16 de outubro de 2016

Vinte e um - Os encrenqueiros levarão tiros, serão presos e levarão ainda mais tiros

BLITZEN ME CONTOU certa vez que os anões nunca saíam de casa sem um paraquedas.
Agora, eu entendia o porquê disso. Hearthstone e eu despencamos pelo ar gelado – eu balançando os braços e gritando, Hearth em um mergulho perfeito com o Blitzen de granito preso à costas. Hearth olhou para mim com uma expressão tranquilizadora, como quem diz: Não se preocupe. O anão está enrolado em plástico bolha.
Minha única resposta foi mais gritos incoerentes, porque eu não sabia linguagem de sinais para PELO AMOR DE AGGGHHH!.
Passamos por uma nuvem, e tudo mudou. Nossa queda ficou mais lenta. O ar ficou quente e doce. A luz do sol se intensificou, quase me cegando.
Batemos no chão. Bom, foi mais ou menos isso. Meus pés tocaram lentamente uma grama recém-cortada, e eu quiquei, parecendo pesar apenas dez quilos. Saltei como um astronauta pelo gramado até recuperar o equilíbrio.
Apertei os olhos sob a luz intensa do sol, tentando ver onde eu estava: hectares de paisagem, árvores altas, uma casa grande ao longe. Tudo parecia envolto em fogo. Em qualquer direção que eu me virasse, a sensação era de que tinha um holofote na minha cara.
Hearthstone segurou meu braço. Ele me entregou alguma coisa: um par de óculos de sol bem escuros.
Eu os coloquei no rosto, e o ardor intenso nos meus olhos diminuiu.
— Obrigado — murmurei. — É claro assim o tempo todo?
Hearthstone franziu a testa. Eu devia estar arrastando as palavras. Ele estava tendo dificuldade para ler meus lábios. Repeti a pergunta em linguagem de sinais.
Sempre, concordou Hearth. Você se acostuma.
Ele olhou ao redor como se procurasse ameaças.
Pousamos em um gramado na frente de uma grande propriedade. Muros baixos de pedra contornavam a fazenda, uma área do tamanho de um campo de golfe com canteiros de flores bem-cuidados e árvores finas e longas, como se a gravidade tivesse se invertido e as puxado para cima. A casa era uma mansão no estilo Tudor, e tinha janelas com vitrais e torres cônicas.
Quem mora aqui?, sinalizei para Hearth. O presidente de Álfaheim?
Só uma família. Os Makepiece. Ele soletrou o nome.
Eles devem ser importantes, sinalizei.
Hearth deu de ombros.
São comuns. Classe média.
Eu ri, mas percebi depois que ele não tinha feito uma piada. Se aquela era a casa de uma família de classe média em Álfaheim, eu não queria dividir a conta do almoço com ninguém da classe alta.
Precisamos ir, sinalizou Hearth. Os Makepiece não gostam de mim. Ele ajeitou o cachecol que servia de alças em Blitzen, que devia pesar o mesmo que uma mochila comum em Álfaheim.
Juntos, nós seguimos para a estrada.
Tenho que admitir, a gravidade mais leve me fez sentir... bem, mais leve. Segui em frente, percorrendo um metro e meio a cada passo. Tive que me segurar para não ir mais longe. Com minha força de einherji, se eu não tomasse cuidado, podia acabar pulando por cima de telhados de mansões de classe média.
Pelo que podia perceber, Álfaheim consistia em fileiras e mais fileiras de propriedades como a dos Makepiece, cada uma com vários hectares, cada qual com um gramado com canteiros de flores e arbustos bem-cuidados. Nas entradas de pedra, SUVs pretos de luxo cintilavam. O ar tinha cheiro de hibisco assado e notas novas de dólar.
Sam dissera que nosso percurso de voo até Norwood nos deixaria na melhor área de salto. Agora, isso fazia sentido. Da mesma maneira que Nídavellir lembrava Southie, Álfaheim me fazia pensar nos subúrbios chiques a oeste de Boston – Wellesley, talvez, com suas casas enormes e paisagens pastoris, estradas sinuosas, seus riachos pitorescos e sua aura sonolenta de total segurança... supondo que você fosse de lá.
O lado ruim era que a luz do sol era tão intensa que acentuava todas as imperfeições. Até uma folha caída ou uma flor murcha em um jardim se destacavam como um problema evidente. Minhas roupas pareciam mais sujas. Eu via todos os poros nas costas das mãos e as veias debaixo da pele. Também entendia o que Hearthstone queria dizer sobre Álfaheim ser feita de ar e luz. O ambiente parecia irreal, como se tivesse sido construído de fibras de algodão-doce e pudesse se dissolver com um pouco de água. Ao andar pelo chão esponjoso, senti inquietação e impaciência. Os óculos escuros só aliviavam um pouco minha dor de cabeça.
Depois de alguns quarteirões, sinalizei para Hearthstone: Aonde estamos indo?
Ele repuxou os lábios. Para casa.
Segurei o braço dele e o fiz parar.
Para sua casa?, sinalizei. Onde você cresceu?
Hearth olhou para o muro do jardim mais próximo. Ao contrário de mim, ele não estava de óculos. Na luz brilhante do dia, os olhos do elfo cintilavam como formações de cristais.
A pedra Skofnung está na minha casa, sinalizou ele. Com... meu pai.
O sinal para pai era a mão aberta com a palma para cima e o polegar na testa. Isso me fez lembrar do L de loser. Considerando o que eu sabia sobre a infância de Hearth a comparação pareceu apropriada.
Certa vez, em Jötunheim, eu curei Hearth. Naquela ocasião, tive um vislumbre da dor que ele carregava dentro de si. Ele tinha sido maltratado e humilhado quando criança, principalmente por causa da surdez. O irmão dele morrera (eu não sabia os detalhes), e os pais haviam culpado Hearth. Ninguém teria vontade de voltar para uma casa assim.
Eu me lembrei da intensidade com que Blitzen protestara contra a ideia, mesmo sabendo que ia morrer. Não faça Hearth voltar pra lá. Não vale a pena, garoto.
Mas ali estávamos nós.
Por quê?, sinalizei. Por que seu pai (loser) teria a pedra Skofnung?
Em vez de responder, Hearthstone assentiu na direção pela qual tínhamos vindo. Tudo era tão brilhante no mundo elfo que eu só reparei nas luzes quando o carro preto parou diretamente atrás de nós. Na grade da frente do sedã, luzes sequenciais vermelhas e azuis pulsavam. Atrás do para-brisa, dois elfos de terno nos olhavam de cara feia.
O Departamento de Polícia de Álfaheim chegara para dar oi.

* * *

— Podemos ajudar? — perguntou o primeiro policial.
Nesse momento, eu soube que estávamos encrencados. Por experiência própria, podia afirmar que nenhum policial perguntava podemos ajudar se tivesse o desejo real de ajudar. Outra prova: a mão do policial estava apoiada no cabo da arma.
O segundo policial saiu pelo lado do carona, parecendo também pronto a dar uma ajuda bem fatal.
Os dois elfos estavam vestidos como detetives à paisana, com ternos escuros e gravatas de seda, os distintivos presos no cinto. O cabelo curto deles era tão louro quanto o de Hearthstone. Tinham os mesmos olhos claros e as expressões estranhamente calmas.
Fora isso, não se pareciam em nada com meu amigo. Os policiais aparentavam ser mais altos, mais magros e mais esquisitos. Emanavam um ar frio de desdém, como se tivessem aparelhos pessoais de ar-condicionado instalados embaixo do colarinho.
Outra coisa que achei estranha: eles falavam. Eu tinha passado tanto tempo com Hearthstone, que se comunicava num silêncio eloquente, que ouvir a voz de um elfo era perturbador. Parecia errado.
Os dois policiais olharam para Hearthstone. Era como se eu não existisse.
— Eu fiz uma pergunta, amigo — disse o primeiro policial. — Tem algum problema aqui?
Hearthstone balançou a cabeça. Ele recuou, mas eu segurei seu braço. Recuar só tornaria tudo pior.
— Nós estamos bem — falei. — Obrigado, policiais.
Os detetives me olharam como se eu fosse de outro mundo, coisa que, para ser justo, eu era mesmo.
A identificação no distintivo do primeiro policial dizia SUNSHINE, tipo raio de sol. Ele não parecia muito um raio de sol. Por outro lado, acho que eu também não parecia muito magno.
A identificação do segundo policial dizia WILDFLOWER, flor silvestre. Com um nome desses, eu esperaria que ele estivesse usando uma camisa florida ou pelo menos um lenço colorido, mas o traje dele era tão sem-graça quanto o do companheiro.
Sunshine franziu o nariz como se eu tivesse o fedor do dólmen de um draugr.
— Onde você aprendeu élfico, obtuso? Seu sotaque é horrível.
— Obtuso? — indaguei.
Wildflower deu uma risadinha para o companheiro.
— Quer apostar que élfico não é a língua materna dele?
Eu queria deixar claro que eu era um humano falando inglês e que aquela era minha língua materna. E a única que eu falava, aliás. Élfico e inglês eram a mesma coisa, assim como a linguagem élfica de sinais de Hearth e a linguagem de sinais que a gente usava nos Estados Unidos. Eu duvidava que os policiais fossem ouvir ou dar atenção. A maneira como eles falavam era estranha aos meus ouvidos: um sotaque meio antiquado e aristocrático que eu tinha ouvido em documentários e filmes dos anos 1930.
— Olhem — comecei —, nós só estamos fazendo uma caminhada.
— Em um bairro chique — disse Sunshine —, onde suponho que vocês não moram. Os Makepiece do fim da rua fizeram uma queixa. Pessoas invadindo, vadiando. Levamos esse tipo de coisa a sério, obtuso.
Tive que controlar minha raiva. Como sem-teto, eu era alvo frequente de maus-tratos por parte da polícia. Meus amigos de pele mais escura sofriam ainda mais. Então, durante os dois anos que morei na rua, adquiri um novo nível de cautela quando lidava com policiais “simpáticos”.
Ainda assim... não gostei de ser chamado de obtuso. Seja lá o que isso fosse.
— Policiais, estamos andando há uns cinco minutos. Estamos indo para a casa do meu amigo. Como isso pode ser vadiagem?
Hearthstone sinalizou para mim: Cuidado.
Sunshine franziu a testa.
— O que foi isso? Algum sinal de gangue? Fale élfico.
— Ele é surdo — esclareci.
— Surdo? — O rosto de Wildflower se franziu de nojo. — Que tipo de elfo...?
— Opa, parceiro. — Sunshine engoliu em seco. Puxou a gola como se o ar-condicionado pessoal tivesse parado de funcionar. — Esse é...? Só pode ser... você sabe, o filho do sr. Alderman.
A expressão de Wildflower mudou de desprezo para medo. Teria sido satisfatório de olhar, não fosse o fato de um policial temeroso ser bem mais perigoso do que um enojado.
— Sr. Hearthstone? — perguntou Wildflower. — É o senhor?
Hearthstone assentiu de modo sombrio.
Sunshine falou um palavrão.
— Tudo bem. Os dois, no carro.
— Opa, por quê? — perguntei. — Se vocês vão nos prender, quero saber quais são as acusações...
— Nós não vamos prender vocês, obtuso — rosnou Sunshine. — Vamos levá-los para a casa do sr. Alderman.
— Depois disso — acrescentou Wildflower —, você não vai mais ser problema nosso.
O tom dele fez parecer que não seríamos problema de ninguém, pois seríamos enterrados embaixo de um lindo canteiro de flores em algum lugar. A última coisa que eu queria era entrar naquele carro, mas os policiais bateram os dedos nas armas élficas, nos mostrando quanto estavam preparados para ajudar.
Subi no banco de trás do carro.


4 comentários:

  1. E eu achando que meu nome era ruim...
    #MorteAosLosers

    ResponderExcluir
  2. Por um instante pensei que haveria tiros mesmo, mas parece que será bem pior que isso!!!

    ResponderExcluir
  3. "Tenho que admitir, a gravidade mais leve me fez sentir... bem, mais leve." ahuahauahauagaua

    ResponderExcluir
  4. Já to até vendo que o pai do Hearth é aqueles chefões da p***a toda,o bambambam da turma,ricão qqq

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!