25 de novembro de 2016

Capítulo 14

Washington DC

— O que este país precisa é de mais democracia — Pierce estava em pé em frente ao Memorial Lincoln com sua filha, Cara, ao lado, rodeado por um seleto grupo de senadores norte-americanos. Ele não deveria estar fazendo um discurso, mas a imprensa estava lá, então por que não? — E o que uma democracia precisa para crescer? Uma liderança forte. — Pierce deu um tapinha no pedestal de pedra gigante debaixo da estátua de Abraham Lincoln enquanto os senadores assentiam com a cabeça e ficavam em torno dele. — Este país não teve um verdadeiro líder em anos. O que precisamos é de um verdadeiro patriota! Alguém que entenda que a América vem em primeiro lugar, que todos os outros países devem se curvar ao nosso poder.
Cara ficou espantada com os aplausos entusiasmados.
Como seu pai se sairia desta situação?
— Desculpe-me, Sr. Pierce — uma repórter acenou com a caneta para chamar sua atenção. — É assim que o senhor define a democracia? Soa mais como uma ditadura para mim.
— Você, minha senhora, não é uma patriota! — disse Pierce com um sorriso perigoso. — Consiga o nome dessa repórter — ele murmurou para um de seus guarda-costas. — Farei com que ela seja demitida.
Uau, Cara pensou.
Cara estava acostumada às táticas implacáveis de seu pai – era por isso que ele tinha uma chance real de ganhar a eleição. Mas ela nunca tinha parado para pensar no que aconteceria depois que ele fosse empossado. Quem seria o presidente? A máquina de charme infinito que o público via? Ou o J. Rutherford Pierce que só Cara, Galt, e sua mãe conheciam, um homem que se preocupava com o poder mais do que tudo, mais do que sua própria família?
Eles terminaram sua turnê dos grandes monumentos de Washington com um jantar de Estado no Capitólio. Enquanto garçons serviam-lhes carne assada e batatas, Cara direcionou a conversa para uma tópico que ela sabia que seu pai gostaria: política externa. Ele tinha acabado de visitar as capitais da Europa, certificando-se de agir como um americano grosseiro o máximo possível aonde quer que fosse, e tinha muitas histórias engraçadas para contar de primeiros-ministros tensos parecendo tolos ao redor de um americano descontraído.
Descontraído. Cara queria rir. Essa era a última palavra que ela usaria para descrever seu pai. Mas ele se tornara um gênio em ser quem as pessoas queriam que ele fosse. O candidato perfeito.
— Então eu disse ao chanceler, “Bem, Helmut, o problema com o seu país é que vocês gastam muito dinheiro em coisas bobas como arte. Se gastasse o dinheiro que investe em arte nas forças armadas, você não precisa vir chorando ao Tio Sam cada vez que algum porco em uma república de bananas espirra.”
Os senadores na mesa riram com apreço, mas um assessor parecia um pouco perturbado.
— Pode ser bom brincar com os nossos aliados na Europa — disse ele. — Mas o que dizer de alguém como o presidente do Irã? Como lidaria diplomaticamente com ele?
— Filho, o que você tem que entender é que esses líderes são pessoas como você e eu. Eles podem se vangloriar e ser arrogantes o quanto quiserem, mas se mostrar-lhes que não está impressionado e tratá-los como um bom e velho menino, ou menina — Pierce acrescentou com uma piscadela — então você os tem em sua mão como um rato.
O que foi aquela piscadela? Cara estava irritada. Então, enquanto todos na mesa começaram a rir, ela sentiu algo duro bater contra sua canela, e o senador sentado ao lado de Pierce gritou:
— Ai! Pierce, você acabou de me chutar?
Foi rápido, mas Cara percebeu algo que ela nunca tinha visto no rosto de seu pai antes. Um lampejo de pânico. Ele se foi tão rápido que ela pensou ter imaginado. Mas ela não tinha imaginado que seu pai havia chutado tanto ela quanto o senador debaixo da mesa, e isso não teria nenhuma importância para ele.
Pierce riu de novo, desta vez com frieza.
— Sinto muito por isso, senador. Você deve me perdoar. É só que o presidente do Irã me faz ficar tão louco que eu poderia chutar alguém – e você só estava no caminho.
Mais risos. O senador ofendido parecia aceitar a explicação irônica de Pierce. Mas Cara sabia que era um encobrimento. As pernas de seu pai tinham se movido contra a sua vontade. Por uma fração de segundo, na frente de todos esses políticos, ele tinha perdido o controle sobre si mesmo. O pai dela. Perdendo o controle.
Certa vez, ela pensou que isso fosse impossível. Mas talvez não fosse. Ela não sabia ao certo o que causou que o espasmo, mas tinha uma teoria – e isso a assustou. Seu pai estava tomando aquelas bebidas de poderes especiais por mais tempo do que ela, e ele tomava uma dose maior, também. Mas o que era aquela coisa? Ela sabia que aprimorava suas faculdades físicas e mentais – mas o que mais fazia? O que estava fazendo com ela?
Ela encontrou-se olhando para seus dedos, tocando seu joelho, verificando se suas pernas estavam com qualquer tremor involuntário. Até agora, ela estava bem. Mas sentiu as outras mudanças, as boas mudanças – a velocidade, a inteligência, o encanto fácil – e pensou: essas coisas não são gratuitas.
Algum dia ela teria que pagar um preço.
— É hora de esses chamados “chefes de Estado” aprenderem o que é a verdadeira liderança. Liderança americana — continuou Pierce.
Cara estremeceu quando outra pergunta gelou-lhe a espinha. Que preço que o mundo terá que pagar?

Um comentário:

  1. Essa garota pode não ser aliada, mas é esperta o suficiente pra trair esse pai chato.

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