25 de novembro de 2016

Capítulo 17

Tikal, Guatemala

Eles haviam passado o dia todo à procura do livro de Olivia, sem sucesso. Agora eram duas da manhã, todos os outros estavam dormindo, mas Amy estava bem acordada e estimulada, pensando.
Cinco dias restando.
Seus pensamentos voavam em círculos como um cão correndo atrás do rabo. O antidoto. Ela precisava do antidoto. No entanto, a cada pontada de culpa que ela sentia ao olhar nos olhos de Dan, havia uma parte dela que esperava nunca bebê-lo. Quando ela não estava sofrendo com os efeitos colaterais do soro, ela sentia que viveria para sempre.
Por que ela iria querer que esse sentimento acabasse? Nada a mataria, muito menos algumas gotas de um líquido idiota. Ela tinha uma vida de realizações à frente. Havia livros praticamente se escrevendo nas pontas de seus dedos. Programas de computador implorando para irromper de seu cérebro. Seus músculos tremiam por uma chance de provar-se em um triatlo, ou uma subida até o Everest! Tomar um helicóptero, como ela e Dan tinham feito não contava; ela estava ansiosa para fazer do modo certo – sem tanque de oxigênio!
Ela parou de repente. Isso não fazia sentido. O soro era um veneno. Ele a estava matando. Ela vira com os próprios olhos o que ele fizera com a mãe de Ian, Isabel Kabra. Ela sentiu os tremores.
Então de onde vinham esses pensamentos? Era como se sua própria mente estivesse trabalhando contra ela, sabotando-a. Estes pensamentos eram genuinamente seus – ou eram produzidos pelo soro?
Houve uma batida suave na porta. Ela congelou. Ela deveria fingir estar dormindo?
Antes que ela tivesse tempo para pular na cama e puxar as cobertas para cima, Jake abriu a porta.
— Amy? Pensei ter ouvido você andando por aqui.
Ele entrou e fechou a porta.
— Eu disse que você podia entrar? — ela retrucou. — Não disse.
— Shhh — ele pressionou um dedo contra o seus lábios. — Você vai acordar os meninos.
— O que você quer? É o meio da noite.
— Eu sei que é o meio da noite. O que quero saber é porque você ainda está de pé? Não consegue dormir?
Ela suspirou e se sentou na cama.
Qual era o ponto em mentir para ele? Ela já sabia a verdade.
— Não. Eu não durmo desde que tomei o soro.
Seus olhos se arregalaram.
— Amy, eu sei que cada segundo é crucial agora, mas você precisa descansar.
— Por quê? Eu tenho energia sobrando. E cinco dias para viver. Poderia fazer algo na maioria deles — brincou ela sem convicção.
— Sim, vamos voar para Vegas, pegar a suíte Penthouse, apostar tudo o que tivermos em roletas e viver uma vida de alto padrão. Uma última explosão antes de... e Ele não conseguiu terminar a brincadeira. A realidade era desagradável demais.
Ela tentou manter a brincadeira.
— Brincando comigo sobre a minha morte iminente — ela comentou. — Que doce da sua parte.
Ele deu um sorriso triste.
— Você me conhece. Sr. Coração e Flores.
— Ha. Sim. Sempre o romântico.
Ele estendeu a mão para a maçaneta da porta.
— Olha, você vai dormir ou não? Esse é o motivo de eu ter vindo.
— Sim. Eu vou dormir — ela mentiu. — Não se preocupe comigo — ele apenas olhou para ela. — Não diga nada para Dan — acrescentou. — Sobre eu não dormir, quero dizer. Não quero que ele se preocupe, também.
— Como se ele pudesse evitar — Jake disse. — Eu direi o que eu quiser para Dan. Não recebo ordens de você.
Alguns dias antes, suas palavras teriam machucado, mas não havia maldade em sua voz.
— Ei, Jake? — ela chamou quando ele se virou para a porta.
Ele olhou para ela.
— Sim?
— Se algo acontecer comigo, você vai cuidar dele, certo? Você é ótimo com Atticus, e Dan vai precisar de alguém que... — sua voz falhou quando o rosto de Jake ficou branco. — Não importa. Eu não deveria ter dito nada.
Jake apertou os lábios por um momento antes de falar.
— É claro que vou. É óbvio. Mas isso não será necessário. Nós vamos encontrar os ingredientes. Não vamos fazer o antídoto para você — ele deu um passo para frente, e por um momento parecia que estenderia a mão para ela, mas então seu braço caiu. Depois de tudo o que ela tinha feito com ele, nada além de um acidente de helicóptero poderia induzir Jake a tocá-la. — Apenas descanse um pouco. Você vai se sentir melhor amanhã.
Ele saiu do quarto e fechou a porta.
Ela sabia que ele estava certo. Precisava descansar.
Ela tinha que se manter inteira.
Ela era a líder. Quem estava no comando.
Se ela se despedaçasse, então tudo mais também o faria.

* * *

Ela despertou no escuro, se sentindo quente e suada. Que horas eram? Ela olhou ao redor para o relógio que brilhava no escuro, mas não podia vê-lo. Não podia ver nada; a escuridão era tão densa que quase podia senti-la, podia sentir o cheiro azedo.
Amy se deitou e fechou os olhos, esperando que esse terrível sentimento, qualquer que fosse, fosse embora. O suor escorria por sua testa. Por que ela estava tão terrivelmente quente? Ela se sentou em pânico.
Fogo! Devia ser fogo. Ela pensou em seus pais, o incêndio que tinha matado os dois.
Quem quereria que ela morresse do mesmo modo?
Pierce...
Ela pulou da cama. Tinha que avisar Dan, salvá-lo, tirá-lo do hotel em chamas. Ela se atrapalhou na escuridão, procurando pela porta. Então parou. Ela ouviu alguma coisa. O rugido do fogo? Não, era mais baixo, mais ameaçador. Um rosnado.
Havia alguém no quarto com ela?
Freneticamente, ela girou ao redor.
— Quem está ai? — ela gritou.
Ninguém respondeu. Ela congelou, ouvindo.
Nada.
Os homens de Pierce, ela pensou. Eles vieram para me pegar. Para me parar antes que eu possa impedi-los.
Outro som quebrou o silêncio. Mais rosnados. Esse som não é humano, ela percebeu. É um jaguar!
Ela tateou ao redor até encontrar um livro pesado. Uma vara teria sido melhor, mas isso funcionaria. No canto do quarto ela viu: o brilho vermelho dos olhos do jaguar fixos nela.
Ela gritou e atirou o livro. Os olhos meramente piscaram e se aproximaram. O jaguar grunhiu suave e baixo, preparando-se para atacar.
— Não! — Amy gritou.
Ela se jogou no jaguar, atacando-o antes que ele a atacasse. Estendeu a mão para o seu pescoço, agarrando-o com as mãos superfortes, sacudindo sua cabeça, na esperança de manter seus dentes afiados como navalhas longe de rasgá-la em pedaços.
Então uma luz brilhante a cegou e outra criatura pulou sobre ela, puxando seus braços do jaguar, tentando arrastá-la para longe.
— Pare! Pare com isso! — ela gritou. — Você não vê que ele está tentando me matar?

* * *

— Amy! Amy, solte!
Dan estava puxando seus braços, tentando retirá-los do pescoço do jaguar. Mas... não era um jaguar.
Era Jake. Ela tinha as mãos em torno de seu pescoço. Ele se erguia sobre ela, empurrando firmemente, mas ela era muito forte que ele agora. Ele fez um careta, os olhos arregalados de terror.
Ela relaxou seu aperto e deixou os braços caírem.
— Jake? — isso era tão confuso. O que tinha acontecido com o jaguar?
Jake a levou até a cama. Ela piscou e esfregou a cabeça dolorida, enquanto ele tocava cautelosamente o próprio pescoço. Dan sentou ao lado dela.
— O que estava fazendo, Amy? — Dan perguntou. — Parecia que você estava tentando matá-lo!
— Não... não...
Dan tinha acendido a luz. A escuridão tinha ido embora. Ela podia ver claramente agora. Não havia jaguar, nem fogo. Ela não estava mais quente, embora ela ainda estivesse encharcada de suor. Na verdade, apesar do calor da selva, ela estava começando a sentir frio.
— Jake, você está bem? — perguntou ela.
— Sim, estou bem — Jake esfregou o pescoço e tentou sorrir, mas estava tenso.
— Sinto muito. Eu não tive a intenção de te machucar, eu juro. Mas eu pensei... — ela fez um pausa, sabendo quão louco ele iria soar.
— Amy, me conte — Dan estava apertando a sua mão. — O que aconteceu?
— Eu não tenho certeza. Pensei que um jaguar estivesse aqui, me atacando.
— Eu ouvi você gritando — Jake explicou. — Então vim para ver se estava tudo bem, e você saltou em mim e... — ele não terminou.
— Basicamente tentou estrangulá-lo — Dan completou.
Amy começou a tremer. Ela estivera com calor apenas alguns minutos antes, agora estava congelando.
— Eu podia jurar que ouvi rosnado. E vi os olhos brilhantes de gato bem ali — ela apontou para o canto bem perto da porta.
— Talvez você estivesse sonhando — Dan sugeriu.
— Ou alucinando — acrescentou Jake.
Alucinando. Ah, não. Amy tentou limpar sua mente, mas ela ainda estava nebulosa. Seu quarto estivera em chamas, ela tinha certeza disso.
Mas então... não, não tinha um incêndio, era um jaguar... um jaguar a tinha atacado. Parecera tão real...
Ela se amontou sob as cobertas, tremendo.
Seu maior medo se tornou realidade. A tinha incomodado, esse medo, o dia todo, mas ela queria tanto negá-lo. Ela estava sofrendo os efeitos colaterais.
O soro estava afetando a sua mente. Ela não podia confiar em si mesma. Ela estava perdendo o controle de seus músculos, suas emoções e seu cérebro estavam falhando também. Seu julgamento era suspeito.
Se ela era capaz de confundir Jake com um jaguar, que outros erros que ela poderia cometer?
Dan e Jake estavam olhando para ela, a preocupação gravada em seus rostos. Ela sentiu uma súbita onda de afeto tão intenso que fez seu peito pulsar.
Ela tinha que tomar uma decisão agora, uma decisão que era melhor para eles. Ela sabia o que tinha de fazer.
— Dan — ela colocou a mão sobre a dele. — Eu preciso falar com você a sós.
Jake saiu, fechando a porta silenciosamente atrás dele. Dan se sentou ao lado dela na cama, seu corpo rígido com preocupação.
— Dan. Eu preciso da sua ajuda.
Ele assentiu, ainda esperando.
— Sei que estou pedindo muito de você, algo muito grande. Sei que você quer dar o fora assim que terminarmos com Pierce. Mas eu preciso de você agora... se não encontrarmos o antídoto a tempo e alguma coisa acontecer comigo, você será o único... quero dizer, você vai ter que...
Dan balançou a cabeça.
— Isso não vai acontecer, Amy. Eu não vou deixar. Nós vamos encontrar o antídoto a tempo, eu juro.
Lágrimas brotaram de seus olhos e rolaram por suas bochechas. Ela queria tanto acreditar nele. Mas sabia o quanto tudo estava contra.
— O que estou dizendo é que preciso que você assuma o comando da missão. Agora — Dan mordeu o lábio. — Eu sei que você não quer fazer isso. Mas... — ela ficou surpresa com o quão difícil era pedir ajuda, finalmente, depois de recusar por tanto tempo. Precisou de toda a sua força para admitir a fraqueza. — O soro está agindo em mim. Você viu o que aconteceu.
— Amy, aquilo não foi você.
— Exatamente. Eu estou sob a influência do soro. Não posso confiar em mim mesma. E você não deve confiar em mim, também.
— Do que você está falando? — seus olhos corriam ao redor da sala, sem encontrar os dela. Ele sabia aonde esta conversa estava indo.
— Eu gostaria de pensar... eu gostaria de acreditar que, apesar de tudo, se eu precisar de você – realmente precisar de você, do jeito que preciso agora – você intervirá e fará o que precisa ser feito.
A frase ficou no ar. Cheia de perguntas, cheia de terror: o que precisa ser feito.
— Claro, claro que sim, Amy — ele falou rápido demais. — Você sabe que farei o que você precisar. Apenas me diga o que você quer que eu faça e...
— Ouça — ela tomou seus pulsos nas duas mãos e apertou-os, tentando alcançá-lo.
Eles estavam fora de contato um com o outro, de algum modo, por semanas. Ela tinha que chegar até ele agora.
— Eu tenho tomado um monte das nossas responsabilidades para mim mesma. Sei que acha que é porque não confio em você para lidar com isso. Mas isso não é verdade, Dan. Eu venho tentando poupá-lo da pressão, e do perigo. Mas eu sei que você é inteligente e forte, e capaz. Você pode tomar as grandes decisões. Você pode liderar a família.
Enquanto ele se permitia ouvir o que ela perguntava, sua expressão nervosa endureceu. Ele pareceu mais velho quase que instantaneamente, e mais calmo, e mais triste.
— Eu tenho fé em você — Amy falou.
Dan a encarava. Suas mãos tremiam.
Havia algo pesado ao redor de seus olhos e boca que nenhum garoto de treze anos de idade deveria ter. Isso quebrou seu coração. Ele puxou seus pulsos fora de seu aperto e pôs as mãos em cima das dela. Elas eram firmes agora.
— Você pode contar comigo.

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