16 de outubro de 2016

Vinte e sete - Me largue agora, ou eu faço você ficar bilionário

AH, UM FIM!
Normalmente, não sou ameaçado com um fim. A maioria dos seres dos nove mundos não usa uma palavra assim. Só dizem “VOU TE MATAR!”. Ou deixam que os punhos envoltos em cota de malha falem por eles.
Fiquei tão impressionado com o vocabulário de Andvari que apertei a garganta dele com mais força.
— Ai! — O anão se debateu e se sacudiu.
Ele era escorregadio, mas não pesado. Mesmo para os padrões dos anões, o sujeito era pequenininho. Usava uma túnica de pele de peixe e uma cueca que era basicamente uma fralda de musgo. Gosma cobria suas pernas. Os braços gorduchos tentavam me bater, mas não foi pior do que ser acertado por uma pistola d’água. E o rosto dele... sabe como o polegar fica depois de usarmos um band-aid molhado por muito tempo, todo enrugado, sem cor e nojento? Imaginem isso como o rosto dele, uns bigodes brancos e os olhos verde-mofo, e dá para ter uma ideia de como é Andvari.
— Onde está o ouro? — perguntei. — Não me faça liberar a playlist da minha espada.
Andvari se contorceu mais um pouco.
— Vocês não vão querer meu ouro! Não sabem o que acontece com as pessoas que o pegam?
— Ficam ricas? — arrisquei.
— Não! Bem, sim. Mas, depois disso, morrem! Ou... pelo menos ficam desejando morrer. Elas sempre sofrem. E todo mundo ao redor delas também!
Ele balançou os dedinhos melequentos como quem diz: Uuu, uuu, que ameaçador!
Hearthstone estava cambaleando um pouco, mas conseguiu ficar de pé. Ele sinalizou: Uma pessoa roubou o ouro e não sofreu nenhuma consequência. E fez o sinal do meu nome menos favorito: indicador e polegar apertados na lateral da cabeça, uma combinação da letra L e do sinal do diabo, que era perfeito para nosso amigo Loki.
— Loki pegou seu ouro uma vez — interpretei — e ele não morreu nem sofreu.
— Ah, é, mas era Loki! — disse Andvari. — Todas as outras pessoas que receberam o ouro depois dele ficaram malucas! Tiveram vidas horríveis, deixaram uma trilha de mortos! É isso que vocês querem? Querem ser como Fafnir? Como Siegfried? Como os vencedores da loteria Powerball?
— Quem?
— Ah, não é possível! Vocês ouviram as histórias. Toda vez que perco meu anel, ele passeia pelos nove mundos por um tempo. Algum mané o encontra. Acerta a loteria e ganha milhões. Mas sempre acaba pobre, divorciado, doente, infeliz ou morto. É isso que vocês querem?
Hearth sinalizou: Anel mágico, sim. É o segredo da riqueza dele. Precisamos disso.
— Você mencionou um anel...
Andvari ficou imóvel.
— Mencionei? Não. Devo ter me confundido. Não tenho anel nenhum.
— Jacques — falei —, o que você acha dos pés dele?
— Péssimos, senhor. Precisam de um tratamento.
— Vá em frente.
Jacques começou a agir. É uma espada rara, que consegue remover sujeira grudada de lagoa, lixar calos, aparar unhas enormes e deixar um par de pés de anão limpo e brilhando sem 1) matar o tal anão, 2) cortar fora os pés agitados do tal anão, ou 3) cortar as pernas do einherji que estava segurando o dito anão... E durante todo o tempo cantando “Can’t Feel My Face”. Jacques é mesmo muito especial.
— Tá bom! Tá bom! — gritou Andvari. — Chega de tortura! Vou mostrar onde está o tesouro! Está debaixo daquela pedra!
Ele apontou freneticamente para tudo ao redor, até seu dedo parar na direção de uma pedra perto da beirada da cachoeira.
Armadilhas, sinalizou Hearthstone.
— Andvari — falei —, se eu mover aquela pedra, que tipo de armadilha vou disparar?
— Nenhuma!
— E se eu a mover usando sua cabeça como alavanca?
— Tudo bem, tem uma armadilha! Feitiços explosivos! Disparadores de catapultas!
— Eu sabia! Como se desarma? Todas elas.
O anão estreitou os olhos com concentração. Pelo menos, eu esperava que fosse isso que ele estava fazendo. Se não fosse, estava fazendo um depósito na fralda de musgo.
— Pronto. — Ele suspirou, infeliz. — Desarmei todas as armadilhas.
Olhei para Hearthstone. O elfo esticou as mãos, provavelmente testando os arredores em busca de magia da mesma maneira que eu consegui sentir enguias e garoupas. (Ei, todos temos talentos diferentes.) Hearth assentiu. Seguro.
Com Andvari ainda pendurado na minha mão, andei até a rocha e a virei com o pé. (Força einherji também é um bom talento.)
Debaixo da pedra, um buraco forrado de lona estava cheio de... Uau. Eu normalmente não ligava para dinheiro. Não sou assim. Mas minhas glândulas salivares dispararam quando vi o volume de ouro: pulseiras, colares, moedas, adagas, anéis, cálices, notas do Banco Imobiliário. Eu não sabia qual era o valor do ouro por peso atualmente, mas avaliei que estava olhando um gazilhão de dólares.
Jacques gritou.
— Ah, vejam aquelas adagas! São adoráveis.
Os olhos de Hearthstone recuperaram a vivacidade. Todo aquele ouro parecia ter nele o mesmo efeito de passar uma xícara de café debaixo do nariz.
Fácil demais, sinalizou Hearth. Deve ter alguma pegadinha.
— Andvari, se seu nome quer dizer Cauteloso, por que é tão fácil roubar você?
— Eu sei! — choramingou o anão. — Eu não sou cauteloso! Sou roubado toda hora! Acho que o nome é uma ironia. Minha mãe era uma mulher cruel.
— Então seu tesouro vive sendo roubado, mas você o recupera? Por causa do anel que mencionou?
— Que anel? Tem um monte de anéis naquela pilha. Podem levar!
— Não, o anel mágico. Onde ele está?
— Hã, deve estar em algum lugar daquela pilha. Vá procurar! — Andvari tirou rapidamente um anel de um dos dedos e o enfiou na fralda. As mãos dele estavam tão imundas que eu não teria reparado na joia se ele não tivesse tentado esconder.
— Você acabou de colocá-lo dentro da calça — acusei.
— Não coloquei, não!
— Jacques, acho que esse anão quer uma depilação completa.
— Não! — berrou Andvari. — Tá, tudo bem, meu anel mágico está na minha calça. Mas, por favor, não o leve. Encontrá-lo sempre dá muito trabalho. Eu falei que é amaldiçoado. Você não quer acabar como um ganhador da loteria, quer?
Eu me virei para Hearth.
— O que você acha?
— Diga para ele, sr. Elfo! — gritou Andvari. — Obviamente, o senhor é um elfo sábio. Conhece suas runas. Aposto que sabe a história de Fafnir, não é? Diga para seu amigo que esse anel só vai trazer problemas.
Hearth olhou ao longe, como se lesse uma lista em um quadro branco divino: −10 moedas por levar um anel amaldiçoado para casa. +10 gazilhões de moedas por roubar um gazilhão de ouro.
Ele sinalizou: O anel é amaldiçoado. Mas também é a chave para o tesouro. Sem o anel, o tesouro nunca vai ser suficiente. Sempre vai faltar.
Olhei para o depósito de ouro do tamanho de uma banheira de hidromassagem.
— Não sei, cara. Parece suficiente para cobrir o tapete wergild.
Hearth balançou a cabeça. Não vai ser. O anel é perigoso. Mas temos que levar só por garantia. Se não usarmos, podemos devolver.
Virei o anão para me encarar.
— Desculpa aí, Andvari.
Jacques riu.
— Ei, isso quase rimou!
— O que o elfo disse? — perguntou Andvari. — Não consigo ler esses gestos! — Ele acenou as mãos sujas, fazendo acidentalmente os sinais de burro, garçom, panqueca.
Eu estava perdendo a paciência com o velho nojento, mas fiz o possível para transmitir a mensagem de Hearth.
Os olhos verde-musgo de Andvari escureceram. Ele mostrou os dentes, que pareciam não ver fio dental desde que os zumbis tinham inspirado o Pacto de Mayflower.
— Então você é um tolo, sr. Elfo — resmungou ele. — O anel vai acabar voltando para mim. Sempre volta. Enquanto isso, causará morte e infelicidade para quem o usar. E não pense que vai resolver seus problemas. Essa não será a última vez que você vai ter que voltar para casa. Só adiou um acerto de contas bem mais perigoso.
A mudança no tom de Andvari me deixou mais nervoso do que sua transformação de garoupa para anão. Não havia mais choramingo nem berros. Ele falou com uma certeza fria, feito um carrasco explicando o funcionamento de uma forca.
Hearthstone não pareceu abalado. Ele estava com a mesma expressão que fizera no amontoado de pedras do irmão, como se revivesse uma tragédia que tinha acontecido muito tempo antes e que não podia ser modificada.
O anel, sinalizou ele.
O gesto foi tão óbvio que até Andvari entendeu.
— Tudo bem. — O anão olhou para mim com raiva. — Você também não vai escapar da maldição. Em pouco tempo, vai ver o que advém de presentes roubados!
Os pelos nos meus braços se eriçaram.
— O que você quer dizer?
Ele deu um sorriso cruel.
— Ah, nada. Nadinha.
Andvari deu uma sacudida de bunda. O anel caiu pelo buraco da perna da fralda.
— Um anel mágico — anunciou ele —, completo, com maldição e tudo.
— Peguei!
Jacques mergulhou e agiu como uma espátula para pegar o anel na lama com a parte achatada da lâmina.
Andvari olhou com tristeza enquanto minha espada brincava de jogar o anel de um lado da lâmina para outro.
— O acordo de sempre? — perguntou o anão. — Você poupa minha vida e leva tudo o que eu tenho?
— O de sempre parece ótimo — assenti. — E todo esse ouro do buraco? Como carregamos?
Andvari fez um ruído debochado.
— Amadores! O forro de lona é um grande saco mágico. Puxe as cordas e voilà! Tenho que deixar o tesouro pronto para fugas rápidas nas poucas vezes que consigo evitar ser roubado.
Hearthstone se agachou ao lado do esconderijo. Saindo de um buraco na beirada da lona havia um barbante. Hearth o puxou, e o saco se fechou, encolhendo até o tamanho de uma mochila. O elfo levantou para que eu visse: um gazilhão de dólares em ouro com um tamanho superconveniente para ser transportado.
— Agora honre sua parte do acordo! — exigiu Andvari.
Eu o larguei.
— Humf. — O velho anão massageou o pescoço. — Apreciem seu fim, amadores. Espero que tenham dor e sofrimento e ganhem em duas loterias!
Com essa maldição cruel, ele pulou na lagoa e desapareceu.
— Ei, senhor! — chamou Jacques. — Atenção!
— Não ouse...
Ele jogou o anel para mim. Eu o peguei por reflexo.
— Ai, eca.
Como era um anel mágico, eu esperava um grande momento O Senhor dos Anéis quando o objeto caiu na minha mão – um sussurro frio e pesado, uma névoa rodopiante cinza, uma fileira de Nazgûl fazendo o moon walk. Nada disso aconteceu. O anel só ficou ali, com cara de anel de ouro, ainda que um anel de ouro recentemente caído da fralda de musgo de um anão de mil anos.
Coloquei o anel no bolso da calça e depois observei o resíduo circular de gosma na palma da minha mão.
— Minha mão nunca mais vai ficar limpa.
Hearthstone colocou a nova e preciosa mochila nas costas, como um Papai Noel gazilionário. Ele olhou para o sol, que já tinha passado do seu ápice. Eu não tinha me dado conta de quanto tempo ficamos andando pela floresta no quintal do sr. Alderman.
Temos que ir, sinalizou Hearth. Meu pai deve estar esperando.


5 comentários:

  1. AUSHauhsUAHS eu sou esse Magnus só pode

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  2. Esse anão pensa que assusta essa equipe?
    Meu amooor, jogam pragas e maldiçoes nessa galera todos os dias. Te situa seu mongo!

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  3. "Uma fileira de Nazgûl fazendo o moon walk." Kkkkkkk

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  4. Armadilhas, sinalizou Hearthstone.
    — Andvari — falei —, se eu mover aquela pedra, que tipo de armadilha vou disparar?
    — Nenhuma!
    — E se eu a mover usando sua cabeça como alavanca?
    — Tudo bem, tem uma armadilha! Feitiços explosivos! Disparadores de catapultas! Kkkkkk magnus eh fudido kkkk tio rick s2

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  5. Pq quando o Jacques disse "Péssimos, senhor. Precisam de um tratamento." eu imaginei ele com a vós do Jarvis da armadura do Homem de Ferro

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