25 de novembro de 2016

Capítulo 15

Tikal, Guatemala

Amy ficou maravilhada com Atticus. O menino sabia das coisas, e não perdeu tempo. Naquela tarde, levou-os a um grupo de estruturas a sul do Mundo Perdido, a parte mais antiga de Tikal.
— Este é o chamado Mural de los Jugadores — explicou ele, mostrando-lhes um mural escavado a partir de cerca de 370 a.C. — O Mural dos Jogadores. Ele descreve um jogo de bola épico entre dois conjuntos de personagens da mitologia maia: os heróis gêmeos e os Senhores do Submundo.
O setor ocidental do mural mostrava três homens com roupas cerimoniais de frente para alguns padrões parecidos com tijolos que Atticus pensava representar uma quadra de jogo. As figuras no setor leste do mural estavam danificados, de modo que somente os seus pés eram visíveis.


— Este é um dos heróis gêmeos — ele apontou para um homem no mural usando uma faixa em torno da cabeça e ornamentos feitos de ossos. — Os Lordes do Submundo foram pintados no lado avariado do mural, por isso não podemos vê-los. Mas um deles era chamado de Senhor dos Espelhos.
— Espelhos — disse Amy. — Como no livro de Olivia.
— Suspeito que glifo tenha feito parte deste mural um dia – no lado avariado. E considerando que temos que decodificar o mapa que leva ao cristal despedaçado, ele se encaixa com o tema pok-a-tok.
— Mas o que ele significa? — perguntou Dan.
— Eu acho que é um código oposto — disse Atticus.
— Como uma imagem no espelho — apontou Amy.
— Certo. Se eu redesenhar o mapa como seria olhado em um espelho, ele nos mandaria para o lado oposto do parque — disse Atticus.
— Para outro templo não escavado... — Jake acrescentou.
— ... onde o cristal deve estar — Dan terminou.
— Vamos encontrá-lo — Amy disse as palavras como uma ordem.
— Acho que Atticus deve redesenhar o mapa em primeiro lugar, para não nos perdermos — Jake falou.
— Nós não vamos nos perder. Eu posso ver tudo em minha cabeça – todo o parque — a mente de Amy estava sobrecarregada, pensando a mil quilômetros por segundo. Ela passou pela entrada de uma casa no Mundo Perdido, em forma de estômago de uma serpente, murmurando para si mesma, pensando em voz alta, girando no lugar para deixar os outros se recuperarem.
— Amy, você está me deixando tonto — Dan falou com preocupação em sua voz. — Sinto que estou no passeio xícara de chá na Disneylândia.
— Estou pensando — Amy respondeu, mas a verdade era que ela não podia ficar parada. O soro estava correndo em suas veias, energizando-a, chamando seus músculos para a ação. Seus músculos exigiam fazer algo. Era um sentimento estranho para uma menina que podia sentar-se para em um banquinho sob ume janela por horas sem parar para olhar para cima.
Ela sentiu uma contração em seu dedo mindinho e parou de rodopiar. Ela olhou para o dedo. Ele se contraiu novamente. Estranho, mas nada a se preocupar...
Mas então, de repente, seu estômago revirou. Provavelmente de girar e girar no lugar da maneira como ela estava fazendo. Ela ficou perfeitamente imóvel, tentando acalmar seus nervos.
— Você parou de rodopiar, finalmente — disse Dan. — Obrigado.
Ela engoliu em seco e assentiu. O rosto de Dan estava borrado. Ela piscou, tentando limpar sua visão. Sua pele, seu cabelo, seus olhos – tudo parecia amarelado, como se ela estivesse olhando através de uma lente amarela. Ou era sua imaginação?
— Amy, o que há de errado? — perguntou Atticus.
Ela piscou de novo, e sua visão clareou. O amarelecimento e a indefinição tinham ido embora. Ela tocou o dedo mindinho com a outra mão. Estável.
— Eu estou bem. Perfeitamente bem.
Mas todo mundo sabia que ela não estava bem. Ela tinha seis dias de vida. E os efeitos colaterais que a matariam tinham começado.
— Deixa pra lá, Amy — Jake disse com a mesma mistura de medo e irritação que tinha colorido tudo o que falara para ela desde que tomou o soro, como se tudo o que tivesse que fazer para parar de morrer fosse “se preocupar com isso.”
Sua mente superafiada pegou o vislumbre de raiva nos olhos dele, percebeu a maneira como eles brilharam por uma fração de segundo de azul acinzentado para azul e tão claramente como se tivesse acontecido em câmera lenta.
— Deixa pra lá? Eu disse que estou bem.
Os três rapazes ficaram sem jeito ao redor Amy, com medo de tocá-la. Ela estava ao mesmo tempo muito forte e muito delicada, como se uma cotovelada acidental pudesse quebrá-la, ou uma palavra errada pudesse deixá-la fora de controle, fazê-la gritar com eles com uma ferocidade que ela não conseguia controlar.
— O cristal — ela lembrou. — Nós vamos encontrá-lo esta noite.
— E quanto aos homens de Pierce? — perguntou Atticus. — E se eles estiverem nos espionando? E se eles nos emboscarem de novo?
Pobre Att. Ele passou por muita coisa para uma criança pequena. Ter sido perseguido ao redor do mundo por homens de Pierce deve ter parecido como viver em um sonho ruim, onde o bicho-papão estava sempre atrás dele.
Seu cérebro de repente iluminou-se – ela podia sentir os neurônios disparando – com uma ideia brilhante.
Os homens de Pierce estiveram sempre no caminho. Sempre o obstáculo que impedia Amy de seu objetivo. A resposta era óbvia. Livrar-se deles.
Amy virou-se para os meninos.
— Nós vamos montar uma armadilha.
Jake pareceu alarmado.
— Montar uma armadilha para quem?
— Os homens de Pierce — Amy caminhou para frente novamente, mal dando aos outros a oportunidade de pararem. — Pense nisso. Eles estão tentando nos matar. Nós gastamos muito tempo e energia lutando contra eles de volta, fugindo deles, apenas tentando permanecer vivos. Se nós não tivermos que fazer tudo isso, poderíamos fazer o antídoto um pouco mais rápido.
— Eu gostaria que eles murchassem e rastejassem para um buraco, também — disse Dan. — Mas isso não vai acontecer. Esses caras não vão a lugar algum.
— É por isso que temos de prendê-los – os que estão aqui em Tikal, pelo menos. Então estaremos livres para encontrar o cristal e o livro sem nos preocupar e vigiaar nossas costas o tempo todo.
— E que armadilha seria essa? — perguntou Atticus.
— Estou trabalhando nisso. Estou pensando em algum tipo de gaiola, ou um poço... um poço muito fundo, tão fundo que eles nunca saiam.
Ela ficou em pé em uma parede alta, caminhou ao longo dela como se fosse uma trave de equilíbrio, e saltou tão bem quanto uma ginasta, tudo sem dirigir-lhe um pensamento. Sua mente parecia funcionar melhor se seu corpo fosse mantido ocupado desta forma. Ela se virou para ver quão longe tinham ido. Eles pararam, todos os três. Estavam parados no meio do caminho, olhando para ela como se ela fosse uma lunática.
— Nada vai dar errado — ela insistiu. — Nós vamos acabar com eles. Isso faz sentido. É mais do que bom senso.
Era assim que as coisas pareciam para Amy então, maiores, melhores, mais... era parte do soro agindo sobre ela. Ideias brilhantes voavam por sua mente tão rápido que ela mal teve tempo para pegá-los. Havia tantas! Era incrível, mas tornava difícil relaxar. Impossível relaxar, na verdade. Felizmente, ela nunca se sentia cansada. Ela começou a andar novamente, mas os três rapazes ainda não se mexiam.
— O que foi?— ela perguntou.
— Você quer aprisionar as pessoas em um poço? — perguntou Jake. — Um poço tão profundo que não possam sair?
— Se eles caíssem em um poço tão profundo assim, eles poderiam quebrar as pernas — disse Dan.
— E depois? — Jake cutucou. — Você iria deixá-los lá no poço? Sem comida ou água, e as pernas possivelmente quebradas...
— ... para morrer na selva? — Dan completou. Ela podia ouvir a verdadeira questão em sua voz: Amy, você está aí?
Atticus não disse nada. Ele se conteve, como se tivesse um pouco de medo dela. Agora ela sabia por que nunca tinha pensado nesse plano antes. Era assassinato. Ela começou a tremer. Atticus caminhou lentamente até ela e colocou os braços ao seu redor da forma como uma criança perdida abraça sua mãe.
— Oh, Att — ela sussurrou, acariciando seus cabelos. — Eu não sei o que está acontecendo comigo.

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