18 de novembro de 2016

Capítulo 12

Amy sentou no chão debaixo do chuveiro, a água escaldante caindo sobre sua cabeça e ombros e enchendo o banheiro de vapor. Ela colocou a água tão quente que sua pele estava vermelha e dolorida, mas não conseguia parar de tremer. Os rostos dos pais de Evan a assombravam. Era como se tivessem carimbado a imagem em tinta fosforescente sob suas pálpebras, inevitável não importasse o quanto ela tentasse bloqueá-la. Por muito tempo, Amy tinha se afogado na culpa que havia se alastrado dentro dela com as vozes de todos que diziam que não era sua culpa. Que Evan sabia dos riscos.
Agora umas poucas palavras dos pais de Evan e a ferida voltou a ficar em carne viva de novo. Evan tinha se envolvido por causa de seus sentimentos por ela. Amy podia tê-lo parado, mas não parou.
Ela desligou o chuveiro e foi para o quarto, enrolada em uma toalha. Estava silencioso do outro lado da porta. Ela só podia imaginar o que os garotos devem ter falado quando ela saiu da sala. O que eles deviam pensar dela.
Amy caiu sobre sua cama na hora em que seu celular começou a tocar. Ela queria ignorar, mas o identificador de chamadas mostrava que era de Attleboro. Ela respirou fundo e se obrigou a atender.
— Nós estamos achando que pode ser drogas.
Amy quase sorriu de alívio quando ouviu o sotaque rico da voz de Ian Kabra.
— Algum tipo de soro da verdade composto...
— Mas não aquele que te faz dizer a verdade! — Hamilton gritou do fundo.
— Eu disse algum tipo, Hamilton. Agora por favor, estou tentando falar. Tomas — Ian resmungou e, em seguida, se voltou para o celular. — Nós achamos que Pierce deve ter colocando alguma droga que enfraquece a vontade própria na água deles, então quando o repórter sugeriu o que eles queriam que os Tolliver dissessem, eles disseram.
Amy estava deitada de costas, olhando para o teto de estanho. O calor do chuveiro tinha se dissipado e um frio serpenteava por suas pernas. Ela se sentia distante de si, como se estivesse observando tudo de outro lugar.
— Amy? — Ian chamou. — Amy, você está aí?
— Não foram drogas — ela disse.
— Você não pode acreditar que essas pessoas honestamente pensam...
— Com que frequência você pensa na Natalie?
Agora foi a vez de Ian de ficar em silêncio. O ouvido de Amy foi preenchido com a inspiração e a expiração da respiração suave dele.
— Eu não acho que seja apropriado... — ele começou com sua energia brusca costumeira, mas, em seguida, sua voz falhou. — Eu penso nela o tempo todo — ele admitiu.
Amy se virou de lado, pressionando o celular entre sua orelha e o travesseiro.
— Mas às vezes é como se você... — ela lutou com a ideia que parecia fugir mesmo que Amy se agarrasse a ela. — Esquecesse?
— Esquecesse o quê?
— Que ela realmente se foi? Como se um dia você fosse virar a esquina e... — a voz de Amy ficou presa em sua garganta, mas ela a forçou — ela estaria lá? Ou que você veria outra pessoa e por um segundo visse Natalie no lugar.
— Eu ouço a voz dela algumas vezes — Ian confessou. — Quero dizer, eu acho que ouço. Tem sempre essa fração de segundo quando eu penso, Ah, não, o que ela quer que eu faça agora? Mas então eu me lembro.
— Acho que é isso que as outras pessoas não entendem. As pessoas que se foram não se foram realmente.
— Não — Ian disse. — Isso nunca é verdade.
Um caroço cresceu na garganta de Amy.
— Yo, Ian!
Amy pode ouvir uma briga pelo celular.
— Jonah! Me solta!
— Vá me pegar um pouco de chá, meu caro — Jonah disse na sua melhor imitação de Ian. — Tenho que dar uma palavrinha com a chefe por um minuto.
Amy ouviu Ian limpar a garganta e, em seguida, a voz estilosa de Jonah preencheu seu ouvido.
— Yo! Amy Q-para-Rio.
— Oi, Jonah — Amy cumprimentou. — Como estão indo as coisas?
— Deixa isso pra lá. Tá na hora de mandar umas palavras de sabedoria. O que aqueles dois disseram na TV foi cruel.
— Eu realmente não quero...
— Eu sei. Eu sei. Não estou aqui para discutir os seus sentimentos. Estou aqui para mandar uma palavra de conhecimento.
— Ah, é? Qual?
— Todas essas pessoas se aglomerando em torno de você com câmeras e caderninhos? Esses repórteres? — Jonah disse a palavra com nojo óbvio — Eles não são nada além de cachorros procurando um osso para roer.
— Bem, infelizmente esse osso é a gente.
— É, mas não precisa ser. Veja, todos os cachorros querem algo entre os dentes. Não importa o que seja. Os repórteres são do mesmo jeito. Tudo o que estão tentando fazer é um dinheirinho mantendo um monte de pessoas entediadas entretidas.
— Então o que você quer dizer?
— Quero dizer que se você quer fazer um cão soltar o osso, tudo o que tem que fazer é lhe dar algo novo para roer.
— E como devo fazer isso?
— Quando quero tirar os repórteres da minha cola, dou uma dica anônima de que o Justin Bieber está raspando o cabelo do outro lado da cidade.
— De alguma maneira, não acho que eles vão acreditar nisso aqui.
— Eu não sei, Cahill, esse carinha anda por todos os lados.
Amy se surpreendeu ao ouvir-se rindo.
— Tudo bem. Obrigada, Jonah. Verei o que eu posso fazer.
— Conhecimento ganho com dureza, Amy. Ganho. Com. Dureza.
Amy deu tchau para Jonah e, em seguida, olhou para a porta. Ela não podia se esconder ali para sempre. Ela se vestiu e então ficou de pé com a mão na maçaneta, ouvindo os ruídos baixos de Dan, Atticus e Jake do outro lado. Seu estômago se revirou quando ela lembrou do som de sua voz quando berrou ordens para eles.
Você fez o necessário, Amy disse a si mesma. O que deveria ter feito há muito tempo.
Amy prendeu a respiração e se forçou a passar pela porta. Ninguém disse uma palavra, mas cada cabeça na sala se virou quando Amy atravessou o umbral. Jake estava de joelhos ao lado da cama, colocando roupas em uma mala de ginástica. Dan estava sentado perto da janela, observando-a como uma espécie de interesse. Do jeito que você olharia para um estranho antes de decidir se ele era amigo ou inimigo
— Eu não chamei o jatinho — ele anunciou. — Nós não temos o direito de fazer Jake e Atticus irem embora.
— Mas não se preocupe, Sua Alteza — Jake disse. — Nós estamos indo. Atticus e eu ficaremos na casa do papai enquanto procuramos por ele. Você e Dan podem achar o silphium. Quando Pierce fazer contato sobre o papai, Dan vai encaminhar para mim.
Tudo que Amy podia fazer era assentir. Era isso o que ela queria, não era? Ela pegou um vislumbre de vidro no tapete perto da TV, e o zumbido de nervos em seu estômago aumentou.
— Eu fiquei procurando no diário de Olivia — Atticus falou. Ele estava sentado perto da porta, com o livro de Olivia na frente dele, sua própria mala a seus pés. Ele virou o livro e mostrou a ela. Apontou para uma mancha brilhante no canto superior de uma página. — Lembra que estávamos almoçando? Bem, essa é a última mancha de gordura do polegar dele, então foi aqui que o papai parou antes de sair correndo. Achei que talvez ele tenha visto algo sobre o silphium mas...
Amy estudou uma confusão de que parecia ser nomes. CrítiasTimeuHermócrates. Abaixo havia uma única frase. O vigésimo Hafsid afirma manter o testamento do fracassado strategoi.
— O que tudo isso significa?
— Bem, essa frase não faz sentido nenhum para mim — Atticus disse. — Mas os três primeiro são nomes.
— Quem são eles?
— Ninguém — ele disse. — Tipo literalmente ninguém. Eles são personagens que Platão usou em seus diálogos.
— Diálogos? — Dan disse. — Esse cara era um dramaturgo?
— Não, Platão era um filósofo grego clássico por volta do século IV a.C. Os diálogos eram uma forma literária que ele usava. Em vez de escrever um livro explicando suas ideias, ele criava personagens e os fazia discutirem coisas. Esses três eram os principais locutores em uma trilogia projetada de diálogos.
— Projetada?
— Platão completou o primeiro, chamado Timeu. O segundo, Crítias, estava incompleto. Hermócrates era para ser o terceiro, mas ele nunca o escreveu.
— Faz sentido — Dan disse. — Continuações nunca são tão boas quanto a original.
Amy não pôde deixar de sorrir. Ela olhou para Dan, mas ele virou o rosto assim que seus olhos se encontraram.
— Então por que seu pai piraria por isso?
— Não faço ideia — Atticus respondeu. — E não vejo nenhuma conexão silphium, tampouco. Os diálogos de Platão nunca mencionaram a planta, e nunca sequer falaram sobre Cartago.
Jake pegou sua mala e se virou para Atticus.
— Vamos, maninho. Precisamos ir.
Atticus entregou o caderno para Amy e então jogou  bolsa por cima do ombro.
— Boa sorte — ele disse. — Até mais, Dan.
— É — Dan concordou, lutando contra a emoção que Amy conseguia ouvir em sua voz. — Até mais, Att.
É para o bem de todos, Amy pensou. Um dia eles entenderão.
Jake e Atticus começaram a ir embora, mas antes que eles pudessem sair, houve uma batida forte na porta.
— Com licença, por favor — veio uma voz atormentada de um homem do outro lado da porta. — Aqui é o gerente do hotel. Estou muito envergonhando, mas fomos informados de um pequeno incêndio nos pisos superiores do edifício. Devemos pedir a todos os residentes para evacuarem imediatamente.
— Um incêndio? — Dan indagou.
Jake recuou rapidamente para a janela.
— Pessoal — ele disse. — Olha.
— Só um momento! — Amy disse ao gerente, e atravessou o quarto.
Jake puxou a cortina e acenou com a cabeça para fora no escuro.
— Eu não sou daqui — ele falou. — Mas aquilo com certeza não se parece com caminhões de bombeiros para mim.
Vários carros não reconhecíveis e uma grande minivan se aglomeravam lá embaixo. Todos eram pretos e pareciam ter mais do que uma quantidade usual de antenas e luzes. Homens grandes vestidos de terno estavam ao redor, fumando cigarros e mantendo um olhar atento em volta.
— Se tem uma coisa que aprendi no ano passado — Jake falou — é que não importa aonde você vá, todos policiais se parecem.
— Isso tudo é por nossa causa? — Dan perguntou.
— Nós somos as crianças Cahill — Amy falou. — Criminosos internacionais.
— Roubar aquele barco provavelmente não ajudou — Jake apontou.
Dan olhou para Amy. 
— Vocês roubaram um barco?
— Não são só policiais, tampouco — Amy disse.
Ela apontou para outro grupo de homens. Eles estavam se misturando com a polícia da Tunísia, mas eram ocidentais, de ombros largos e com cortes de cabelo militares. Distintivos de aparência oficial estavam pendurados em seus pescoços, mas Amy sabia que eles não eram federais.
— Homens do Pierce? — Dan perguntou.
Amy assentiu.
— Provavelmente fingindo ser do FBI ou da US Marshals.
— Com licença! — o gerente chamou de novo, sua voz enrolando-se no sotaque com o pânico. — Senhorita! É muito importante que você desça para o lobby imediatamente. Esse incêndio, ele é muito perigoso!
— O que nós fazemos? — Atticus perguntou.
Ele olhou para Amy e algo se trancou dentro dela. 
— Talvez... talvez devamos ir com ele. Assim que sairmos, nós escapamos, saímos pelos fundos...
— As outras saídas do hotel já devem estar sendo vigiadas — Jake disse. — Além do mais, ele provavelmente está com os policiais aí fora. Atticus, bloqueie a porta e pegue nossas coisas!
Atticus colocou uma cadeira debaixo da maçaneta da porta e pegou as mochilas deles. Jake apertou o interruptor de luz e o quarto de hotel ficou escuro.
— O que você está fazendo? — Amy perguntou.
— Dan, me dê uma mão!
Jake abaixou as cortinas da janela aberta e, em seguida, Dan correu para ajudar. A janela era pesada, mas com um puxão, ela abriu e um vento quente soprou para dentro do quarto. Tinha um parapeito fino de concreto que rodeava o edifício logo abaixo da janela.
— Senhorita, por favor — o gerente implorou. — O incêndio, está bem grande agora!
Houve um clique quando o gerente destrancou a porta, e então um baque quando ele tentou abri-la. Jake agarrou o parapeito da janela e subiu na borda.
— Jake, espera! — Amy disse. — Nós não podemos!
Mas Dan já o seguia para fora, com Atticus logo atrás. Um estampido de balançar a parede veio de trás dela enquanto alguém tentava arrombar a porta. Não havia outra escolha. Amy saltou para o parapeito e saiu para noite.

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