25 de novembro de 2016

Capítulo 13

Tikal, Guatemala

— Ele se foi — Jake falou, balançando a cabeça em descrença. — É como a selva simplesmente o tivesse engolido.
Dan, Jake e Amy tinham voltado para a selva para procurar o livro perdido de Olivia, refazendo seus passos inutilmente, enquanto Atticus tentava descobrir onde o cristal despedaçado estava.
Dan curvou os ombros. Ele parecia tenso, extremamente isolado. Amy queria consolá-lo, para que ele soubesse que ela não o culpava por ter perdido o livro, mas ele se esquivava quando ela chegava perto. Por outro lado, ele realmente estremeceu, como se ela já estivesse morta e ele tivesse simplesmente roçado em um cadáver.
Ele a pegou olhando para ele.
— O que é? — ele perguntou, sua voz estranhamente sem entonação.
— Nada. Só espero que você esteja bem.
— Eu estou bem — disse ele, evitando seus olhos.
Podia senti-lo se desligar, afastando-se como se estivesse tentando obter uma vantagem inicial em sua tristeza. Ou ele estava punindo-a por morrer? Por tomar medidas drásticas para salvar a sua vida? Ele poderia ser tão ingrato? E ainda assim... ela entendia. Se a carga tinha sido demais para ele antes, era maior do que nunca agora.
Ninguém disse uma palavra na longa caminhada de volta para o hotel. O silêncio era mais espesso do que o calor, pesado com todos os pensamentos que eles tinham medo de dizer em voz alta.
— Alguma sorte com o símbolo, Att? — Dan perguntou quando voltaram para o hotel.
Atticus balançou a cabeça.
— Eu verifiquei todos os hieróglifos que foram decifrados até agora, mas este não está lá. Até tentei reencenar um jogo pok-a-tok com estas sementes de palmeira para ver se acionava as ideias... Amy, o que esse símbolo parece para você?
Amy sentou-se com Atticus e se concentrou no símbolo. Talvez agora, com a mente aguçada pelo poder do soro, ela pudesse desvendar o código. Apesar dos rostos sérios em torno dela, ela se sentiu invencível. Quando se concentrava nas distâncias era como olhar através de um telescópio. Ela poderia ver um verme no bico de um pássaro a milhas de distância. Sua visão no escuro era como olhar através de óculos de visão noturna.
Ela tinha estado em forma antes de tomar o soro, mas teve que trabalhar duro por cada músculo. Agora, pela primeira vez em sua vida, a estudiosa Amy Cahill, moradora da biblioteca, era uma atleta natural.
Ela tinha que lembrar constantemente por que se sentia tão forte, e quando se lembrava, seu humor despencava. O soro estava fazendo isso com ela. A mesma coisa que a fazia se sentir tão bem agora logo iria matá-la.
Mas isso não parecia real. A morte parecia impossível. Ela sabia em sua mente que o soro era fatal, mas não conseguia senti-lo em seu corpo, que estava tão cheio de energia e vida. Era como carregar uma bomba-relógio dentro de seu corpo, só que ela entendeu errado, o tique-taque da bomba era como a batida de seu coração.
O cristal... focar no cristal. Ela treinou seus olhos sobre o glifo. A parte inferior tinha um formato meio quadrado com cantos arredondados e dentro dele havia um pequeno quadrado e duas linhas horizontais, como traços. No topo do quadrado principal estavam três retângulos verticais.
— Eles quase se parecem com painéis — disse ela. — Ou... como se o quadrado fosse o rosto de um homem, com duas linhas no lugar dos olhos... e a parte superior fosse um cocar?
De repente, houve uma batida na janela. Assustada, Amy pulou e girou, perna no ar com os punhos cerrados, pronta para se defender contra um ataque. Ela estava prestes a chutar pela janela quando viu uma pequena criatura preta e peluda agachada no parapeito, olhando para as nozes que Atticus tinha deixado sobre a mesa.
— Relaxe, Amy — disse Jake. — É apenas um macaco bugio.
Amy deixou as mãos cair para os lados.
Respira, respira... O macaco bateu na janela novamente e pulou para cima e para baixo como se estivesse rindo dela. Ela olhou mais de perto para ele.
— Jake, que não é um macaco bugio. É um macaco-aranha.
— O quê?
— Você pode dizer pela pele avermelhada na parte superior do corpo. Qualquer pessoa que conhece alguma coisa sobre a fauna nativa da Guatemala veria a diferença facilmente.
Ela ouviu o desprezo em sua voz e viu o flash de dor surpresa no rosto de Jake.
— Erro meu — disse ele.
Ela abriu a boca para se desculpar, mas outro pensamento passou por seu cérebro. Ele é inteligente, mas não é um Cahill, e nunca será. Ele nunca será capaz de manter-se comigo e Dan. Por que ele não pega seu irmão mais novo e volta para Roma?
— Amy, é apenas um macaco — disse Dan.
— Apenas um macaco? Cada detalhe é importante! Você sabe disso tão bem quanto eu, Dan.
Dan, Jake e Atticus estavam todos olhando para ela com preocupação em seus rostos. E o medo.
Amy sentiu uma pontada de dor ao vê-los. Ela queria derreter no assoalho e escapar como o mercúrio. Eles a amavam, todos os três. E ela os amava. Eles estavam trabalhando com o objetivo de salvar sua vida, e ela não podia deixar de contar com eles. O desprezo que ela sentia esvaiu em uma corrida, substituído pelo remorso.
—Jake, me desculpe...
Seu telefone tocou – Nellie. Amy estava grata pela distração. Ela transferiu a chamada para seu laptop para que todos pudessem vê-la e falar com ela. Amy ainda se assustava cada vez que via Nellie com cabelo castanho claro – sem cores loucas, sem mechas neon desalinhadas. No entanto, embora ela parecesse surpreendentemente diferente, ainda parecia a mesma velha Nellie, que era mais do que Amy poderia dizer de si mesma.
— E aí, garotos? — perguntou Nellie. — Tenho algumas novidades. Pony confirmou que Debi Ann Pierce é Deborah Starling.
— Por que nós não soubemos isso antes? — perguntou Amy, trabalhando duro para manter a voz calma e controlada.
— Pierce não tinha qualquer conexão com os nomes dos Starling ou Cahill na Internet — explicou Nellie.
— Pensei que fosse impossível — comentou Atticus.
— Não é fácil — concordou Nellie. — Pony disse que April May é a responsável.
— Se ela ainda está trabalhando para Pierce, isso explicaria a emboscada — disse Amy.
— Que emboscada? — Nellie gritou em alarme.
— Eles nos emboscaram quando fomos encontrar o cristal despedaçado — explicou Amy.
— E Dan quase foi morto — Atticus acrescentou antes que Amy pudesse impedi-lo de falar.
— O quê? — Nellie gritou. — Dan, você está bem? Ponha seu rosto perto da câmera para que eu possa vê-lo claramente.
Dan empurrou o seu rosto para a câmera sobre o laptop de Amy.
— Eu estou bem, Nellie. Não se preocupe. Amy salvou minha bunda.
— Não me preocupar? Você quase foi morto! O que aconteceu?
Amy lutou com os impulsos beligerantes dentro dela. A menor ameaça para suas crianças e Nellie entrava em modo de batalha. Ela tinha feito tanta coisa para protegê-los, fez tantos sacrifícios. Amy se sentia protetora em relação a ela agora, querendo poupá-la deste golpe. Mas Nellie merecia saber a verdade. Ela precisava saber.
— Calma, Nellie — disse Amy, mantendo a voz firme. Nellie tinha começou a andar na frente da tela do computador, incapaz de suportar o suspense. — Os homens de Pierce nos emboscaram na selva, e tentaram cortar uma corda enquanto Dan estava sobre ela...
— Pendurado sobre um rio — Dan colocou.
— ... mas eu o salvei, e todos nós estamos em segurança. Essa é a boa notícia.
Os olhos de Nellie se estreitaram.
— E qual é a má notícia?
Dan olhou para Amy, e ela sabia que ele estava tentando adiar o inevitável, também.
— Perdi o livro de Olivia — confessou, tentando ganhar tempo. — Ele caiu da minha mochila enquanto estávamos lutando contra os capangas, e nós não pudemos encontrá-lo.
— Ok — Nellie assentiu. — Certo. Certo. Isso é ruim. Isso é muito ruim, mas enquanto meus dois garoos estiverem seguros...
— Não é tão simples assim — disse Amy. — Dan estava... ele estava prestes a morrer. Estava pendurado sobre um rio. Ele teria caído e batido contra as rochas, se... se...
Nellie parou de andar.
— Se o quê?
Dan olhou para Amy. Ela balançou a cabeça. Ela não podia fazê-lo.
— Desembuchem, crianças — disse Nellie.
—Amy tomou o soro — os ombros de Dan se curvaram enquanto ele falava. Amy podia ver a bobina de raiva e dor dentro dele apertar. — O soro original, não diluído. A dose completa. Foi assim que ela teve forças para me salvar.
Nellie piscou.
— O que você está falando? Como Amy poderia tomar...?
— Eu tinha um frasco dele — Amy falou. — Sammy fez para mim.
Enquanto a notícia era dada, o rosto de Nellie se contorcia de dor. Amy sabia que estava assistindo o coração de sua amiga partir. Nellie pressionou as palmas das mãos contra os olhos, em seguida, abaixou a cabeça sobre a mesa à sua frente. Finalmente, ela ergueu o rosto e enxugou os olhos.
—Eu não vou deixar você morrer — sua voz tinha ficado feroz. — Você não vai morrer. Tudo o que precisamos é o antídoto. Conseguiram o cristal?
Atticus franziu a testa.
— Ainda estamos trabalhando nisso.
— Espere — Amy pairou pelo ombro de Atticus e olhou para o glifo. A partir de uma pequena distância, ela viu de forma diferente – com mais clareza. — Eu sei o que aqueles retângulos verticais me lembram. Um espelho.
Atticus inclinou a cabeça, estudando o símbolo.
— Um espelho?
— Você sabe, aquele de três ângulos que costuma ter em lojas ou em penteadeiras femininas?
Os três rapazes pareciam não entender, mas na tela do computador, Nellie animou-se.
— Eu sei o que você quer dizer. O tipo com três painéis, de modo que você pode se ver de frente e de ambos os lados ao mesmo tempo.
— Isso! — disse Amy. — Isso ajuda, Atticus?
— Um espelho... —Atticus pegou seu laptop e começou a procurar algo. — Isso soa familiar. — Poucos minutos depois, ele anotou algo no papel. Pela primeira vez nesses dias, Atticus sorriu. — Amy, acho que você desvendou o mistério.

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