18 de novembro de 2016

Capítulo 19

— Mas como a Atlântida pode ser a Espanha? — Dan perguntou enquanto o mediterrâneo se estendia abaixo do pequeno avisão deles. — Da última vez que chequei, a Espanha não era nem mesmo uma ilha!
Atticus estava sentado na parte de trás, apertado entre Amy e Jake, com o colo cheio de livros. Ele ficou imerso em sua pesquisa desde que eles deixaram museu. Depois da perseguição pelas ruas de Túnis, havia demasiada mídia e polícia interessados nos Cahill para eles poderem ir ao aeroporto, então o piloto de Jonah fizera uma mudança de última hora. As quatro crianças tinham alugado um barco e encontrado com o piloto e seu hidroavião a um quilômetro da costa. Demoraria mais uma hora antes de eles pousarem perto da costa espanhola e fossem apanhados por outro barco.
— Na verdade, combina muito bem com o que Platão escreveu. — Atticus disse. — Atlântida deveria estar a oeste das Colunas de Hércules, que nós sabemos serem as rochas de ambos os lados do Estreito de Gibraltar. A Espanha é definitivamente a oeste disso. E aparentemente, Platão não é o único que achava que esse era o lugar. Um cientista chamado Richard Freund vem estudando essa possibilidade por anos.
— Então por que nunca ouvimos falar dele? — Dan perguntou.
Atticus se mexeu em seu assento.
— Bem... a maioria das pessoas acha que ele é louco.
— Parece o nosso tipo.
— Mas ele achou algumas coisas interessantes — Atticus disse. — Segundo ele, costumava haver uma enorme baía no sul da Espanha. Ele disse que Atlântida foi construída logo próximo da água em uma série de círculos concêntricos com templos, portos e tudo mais. E o que sabemos sobre Tartesso definitivamente bate com a lenda de Atlântida. Era incrivelmente rica, em grande parte por causa do metal que mineravam ao redor da área. Mas então, milhares de anos atrás, um enorme tsunami varreu a área e teria destruído a cidade inteira. Ao longo dos anos, a cidade foi coberta com dezenas de metros de lodo. Eventualmente, a coisa toda se tornou um grande pântano e a Espanha o tornou um parque nacional.
— Então esse cara tem, você sabe, provas de verdade? — Dan perguntou.
A voz de Atticus ficou aguda e estridente. 
— Ele tem algumas imagens interessantes no radar de penetração de solo — ele falou com cuidado. — E algumas pessoas concordam que alguns sítios parecem que poderiam, talvez, ser memoriais para a cidade perdida. Tem algo lá com certeza, mas toda a área é pantanosa demais para fazer escavação. Eu não sei! É por isso que estamos verificando, certo? — Atticus mergulhou de volta em seus livros.
Dan olhou ao redor do avião, franzindo a testa.
Ele e Amy tinham voado por todo o mundo, muitas vezes com Atticus e Jake com eles. Mas nunca tinha conhecido um voo tão silencioso. Amy olhava para fora da janela do avião com o mesmo silêncio que a cercava desde que eles deixaram a biblioteca.
Dan sabia do que se tratava, mas não havia nada que pudesse dizer. Apesar de ela ter tentado ser rápida, ele a tinha visto olhando em sua mochila. Ele sabia o que ela deveria ter achado.
Dan corou. Ele não podia deixar de sentir como se tivesse sido pego fazendo algo vergonhoso, como roubar ou conspirar com o inimigo.
Mas eram apenas alguns folhetos. E ele tinha dito a Amy que estava terminado com os Cahill depois de que eles descobrissem como parar Pierce. Se eles descobrissem como parar Pierce. Ele não podia mais fazer isso. Era como se sua pele estivesse ficando mais apertada cada dia, até que logo o sufocaria. Era isso o que ela queria para ele?
Quanto mais pensava sobre isso, mais a sua culpa era substituída pela raiva. Raiva de Amy. Ele estivera bravo com ela antes – muitas vezes – mas era geralmente um tipo de raiva de “ei você pegou meu casaco emprestado sem pedir”. Esta era real, fervente, e até lacrimejante. Tanto que ele não conseguia dizer nada sobre isso. Eles haviam passado por tanta coisa juntos e sempre foram capazes de conversar sobre isso tudo. Era o único jeito de sobreviverem. Era impossível, impensável, mas algo tinha mudado.
O piloto anunciou que estava se preparando para pousar. Dan colocou o cinto de segurança e olhou para a janela, engolindo em seco quando tudo o que viu abaixo deles foi a amplidão férrea do oceano. Pousar sem uma pista de pouso simplesmente não parecia certo.
O pouso acabou sendo surpreendentemente suave, entretanto, e minutos mais tarde eles foram recebidos por um barco de pesca. Todos pisaram inquietos sobre os pontões do avião antes de pegar a mão do pescador grisalho e cruzar para o convés do barco.
Dan se firmou contra o assento e Jake ajudou Atticus com seu colete salva-vidas. Amy ficou sozinha, de novo, o capuz de seu moletom puxado para cima enquanto ela observava o barulho do despertar do barco com olhos vazios.
Isso é ridículo! Dan começou a atravessar o convés em direção a ela, mas algo o deteve.
Assim que tivermos o silphium, nós dois estaremos mais relaxado, Dan pensou. Conversaremos depois.
Dan se comprimiu contra a grade, esperando que fosse verdade.

* * *

Uma Land Rover os recebeu na costa e os levou para o Parque Nacional Doñana, que não parecia a Dan como o lar da cidade submersa mais famosa do mundo. Era uma mistura de dunas de areia e pântanos lodosos de juncos. Depois de cinco quilômetros, eles andavam por uma planície de terra banhada pelo sol pontilhada com raminhos de canas secas e tufos de grama.
— Então, isso é Atlântida — Dan disse. — Cara, os quadrinhos do Aquaman passaram longe.
— Você não pareceria nada bonito, tampouco, se tivesse sido coberto de lodo por alguns milhares de anos — Atticus revidou.
Um acampamento empoeirado entrou em foco. Ele consistia de um punhado de tendas com cientistas vestidos de cáqui e botas de caminhada movendo-se ao redor. O Land Rover deles estacionou logo na borda do acampamento.
— E se nós estivermos errados — Atticus falou, parecendo mais novo do que normalmente — e o papai não estiver aqui, se Pierce estiver mesmo com ele?
Dan olhou para o amigo. 
— Ei, quando é que você já esteve errado? Ele está aqui. Então qual é o plano? Jake, você quer...  — Amy abriu a porta e começou a atravessar a planície. Dan e os outros trocaram um olhar.
É como se a gente nem estivesse aqui, Dan pensou, e, em seguida, os três desceram do carro com Jake na liderança.
— Ei! — Jake gritou por Amy. — Você se lembra de toda aquela coisa sobre o meu pai não gostar de você, certo?
— Sim — disse Amy, sem nem se preocupar em olhar para trás. — E eu também me lembro de você dizendo que Dan e eu deveríamos tentar fazer um apelo direto. Apenas fique para trás e me deixe falar com ele.
Dan podia ver a tensão nos ombros de Jake, à sua frente.
— Com todo respeito a sua liderança, Alteza — Jake gritou — mas ele é meu pai e você não parece estar exatamente no espírito mais diplomático no momento.
— Eu estou bem!
— Você está agindo como uma maluca! — Jake disparou de volta.
— Pai! — Atticus gritou, e correu passando reto por todos no acampamento.
O Dr. Rosenbloom tinha acabado de sair de uma das tendas. Atticus jogou os braços ao redor do pai muito assustado, que o girou.
— O que está acontendo? — Dr. Rosenbloom perguntou. — Att, o que você está fazendo aqui? Você está bem?
— Nós estamos bem.
Jake olhou para Amy e, em seguida, correu para se juntar a Atticus.
— Nós vimos sua casa — Jake falou. — Achamos que algo podia ter acontecido a você.
A expressão do Dr. Rosenbloom clareou e ele riu.
— Ah, acho que eu estava um pouco com pressa. Desculpe se os preocupei. Mas vocês não deveriam estar em Roma? Perderam o voo? — o Dr. Rosenbloom deixou sua própria pergunta de lado. — Quer saber? Não importa! Quando vocês virem o que encontrei aqui, suas cabeças vão explodir bem acima de seus ombros. Vamos, permitam que eu lhes mostre!
Amy deu um passo adiante, e Dan ergueu a mão para segurá-la de volta.
— Amy, espera. Deixe eles...
— Dr. Rosenbloom! — Amy chamou.
O Dr. Rosenbloom se virou. Seu sorriso se evaporou no segundo em que ele pôs os olhos nela. O brilho que iluminou seu rosto no momento em que viu seus filhos desapareceu instantaneamente, substituído por algo escuro e frio.
— Pai... — Atticus começou.
— Então, vocês estavam preocupados comigo? — o Dr. Rosenbloom repetiu, raiva colorindo sua voz.
— É verdade — Jake disse. — Nós... 
O Dr. Rosenbloom saiu de perto deles e atravessou o acampamento, os olhos fixos em Amy.
— Senhor, eu...
— Nós podemos estar no meio do nada, Srta. Cahill, mas sabemos das notícias — ele falou. — Se você pensa por um segundo que deixarei meus filhos se envolverem com uma dupla de pirralhos mimados como você e seu irmão, então está louca! Não deixarei que faça com Jake o mesmo que fez com aquele garoto Tolliver!
— Pai! — Jake exclamou enquanto o rosto de Amy ficava totalmente branco.
— Nem uma outra palavra Jake — o Dr. Rosenbloom retrucou. — Leve seu irmão para minha tenda agora.
— Amy não fez nada! — Jake protestou. — Essas notícias são mentiras!
Dr. Rosenbloom girou para encarar seu filho.
— Os pais do menino estavam mentindo, então? É isso o que você está dizendo? Foi isso que ela te falou?
— Não! É que... Amy e Evan estavam tentando fazer algo muito importante e ele se machucou, mas não foi culpa de Amy. Ela tentou impedi-lo de se envolver. Ela nunca deixaria ninguém se machucar se pudesse fazer isso.
— Eu disse, mais nem uma palavra!
— Senhor, por favor — Amy se intrometeu. — Dan e eu vamos embora. Agora. Eu prometo. Você nunca nos verá novamente. Mas eu preciso saber sobre o silphium. É muito importante. O senhor encontrou?
O Dr. Rosenbloom andou para frente, sem parar até que estava quase em cima dela. Ele olhou para ela com uma raiva que fez Dan estremecer.
— Encontramos dois frascos lacrados esta manhã — o Dr. Rosenbloom respondeu entre dentes cerrados. — Eles tinham marcações que indicavam conter sementes de silphium dentro.
— Podemos vê-los? — Dan perguntou, tentando se colocar entre Amy e o pai de Atticus e Jake. — Como a minha irmã disse, é incrivelmente importante.
O Dr. Rosenbloom balançou a cabeça.
— Eu não sonharia com isso. E de qualquer maneira, vocês estão muito atrasados. Eu já os despachei.
— Para onde? — Amy persistiu.
— Um foi para estudiosos colegas de faculdade em Túnis. O outro está a caminho do Silo Global de Sementes de Svalbard. Ambos os locais estão fora de seu alcance. E agora? Acredito que estejam indo embora?
Svalbard? Dan pensou, e olhou para Atticus.
— É um silo construído na encosta de uma montanha no Círculo Ártico — Atticus explicou. — Estão usando-o para armazenar sementes de todo o mundo.
— E o silo é bem trancado, então nada aventuras por lá — o Dr. Rosenbloom completou, quase tremendo de raiva. — Eles só têm uma equipe no silo algumas vezes por ano. Estão esperando para armazenar o silphium e depois irão embora.
— Obrigada, senhor — Amy disse. Ela manteve a cabeça erguida, mas Dan podia ver que ela não conseguia olhar o Dr. Rosenbloom nos olhos. Ela se virou para Jake e Atticus. — Vocês dois ficam com seu pai. Dan e eu vamos cuidar disso a partir daqui.
Amy deu as costas para eles e começou a se afastar. Suas costas estavam eretas, mas todos podiam ver o quanto ela tremia.
— Amy! Espere! — disse Jake enquanto corria atrás dela.
O Dr. Rosenbloom estendeu a mão e segurou seu filho quando Jake tentou passar por ele.
— Isso acabou — ele falou, agarrando a camisa de Jake e sacudindo-o para dar ênfase. — Você e Atticus voltarão para a escola, e eu vou chamar a polícia tunisiana agora.
Jake se soltou do aperto de seu pai.
— Então os chamará por minha causa, também.
— Jake!
— Eu não posso explicar tudo agora — ele falou. — Só preciso que confie em mim. Amy e Dan não nos obrigaram a fazer nada. Nós estamos ajudando porque sabemos o quanto é importante. É provavelmente a coisa mais importante que Atticus ou eu faremos na vida. Tomaremos cuidado, eu juro. Mas estamos indo. Agora.
— Jake, não ouse...
O rosto de Jake era duro como granito quando ele se afastou de seu pai. O Dr. Rosenbloom deu um passo para agarrar Jake novamente, e Atticus saiu correndo atrás dele. Amy ficou imóvel perto da Land Rover, observando os Rosenbloom correndo na direção dela, com o que pareciam ser lágrimas brilhando nos cantos dos olhos dela.
Quando viu Dan olhando, ela as enxugou e fixou os olhos no chão.
— Atticus! — O Dr. Rosenbloom gritou enquanto seus filhos corriam em direção ao carro. Ele parecia chocado, como se tivesse acordado em um universo alternativo.
  — Garotos — Amy falou, colocando-se entre Jake e Atticus e o carro. — Vocês não podem...
— Não importa o que você diz, tampouco — Jake interrompeu. — Nós não estamos fazendo isso por você. Estamos fazendo isso porque é certo. Então, a não ser que você e Dan queiram que a gente vá embora, nós vamos com vocês.
Amy se virou para Dan, que estava sentado no banco da frente do carro. A força da expectativa dela era como um soco no peito. Ele olhou dela para Jake e Atticus.
— Precisamos deles, Amy — Dan falou. — Eles vão vir com a gente.
— Parem! — o Dr. Rosenbloom gritou enquanto corria para a Land Rover. Jake e Atticus saltaram para dentro, e, em seguida, Dan pegou sua irmã e a puxou para o carro.
  — Vamos — ele gritou para o motorista. — E se apresse!
Dan olhou para Amy quando eles aceleraram em uma nuvem de poeira. Seus olhos estavam cheios da mesma emoção que ele tinha visto lá na biblioteca. Um olhar que gritava que ela tinha sido traída, e pela pessoa em que mais confiava.
Dan se obrigou a desviar o olhar.
— Nós estaremos em Túnis em poucas horas — ele anunciou para o grupo. — Precisamos de um plano. Ideias, alguém?

* * *

Amy estava congelada no lugar, chocada e sem fôlego.
O que havia acontecido com os dois? Dan olhava para ela ultimamente como se ela fosse uma estranha, mas ele tinha que saber que ela só estava tentando manter todos seguros. Não tinha?
Amy se arrastou para o banco de trás e se inclinou para o bagageiro da Land Rover. Inclinou-se sobre as mochilas deles para parecer que estava verificando os equipamentos, e pegou seu celular. Ela discou, e enquanto tocava, ela manteve os olhos fixos em Dan, Jake e Atticus, seu coração doendo ao vê-los bolarem planos sem ela.
O toque parou e o piloto deles atendeu.
— Sou eu — Amy sussurrou. — Sim. Mas eu preciso que você traga umas coisas antes de vir.
Ela murmurou a lista e então olhou para frente. Os meninos ainda estavam absorvidos em seus planos. Dan, Jake e Atticus pareciam tão distantes, quase como se o interior do carro tivesse sido dividido em dois mundos separados. Friamente, ela percebeu.
E esse é o lugar mais seguro para eles, ela pensou. Longe. Do jeito que sempre tinha sido.
O piloto lhe fez uma pergunta, arrastando Amy de volta à realidade.
— Não — ela disse, respondendo. — Houve uma mudança de planos. Ouça...

Um comentário:

  1. Por isso garotas de 16 anos não podem dominar a família mais influente da terra

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!