18 de novembro de 2016

Capítulo 13

Pony estava no meio da selva e havia tigres por todos os lados.
Ele conseguia sentir seus olhos em cima dele, a cada passo, agachando-se na borda dos firewalls e à espreita, vorazes, no interior dos registros do sistema. Não tinha dúvidas de que ele era um dos melhores, mas a Founders Media tinha resistido por anos de ataque de todos, desde o Anônimo até o Mafiaboy e possivelmente até da própria April May.  Eles não desistiriam de seus segredos sem uma luta sangrenta, portanto os tigres – sentinelas feitas de códigos prontos para atacar caso ele desse um passo em falso.
Assim que Pony vira as últimas notícias da Founders Media, sabia que tinha que tentar algo. Ele começou tentando alcançar os servidores de arquivos relativamente desprotegidos e deletando artigos e arquivos de fotos e vídeos. Eles sempre voltavam, entretanto, às vezes em poucos minutos.
Sua mais recente jogada era mergulhar profundamente dentro dos servidores internos da Founders Media. Ele não tinha certeza de qual seria o fim do jogo – talvez achar informações para implicar Pierce nos ataques contra Amy e Dan. Talvez fazer um dano profundo e grave em sua rede.
Primeiro, Pony precisava entrar. E isso estava se provando muito mais difícil do que ele achava. Pony empurrou o teclado. Sua cabeça latejava. Seus olhos doíam.
Havia apenas uma cura para o que o afligia.
Pony deixou seu posto no centro do comando e caminhou até a cozinha em uma tontura pós-hacking.  À sua volta, Hamilton, Ian e Jonah estavam curvados sobre livros e em seus próprios computadores, cutucando uma centena de mistérios diferentes.
— Ei, Pony — Hamilton disse.
— Pony Boy! — Jonah cumprimentou. — Tudo beleza?
Pony ainda não conseguia acreditar que Jonah Wizard estava falando com ele.
— Só dando uma pausa. Como a pesquisa está indo?
Jonas girou em sua cadeira.
— Ótima! Eu e o Ham dominamos essa coisa todinha.
— Sem chance.
— Dá uma olhada — Jonah disse. — Nós aprendemos que o deserto nos arredores de Túnis foi usado como o local principal para o primeiro filme de Stars Wars. E não é só isso, também foi em Tikal na Guatemala.
— E — Hamilton disse — Angkor Wat foi usado como modelo para um planeta brevemente mencionando em A Vingança dos Sith.
Pony olhou para eles inexpressivamente.
— E daí?
Hamilton se inclinou para frente.
— E daí que nós temos que nos perguntar — ele falou em um sussurro conspiratório — nós temos considerado plenamente o papel de George Lucas em tudo isso?
Pony revirou os olhos.
— Vocês precisam de algo da geladeira?
Hamilton balançou a cabeça.
— Copo grande — Jonah disse. — Metade refrigerante de gengibre. Metade root beer.
— Ian?
Ian o ignorou, o que não era surpresa. Ele mal dizia uma palavra desde que eles voltaram para Attleboro. Ficava sentado num recanto escuro olhando para uma tela de computador ou marchando escada acima com raiva. Pony percebeu que ser deixado de lado devia estar deixando-o louco.
Ele procurou na geladeira até encontrar seu elixir mágico. Limonada Chocante com Explosão de Cereja e Cafeína. Pony não se preocupou com um copo; virou dois litros da bebida em sua garganta. Ele imaginou sua barra de vida ir do perigo vermelho para amarelo e para um verde elétrico incandescente. Pegou outra garrafa e a bebida de Jonah e, em seguida, voltou para seu posto.
— E aí, Pony?
Pony quase cuspiu um gole de refrigerante. Nellie estava sentada em sua cadeira, mas havia algo distintamente menos deusa sobre ela.
— Você tá... esquisita.
— Sabe, Pony, acho que é o seu tato que faz todo mundo te amar tanto.
— Mas seu cabelo. E suas roupas. Você está vestida como minha mãe.
Os olhos castanhos de Nellie se estreitaram sobre ele.
— Eu estou disfarçada — ela rosnou. — Agora sente-se. Preciso de sua ajuda.
— O que foi?
— Eu preciso de qualquer coisa que você possa descobrir sobre a Trilon Laboratories.
Isso era música para os ouvidos de Pony. Nellie saiu de sua cadeira e ele se inclinou no teclado como um músico, seus dedos batendo nas teclas, fazendo um som crepitante. No fim, a coisa toda foi um pouco desapontador. Pony deu de ombros e tomou outro gole de seu refrigerante de hacker.
— Aí está.
— Aí está o quê?
— Pwnage. Completo e total pwnage.
— Eu realmente preciso de algum dicionário de geek para inglês.
— Tô dentro — Pony disse. — Bem no meio dos sistemas dele. Trilon Laboratories agora trabalha oficialmente para mim.
— Mas já?
— Só coisas de segurança padrão. Fáceis de quebrar.
— Então o que tem aí?
Pony surfou pelo sistema, entrando e saindo de arquivos à vontade. 
— Não muito. E-mails. Algumas coisas de contabilidade. A lista de todos os cinquenta e sete funcionários.
— Espera. Cinquenta e sete? Eu vi tipo umas cem pessoas no estacionamento.
Pony ficou navegando até que achou um esquema irregular do edifício.
— Aqui? Eles precisariam de um pé de cabra para caber tantas pessoas em um edifício desse tamanho.
— Você pode imprimir isso?
Uma tecla foi apertada e um conjunto completo de plantas deslizou pela impressora. Pony as espalhou em uma mesa e se debruçou sobre as linhas e a numeração.
— Alguma coisa estranha? — Nellie perguntou.
— Parece ser um prédio — disse Pony — Com paredes e um chão. E um teto.
Nellie olhou para ele.
— O quê? Papel não é realmente o meu forte.
Nellie o empurrou para fora do caminho e traçou o labirinto de linhas de dentro e fora dos quartos.
Ela virou uma página para olhar os esquemas da fiação elétrica.
— Huh — ela disse. — Olha.
Pony se inclinou para frente, virando as páginas sem parar. Ele nunca teria imaginado que fosse possível com algo tão supremamente chato como algumas folhas de papel, mas começou a sentir aquele sentimento familiar de quando hackeava. Era como ele estivesse derretendo os dados, se tornando uno com eles, se perdendo. Por um segundo, Pony era aquelas plantas.
— Você vê? — perguntou Nellie.
— É como se tivesse dois prédios — Pony disse. — Olha o porão. As paredes e o teto são supergrossos, bem mais pesados do que qualquer outra coisa no andar de cima, como se fossem muros ou algo assim. E tem tipo um sistema elétrico totalmente separado. E olha para todos esses elevadores e escadas.
  Nellie olhou para elas, mas balançou a cabeça.
— Eu não vejo nada.
— Eles não estão realmente no porão — ele disse. — Com todas as pessoas que você disse que estavam lá, você acharia que eles se certificariam de haver várias maneiras de se chegar no andar de baixo, mas não. Os poços de elevadores e escadas param no primeiro andar. Exceto por esse aqui. 
Pony apontou para o que parecia ser outra escada.
— Esse vai lá para baixo.
Nellie começou a pensar em quando estava nos corredores a caminho de seu laboratório, tentando combinar suas memórias com as linhas azuis e brancas à sua frente.
— Eu nunca vi uma escada lá.
— Nenhuma surpresa — disse Pony. — De acordo com as plantas, elas levam até uma parede sólida. Não tem entrada ou saída nessa escada em qualquer piso além do porão.
— Acho que nós devemos colocar isso na lista de suspeitas — disse Nellie enquanto pegava as plantas. — Bom trabalho.
Nellie deu um soco amigável em seu braço e saiu com as plantas debaixo do braço. Observando-a ir, Pony sentiu aquele sentimento deflacionado que ele normalmente tinha após se desconectar de um dia sério de hack. Era estranho.
Pony sempre tinha sido um solitário. Um jóquei do teclado em um porão úmido vivendo de refrigerante e pizza de abacaxi e anchovas. Mas agora ele era parte de um time.
De jeito nenhum eu desapontarei essas pessoas.
Pony foi até seu computador e tomou outro gole de seu refrigerante.
— Hora de ir para guerra, Founders Media — ele disse estalando os dedos, um por um. — Prepare-se para o pwnage final.

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