18 de novembro de 2016

Capítulo 14

As roupas da Amy esvoaçavam como bandeiras ao vento. Ela deu uma olhada rápida para baixo e imediatamente se arrependeu. A calçada de concreto quatro andares abaixo parecia quase ter uma atração magnética.
Com Jake na liderança, os quatro avançaram na direção da escada que dava para o telhado. Mantiveram as suas costas coladas na parede, as pontas dos pés balançando sobre a pedra quebradiça. Até agora, a polícia lá embaixo não os tinha notado, mas eles ainda estavam martelando a porta do quarto do hotel. Era só uma questão de tempo até que entrassem.
Ela deu mais um passo inseguro e Atticus vacilou ao seu lado, um pé escorregando para fora da borda. Amy esticou um braço por sobre o peito dele, achatando-o contra a parede. Ela podia sentir seu coração batendo sob seus dedos.
Amy deu a ele um sorriso fraco.
— Está tudo bem — ela sussurrou. — Olha.
Mais à frente, Jake agarrou a escada e se ergueu até ela. O alívio de Amy durou apenas um segundo. Houve um estrondo atrás dela quando a porta do quarto de hotel deles quebrou.
A polícia tinha conseguindo entrar.
— Parem onde estão! — um policial gritou, inclinando-se para fora da janela.
— Vai! — disse Amy, e incitou Atticus a frente.
Jake estava subindo a escada agora e Dan estava quase lá.
— Vocês! — o policial gritou. — Aí embaixo! Luzes!
Holofotes explodiram das ruas. Amy levantou uma mão para bloquear a luz e viu que os homens de Pierce tinham saído de lá e corriam para o hotel.
Dan pulou para a escada e puxou Atticus atrás dele. Com uma oração rápida, Amy se jogou sobre os degraus de metal.
Não havia mais gritos lá embaixo agora, ou de sons de mais veículos chegando. Ela estava quase no topo quando sua mão, encharcada de suor, escorregou. A gravidade entrou em ação e tentou puxá-la para baixo, mas a mão de Dan fechou-se sobre seu pulso, segurando-a firme.
Amy se ergueu sobre a borda para o telhado escuro.
— Não vai demorar muito até eles subirem aqui — disse Dan.
Amy deu uma olhada no telhado. Havia uma porta em um canto distante e ela descobriu que levaria a uma escadaria de volta para dentro do hotel.
— Nós os enganaremos — Amy disse. — Voltamos e então... 
— Ei! Venham cá!
Amy e os outros se juntaram a Jake. Ele havia se arrastado através do telhado e estava na borda sul do hotel. Eles estavam acima de dez andares agora, com Túnis inteira se estendendo abaixo. Era uma cidade densamente povoada, um telhado dava em outro, como uma série de degraus se dirigindo em linha reta até a confusão que era a medina.
Jake olhou por cima do ombro para Dan, que deu de ombros, então se afastou da borda e ficou em uma postura de corrida.
— Nossa! — disse Amy. — Jake, nós não podemos...
Dois policiais explodiram pela porta no telhado, com armas em punho. 
— Vocês aí! Parem onde estão!
Dan começou a correr.
— Dan, não!
Dan passou ela. Seu pé direito atingiu o topo da parede de pedra e lançou seu corpo no ar, flutuando sobre a brecha de um metro até o próximo prédio. Amy se lançou para frente para vê-lo cair no telhado seguinte com força e rolar.
Jake o seguiu, mas Atticus ficou para trás, claramente aterrorizado. A polícia estava do outro lado do telhado. Eles chegariam até eles em segundos. Loucura ou não, era a única chance deles. Amy pegou a mão de Atticus e juntos eles correram em direção à borda do telhado.
O pé de Amy tocou a parede e ela se jogou o mais forte que pôde no ar livre. Atticus fez o mesmo, e por um segundo ambos estavam sem peso, arremessados através do espaço de mãos dadas.
Amy atingiu o telhado da frente, primeiro com o ombro, e rolou. Dor atravessou suas costelas, mas ela a ignorou, se virando para olhar para Atticus. Ele não estava ao seu lado.
— Atticus!
Os dedos de uma mão pequena agarravam a borda do telhado. Amy correu e agarrou o pulso de Atticus, seu corpo pequeno se retorcendo no vazio abaixo. Amy tentou puxá-lo por sobre a borda, mas sua pele estava suada pelo medo e ele começou a escorregar. Ela lutou para segurar melhor, mas ele estava escorregando rapidamente e a arrastando junto com ele.
Então ela sentiu algo atrás dela, uma mão agarrando sua camisa e puxando. Ela olhou para trás. Dan. Jake apareceu ao lado dela, pegando o outro braço de Atticus. Juntos, os três ergueram Atticus para cima e sobre a borda. Ele atingiu o telhado e Jake jogou seus braços ao redor dele.
— Vocês aí! Não se movam!
A polícia estava na beira do telhado do hotel. Jake pôs Atticus em pé, e um segundo depois estavam todos correndo.
Atrás dele, Amy ouviu um policial dizer algo em árabe em seu rádio. Amy grunhiu quando eles pularam para o próximo telhado.
Dan pousou e, em seguida, correu para o lado, se esquivando de claraboias e colunas de exaustão. Ele deu uma olhada para trás. Dois policiais ainda estavam no telhado do hotel.
— Acho que eles não têm as habilidades dos incríveis Cahill voadores — comentou Dan.
— Rá! — disse Atticus. — Talvez você deva tentar ser um acrobata em vez de um palhaço.
— Continuem! — berrou Jake. — Não tem como eles conseguirem nos seguir de lá. Nós estamos livres, a não ser que, é claro, eles tenham...
O ruído dos rotores de um helicóptero os atingiu um segundo antes de o holofote ser ligado e fazer a noite sumir ao redor deles.
— Vocês estão presos!
Não havia nada a fazer senão continuar correndo.
Os quatro pularam de prédio em prédio até os músculos das pernas de Amy começarem a protestar. Os prédios diminuíam de tamanho enquanto eles se aproximavam da medina. Primeiro seis andares, depois cinco, e então quatro. Mas não importava o quão rápido eles fossem ou os desvios inteligentes que faziam, o holofote do helicóptero continuava fixo neles.
— Ali! — exclamou Dan.
Dan correu para a escada de incêndio e todos o seguiram. Eles desceram as escadas e pararam em um beco apertado atrás dos prédios. O facho do helicóptero ainda estava sobre eles, mas agora desviado pelos varais cheios de roupas, escadas de incêndio e as caçambas de lixo. As quatro crianças encontraram um pedaço de sombra e se esconderam nele. A praça que dava para a medina estava logo a frente.
— Eles vão descobrir que é para lá que vamos. — disse Jake.
— Sem chance! — falou Amy. — Muitas dessas ruas são cobertas, então vão nos esconder do helicóptero.
  — Isso é uma ordem? — perguntou Jake.
O estômago de Amy se apertou.
— Jake...
— É um labirinto lá, Amy! Um que eles conhecem bem melhor do que nós. Uma curva errada e acabaremos em um beco sem saída e eles nos pegam!
— Não — disse Dan. — Amy está certa. A medina é o único caminho.
Amy deu uma olhada rápida para seu irmão.
— Você consegue?
Dan olhou para a noite. Amy podia senti-lo se envolvendo com sua memória fotográfica.
— Eu não sei — ele disse. — Acho que lembro do layout básico, mas... 
— Será o suficiente — Amy falou, suas pernas movendo como pistões. — Você lidera o caminho.
Eles não se dirigiram direto para a medina. Em vez disso, fugiram para as vielas estreitas, até que o holofote os tivesse perdido e o ruído das hélices ter desaparecido.
— Certo — disse Dan. — Agora!
Eles correram para fora do beco e em direção à praça que cercava a entrada da medina. Chegaram na estrada principal e a seguiram por umas voltas.
Sirenes começaram a tocar na praça. Amy rezou para que os carros fossem grandes demais para entrar nas ruas apertadas.
Dan os liderou em uma corrida desenfreada pelas ruas inimaginavelmente emaranhadas. Enquanto eles entravam mais fundo na medina, era como se estivessem as amarrado em nós e desamarrando sem parar.
Amy ouviu um ruído metálico de rádio ao seu lado, e, sem seguida, um bando de gente veio correndo de uma rua adjacente. Dan os levou para um beco e eles se agacharam atrás de latas de lixo enquanto passos se aceleravam para chegar ao caminho de pedra. Amy prendeu a respiração quando os passos pararam na boca do beco, seu pulso acelerado. Jake, Atticus e Dan estavam agachados, tentando ficar invisíveis. Nas costas deles havia uma parede sólida de pedra. Sem escapatória.
Lanternas se acenderam, iluminando pilhas de lixo e detritos no beco. Jake se achatou na parede segundos antes de um dos fachos iluminar o seu braço.
Os homens falavam baixo em árabe. Um rádio fez barulho. os passos retornaram na rua arenosa e os homens voltaram para onde tinham vindo.
Amy queria engolir, mas sua boca estava tão seca quanto um deserto. Jake ia se levantar, mas Amy tocou suas costas e ele parou.
Ela contou longos e dolorosos cinco minutos. Quando terminou, levantou a cabeça com cautela, saindo de seu esconderijo, e se aproximou do final do beco.
O helicóptero zumbia nos topos dos prédios, seu holofote procurando pela rua à frente. Assim que o facho desapareceu, Amy se endireitou e saiu para a rua.
Ela não deu nem dois passos antes que aço frio fosse pressionado contra sua têmpora. Uma voz profunda saiu do outro lado do revólver preto.
— Saia do beco, Amy. Devagar.
Houve um farfalhar de movimento atrás dela, mas Amy levantou uma mão para trás no beco escuro para manter os outros no lugar. Ela sentia sua perna pesada e trêmula, sem vontade de se mover, mas não podia deixar os homens de Pierce entrarem no beco e ver os outros. Ela se obrigou a dar um passo adiante.
Um feixe fino de luar iluminou os quatro homens em sua visão periférica. Ocidentais de ternos pretos, todos com corpos de atletas olímpicos de levantamento de peso. A extremidade da arma em sua têmpora não vacilou.
— Onde estão os outros? — uma voz atrás dela perguntou.
— Nós nos dividimos — Amy disse, tentando manter a voz firme. — Meio quilômetro atrás.
Um dos homens do Pierce correu pela rua para verificar.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntaram a ela.
— Indo a discotecas — Amy respondeu.
Houve um clique quando o homem puxou o percussor da arma para trás e empurrou o cano com força em seu crânio. Amy se encolheu e reprimiu um grito. Sua pele pulsava onde a arma tocava. Seus joelhos estavam fracos, mas ela se recusou a cair. Houve outro farfalhar no escuro do beco e Amy acenou freneticamente atrás de suas costas para avisar os outros para ficarem escondidos.
— Você não quer brincar comigo — o homem com a arma falou. Ele deu um passo para o lado, mantendo a arma pressionada contra seu crânio, e Amy o viu pela primeira vez.
Ela o conhecia. Seus olhos eram frios e azuis. Amy olhou atrás dele. Um dos homens não segurava uma arma, mas sim um par de algemas. O outro tinha o que parecia ser um Taser. Algo sobre isso parecia estranho. Amy lutou contra o medo para descobrir o que a incomodava. Só um deles tem uma arma. Não tem ninguém por perto. Nada para impedi-lo de puxar o gatilho. Então por que eu ainda estou viva? Então a ficha caiu.
— Se você fosse me matar — ela falou — já teria feito isso.
Ela esperou alguma reação, mas o homem de olhos azuis não falou nada, não se mexeu. Amy decidiu testar uma teoria. Ela se afastou dele, encontrando fôlego sem o cano de aço pressionado contra sua têmpora.
— Você tem que fazer com que pareça um acidente — disse ela, apavorada, mas dando mais um passo para trás de qualquer maneira.
O homem a seguiu, também caminhando em direção a entrada do beco.
— Não tem? — insistiu Amy. — Como na ponte em Nova York. Crianças Cahill Assassinadas não dá uma boa manchete, dá? Levanta um monte de perguntas.
Amy continuou se movendo para trás e o homem a seguiu, sua arma descendo de forma quase imperceptível. Seu bando o seguiu, também. Amy rezou para que algum resquício do trabalho de equipe entre ela e Dan ainda existisse, que seu irmão adivinhasse o que ela estava tentando fazer.
Amy estava a poucos metros do fundo do beco. Ela se moveu para dar outro passo, mas dessa vez a arma subiu novamente, apontando para sua testa, no meio dela. O dedo do homem se posicionou no gatilho preto e o coração de Amy perdeu uma batida.
— Que tal essa manchete? — ele falou. — Crianças Cahill Perambulam em Beco Escuro. Baleadas por Criminosos Locais. Aposto que as pessoas vão acreditar nisso.
— Por favor — Amy pediu, levantando as mãos, tentando controlar sua respiração, tentando manter a calma. — Faça o que quiser comigo, apenas deixe o Dr. Rosenbloom ir. Ele não tem nada a ver com isso. Eu juro. Se querem um refém, libertem-no e me levem em seu lugar.
— Levar no lugar de quem?
— Mark Rosenbloom!
Os olhos do homem se estreitaram e sua cabeça se inclinou para o lado.
— Quem é Mark Rosenbloom?
— AAAAAHHHHHH!
Jake explodiu para fora do beco, balançando uma tábua de madeira. Ele atingiu o pulso do homem e a arma caiu. Jake não perdeu um segundo. Girou a tábua novamente, acertando a parte de trás da cabeça do homem com toda a sua força. A tábua quebrou e o homem caiu de joelhos. Dan e Atticus estavam bem atrás dele, com uma lixeira de aço pesado entre eles.
Eles a atiraram no ar e acertaram um deles no estômago. Ele se dobrou e o Taser caiu no chão.
Amy mergulhou atrás do Taser e o enfiou nas costelas do terceiro homem quando ele avançou para cima dela.
Houve um estalo, uma faísca e o homem caiu no chão, debatendo-se como um peixe morrendo.
— Corram! — ela gritou.
Os outros se juntaram a Amy quando ela começou a correr pela rua. Ela olhou por cima do ombro. Os três homens estavam grogues, mas já começavam a ser levantar.
— Por aqui.
Dan virou para a direita, os levando para outra curva. A mente de Amy corria. Os homens de Pierce eram muito mais velozes. Eles só tinham minutos antes que sua energia dissipasse ao ponto de que correr significasse tropeçar e cair. Talvez ela pudesse distrair os homens do Pierce por alguns segundos com um corpo-a-corpo surpresa, mas lutar com eles frente-a-frente era impossível.
Uma câimbra se alastrou ao lado de seu corpo enquanto ela corria.
Amy arquejou e sua mão foi até lá, embaixo de sua jaqueta. Ela sentiu algo duro e quadrado em seu bolso. A ideia a atingiu como um impacto de uma bala.
— Nós precisamos de um lugar para nos esconder — ela gritou para Dan.
Dan correu por ruela após ruela no escuro até que encontrou outro beco e foi para ele.
Graças a Deus que ele tem essa memória!, pensou Amy.
As crianças caíram de joelhos na escuridão, sem fôlego. Amy prestou atenção, mas não escutou o barulho dos passos dos mercenários. Eles os tinham despistado, mas ela sabia que não iria durar por muito tempo.
Eles haviam conseguido segundos. No mínimo.
— Dan — ela disse. — Qual é o caminho mais rápido de volta para o Bab el Bahr?
— Mas lá é muito aberto! — disse Jake. — Amy! O que você está fazendo?
Amy pegou seu celular e, em seguida, enfiou a mão no bolso da jaqueta.
— Jogando ao nosso cão um novo osso.

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