18 de novembro de 2016

Capítulo 16

Attcius se recusou a dizer outra palavra até que eles estivessem nas profundezas da biblioteca de Túnis, onde o Dr. Rosenbloom trabalhava. Ainda estava longe do amanhecer, mas o guarda de segurança reconheceu Jake e Atticus e deixou que entrassem. Atticus os guiou pelos corredores estreitos de livros que ficavam cada vez mais velhos enquanto prosseguiam. A cada poucos segundos, Atticus parava para examinar um livro, colocando alguns em sua cada vez mais pesada mochila.
Finalmente, eles se viram em uma sala de leitura apertada com uma mesa antiga e algumas cadeiras raquíticas. Atticus tirou os livros de sua mochila e os colocou sobre a mesa, dando uma olhada em cada um por sua vez.
Amy estava em pé na frente de Jake, mas nenhum deles chegou perto de olhar para o outro. Eles encaravam a mesa escura, a raiva persistente enchendo a sala como uma nuvem negra. Dan se sentia sufocado por ela e pelas palavras de Jake na praça. Amy era sua irmã. Eles sempre ficavam juntos, não importava o quê. E ela fez a coisa certa. Não fez?
— Att — Jake chamou. — Sério. Nós não temos muito tempo aqui. Se você sabe onde eles estão mantendo o papai...
— Ninguém está mantendo o papai em lugar algum — Atticus disse, seus olhos se encontrado com o do Jake.
— O que isso quer dizer? Onde ele está?
Atticus fechou o livro que estava em sua frente e respirou fundo.
— Isso vai parecer loucura.
— Atticus, você poderia... 
— Papai está em Atlântida.
Dan nunca ouviu um silêncio tão completo ou constrangedor como o que se seguiu após o pronunciamento de Atticus. Todo mundo meio que congelou no lugar.
— Hã... amigão — Dan disse o mais delicadamente possível. — Eu sei que todos nós temos estado sob um pouco de estresse ultimamente, mas Atlântida não, você sabe, hã...
— Existe — Jake completou.
Atticus ajeitou os óculos e se virou para olhar para Amy. 
— Lá na medina, quando você pediu para o homem soltar o meu pai, ele agiu como se não soubesse do que você estava falando, certo?
— Esses caras são bem treinados — ela respondeu. — Eles sabem mentir quando precisam.
— Eu sei disso. Mas você acreditou nele?
Amy olhou para a mesa, franzindo a testa em concentração.
— É — ela disse. — Eu acreditei.
— Eu também — Atticus disse. — Na verdade, foi quando tudo ficou claro.
— Que seu pai está em Atlântida? — Dan observou. — Fazendo o quê, Att? Curtindo com as sereias?
Atticus ignorou Dan e levantou o livro de Olivia. 
— Essa é a página que meu pai estava olhando antes de ele sair.
— Nomes e coisas sem sentidos — Jake apontou. — Nós já passamos por isso.
Atticus levantou um dedo.
— Mas e se essas coisas tiverem sentido? Olhe para a última frase, a que não parece fazer sentido. O vigésimo Hafsid afirma manter o testamento do fracassado strategoi.
Atticus abriu um livro de couro maciço chamado Califas de Ifriqiya. Dan quase podia ver as engrenagens se movendo na cabeça do amigo.
— O Hafsid era uma dinastia que controlava Túnis, chamada Ifriqiya naquela época, do século XIII até o XVI, o vigésimo Hafsid deve significar o vigésimo Califa, ou governante. Esse era um homem chamado Abu Umar Uthman ben Abul Hasan Muhammad. Uthman para encurtar.
— Ok — disse Amy. — Então quem é o strategoi fracassado?
— Esse foi um pouco mais difícil — admitiu Atticus. — Um strategoi era um tipo de general. O fracassado deve ser qualquer um deles.  Mas então olhei para aqueles nomes dos diálogos de Platão e descobri que ele baseou seu personagem Hermócrates em um cara real.
— Um general — disse Dan, de repente sentindo a emoção que sempre crescia dentro dele quando via Atticus começar a trabalhar.
— Exatamente — Atticus respondeu. — E, aparentemente, não um muito bom. Ele foi feito general, mas então, teve o título retirado porque não ganhou muitas batalhas.
— Então...
— Então o que Olivia está dizendo é que o vigésimo Hafsid, Uthman, afirmou ter o testamento do fracassado strategoi, Hermócrates. Esse testamento deve ser o terceiro diálogo de Platão, que supõe-se ter o seu nome.
— Que você diz não existir — observou Jake.
— Não deveria existir — os olhos de Atticus brilharam. — Mas e se existir?
— Mas espera aí — Dan falou. — O que isso sequer tem a ver com Atlântida?
— Nada — disse Amy. — Atticus, Dan está certo, Atlântida é um mito.
— Todo mundo tinha certeza de que a Troia era um mito — Jake disse — até Calvert e Schliemann a acharem.
— Mas isso é diferente!
— Como? — Atticus perguntou, e, em seguida, ergueu o livro. — Esse é o Crítias do Platão, certo? É o segundo dos três diálogos e a primeira vez que alguém na história menciona um lugar chamado Atlantida. É exatamente como todos pensavam que Troia era, um lugar que Homero inventou na Ilíada até que eles realmente a encontraram.
— Eu não sei... — Amy começou.
Atticus praticamente saltou em sua cadeira.
— Ok — ele disse. — Houve uma vez uma ilha potencialmente mundial com, tipo, supertecnologia e sereias que desapareceram completamente? Dã, claro que não! Mas poderia ter tido algum reino poderoso milhares de anos atrás que foi destruído em um desastre natural? E então, ao longo dos milhares de anos, o mito cresceu até Platão escrever sobre ele e chamar de Atlântida? Por que não?
— Mas nós achamos Troia — Amy disse. — Com toda a tecnologia que temos hoje, como poderíamos ter perdido uma ilha inteira?
— Quem sabe? — Atticus perguntou. — Se for super, super, supervelha, talvez não tenha muito o que encontrar. Ou talvez estejamos procurando nos lugares errados. Quero dizer, não é como se Platão tivesse nos deixado um mapa em Crítias ou qualquer coisa assim.
— Mas talvez ele tenha em Hermócrates — Dan comentou.
— Exatamente — Atticus disse. — Olha, tudo o que sei é que as teorias de Atlântida sempre foram uma espécie de hobby para o nosso pai. E no segundo em que ele viu essas coisas no caderno de Olivia, coisas que pareciam fazer referência a um jeito de encontrar a verdadeira Atlântida, ele correu como se sua vida dependesse disso.
Jake franziu a testa.
— Você está dizendo que ele não foi sequestrado.
— Exatamente! Ele acabou de ver uma das maiores descobertas da história e foi atrás dela. É por isso que sua casa estava uma bagunça. Não foi saqueada. Você sabe como o papai é! Ele provavelmente estava tão animado de ir atrás dela que virou o lugar de cabeça para baixo pegando o que precisava e correu sem mesmo fechar a porta.
— Correu para onde, entretanto? — Amy perguntou.
— Para pesquisar o Uthman, suponho. Se ele conseguir achar onde Uthman estava mantendo o Hermócrates, então talvez possa encontrar Atlântida.
Amy considerou por um momento e, em seguida, balançou a cabeça. 
— Atticus, você e Jake devem ir dar uma checada em seu pai, mas Dan e eu temos que voltar a procurar o silphium.
— Tá — disse Jake. — Vamos, Atticus. Podemos começar pela casa dele e seguir de lá.
— Espera! — Atticus disse quando seu irmão se virou para a porta. — Tem mais uma coisa.
— O quê?
Atticus recostou-se na cadeira, com os braços cruzados sobre o peito e com um largo sorriso no rosto. Ele parecia extraordinariamente satisfeito consigo mesmo.
— A nota que Olivia fez sobre a piada de Leonardo. Lembra? Ela perguntou a ele onde ela deveria achar silphium, ele disse que ela deveria procurar...
— Na Ilha do Ateniense — Dan disse. — Mas...
As palavras mal tinham saído da boca de Dan quando o atingiu como uma avalanche.
— Platão — Dan disse. — Ele era totalmente de Atenas, não é?
— Um ateniense nascido e criado — Atticus confirmou, e acenou com as mãos como se tivesse acabado de realizar um truque de mágica. — Tornando Atlântida sua ilha e onde nós vamos achar o silphium. 
Outro silêncio atônito cresceu sobre o ambiente. Dan sentiu como se sua cabeça estivesse zunindo.
Jake se virou para Amy, com um sorriso arrogante no rosto.
— Então — ele disse — parece que estamos indo para o mesmo lugar.

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