16 de novembro de 2016

Apêndices

(I)               A EVOLUÇÃO DOS GRANDES CONTOS

Estes contos, interrelacionados mas independentes, há muito que estavam separados da longa e complexa história dos Valar, elfos e homens de Valinor e das grandes terras. E nos anos que se seguiram ao seu abandono dos Lost Tales antes de estarem terminados, o meu pai desistiu da composição em prosa e começou a trabalhar num extenso poema com o título Túrin filho de Húrin e Glórund o dragão, mudado posteriormente para uma versão revista de Os Filhos de Húrin. Isto passou-se no início da década de 1920, quando ele exercia funções na universidade de Leeds. Para esse poema usou a antiga métrica aliterativa (a forma de verso de Beowulf e outra poesia anglo-saxônica) que impunha ao Inglês moderno os exigentes padrões de ênfase e “rima inicial” observados pelos poetas antigos: uma técnica em que alcançou grande mestria de modos muito diferentes, desde o diálogo dramático de The Homecoming of Beorhnoth à elegia pelos homens que morreram na batalha dos “Campos de Pelennor”. O aliterativo Filhos de Húrin foi, de longe, o mais extenso dos seus poemas com essa métrica, atingindo bem mais de duas mil linhas.
No entanto, quando a abandonou, não chegara mais longe, na narrativa, do que ao ataque do dragão a Nargothrond. Com tanto mais do Lost Tale ainda para vir, teria precisado, nesta escala, de muitos mais milhares de linhas; enquanto uma segunda versão, abandonada num ponto anterior da narrativa, tem mais ou menos o dobro do tamanho da primeira versão até esse mesmo ponto.
Naquela parte da lenda de os Filhos de Húrin que o meu pai atingiu no poema aliterativo, a antiga história de The Book of Lost Tales foi substancialmente alongada e elaborada.
De realçar, sobretudo, que foi ent ão que a grande cidade-fortaleza subterrânea de Nargothrond surgiu, bem como as vastas terras do seu domínio (elemento fulcral não apenas da lenda de Túrin e Niënor, mas também da história dos Tempos Antigos da Terra Média), com uma descrição de terras de cultivo dos elfos de Nargothrond que proporciona uma excepcional sugestão das “artes da paz” no mundo antigo, vislumbres que s ão poucos e espaçados. Vindo para sul ao longo do rio Narog, Túrin e o seu companheiro (Gwindor, no texto deste livro) encontraram as terras próximas da entrada para Nargothrond aparentemente desertas: 

... chegaram a uma região ternamente cuidada;
através de sebes floridas e belas terras
viajaram, e encontraram vazios de gente
os prados, as campinas e os relvados do Narog,
a terra fecunda por árvores envolta
entre montes e rio. As ociosas enxadas
aos campos arrojadas e escadas caídas
na alta erva de viçosos vergéis;
cada árvore ali voltava a cabeça desgrenhada
e olhava-os a socapa, e das ervas ondulantes
as espigas escutavam; embora o meio-dia luzisse
em terra e folha, as suas pernas estavam geladas.

E assim os dois viajantes chegaram às portas de Nargothrond, na garganta do Narog:

Ali, íngremes, erguiam-se as fortes espaldas dos montes, sobranceiras
a célere água; ali, envolto em árvores, um íngreme socalco largo e sinuoso, pelo uso alisado, rasgava-se no rosto da encosta a prumo. Gigantescas portas, sombriamente esbatidas, estavam talhadas na encosta; enormes, as suas vigas, e de ponderosa
pedra as suas padieiras e ombreiras.

Apanhados pelos Elfos, foram puxados pelo portal, que se fechou atrás deles:

Rangendo e chiando nos grandes gonzos a portentosa porta; com
estridor estrepitoso atroou e fechou-se como o ribombo de um trovão e ecos terríveis em corredores desertos repetiram-se e ressoaram sob invisíveis telhados; a luz perdeu-se. Depois conduziram-nos por longas e sinuosas veredas de escuridão,
os guardas guiando-lhes os hesitantes pés, até o tênue tremular de ígneos archotes flamejar diante deles; murmúrio incerto como de muitas vozes em reunião aglomeradas ouviram quando se apressavam. Alto se alçava o teto. Uma inesperada curva viraram, assombrados, e viram um solene e silencioso conclave, onde centenas se comprimiam num imenso crepúsculo sob distantes cúpulas sombriamente abobadadas mudamente os esperavam.

Mas no texto de Os Filhos de Húrin apresentado neste livro não mais nos é dito do que (p. 153):

Depois levantaram-se e, partindo de Eithel Ivrin, viajaram para sul
ao longo das margens do Narog, até serem capturados por batedores dos elfos e levados como prisioneiros para a fortaleza oculta.
Assim chegou Túrin a Nargothrond.

Como aconteceu isso? Tentarei, a seguir responder a esta pergunta.
Parece praticamente certo que tudo quanto o meu pai escreveu deste poema aliterativo sobre Túrin foi conseguido em Leeds, que ele o abandonou no fim de 1924 ou no início de 1925. Mas o motivo por que o fez tem de permanecer desconhecido. No entanto, aquilo a que depois se dedicou não é misterioso: no verão de 1925 iniciou um novo poema com uma métrica completamente diferente: cópias rimadas octossilábicas intituladas A balada de Leithian, “Libertação do Cativeiro”. Iniciou assim outro dos contos que, anos mais tarde, em 1951, descreveu, como já mencionei, como plenos em tratamento, independentes e, apesar disso, ligados à “história geral”, pois o tema de A Balada de Leithian é a lenda de Beren e Lúthien. Ele trabalhou seis anos neste segundo extenso poema e abandonou-o, por sua vez, em Setembro de 1931, após ter escrito mais de 4000 versos. Como o aliterativo Os Filhos de Húrin, que lhe sucedeu e o suplantou, este poema representa um progresso substancial na evolução da lenda do original Lost Tale de Beren e Lúthien.
Enquanto trabalhava em A balada de Leithian, em 1926, escreveu um “Esboço da Mitologia”, expressamente destinado a R.W. Reynolds, que fora seu professor na King Edward’s School, de Birmingham, a fim de “explicar os antecedentes da versão aliterativa de Túrin e o Dragão”. Este curto manuscrito, que daria cerca de vinte páginas impressas, foi reconhecidamente escrito como uma sinopse, no presente do indicativo e num estilo sucinto. Não obstante, constituiu o ponto de partida das versões subsequentes de O Silmarillion (embora esse nome ainda lhe não tivesse sido dado). Mas, embora toda a concepção mitológica se encontrasse delineada neste texto, a história de Túrin tem, muito claramente, a primazia — e, na verdade, o título constante do manuscrito é “Esboço da mitologia com especial referência aos ‘Filhos de Húrin’”, em consonância com o seu objetivo ao escrevê-lo. Em 1930 seguiu-se uma obra muito mais substancial, a Quenta Noldorinwa (a História dos Noldor: pois a história dos Elfos Noldorin é o tema central de “O Silmarillion”).
Derivou diretamente do “Esboço” e, embora ampliando muito o texto inicial e escrevendo de uma maneira mais aperfeiçoada, o meu pai continuava, em grande parte, a considerar a Quenta uma obra sumário, um epítome de concepções narrativas muito mais ricas: como, de resto, demonstra claramente o subtítulo que lhe deu, no qual declarou tratar-se de “uma breve história (dos Noldor) extraída do Book of Lost Tales”.
Há que ter em conta que, nesse tempo, a Quenta representava (ainda que apenas numa estrutura um tanto ou quanto incipiente) toda a amplitude do “mundo imaginado” do meu pai. Ainda não era a história da Primeira Era, como depois se tornou, pois ainda não havia nenhuma Segunda Era ou Terceira Era; não havia Númenor, nem hobbits, nem, é claro, nenhum anel. A história terminava com a Grande Batalha, na qual Morgoth era finalmente derrotado pelos outros deuses (os Valar) e por eles “atirado pela Porta da Noite Eterna para o Vazio, para lá das muralhas do mundo”. E, no final da Quenta, o meu pai escreveu: “Este é o fim das histórias dos dias antes dos dias nas regiões setentrionais do mundo ocidental.”
Parecerá, assim, realmente estranho que a Quenta de 1930 seja, apesar disso, o único texto completo (depois do “Esboço”) de O Silmarillion que ele alguma vez escreveu. Mas, como aconteceu com frequência, pressões exteriores determinaram a evolução da sua obra. À Quenta seguiu-se, mais adiante na década de 30, uma nova versão, num belo manuscrito, tendo finalmente o título de Quenta Silmarillion, História dos Silmarilli. Esta era, ou era para ser, muito mais extensa do que a Quenta Noldorinwa precedente, mas o conceito da obra, como sendo essencialmente um sumarização de mitos e lendas (estes mesmos de uma natureza e um alcance completamente diferente se fossem narrados na totalidade), não se perdeu, e é de novo definido no título: “A Quenta Silmarillion ... é uma história resumida extraída de muitas histórias mais antigas, pois todos os assuntos que contém vieram de antigamente e ainda se encontram entre os Eldar do Ocidente, recontados com mais minúcia noutras histórias e canções.”
Parece pelo menos provável que a visão do meu pai de O Silmarillion decorreu, na verdade, do fato de aquilo a que podemos chamar a “fase Quenta” do seu trabalho na década de 1930 tenha começado numa sinopse condensada destinada a determinado objetivo, mas que posteriormente passou por uma expansão e um apuramento, em fases sucessivas, até perder a aparência de uma sinopse, mas retendo, não obstante, da forma da sua origem, uma uniformidade característica de estilo. Escrevi algures que “a forma e o modo compendio-os e sintetizadores de O Silmarillion, com a sua sugestão de terem atrás deles eras de poesia e “tradição”, evoca fortemente uma sensação de “histórias não contadas”, até mesmo na maneira de as contar. A “distância” nunca se perde. Não existe qualquer premência narrativa, a pressão e o medo do acontecimento imediato e desconhecido. Na realidade, não vemos os Silmarils como vemos o anel.
No entanto, a Quenta Silmarillion neste formato chegou a um fim abrupto e, como veio a verificar-se, decisivo, em 1937. O Hobbit foi publicado pela George Allen and Unwin no dia 21 de Setembro desse ano e, não muito tempo depois, por convite do editor, o meu pai enviou diversos manuscritos seus, que foram entregues em Londres no dia 15 de Novembro de 1937. Entre eles encontrava-se a Quenta Silmarillion, no estado em que então existia e terminando no meio de uma frase, no fim de uma página. Mas, entretanto, ele continuou a narrativa, em forma de rascunho, até à fuga de Túrin de Doriath e ao início da sua vida como bandido: transpondo as fronteiras do reino, ele juntou a si um grupo de indivíduos sem casa e desesperados que naqueles miseráveis dias podiam ser encontrados, escondidos, à espreita nos ermos, e cujas mãos se voltavam contra todos aqueles que se atravessavam no seu caminho, elfos, homens ou Orcs.
Este trecho foi o precursor da passagem, na p. 95 do texto deste livro, no início de Túrin Entre os Bandidos.
O meu pai chegara a estas palavras quando a Quenta Silmarillion e os outros manuscritos lhe foram devolvidos. Três dias depois, em 19 de Dezembro de 1937, escreveu à Allen Unwind, dizendo: “Escrevi o primeiro capítulo de uma nova história sobre Hobbits — ‘Uma festa muito esperada’.”
Foi neste ponto que a continuada e crescente tradi ção de O Silmarillion no sintético estilo Quenta chegou ao fim, derrubada em pleno voo, aquando da partida de Túrin de Doriath. A partir desse ponto, a história posterior permaneceu, durante os anos que se seguiram, na forma simples, resumida e estacionária da Quenta de 1930, como que congelada, enquanto as grandes estruturas da Segunda e da Terceira Eras se erguiam com a escrita de O Senhor dos anéis. Mas a continuação dessa história era de primordial importância para as lendas antigas, pois as histórias que as concluíam (derivadas do Book of Lost Tales original) falavam da desastrosa história de Húrin, pai de Túrin, depois de Morgoth o libertar, e da ruína dos reinos élficos de Nargothrond, Doriath e Gondolin, das quais Gimli cantou nas minas de Moria, muitos milhares de anos volvidos.

O mundo era claro, altas as montanhas,
Nos Antigos Tempos antes da queda
De poderosos reis em Nargothrond
E Gondolin, reis que passaram agora
Para além dos Mares Ocidentais...

E este seria o corolário e a conclusão do todo: o destino dos Elfos Noldorin na sua longa luta contra o poder de Morgoth e os papéis que Húrin e Túrin desempenharam nessa história, terminando com a de Earendil, que se salvou da ruína ardente de Gondolin.
Quando, muitos anos mais tarde, no início de 1950, O Senhor dos Anéis ficou concluído, o meu pai dedicou-se com energia e confiança a “O Assunto dos Tempos Antigos”, que passaram a ser “A Primeira Era”, e nos anos imediatamente a seguir retirou muitos manuscritos antigos de onde se encontravam havia muito tempo. Voltando-se para O Silmarillion, encheu nesse período o belo manuscrito da Quenta Silmarillion de correções e desenvolvimentos. Essa revisão terminou, porém, em 1951, antes de ele ter chegado à história de Túrin, onde a Quenta Silmarillion fora abandonada em 1937 com o advento da “nova história sobre Hobbits”.
Iniciou uma revisão da Balada de Leithian (o poema em verso rimado em que era contada a história de Beren e Lúthien, abandonado em 1931), a qual se tornou em breve quase um novo poema, de muito maior envergadura; mas este trabalho acabou por se extinguir aos poucos e, por fim, foi abandonado. Dedicou-se então ao que iria ser uma longa saga de Beren e Lúthien, em prosa, estreitamente baseada na forma reescrita da Balada; mas também ela foi abandonada. Assim, o seu desejo, demonstrado em tentativas sucessivas, de conduzir o primeiro dos “longos contos” à escala que ambicionava nunca se concretizou.
Nessa altura, dedicou-se também, de novo e finalmente, ao “grande conto” da Queda de Gondolin, ainda existente apenas no Lost Tale de cerca de trinta e cinco anos antes e nas poucas páginas que lhe foram dedicadas na Quenta Noldorinwa de 1930. Destinava-se a ser a apresentação, quando ele estava no apogeu das suas capacidades, em narrativa cerrada e em todos os seus significados, do extraordinário conto que ele lera na Essay Society da sua faculdade em Oxford, no ano de 1920, e que se manteve, ao longo de toda a sua vida, como um elemento fundamental da sua imaginação no tocante aos Tempos Antigos. A ligação especial com o conto de Túrin encontra-se nos irmãos Húrin, pai de Túrin, e Huor, pai de Tuor. Na sua juventude, Húrin e Huor entraram na cidade élfica de Gondolin, oculta no interior de um círculo de altas montanhas, como é dito em Os Filhos de Húrin (p. 33). E depois, na Batalha das Lágrimas Inumeráveis, voltaram a encontrar-se com Turgon, rei de Gondolin, que lhes disse (p. 54): “Agora Gondolin não pode permanecer oculta por muito tempo e, se for descoberta, cairá.” E Huor replicou: “No entanto, se resistir durante um pouco mais, da vossa casa virá a esperança para elfos e homens. Uma coisa vos digo, senhor, com os olhos da morte: embora nos separemos aqui para sempre, e eu não volte a ver as vossas muralhas brancas, de vós e de mim uma nova estrela nascerá.”
Esta profecia concretizou-se quando Tuor, primo direito de Túrin, foi para Gondolin e desposou Idril, filha de Turgon, pois o filho deles foi Earendil: a “nova estrela”, “esperança de elfos e homens”, que fugiu de Gondolin. Na futura saga em prosa de A Queda de Gondolin, iniciada provavelmente em 1951, o meu pai voltou a contar a viagem de Tuor e do seu companheiro elfo, Voronwë, que o guiou; e no caminho, sozinhos nos ermos, ouviram um grito nas florestas: E enquanto esperavam veio alguém através das árvores e viram que era um homem alto, armado, vestido de negro, com uma comprida espada desembainhada. Sentiram-se admirados, pois a lâmina da espada também era negra, mas os seus gumes luziam, brilhantes e frios.
Era Túrin, que regressava, apressado, do saque de Nargothrond (pp. 175-176). Mas Tuor e Voronwë não lhe falaram, quando passou, e “não sabiam que Nargothrond caíra nem que aquele era Túrin, filho de Húrin, o Espada Negra. Foi assim que, apenas por um momento que não voltaria a repetir-se, os caminhos daqueles homens da mesma família, Túrin e Tuor, se cruzaram”.
Na nova história de Gondolin, o meu pai levou Tuor para o lugar alto das montanhas circundantes de onde os olhos podiam espraiar-se através da planície até à cidade escondida. E aí, lamentavelmente, parou e não voltou a avançar. E, assim, também A Queda de Gondolin desapareceu dos seus propósitos e nós não vemos nem Nargothrond nem Gondolin com a sua visão posterior.
Disse algures que “com a conclusão da grande ‘intrusão’ e o afastamento de O Senhor dos Anéis, ele parece ter regressado aos Tempos Antigos com o desejo de reatar a escala muito mais ampla com que começara muito tempo antes, em The Book of the Lost Tales. A conclusão da Quenta Silmarillion manteve-se como um objetivo, mas os “grandes contos”, muitíssimo desenvolvidos em relação às suas formas originais, das quais os seus capítulos posteriores deveriam derivar, nunca foram concluídos.” Estas observações também se aplicam ao “grande conto” de Os Filhos de Húrin, embora, neste caso, o meu pai tenha ido muito mais longe, apesar de nunca ter conseguido levar uma parte substancial da última e enormemente alargada versão a uma forma final e concluída.
Ao mesmo tempo que se dedicava de novo à Balada de Leithian e a A Queda de Gondolin, começou o seu novo trabalho sobre Os Filhos de Húrin, não com a infância de Túrin, mas com a parte posterior do conto, o corolário da sua desastrosa história depois da destruição de Nargothrond.
Este é, neste livro, o texto que vai de O Regresso de Túrin a Dor-lómin (p. 177) até à sua morte. Não sei explicar o que levou o meu pai a proceder deste modo, tão diverso do seu hábito de recomeçar do princípio. Mas, neste caso, ele também deixou entre os seus papéis um acervo de escritos posteriores, mas não datados, relacionados com a história desde o nascimento de Túrin até ao saque de Nargothrond, nos quais elaborou muito as antigas versões e as expandiu em narrativa anteriormente desconhecida.
A maior parte desta obra, se não toda, pertence ao tempo que se seguiu à efetiva publicação de O Senhor dos Anéis. Nesses anos, Os Filhos de Húrin tornaram-se, para ele, a história dominante do fim dos tempos antigos e, durante muito tempo, dedicou-lhe todo o seu pensamento. Mas teve, então, dificuldade em impor uma estrutura narrativa firme, à medida que o conto crescia em complexidade de caráter e ocorrência. Na verdade, numa longa passagem, a história está contida numa manta de retalhos de rascunhos e esboços de enredo. No entanto, na sua forma mais recente, Os Filhos de Húrin é a principal narrativa ficcional da Terra Média depois da conclusão de O Senhor dos Anéis. E a vida e a morte de Túrin são retratadas com uma força convincente e uma premência raramente encontradas noutras obras relacionadas com os povos da Terra Média. Por esse motivo, e após longo estudo do manuscrito, tentei compor neste livro um texto que proporcionasse uma narrativa contínua do princípio ao fim.
Sem a introdução de quaisquer elementos que não sejam autênticos na sua concepção.

(II)           A COMPOSIÇÃO DO TEXTO

Em Os Contos Inacabados, publicados há mais de um quarto de século, apresentei um texto parcial da versão longa desta história, conhecida por o Narn, do título élfico Narni Chîn Húrin, A história dos Filhos de Húrin. Mas tratava-se apenas de um elemento num grande livro de conteúdo variado e o texto estava muito incompleto, de acordo com o objetivo e a natureza gerais do livro: pois omiti diversas passagens substanciais (uma delas muito extensa) onde o texto Narn e o da versão muito mais reduzida presente em O Silmarillion são muito similares ou onde considerei que não podia usar-se nenhum texto “longo” característico.
Consequentemente, a forma do Narn neste livro difere em vários aspectos da de Contos Inacabados, alguns deles resultantes do estudo muito mais meticuloso do formidável complexo de manuscritos que fiz depois de esse livro ser publicado. Isso conduziu-me a conclusões diferentes a respeito das relações e da seqüência de alguns dos textos, sobretudo na evolução extremamente confusa da lenda no período de “Túrin Entre os Bandidos”. Segue-se uma descrição e uma explicação da composição deste novo texto de Os Filhos de Húrin.

* * *

Um elemento importante em tudo isto é o estatuto peculiar de O Silmarillion publicado, pois, como referi na primeira parte deste apêndice, o meu pai abandonou a Quenta Silmarillion no ponto a que chegara (a transformação de Túrin num bandido depois da fuga de Doriath) quando iniciou O Senhor dos Anéis em 1937. Na elaboração de uma narrativa para a obra publicada, recorri muito a The Annals of Beleriand, originalmente um “Conto de Anos”, mas que, em versões sucessivas, cresceu e se expandiu em narrativa analítica, em paralelo com os sucessivos manuscritos de “Silmarillion”, até chegar à libertação de Húrin por Morgoth após as mortes de Túrin e Niënor.
Portanto, a primeira passagem que omiti na versão do Narni Chîn Húrin em Contos Inacabados (p. 73 e nota 1) é o relato da estadia de Húrin e Huor em Gondolin, na sua juventude, e procedi assim, simplesmente, porque a história é contada em O Silmarillion (pp. 169-171). Mas, na realidade, o meu pai escreveu duas versões: uma delas expressamente destinada ao início do Narn, mas nitidamente baseada numa passagem de The Annals of Beleriand e da qual, na sua maior parte, pouco difere. Em O Silmarillion usei ambos os textos, mas aqui segui a versão do Narn. A segunda parte do Narn que omiti, em Contos Inacabados (p. 81 e nota 2) foi o relato da Batalha das Lágrimas Inumeráveis, uma omissão feita pelo mesmo motivo. E também neste caso o meu pai escreveu duas versões, uma em Annals e uma segunda, muito mais tarde, mas com o texto dos Annals à sua frente e, na sua maior parte, idêntica. A segunda narrativa da grande batalha era, uma vez mais, expressamente destinada a ser um elemento componente do Narn (o texto intitula-se Narn II, ou seja, o segundo capítulo do Narn, e declara no início (p. 49) do texto deste livro: “Aqui serão, portanto, recontados apenas os feitos que se relacionam com o destino da Casa de Hador e dos filhos de Húrin, o Firme.” Guiado por esse objetivo, o meu pai manteve apenas, da narrativa dos Annals, a descrição da “batalha ocidental” e a destruição da hoste de Fingol e, com esta simplificação e esta redução da narrativa, modificou o decurso da batalha tal como é relatado nos Annals. Em O Silmarillion segui, evidentemente, os Annals, embora com alguns traços retirados da versão Narn. Mas neste livro servi-me do texto que o meu pai considerou apropriado para o Narn como um todo.
No respeitante a Túrin em Doriath, o novo texto está muito modificado em relação ao que aparece em Contos Inacabados. Há aqui um percurso de escrita, em grande parte muito em
bruto, no que toca aos mesmos elementos narrativos em diferentes fases de evolução e, em casos assim, é obviamente possível ter diferentes pontos de vista quanto a como o material original deve ser tratado. Cheguei à conclusão de que, quando compus o texto dos Contos Inacabados, me permiti maior liberdade editorial do que era necessário. Neste livro reconsiderei os manuscritos originais e reconstituí o texto e, em muitos pontos (geralmente insignificantes), recuperei as palavras originais, introduzindo frases ou breves passagens que não deviam ter sido omitidas, corrigindo alguns erros e adotando opções diferentes entre as revisões originais.
No que diz respeito à estrutura da narrativa neste per íodo da vida de Túrin, desde a fuga de Doriath até ao covil dos bandidos no Amon Rûdh, o meu pai tinha em mente certos “elementos” narrativos: o julgamento de Túrin perante Thingol; as dádivas de Thingol e Melian a Beleg; os maus-tratos infligidos pelos bandidos a Beleg na ausência de Túrin e os encontros de Túrin e Beleg. Ele movimentava estes “elementos” em relação uns aos outros e colocava passagens de diálogo em contextos diferentes, mas tinha dificuldade em compô-los num “enredo” fixo — “para descobrir o que realmente acontecia”. No entanto, após muito e aprofundado estudo, parece-me agora claro que o meu pai alcançou uma estrutura e uma sequência satisfatórias para esta parte da história antes de a abandonar. Assim como também me parece que a narrativa na forma muito mais reduzida que compus para a publicação de O Silmarillion se coaduna com isso — mas com uma diferença.
Nos Contos Inacabados há uma terceira lacuna na narrativa na p. 113: a história interrompe-se no ponto em que Beleg, depois de, finalmente, encontrar Túrin entre os bandidos, não consegue persuadi-lo a regressar a Doriath (pp. 111-115 do novo texto), e só volta a ser reatada quando os bandidos encontram os Pequenos Anões. Aqui recorri de novo a O Silmarillion para preencher a lacuna, mencionando que na história se segue o adeus de Beleg a Túrin e o seu regresso a Menegroth “onde recebeu de Thingol a espada Anglachel e lembas de Melian”. Mas é um fato demonstrável que o meu pai rejeitou isso, pois “o que realmente aconteceu” foi que Thingol deu a Anglachel a Beleg depois do julgamento de Túrin, quando Beleg partiu pela primeira vez para o encontrar. Por isso, no presente texto, a dádiva da espada situa-se nessa ocasião (p. 92) e não existe aí qualquer menção a uma dádiva de lembas. Na passagem posterior, quando Beleg regressou a Menegroth depois de encontrar Túrin, não há, evidentemente, qualquer alusão à Anglachel no novo texto, mas sim, apenas, à dádiva de Melian.
Este momento é adequado para dizer que omiti do texto duas passagens que incluí nos Contos Inacabados, mas que estão relacionadas com a narrativa: s ão elas a história de como o Elmo do Dragão passou para a posse de Hador de Dor-lómin (Contos Inacabados, p. 91), e a origem de Saeros (Contos Inacabados, pp. 92,93). Diga-se de passagem que parece certo, graças a uma compreensão mais aprofundada das relações entre os manuscritos, que o meu pai rejeitou o nome de Saeros e o substituiu por Orgol, que, mercê de “acidente linguístico”, coincide com as palavras do Inglês Antigo orgol, orgel: “orgulho”. Parece-me, no entanto, demasiado tarde para remover Saeros.
A principal lacuna da narrativa apresentada em Contos Inacabados (p. 122) é preenchida no novo texto nas páginas desde o fim do capítulo De Mîm, o Anão e ao longo de A Terra do Arco e do Elmo, A Morte de Beleg, Túrin em Nargothrond e A Queda de Nargothrond. Nesta parte da “saga de Túrin” há uma relação complexa entre os manuscritos originais, a história tal como é contada no apêndice a Narn nos Contos Inacabados e o novo texto deste livro. Sempre supus ser intenção do meu pai, na plenitude do tempo, quando terminasse, de modo que o satisfizesse, o “grande conto” de Túrin, basear nele uma forma muito mais reduzida da história naquilo a que podemos chamar “o modo Silmarillion”. Mas, evidentemente, isso não aconteceu. Por isso empreendi, há já mais de trinta anos, a estranha tarefa de tentar simular o que ele não fez: a escrita de uma versão “Silmarillion” da forma mais tardia da história, mas derivando dos heterogêneos materiais da “longa versão”, o Narn. É o capítulo XXI de O Silmarillion publicado. Assim, o texto deste livro que preenche a extensa lacuna na história de Contos Inacabados deriva dos mesmos materiais originais da passagem correspondente em O Silmarillion, mas usados com propósitos diferentes em cada caso e, no novo texto, com uma melhor compreensão do labirinto de rascunhos e apontamentos e a sua sequência. Muito do que consta dos manuscritos originais e que foi omitido ou comprimido em O Silmarillion continua disponível; mas onde não havia nada para acrescentar à versão de O Silmarillion (como no conto da morte de Beleg, derivado dos Annals of Beleriand) essa versão foi simplesmente repetida.
No resultado, embora eu tenha tido de introduzir passagens-ponte aqui e ali na reunião de rascunhos diferentes, não existe elemento nenhum de “invenção” extrínseca de qualquer espécie, por leve que seja, no texto mais longo aqui apresentado. No entanto, como não poderia deixar de ser, o texto é artificial: sobretudo porque este grande corpo de manuscrito representa uma evolução continuada da verdadeira história. Rascunhos que são essenciais para a formação de uma narrativa ininterrupta podem, de fato, pertencer a uma fase mais antiga. Assim, para dar um exemplo a partir de um ponto anterior, um texto essencial para a história da ida do bando de Túrin para o monte de Amon Rûdh, a morada que encontraram nele e a sua vida lá, como também o êxito efêmero da terra de Dor-Cúart-hol, foi escrito antes de haver alguma sugestão dos pequenos anões e, na verdade, uma descrição completamente desenvolvida da casa de Mîm por baixo do cume aparece antes do próprio Mîm.
No resto da história, a partir do regresso de Túrin a Dor-lómin, a que o meu pai deu uma forma definitiva, há, naturalmente, muito poucas diferenças em relação ao texto dos Contos Inacabados. Há, no entanto, dois pormenores no relato do ataque a Glaurung em Cabed-en-Aras em que emendei as palavras originais e que devem ser explicados.
O primeiro diz respeito à geografia. Diz-se (p. 151) que quando Túrin e os seus companheiros partiram de Nen Girith no fat ídico anoitecer, não foram logo direitos ao dragão, deitado do lado oposto da ravina, mas enveredaram pelo primeiro caminho na direção dos vaus do Teiglin; e “depois, antes de lá chegarem, viraram para sul por um carreiro estreito” e seguiram através das florestas por cima do rio na direção de Cabed-en-Aras. Quando se aproximavam, no texto original da passagem, “as primeiras estrelas tremeluziram a oriente, atrás deles”.
Quando preparei o texto para os Contos Inacabados não reparei que isso não podia estar certo, visto eles não estarem, de modo algum, a seguir para oeste, mas sim na direção leste ou sudeste, afastando-se dos Vaus do Teiglin, e as primeiras estrelas no leste deviam estar à sua frente e não atrás deles. Quando discuti isto em The War of the Jewels (1994, p. 157) aceitei a sugestão de que “o carreiro estreito” que seguia para sul virava de novo para oeste a fim de chegar ao Teiglin. Mas tal parece-me agora improvável, sem qualquer utilidade para a narrativa, e a solução mais simples pareceu-me ser emendar “atrás deles” para “à frente deles”, como fiz no novo texto.
O esboço de mapa que tracei nos Contos Inacabados (p. 171) a fim de ilustrar a disposição do terreno não está, na verdade, bem orientado. Vê-se no mapa que o meu pai fez de Beleriand, e é assim reproduzido no meu mapa para O Silmarillion, que Amon Obel se encontrava quase na direção leste dos Vaus do Teiglin (“a Lua subia para lá do Amon Obel”, p. 238) e o Teiglin fluía para sudeste ou sul-sudeste nas ravinas. Voltei agora a desenhar o esboço do mapa e introduzi também a localização aproximada da Cabed-en-Aras (diz-se no texto que “precisamente no caminho de Glaurung havia agora uma dessas gargantas, de modo algum a mais profunda, mas sim a mais estreita, logo a norte da foz do Celebros”).


A segunda questão diz respeito à história da morte de Glaurung ao atravessar a ravina. Há aqui um esboço e uma versão final. No esboço, Túrin e os seus companheiros subiram pelo lado mais distante do abismo até se encontrarem quase abaixo da beira; mantiveram-se aí agarrados, enquanto a noite passava, e Túrin “debateu-se com sonhos negros de terror em que toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se e resistir”. Quando o dia chegou, Glaurung preparou-se para atravessar num ponto “muitos passos para norte” e, por isso, Túrin teve de descer para o leito do rio e depois de subir de novo o penhasco para chegar debaixo da barriga do dragão.
Na versão final (p. 232) Túrin e Hunthor estavam apenas a meio caminho da beira quando Túrin disse que em vão consumiam as suas forças ao subirem agora, antes de saberem onde Glaurung atravessaria; “por isso, pararam e esperaram”. Não é dito que desceram de onde estavam quando pararam de subir, e a passagem respeitante ao sonho de Túrin “em que toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se e resistir” é recuperada do texto em rascunho. Mas na história revista não houve necessidade de se agarrarem: podiam, e certamente o teriam feito, descer até ao fundo e esperar aí. Na verdade, foi isso que fizeram: é dito no texto final (Contos Inacabados, p. 155) que não estavam parados no caminho de Glaurung e que Túrin “avançou ao longo da água para se colocar debaixo dele”. Parece, pois, que a história final mantém uma característica desnecessária do rascunho anterior. Por uma quest ão de coerência, emendei “visto não se encontrarem parados diretamente no caminho de Glaurung” para “visto não se encontrarem diretamente no caminho de Glaurung” e “avançou ao longo da água” para “trepou ao longo do penhasco”.
São, em si mesmos, pequenos pormenores, mas clarificam aquelas que são talvez as passagens mais nitidamente visualizadas nas lendas dos Tempos Antigos, bem como um dos acontecimentos mais importantes.

Nota sobre o mapa

Este mapa baseia-se de muito perto no que foi publicado em O Silmarillion, o qual, por sua vez, derivava do mapa que o meu pai fez na década de 1930 e que nunca substituiu, mas usou em toda a sua obra subseqüente. As representações convencionais e, obviamente, muito seletivas, das montanhas, montes e florestas foram imitadas a partir do estilo dele.
Neste novo desenho introduzi algumas diferenças destinadas a simplificá-lo e a torná-lo mais expressamente aplicável à história de Os Filhos de Húrin. Por isso não se prolonga para leste, para incluir Ossiriand e as Montanhas Azuis, e foram omitidas algumas características geográficas. Por outro lado (com poucas exceções) somente os nomes que aparecem, de fato, no texto estão assinalados.


1 Outra história reza, porém, que Mîm não foi ao encontro dos Orcs com deliberada intenção. Que foi a captura do seu filho e a ameaça de que o torturariam que conduziu à sua traição.

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