18 de novembro de 2016

Capítulo 18

April May ponderou como cobrar seus clientes de uma forma que realmente capturasse a dimensão do trabalho que ela fazia. Não por hora ou por projeto, mas pela garrafa de dois litros vazia de Limonada Chocante com Explosão de Cereja e Cafeína. Um copo consumido significava um trabalho amador – invadir uma conta do Gmail ou do Facebook. Invadir os sistemas do Cahill levara três garrafas e ela iria cobrar caro por isso.
E agora estava sentada em frente de seus dois monitores reluzentes, cercada por seis garrafas vazias. A sétima estava em sua mão e já meio vazia.
Descobrir o que o J. Rutherford Pierce estava fazendo era o maior projeto de sua carreira. Parte do problema era que, antes de um certo tempo, mal havia um J. Rutherford Pierce. Ah, ele existia, mas dificilmente na forma que existia agora. Ele era da segunda classe, um perdedor.
Como ele se tornou o homem que era? E mais importante, que tipo de homem ele está planejando se tornar em seguida?
Tinha parecido tão inocente no início, quando ele a contratou para achar alguns segredos dos pirralhos ricos. Fácil. Inofensivo. Mas então ela vira a foto. Algum capanga de pescoço grosso segurando uma agulha hipodérmica no pescoço de Amy Cahill. Pierce não queria envergonhar Amy, ele queria matá-la. E provavelmente a seus amigos, também.
April May tentou dizer a si mesma que era um erro. Um homem musculoso que sacou a arma e foi para uma matança não sancionada. Funcionou por um tempo como uma teoria razoável, porém o quanto mais April May aprendia, mais parecia como outra coisa – pensamento desejoso. Ela precisava saber com certeza. E se um homem como Pierce estava tentando matar duas crianças, qual seria o fim disso?
April May colocou seus dedos no teclado e logo aquela sensação deliciosa de se tornar una com as redes caiu sobre ela. Ela evitou todos os lugares óbvios em que informações poderiam estar. O e-mail de Pierce. Seu celular. Ele era inteligente demais para armazenar qualquer coisa importante em algum lugar tão óbvio. Não, qualquer coisa digna estaria na rede da Founders Media, escondida em um ponto central remoto.
Já que ela tinha construído grande parte dos protocolos de segurança para a Founders, conseguiria passar por eles. Era só uma questão de tempo. April May deslizou através de recursos humanos e contabilidade, em seguida, entrou e saiu de alguns terminais isolados. Ela procurou pelo disco rígido de um repórter em Bogotá, na Colômbia, e nas contas de Twitter de algum estagiário da Founders Media em Des Moines, Iowa. April achou alguns segredos suculentos aqui e ali – alguns até dignos de arquivar para mais tarde – mas nada que explicava o que Pierce estava fazendo.
Algo bipou enquanto April movia através do sistema. Ela ignorou no começo, mas o som ficava mais alto cada vez, e finalmente ela se forçou a quebrar o transe e olhar para o seu segundo monitor.
Lá, em letras verdes claras, estavam as palavras: Tem um rato no labirinto.
April May quase cuspiu sua Limonada Chocante. Interessante.
Uma sob-rotina de segurança antiga havia sido ativada. Ela a tinha criado para procurar invasores na rede, e parecia que tinha acabado de achar alguém. April May mergulhou nos registros do sistema. Esse rato em particular estava bisbilhotando fazia alguns dias, mas a coisa estranha era que não tinha feito nenhum dano. Nenhum vírus. Nenhum download de dados sensíveis. Isso excluía chantagem, espionagem corporativa, e a maioria dos hackers delinquentes.
— Quem é você? — ela perguntou ao ratinho.
  April May voltou a sua atenção para o segundo monitor. Ela rastreou o rato por alguns minutos, com um sentimento engraçado crescendo em seu estômago. O rato era muito bom e muito familiar. Poucos minutos depois, e ela tinha certeza. Ela estava olhando para o próprio hacker de estimação dos Cahill.
April May sorriu. O rato era bom, quase tão bom quanto ela. Ela tomou outro gole de refrigerante e a inspiração baixou sobre ela. Procurar pelos sistemas de Pierce poderia levar semanas e poderia não funcionar. Mas bem na frente dela estava um membro da equipe Cahill. Os Cahill sabiam que eles eram alvos?
— Fique paradinho aí — disse ela, olhando para a tela. — Fique bem paradinho ai.
April passou a hora seguinte construindo protocolos de segurança elaborados, enquanto matinha um olho no rato. Assim que ficou satisfeita, abriu a interface do chat. Ela estava prestes a começar escrever, mas se conteve. Não havia motivo para perder uma oportunidade. April May teceu um código muito inteligente e quase invisível no sistema do chat. O rato não veria nada além de texto, mas se ele respondesse, ela teria um pequeno ponto de apoio no novo sistema dos Cahill. Assim que terminou, April May estalou os dedos e os posicionou sobre o teclado.
  O que eu digo?
Ela sentiu um nervosismo estranho em seu estômago enquanto pensava no humano vivo atrás das luzes de seu sistema. Ela fez uma pausa, então usou um único dedo e digitou duas palavras.

* * *

Pony estava na frente de seu computador, olhando para as duas palavras brilhantes.
Oi, você.
Ele olhou para trás, esperando ver Ian ou um dos outros brincando com ele, mas o centro de comando estava vazio. Só ele, a escuridão, e as duas palavras. Ele colocou seus dedos sob o teclado e os tirou em seguida. Isso era estranho. Estranho demais para não ser cuidadoso. Ele se virou para sua segunda máquina e fez alguns rastreamentos.
— Inacreditável — ele sussurrou. — Incrivelmente inacreditável!
Ele nunca tinha visto uma rota tão complicada. E tão magistralmente feita! O sinal estava vindo de fora do centro de comando, mas era impossível dizer de onde. Seja lá quem o estava contatando poderia estar na casa ao lado ou em um cybercafé em Mumbai.
A coisa mais interessante, entretanto, era que a rota era quase demasiada complicada. Não havia nenhuma razão para fazer isso, a menos que você quisesse enviar uma mensagem. Mas que mensagem?
Quem você conhece que é tão bom assim? E para essa pergunta só tinha uma resposta. April May.
Pony correu para pegar seu celular. Alguém tinha que lhe dizer o que fazer! Ele ligou para Ian, e depois para Hamilton e Jonah, mas não houve resposta. São quatro da amanhã! Quem vai para a cama tão cedo!? Ele estava prestes a correr escada a baixo, mas um pensamento se alastrou. E se ela fosse embora quando ele voltasse?
Aparentemente, essa era por conta dele. Pony checou o fluxo de comunicação de novo. Definitivamente nada vindo além de texto simples. April May não estava enviando um vírus ou algo assim. Ela só queria falar. Pony decidiu manter sua resposta simples, também.
Oi.
Sua resposta ficou na tela por um momento. Ele começou a achar que talvez April May tivesse se assustado, mas houve outro bipe.
Você sabe quem eu sou?
Claro, Pony escreveu. Você é a Rainha do Universo.
Lisonjeante, April respondeu. Quer me contar sobre você?
Eles me chamam de Pony.
Você não é ruim.
Pony sorriu. Ele realmente estava fazendo isso! Ele estava falando com a grande April May! Ele estava com medo que seu cérebro fosse ruir de pura alegria de fanboy. Seus dedos tremiam quando ele voltou a digitar.
O que eu posso fazer por você? Pony digitou. 
Algo está me incomodando ultimamente, April escreveu. Achei que você pudesse ter uma opinião sobre isso.
Pony franziu a testa.
Não falarei nada que possa machucar meus amigos.
Eu não estou pedindo isso, April May respondeu. Eu só estou fazendo uma pergunta. De gênia freelance para gênio freelance.
Pony corou de orgulho, mas pensou por um momento antes de responder. 
O que você quer saber?

* * *

April May olhou para as palavras na tela, com um choque de nervos em seu estômago. Ela pegou uma garrafa de refrigerante se afogou em cafeína.
Um bipe de uma notificação de e-mail veio de seu sistema secundário.
April olhou para ele. Um e-mail se destacava dos demais, em negrito e destacado em vermelho, como se estivesse gritando nela. Era de Pierce, exigindo saber onde os Cahill estavam. O que eles estavam fazendo. Como ele poderia achá-los. April tomou um gole de Limonada Chocante com Explosão de Cereja e Cafeína e começou a digitar.
Quem é o vilão? Você? Ou eu?

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