lado, duas colunas de três fotos de cada uma estavam colocadas como fotos da polícia. Atticus, Jake e Pony de um lado e Ian, Hamilton e Jonah no outro. Fotos de Amy e Dan – escurecidas profundamente no Photoshop para fazê-los parecer especialmente sinistros – estavam entre as colunas, com teias saindo de suas fotos para os outros seis.
O artigo que acompanhavam as fotos alegava que Amy e Dan não eram simplesmente incômodos internacionais, mas estavam liderando uma conspiração criminosa de longo alcance com os outros.
Hamilton Holt! o artigo gritava ao lado da foto de Hamilton.  Um bruto corpulento que usa seus punhos para ditar a lei em quem ousa contradizer a conspiração Cahill.
Atticus Rosenbloom – o gênio com a mente distorcida da trama. Esse pequeno provocador usa seu cérebro grande e suas conexões com a elite acadêmica para subverter a vontade de pessoas decentes, adoradoras da liberdade, do mundo inteiro!
E continuava. Ian era um membro da elite global que lhes forneceu uma entrada para a alta sociedade, enquanto Jonah Wizard envenenava alegremente os jovens do mundo através de mensagens insidiosas em suas músicas. Amy mal conseguia respirar ao ler tudo isso. Uma coisa era Pierce atacar Dan e ela, mas atacar seus amigos era completamente diferente.
Amy olhou para o corredor. Jonah mostrava a Hamilton um novo jogo enquanto Atticus e Dan praticavam suas miras atirando M&Ms na boca um do outro.
Era incrível como eles podiam parecer tão normais depois de tudo o que passaram. Atticus e Jake tinham perdido a mãe, Ian perdera a irmã, e o primo de Jonah, Phoenix, quase morrera.
Amy amassou o jornal em seu punho. Eles passaram por tanta coisa, ela pensou. É meu dever me certificar que eles não percam mais nada.

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