16 de outubro de 2016

Vinte - Em caso de possessão demoníaca, sigam as luzes de emergência até a saída mais próxima

BARRY ESTAVA NO corredor para falar conosco, os cotovelos apoiados no encosto dos assentos dos dois lados. A colônia dele deixava o avião com o cheiro do mercado de flores de Boston.
— Meus queridos, por acaso vocês já viajaram em um jatinho Citation XLS antes?
— Hã, não — respondi. — Acho que eu lembraria.
A cabine não era grande, mas tudo era revestido de couro branco com contornos dourados, feito uma BMW com asas. Havia quatro bancos de passageiros virados uns para os outros, como uma espécie de área de conferência. Hearthstone e eu nos sentamos virados para a frente. Amir se sentou de frente para mim, e Blitzen estava preso no cinto de frente para Hearth.
Sam estava no banco do piloto, verificando sintonizadores e acionando interruptores. Eu achava que todos os aviões tinham portas separando a cabine do piloto da área dos passageiros, mas o Citation não era assim. De onde eu estava, via direto pelo para-brisa. Fiquei tentado a pedir para Amir trocar de lugar comigo. A vista do banheiro seria menos perturbadora.
— Bem — disse Barry —, como seu copiloto neste voo, é meu trabalho dar a vocês as instruções de segurança. A saída principal é por aqui. — Ele bateu com os dedos na porta pela qual havíamos entrado. — Em caso de emergência, se Sam e eu não pudermos abri-la, vocês... VOCÊ DEVIA TER ME DADO OUVIDOS MAGNUS CHASE.
A voz de Barry ficou grave e triplicou de volume. Amir, que estava sentado perto do cotovelo dele, quase caiu no meu colo.
Na cabine de comando, Sam se virou lentamente.
— Barry?
— EU AVISEI. — A nova voz de Barry estalava de distorção, e o tom oscilava. — MAS VOCÊ CAIU NA ARMADILHA DE LOKI MESMO ASSIM.
— O que há de errado com ele? — perguntou Amir. — Esse não é o Barry.
— Não — concordei, com a garganta tão seca quanto a de um berserker zumbi. — É o meu assassino favorito.
Hearthstone parecia ainda mais confuso do que Amir. Ele não podia ouvir a mudança na voz de Barry, obviamente, mas percebia que as instruções de segurança haviam sido interrompidas.
— AGORA, NÃO HÁ ESCOLHA — disse a voz de Barry. — DEPOIS QUE CURAR SEU AMIGO, ME ENCONTRE EM JÖTUNHEIM. VOU DAR AS INFORMAÇÕES DE QUE VOCÊ PRECISA PARA IMPEDIR O PLANO DE LOKI.
Observei o rosto do copiloto. Os olhos dourados pareciam desfocados, mas, fora isso, eu não via nenhuma diferença nele.
— Você é o assassino de bodes — afirmei com convicção. — O cara que estava me olhando do galho da árvore durante o banquete.
Amir não conseguia parar de piscar.
— Assassino de bodes? Galho de árvore?
— PROCURE HEIMDALL — disse a voz distorcida. — ELE VAI MOSTRAR O CAMINHO. LEVE A OUTRA, ALEX FIERRO. ELA É SUA ÚNICA ESPERANÇA AGORA... E isso é tudo. Alguma pergunta?
A voz de Barry tinha voltado ao normal. Ele sorriu com satisfação, como se não conseguisse pensar em um jeito melhor de passar o dia do que voando de um lado para outro por Cape Cod, ajudando os amigos e canalizando as vozes de ninjas de outro mundo.
Amir, Hearth e eu balançamos a cabeça com veemência.
— Sem perguntas — falei. — Nenhumazinha. Nada.
Olhei bem nos olhos de Sam. Ela deu de ombros e balançou a cabeça, como quem diz: Sim, eu ouvi. Meu copiloto ficou possuído por um tempo. O que você quer que eu faça?
— Tudo bem. — Barry bateu na cabeça de granito de Blitzen. — Os fones de ouvido estão nos compartimentos ao lado, se vocês quiserem falar conosco na cabine. É um voo bem curto até Norwood Memorial. Relaxem e divirtam-se!

* * *

Diversão não é a palavra que eu teria usado.
Uma pequena confissão: além de nunca ter voado em um Citation XLS, eu nunca tinha voado em um avião. Minha primeira vez provavelmente não devia ser em um jatinho de oito lugares pilotado por uma garota da minha idade que fazia aulas havia poucos meses.
Não foi culpa de Sam. Eu não tinha com o que comparar, mas a decolagem pareceu tranquila. Pelo menos, subimos ao céu sem fatalidades. Mesmo assim, minhas unhas deixaram marcas permanentes nos braços da poltrona. Cada sacolejo de turbulência me deixava tão nervoso que senti saudade de nosso velho amigo Stanley, o cavalo alado de oito patas mergulhador de penhascos. (Bem, quase.)
Amir recusou o fone de ouvido, talvez porque seu cérebro já estivesse lotado de informações nórdicas malucas. Ele ficou de braços cruzados, olhando demoradamente pela janela, como se pensando se algum dia voltaríamos a pousar no mundo real.
A voz de Sam estalou nos meus fones.
— Chegamos à altitude de cruzeiro. Alcançaremos nosso destino em trinta e dois minutos.
— Tudo bem aí? — perguntei.
— Sim... — A conexão apitou. — Pronto. Não tem mais ninguém neste canal. Nosso amigo parece bem agora. Mas não precisa se preocupar. Estou com os controles.
— Quem, eu? Preocupado?
Pelo que eu podia ver, Barry parecia tranquilo no momento. Ele estava relaxando no banco do copiloto, olhando para o iPad. Eu queria acreditar que ele estava de olho em leituras importantes de aviação, mas tinha quase certeza de que estava jogando Candy Crush.
— Alguma ideia? — perguntei a Sam. — Sobre o conselho do assassino de bodes?
Estática. Depois:
— Ele disse que devíamos procurá-lo em Jötunheim. Então, ele é um gigante. Isso não quer dizer necessariamente que seja mau. Meu pai... — ela hesitou, provavelmente tentando tirar da boca o gosto azedo daquela palavra — tem muitos inimigos. Seja lá quem for o assassino, ele tem magia poderosa. E estava certo sobre Provincetown. Devíamos ouvi-lo. Eu devia ter ouvido antes.
— Não faça isso. Não seja tão dura consigo mesma.
Amir tentou se concentrar em mim.
— Desculpe, o quê?
— Não você, cara. — Bati no microfone dos fones de ouvido. — Estou falando com a Sam.
Amir fez um “Ah” silencioso. E voltou a treinar o olhar perdido na janela.
— Amir consegue ouvir o que estou dizendo? — perguntou Sam.
— Não.
— Depois que eu deixar vocês, vou levar a espada Skofnung para Valhala, por segurança. Não posso levar Amir para o hotel, mas... vou tentar mostrar a ele o que puder. Mostrar minha vida.
— Boa. Ele é forte, Sam. Consegue aguentar.
Uma contagem de três segundos de ruídos.
— Espero que você tenha razão. Também vou atualizar a galera do andar dezenove.
— E Alex Fierro?
Sam olhou para mim. Era estranho vê-la a metros de distância, mas ouvir sua voz bem nos meus ouvidos.
— Levá-la junto é uma má ideia, Magnus. Você viu o que Loki conseguiu fazer comigo. Imagine o que...
Eu conseguia imaginar. Mas também tinha a sensação de que o assassino de bodes estava certo. Nós precisaríamos de Alex Fierro. A chegada dela em Valhala não tinha sido coincidência. As Nornas, ou algum outro deus maluco das profecias, entrelaçaram o destino dela com o nosso.
— Acho que não devíamos subestimá-la — falei, me lembrando da luta de Alex com os lobos e de quando montou no lindwyrm raivoso. — Além do mais, eu confio nela. Quer dizer, tanto quanto se pode confiar em uma pessoa que arrancou sua cabeça. Você tem alguma ideia de como encontrar o deus Heimdall?
A estática pareceu mais pesada, mais zangada.
— Infelizmente, sim — disse Sam. — Se prepare. Estamos quase em posição.
— Para pousar em Norwood? Achei que você tinha dito que íamos para Álfaheim.
— Vocês vão. Eu, não. O caminho de voo até Norwood nos coloca acima de uma área de salto perfeita.
— Área de salto?
Eu esperava ter ouvido errado.
— Olha, preciso me concentrar em pilotar este avião e não matar todo mundo. Pergunte a Hearthstone.
Meus fones de ouvido ficaram em silêncio.
Hearthstone estava fazendo competição de sério com Blitzen. O rosto de granito do anão aparecia no casulo de plástico bolha, a expressão congelada em sofrimento mortal. Hearthstone não parecia muito mais contente. A infelicidade em torno dele era quase tão fácil de ver quanto o cachecol de bolinhas manchado de sangue.
Álfaheim, eu sinalizei. Como chegamos lá?
Pulando, disse Hearth.
Meu estômago se embrulhou.
— Pulando? Pulando de um avião?
Hearth olhou para um ponto atrás de mim, da maneira que ele faz quando está pensando em como explicar uma coisa complicada por meio de linguagem de sinais... normalmente alguma coisa de que não vou gostar.
Álfaheim é um reino de ar, luz, sinalizou ele. Só se pode entrar... Ele fez uma pantomima de queda livre.
— Estamos em um avião — falei. — Não podemos simplesmente pular. Vamos morrer!
Morrer, não, prometeu Hearth. E também não vamos exatamente pular. Só... Ele fez um gesto de puf, que não me tranquilizou. Não podemos morrer até salvarmos Blitzen.
Para um cara que raramente emitia sons, Hearth conseguia ser bem assertivo quando queria. Ele tinha acabado de me dar ordens expressas: pular do avião; cair em Álfaheim; salvar Blitzen. Só depois eu teria permissão para morrer.
Amir se mexeu na poltrona.
— Magnus, você parece nervoso.
— E estou.
Fiquei tentado a inventar uma explicação simples, alguma coisa que não traumatizaria o generoso cérebro mortal de Amir. Mas já tínhamos passado desse ponto. Ele estava totalmente inserido na vida de Sam, para o bem ou para o mal, normal ou anormal. Amir sempre tinha sido gentil comigo. Tinha me alimentado quando eu era sem-teto, me tratara como uma pessoa quando os outros fingiam que eu era invisível. Ele tinha vindo nos salvar hoje sem saber nenhum detalhe, só porque Sam estava encrencada.
Eu não podia mentir para ele.
— Aparentemente, Hearth e eu vamos fazer puf.
Contei para ele as ordens que tinha acabado de receber.
Amir pareceu tão perdido que senti vontade de abraçá-lo.
— Até semana passada, minha maior preocupação era para onde expandir nossa franquia de Falafel, se para Jamaica Plain ou Chestnut Hill. Agora, não sei nem sobre que mundo estamos voando.
Conferi o microfone do fone de ouvido para ter certeza de que estava desligado.
— Amir, Sam é a mesma de sempre. Ela é corajosa. É forte.
— Eu sei disso.
— E também é doida por você — falei. — Ela não pediu para ter essas coisas esquisitas na vida dela. A maior preocupação dela é não estragar o futuro de vocês. Confie na Sam.
Ele baixou a cabeça como um cachorrinho em um canil.
— Eu... eu estou tentando, Magnus. É que tudo é tão estranho.
— É — concordei. — Um alerta: vai ficar mais estranho ainda. — Então, liguei o microfone. — Sam?
— Eu ouvi a conversa toda — anunciou ela.
— Ah. — Aparentemente, eu não tinha entendido direito como mexer nos controles. — Hã...
— Vou matar você depois — disse ela. — Agora, sua parada está chegando.
— Espere. Barry não vai reparar se a gente simplesmente desaparecer?
— Ele é mortal. O cérebro vai se ajustar. Afinal de contas, gente não desaparece de aviões no meio do voo. Quando pousarmos em Norwood, ele provavelmente não vai nem lembrar que vocês estavam aqui.
Eu queria pensar que eu era um pouco mais memorável do que isso, mas estava nervoso demais para me preocupar.
Ao meu lado, Hearthstone soltou o cinto de segurança. Ele tirou o cachecol e o amarrou em volta de Blitzen, preparando uma espécie de cinto improvisado.
— Boa sorte — disse Sam para mim. — Vejo vocês em Midgard, supondo... você sabe.
Supondo que a gente sobreviva, pensei. Supondo que a gente consiga curar Blitzen. Supondo que nossa sorte esteja melhor do que nos últimos dois dias... ou do que sempre.
Entre um momento e o seguinte, o jato desapareceu. Eu me vi flutuando no céu, com os fones de ouvido ligados em nada.
E caí.


3 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu acho que ele estava sendo influenciado ou algo do gênero...

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    2. Provavelmente Loki "influenciou" o bode
      sabe pra mandar elex pegarema espada

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