25 de novembro de 2016

Capítulo 16

Trilon Laboratories, Delaware

— Com licença, Dra. Gormey. Tenho uma pergunta para você.
Nellie se espantou um pouco. Seu colega de trabalho, Dr. Brent Beckelheimer, era um químico brilhante, mas supremamente irritante. Ela sabia que teria um problema com ele no momento em que percebeu como ele tinha decorado seu espaço de trabalho: com uma coleção de gnomos de jardim em miniatura. Apenas essa visão fazia Nellie querer gritar. Amy estava morrendo. As crianças precisavam de Nellie. O Dr. Beckelheimer estava tomando seu tempo.
Seu trabalho no laboratório era crítico. Ela sabia disso. Mas sentia um puxão magnético para o sul, na direção da Guatemala. Tudo o que ela queria fazer era atirar o jaleco no chão, dirigir a trezentos quilômetros por hora para o aeroporto, e ir salvar Amy.
Em vez disso, estava presa no Meio do Nada, Delaware, lidando com palhaços como o Dr. Beckelheimer. Ela assumiu, desde que era chefe dele, que seria capaz de evitá-lo, mas ele estava estranhamente pegajoso, sempre pairando em torno. Agora, ele estava parado na porta de seu escritório, ao lado do laboratório principal, onde ela supervisionava uma equipe de químicos que tentavam resolver o problema dos efeitos colaterais da droga. Seu grupo de pesquisa começara como uma operação de cobertura, mas havia um novo sentido de urgência no laboratório e todos agora trabalhavam em um novo projeto misterioso. Nellie tinha uma boa ideia do que se tratava esse projeto misterioso, é claro, e trabalhar nele diretamente deu-lhe um pouco mais de acesso a informações secretas.
Foi mais difícil do que nunca para Nellie para camuflar sua total ignorância da química orgânica, no entanto. A droga que eles estavam estudando – embora outros cientistas não estivessem conscientes disso – era o soro Cahill. Os efeitos colaterais que eles estavam tentando curar incluía algo chamado síndrome buco-glossal, ou movimentos involuntários do corpo. Nellie sabia por que eles estavam tentando se livrar da síndrome buco-glossal. Ela tinha visto as imagens de Pierce com a rainha da Inglaterra na TV, e reconhecia um movimento involuntário quando via um, não importa quão inteligentemente Pierce tentasse encobri-lo. Mas ela tinha que jogar junto, ficar amigável com os outros para não levantar suspeitas de que ela havia se infiltrado na empresa e era basicamente uma espiã corporativa.
— Sim, Dr. Beckelheimer? Eu só tenho um segundo.
— Eu observei que este composto químico tem um anel de piperazina, que interage com proteínas no corpo...
Nellie ficou tensa e atenta enquanto ele falava. Ela não tinha ideia do que ele dizia, e ela sabia, por dura experiência, que ouvir mais não ajudaria.
— ... quando o receptor DRD2 está presente; ele faz com que a visão fique amarelada.
Ele ainda está falando?
E quanto a morte?, ela pensou. Você já descobriu como curar esse efeito colateral particular?
— A senhorita acha que há uma conexão?
— Hum... — Nellie girou em sua extravagante cadeira atrás da mesa, batendo um lápis contra a boca. Ela não entendeu a pergunta, obviamente. — Você está perguntando se há uma conexão entre a visão amarela e a Síndrome de Ossobuco?
Opa!. Ela poderia dizer a partir do sorriso rígido e condescendente do Dr. Beckelheimer que ela tinha dito algo errado.
— A Dra. acabou de dizer “Síndrome de Ossobuco”?
— Eu disse? — disparou. Ossobuco era um prato de carne italiano que ela tinha que aprender a preparar na escola de culinária em Boston antes de precisar se disfarçar nesta fábrica de drogas.
Seus olhos se estreitaram.
— Suponho que quisesse dizer Síndrome Buco-glossal.
— Muito bem. Fico feliz em ver que o senhor sabe em que está trabalhando. De volta ao trabalho. Nós dois temos muito o que fazer.
Ela tentou o seu melhor para parecer severa e intimidadora como uma chefe. Não foi fácil. Mas era verdade que ela tinha um monte de trabalho a fazer. Nellie fora ordenada a escrever um relatório sintetizando as conclusões mais recentes dos bioquímicos sobre os efeitos colaterais do soro. Ela disse a si mesma para não pirar. É como um relatório de um livro, ela pensou. Não é diferente.
Isso teria sido verdadeiro se ela tivesse entendido qualquer um dos “livros” que tinha lido. Ela focava em um efeito colateral interessante que Sammy tinha notado – em estágios tardios o soro poderia causar Xantopsia, ou – ei, olha isso! – visão amarela, assim como Dr. Beckelheimer tinha dito. Nellie tinha ouvido uma teoria de que o pintor Vincent van Gogh sofria de visão amarela, que teve uma grande influência sobre a coloração de suas pinturas. Ela escreveu sobre isso em seu relatório, tentando mostrar um caso em que talvez visão amarela não fosse sempre uma coisa tão ruim. Talvez eles pudessem comercializar a droga como algo que promovia a visão amarela, ela sugeriu. Os anúncios poderia dizer algo como: Você, também, pode pintar como Vincent van Gogh!
Ou então não. Ela ficou trabalho até tarde da noite em seu relatório, mas o Dr. Beckelheimer ainda estava ocupado trabalhando quando ela saiu. Ela passou por ele em seu caminho para fora.
— Boa noite, Dr. Beckelheimer.
— Boa noite, Dra. Gormey.
Ele tinha o olho grudado ao microscópio. Não olhou para cima quando ela saiu.

* * *

Na manhã seguinte, ela foi chamada ao escritório de seu supervisor. O Dr. Stevens não parecia satisfeito.
— Dra. Gormey, qual é o significado disso? — Ele balançou uma série de papéis em seu nariz. Ela teve um vislumbre de Vincent van Gogh.
Beckelheimer. Aquele adorador de gnomos imprimira seu relatório e o entregara para o Dr. Stevens antes que estivesse pronto. Ele queria derrubá-la.
— Esse não é o meu relatório sobre a síndrome buco-glossal? — pelo menos ela tinha falado o termo certo desta vez.
— Sim. E é uma farsa. Eu nem chamaria isto de ciência.
— Eu ainda não o tinha terminado ainda, senhor. Mas... Posso vê-lo?
— Certamente — o Dr. Stevens entregou-lhe os papéis.
Nellie olhou por cima deles. Ela não podia admitir que tinha escrito – ele estava certo. A pessoa que escreveu aquilo claramente não era um bioquímico. Um gênio do marketing, talvez, mas não um cientista. E se ela fosse exposta como uma fraude, teria sorte em apenas ser demitida.
— Isto é muito grave — disse Nellie, colocando sua expressão mais preocupada no rosto. — Posso perguntar onde o conseguiu?
— Não importa como o consegui. A pessoa que chamou minha atenção tem se preocupado há algum tempo que a senhorita não esteja qualificada para o seu trabalho. E com base neste relatório, ela está certa.
— Dr. Stevens, eu não escrevi este relatório. Alguém está tentando armar para mim.
— O Dr. Beckelheimer me mostrou isso. Ele é um dos nossos melhores cientistas. Eu confio nele completamente.
— O senhor tem certeza? — Nellie ergueu uma de suas sobrancelhas tão alto quanto podia, de modo Dr. Stevens não perderia a dica. — Acontece que eu sei que ele não é completamente digno de confiança.
— Esta é uma alegação séria, Dra. Gormey. A senhorita tem provas?
— Vamos apenas dizer que posso convencê-lo de que o Dr. Beckelheimer é um maluco. Dê-me até a hora do almoço.
— Tudo bem. Você tem até a hora do almoço. Mas se não me convencer, eu vou denunciá-la.
— Isso não será necessário — disse Nellie. — Você vai ver.
Ela andou para seu escritório e deixou escapar um suspiro profundo. Toda essa coisa de blefar estava cobrando um preço dela. Um minuto para respirar, e ela voltou a ação. Ela pegou seu celular.
— Pony, eu tenho um trabalho para você — ela falou quando ele respondeu. — E acho que será muito fácil.
— Qualquer coisa para você, linda professorinha.
— O quê? Pony, você acabou de me chamar de professorinha?
— Eu quis dizer Nellie, é claro. Nellie.
— Pony, você está fazendo o seu negócio de cowboy digital de novo?
Silêncio. Ela teve sua resposta.
— Eu gosto de você, Pony. Mas você precisa sair mais. Agora não, embora. Primeiro consiga o que eu preciso.
— Estarei trabalhando nisso.
Dentro de uma hora, Pony enviou para Nellie uma dúzia de fotos do Dr. Brent Beckelheimer atuando em sua incomum atividade de fim de semana: vida de gnomo. Ao contrário da maioria daqueles que curtiam gnomos, o Dr. Beckelheimer não roubava estátuas de jardim das pessoas e posava para fotos com eles. Ele os pegava e se vestia como um em seu tempo livre. O traje de Beckelheimer era um terno de veludo verde de três peças, sapatos pretos brilhantes, uma barba branca e óculos de aro de aço, cobrindo a cabeça com um gorro de veludo verde alegre. E aquilo era um enchimento da barriga?
Não. O Dr. Beckelheimer não precisava de estofamento de barriga.
Havia muita documentação. Nellie começou a trabalhar imprimindo as fotos mais embaraçosas.
— Obrigada, Pôny.
— A qualquer hora, deusa. Da próxima vez me dê algo um pouco desafiador, sim?
— Não se preocupe, Pony. Algo desafiador virá logo. Sempre vem.
Ela deu ao Dr. Beckelheimer um sorriso caloroso quando passou por seu posto de trabalho a caminho do escritório do Dr. Stevens. O Dr. Beckelheimer acenou de volta com cautela.
— Ah, você acha que estou aprontando alguma coisa? — Nellie murmurou baixinho. — Você está completamente certo de que estou tramando algo. Espere até descobrir...
O Dr. Stevens estava em uma reunião, por isso ela deixou as fotos em sua mesa com um bilhete. Eu não me importo com o que ninguém faz em seu tempo livre, ela escreveu. Mas nosso trabalho aqui é bastante sensível, e não acho que nós deveríamos arriscar deixá-lo ficar nas mãos de alguém que pode ser... como direi isso? Instável.
Nellie se sentiu um pouco mal. Ela realmente não ligava para o que as pessoas faziam em seu tempo livre, desde que não ferisse ninguém. A obsessão por gnomos de Beckelheimer parecia inofensiva, mas suas outras atividades extracurriculares – tentar expô-la como uma fraude – não.
Meia hora mais tarde, houve uma comoção no laboratório. Dois seguranças apareceram na estação de trabalho do Dr. Beckelheimer.
— Senhor, estamos escoltando-o fora do edifício. Por favor, pegue seus objetos pessoais e venha conosco.
— O quê? — o Dr. Beckelheimer protestou. — O que é isto? O que eu fiz?
— Entenda como algo pessoal. Nós recebemos ordem para escoltá-lo para fora do prédio. Por favor, não pegue quaisquer arquivos ou outros bens da Trilon Laboratories.
Nellie não se atreveu a deixar seu escritório para assistir Beckelheimer ir. Ela não queria provocá-lo. Não se tratava de vingança. Ok, talvez um pouco. Mas a coisa mais importante era que ela deveria ficar nas boas graças da empresa – para poder desmascará-los e ajudar seus pequenos.
Quando as coisas se acalmaram, Dr. Stevens chamou-a em seu escritório.
— Bom trabalho, Dra. Gormey. Por nos ajudar a eliminar caráteres perigosos, decidi promove-la a vice-presidente encarregada da investigação bioquímica
— Vice-presidente? Eu? Estou honrada.
Imagine isso, pensou ela. Eu, Nellie Gomez – quero dizer, Nadine Gormey – vice-presidente de uma companhia farmacêutica! Agora isso é algo para me gabar em minha próxima reunião da escola.
— Mantenha o bom trabalho — disse o Dr. Stevens.
— Obrigada, Dr. Stevens. Manterei.
Ela planejava trabalhar mais do que nunca – porém não da maneira que Dr. Stevens esperava.

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