16 de outubro de 2016

Vinte e três - É, o outro carro dele é mesmo um óvni

FOMOS LEVADOS ATÉ a sala de estar, onde nada parecia estar de fato. Entrava luz pelas janelas panorâmicas. O teto com pé-direito de nove metros cintilava com um mosaico prateado de luzes. O piso de mármore polido era branco a ponto de quase cegar. Cobrindo as paredes havia nichos iluminados, exibindo vários minerais, pedras e fósseis. Por toda a sala havia mais artefatos debaixo das vitrines de vidro em pódios brancos.
No que tangia a museus, bem, o espaço era ótimo. Mas como uma sala onde eu ia querer ficar... não, obrigado. Os únicos lugares para sentar eram dois bancos longos de madeira em ambos os lados de uma mesa de centro feita de aço. Acima da lareira fria, sorria para mim um gigantesco retrato a óleo de um garoto. Ele não se parecia com Hearthstone. O irmão morto, Andiron, eu supus. O terno branco do garoto e o rosto sorridente o faziam parecer um anjo. Eu me perguntei se Hearthstone alguma vez fora feliz assim quando criança. Eu duvidava. O garoto elfo sorridente era a única coisa alegre no cômodo, e o garoto elfo sorridente estava morto; congelado no tempo como os outros objetos.
Fiquei tentado a me sentar no chão em vez de nos bancos. Mas decidi tentar ser educado. Não era algo que costumava funcionar para mim, mas, de vez em quando, eu tentava.
Hearthstone colocou Blitzen no chão com cuidado. Então se sentou ao meu lado.
O sr. Alderman ficou pouco à vontade no banco em frente a nós.
— Inge — chamou ele —, traga as bebidas.
A huldra se materializou em uma porta próxima.
— Imediatamente, senhor. — Ela se afastou depressa, a cauda de vaca balançando nas dobras da saia.
O sr. Alderman lançou um olhar fulminante a Hearthstone, ou talvez aquela fosse a expressão normal dele de “uau, senti sua falta”.
— Seu quarto está como você o deixou. Imagino que deseje ficar.
Hearthstone balançou a cabeça. Precisamos da sua ajuda. Depois, vamos partir.
— Use o quadro, filho. — O sr. Alderman apontou para a ponta da mesa, perto de Hearth, onde havia um pequeno quadro branco com uma caneta presa a um barbante. O velho elfo olhou para mim. — O quadro o encoraja a pensar antes de falar... isso se você chamar esse sacolejo de mão de falar.
Hearthstone cruzou os braços e olhou feio para o pai.
Decidi bancar o tradutor antes que os dois resolvessem se matar.
— Sr. Alderman, Hearth e eu precisamos da sua ajuda. Nosso amigo Blitzen...
— Virou pedra — interrompeu o sr. Alderman. — Sim, deu para perceber. Água corrente traz um anão petrificado de volta. Não vejo qual é o problema.
Essa informação por si só teria feito a viagem desagradável até Álfaheim valer a pena. Senti como se o peso de um anão de granito tivesse sido tirado das minhas costas. Infelizmente, nós precisávamos de mais.
— Mas, bem, eu transformei Blitzen em pedra de propósito. Ele foi ferido por uma espada. A espada Skofnung.
A boca do sr. Alderman tremeu.
— Skofnung.
— É. Acha isso engraçado?
O sr. Alderman mostrou os dentes brancos e perfeitos.
— Vocês vieram buscar minha ajuda. Para curar esse anão. Querem a pedra Skofnung.
— Você está com ela?
— Ah, claro.
O sr. Alderman indicou um dos pódios próximos. Debaixo de uma vitrine de vidro havia um disco de pedra do tamanho de um prato de sobremesa: cinza com manchas azuis, como Loki descrevera.
— Eu coleciono artefatos dos nove mundos — explicou o sr. Alderman. — A pedra Skofnung foi uma das minhas primeiras aquisições. Foi encantada para suportar o fio mágico da espada, para afiá-la se necessário, e, claro, para oferecer cura instantânea no caso de algum portador idiota se cortar.
— Ah, que ótimo — falei. — E como se cura com ela?
O sr. Alderman riu.
— É bem simples. Basta encostar a pedra no ferimento, e ele se fecha.
— E... podemos pegá-la emprestada?
— Não.
Por que não fiquei surpreso? Hearthstone me lançou um olhar como quem diz: É, o melhor pai dos nove mundos.
Inge voltou com três cálices prateados em uma bandeja. Depois de servir o sr. Alderman, ela colocou um cálice na minha frente, sorriu para Hearthstone e entregou o dele. Quando seus dedos se tocaram, as orelhas de Inge ficaram vermelhas. Ela saiu correndo para... o lugar onde tinha que ficar, fora do campo de visão, mas a uma distância de ouvir um chamado.
O líquido no meu cálice parecia ouro derretido. Eu não comia nem bebia nada desde o café da manhã, então estava torcendo por sanduíches élficos e água com gás. Fiquei na dúvida se devia perguntar sobre a criação do cálice e seus feitos famosos antes de beber, como era de praxe em Nídavellir, o mundo dos anões. Alguma coisa me disse que não. Os anões tratavam cada objeto que forjavam como únicos, merecedores de um nome. Pelo que eu tinha visto até o momento, elfos se cercavam de artefatos de valor inestimável e davam tanta atenção a eles quanto davam aos empregados. Eu duvidava que nomeassem os cálices.
Tomei um gole. Sem dúvida, era a melhor coisa que já havia bebido, com a doçura do mel, a intensidade do chocolate e a refrescância do gelo, mas tinha um gosto diferente de tudo isso. Encheu meu estômago de modo mais satisfatório do que uma refeição completa. Eu já não sentia sede. A energia que a bebida me deu fez o hidromel de Valhala parecer um energético chinfrim.
De repente, a sala foi tomada de luz caleidoscópica. Olhei para o gramado bem-cuidado, para as cercas vivas esculpidas, para as topiarias do jardim. Eu queria tirar os óculos escuros, quebrar a janela e sair saltitando alegremente por Álfaheim até o sol me cegar.
Percebi que o sr. Alderman estava me olhando, querendo saber como eu lidaria com a bebida élfica inebriante. Pisquei várias vezes para reorganizar meus pensamentos.
— Senhor — falei, porque a educação estava funcionando muito bem, não é mesmo? —, por que não quer ajudar? A pedra está bem aqui.
— Não vou ajudar porque não vou ganhar nada com isso. — Ele tomou um gole da bebida, levantando o dedo mínimo para ostentar um anel de ametista brilhante. — Meu... filho... Hearthstone não merece minha ajuda. Ele foi embora anos atrás sem dizer uma palavra. — Ele fez uma pausa e soltou uma gargalhada. — Sem dizer uma palavra. Bom, isso é óbvio. Mas você entende o que eu quero dizer.
Fiquei com vontade de enfiar meu cálice entre os dentes perfeitos dele, mas me controlei.
— Hearthstone foi embora. Isso é crime, por acaso?
— Devia ser. — Alderman fez uma expressão de desprezo. — Ao fazer isso, ele matou a mãe.
Hearthstone engasgou e deixou o cálice cair. Por um momento, o único som na sala foi o do cálice rolando no piso de mármore.
— Você não sabia? — perguntou o sr. Alderman. — Claro que não. Por que se importaria? Depois que foi embora, ela ficou preocupada e deprimida. Você não faz ideia de como nos constrangeu ao desaparecer. Houve boatos de você estar estudando magia de runas, logo isso, de ter se unido a Mímir e à ralé dele e de ter feito amizade com um anão. Bem, certa tarde, sua mãe estava atravessando a rua no vilarejo, voltando do country club. Ela tinha ouvido comentários horríveis das amigas durante o almoço. Temia que sua reputação estivesse arruinada. Não estava olhando para onde andava. Quando um caminhão de entregas avançou o sinal vermelho...
O sr. Alderman olhou para o mosaico no teto. Por um segundo, quase consegui imaginar que ele sentia emoções além da raiva. Pensei detectar tristeza nos olhos do elfo. Mas logo o olhar reprovador voltou.
— Como se causar a morte do seu irmão já não fosse ruim o bastante.
Hearthstone tentou pegar o cálice. Seus dedos pareciam feitos de argila. Ele precisou de três tentativas para equilibrá-lo na mesa. Gotas de líquido dourado sujavam as costas de sua mão.
— Hearth. — Eu toquei o braço dele. E sinalizei: Estou aqui.
Eu não conseguia pensar no que dizer. Queria que ele soubesse que não estava sozinho, que pelo menos uma pessoa naquela sala gostava dele. Pensei na runa que ele havia me mostrado meses antes: perthro, o símbolo do cálice vazio, sua runa favorita. Hearthstone foi drenado pela infância em Álfaheim.
Ele escolheu encher a vida com magia de runa e uma nova família, que me incluía. Eu queria gritar para o sr. Alderman que Hearthstone era um elfo melhor do que os pais.
Mas aprendi uma coisa sendo filho de Frey: nem sempre era possível lutar as batalhas dos meus amigos. O melhor que eu podia fazer era estar presente para curar as feridas deles.
Além do mais, gritar com o sr. Alderman não nos daria aquilo de que precisávamos. Claro, eu podia conjurar Jacques, quebrar o vidro que protegia a pedra e pegá-la. Mas estava certo de que o sr. Alderman tinha seguranças de primeira. Não adiantaria nada curar Blitzen só para sermos mortos logo em seguida pela SWAT de Álfaheim. Eu nem sabia se a pedra funcionaria se não fosse dada por vontade própria pelo dono. Itens mágicos tinham regras estranhas, principalmente os que se chamavam Skofnung.
— Sr. Alderman. — Tentei manter a voz controlada. — O que o senhor quer em troca?
Ele ergueu uma sobrancelha platinada.
— Perdão?
— Além de deixar seu filho infeliz, claro — acrescentei. — O senhor é muito bom nisso. Mas disse que não ganharia nada nos ajudando. O que faria valer a pena?
Ele deu um sorriso fraco.
— Ah, um jovem que entende de negócios. De você, Magnus Chase, não quero muito. Você sabia que os vanires são nossos deuses ancestrais? O próprio Frey é nosso patrono e senhor. Toda Álfaheim foi dada a ele como presente pelo nascimento do primeiro dente quando ele era bebê.
— Então... ele mastigou vocês e cuspiu?
O sorriso do sr. Alderman sumiu.
— O que quero dizer é que um filho de Frey seria um amigo valioso para nossa família. Eu só pediria que você ficasse conosco por um tempo, talvez fosse a uma pequena recepção... só algumas centenas de amigos íntimos. Apareça e tire algumas fotos comigo para a imprensa. Essas coisas.
O líquido dourado deixou um gosto ruim na minha boca. Tirar fotos com o sr. Alderman pareciam algo quase tão doloroso quanto ser decapitado pelo garrote de Alex.
— O senhor está preocupado com a própria reputação — falei. — Tem vergonha do seu filho e quer que eu te dê uma moral.
Os grandes olhos alienígenas do elfo se estreitaram, deixando-os quase do tamanho normal.
— Não conheço essa expressão, filho de Frey, mas acredito que estejamos na mesma página.
— Ah, eu entendo. — Olhei para Hearthstone em busca de orientação, mas ele continuava com o olhar perdido e infeliz. — Então, sr. Alderman, eu aceito sua proposta de sessão de fotos e o senhor nos dá a pedra?
— Ah, bem... — Alderman tomou um longo gole do cálice. — Eu esperaria alguma coisa do meu filho cabeça-dura também. Ele tem assuntos pendentes por aqui. Precisa recompensar. Precisa pagar seu wergild.
— O que é wergild?
Eu rezei silenciosamente para não ser alguma coisa parecida com um lobo ou lobisomem.
— Hearthstone sabe o que quero dizer. — O sr. Alderman olhou para o filho. — Nem um único pelo pode aparecer. Você sabe o que deve ser feito, o que devia ter feito anos atrás. Enquanto cuida disso, seu amigo vai ficar hospedado em nossa casa.
— Espere aí. De quanto tempo estamos falando? Temos um evento importante para ir em menos de quatro dias.
O sr. Alderman mostrou os dentes brancos de novo.
— Bem, então é melhor Hearthstone se apressar. — Ele se levantou e gritou: — Inge!
A huldra se aproximou correndo com um pano de prato nas mãos.
— Providencie o necessário para meu filho e seu convidado — ordenou o sr. Alderman. — Eles vão ficar hospedados no antigo quarto de Hearthstone. E, Magnus Chase, nem pense em me desafiar. Minha casa, minhas regras. Se você tentar pegar a pedra, as coisas não vão terminar bem para você, filho de Frey ou não.
Ele jogou o cálice no chão, como se não pudesse permitir que Hearthstone tivesse o derramamento de líquido mais impressionante.
— Limpe isso — disse ele rispidamente para Inge antes de sair da sala.


13 comentários:

  1. Sério, alguem faz o favor de abrir uma boca nova no pai do Hearth com a Skofnung

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  2. Sinceramente fiquei sem saber o que marcar, esse elfo sem noção deu até dor no ovo!!! E como pelos céus a morte da mãe de Hearth foi culpa dele??? O caro atravessou o sinal vermelho... foi Hearth que tava dirigindo por acaso??? Fala serio???!!! vei barata!!!

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  3. Quem vota para decapitar o pai do Heart??

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  4. Que cara mais de mal com a vida!

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  5. Chorei ao saber da morte da mão do Heart...
    Pior pai ever

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    1. Ah mas ela era igualzinha ao pai, só se importava com reputação.

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  6. Tenho uma dúvida as histórias de magnos está junto com a mitologia grega?

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    1. Não, tem apenas algumas referências. O máximo que tem é a Annie, mas ela não se envolve na história. No terceiro volume talvez haja um verdadeiro encontro de mitologias, quem sabe?

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  7. O Hearth já sofria demais,agora nossa nossa nossa
    Fiquei triste por ele </3

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  8. O jeito de curar a petrificação de um anão é o mesmo jeito de se curar da maldição de Minos, q viagem

    -Eu

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  9. O pai do heart é bem...bruto, mas de certa forma entendo como ele se sente, ele não é um personagem que eu odeio nem que eu ame, ele é mais neutro.

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