16 de outubro de 2016

Vinte e seis - Nós explodimos todos os peixes

EU JÁ TINHA caminhado por florestas em Jötunheim. Já tinha morado nas ruas de Boston. E, por algum motivo, o trecho de terra não cultivada atrás da Mansão Alderman parecia ainda mais perigoso.
Ao olhar para trás, eu ainda avistava as torres da casa acima das árvores. Ouvia o trânsito na rua. O sol brilhava com a alegria de sempre. Mas, debaixo das árvores retorcidas, a sombra era persistente.
Raízes e pedras pareciam determinadas a me fazer tropeçar. Nos galhos mais altos, pássaros e esquilos me olhavam de cara feia. Era como se aquele trecho de natureza estivesse se esforçando muito para permanecer selvagem com o intuito de evitar ser transformado em um jardim.
Se nós virmos você trazendo uma tesoura de poda para cá, as árvores pareciam dizer, vamos fazer você comê-la inteirinha.
Gostei da atitude, mas tornou nossa caminhada meio tensa.
Hearthstone parecia saber para onde estava indo. A ideia de Andiron e Hearthstone brincando neste bosque quando pequenos renovou meu respeito pela coragem deles. Depois de abrir caminho por alguns hectares de arbustos espinhentos, nós saímos em uma clareira pequena com uma pilha de pedras no meio.
— O que é isso? — perguntei.
A expressão de Hearthstone era tensa e sofrida, como se ele ainda estivesse avançando em meio à floresta espinhenta. Ele sinalizou: O poço.
A melancolia do lugar penetrava pelos meus poros. Aquele era o local onde o irmão dele havia morrido. O sr. Alderman devia ter enchido o poço, ou talvez tenha forçado Hearthstone a fazer isso depois que terminou de arrancar a pele da criatura do mal. O ato devia ter valido algumas moedas de ouro para Hearth.
Fiz um círculo com o punho no peito, o sinal de Sinto muito.
Hearth ficou me olhando como se não compreendesse o sentimento. Ajoelhou-se ao lado do monte e pegou uma pedrinha no alto. Entalhada nela em vermelho-escuro havia uma runa:


Othala. Herança. O mesmo símbolo que a filhinha de Randolph, Emma, estava segurando no meu sonho. Ao vê-lo na vida real, senti enjoo novamente. Meu rosto ardeu com a lembrança da cicatriz de Randolph.
Eu me lembrei do que Loki disse na tumba do draugrO sangue é uma coisa poderosa, Magnus. Sempre posso encontrar você por meio dele. Por um segundo, me perguntei se Loki havia colocado a runa ali como uma mensagem para mim, mas Hearthstone não pareceu surpreso por encontrá-la.
Eu me ajoelhei ao lado dele e sinalizei: Por que isso está aqui?
Hearthstone apontou para si mesmo. E colocou a pedra com cuidado no alto da pilha. Quer dizer lar, sinalizou ele. Ou o que é importante.
— Herança?
Ele pensou por um momento e então assentiu.
Eu coloquei aqui no dia em que parti, anos atrás. Essa runa eu não vou usar. Pertence a ele.
Olhei para a pilha de pedras. Será que algumas eram as mesmas que o Hearthstone de oito anos usava para brincar quando o monstro atacou seu irmão? Aquele lugar era mais do que um memorial para Andiron. Parte de Hearthstone também havia morrido ali.
Eu não era feiticeiro, mas pareceu errado um conjunto de runas estar sem um símbolo. Como era possível dominar uma língua, principalmente a língua do universo, sem todas as letras?
Eu queria encorajar Hearth a pegar a runa de volta. Claro que Andiron ia querer isso. Hearth tinha uma nova família agora. Era um grande feiticeiro. Seu cálice da vida estava cheio novamente.
Mas Hearthstone evitou o meu olhar. É fácil ignorar alguém quando se é surdo. Basta não olhar para a pessoa. Ele se levantou e saiu andando, fazendo sinal para que eu o seguisse.
Alguns minutos depois, encontramos o rio. Não era impressionante – só um riacho pantanoso como o que atravessava o cinturão verde de Fenway. Nuvens de mosquitos pairavam sobre a área de brejo. O chão parecia pudim quente. Seguimos a corrente por áreas densas de arbustos e água até os joelhos. O anão milenar Andvari havia escolhido um lugar lindo para se aposentar.
Depois dos sonhos da noite anterior, meus nervos estavam à flor da pele.
Eu ficava pensando em Loki preso na caverna. E no aparecimento dele na suíte de Alex Fierro: É um pedido tão simples. Se isso tinha realmente acontecido, o que Loki queria?
Eu me lembrei do assassino, do matador de bodes que gostava de possuir instrutores de voo. Ele me disse para levar Alex para Jötunheim: ELA É SUA ÚNICA ESPERANÇA AGORA. Isso não era um bom presságio.
O gigante Thrym esperava um casamento em três dias. Ele ia querer a noiva e também o dote: a espada e a pedra Skofnung. Em troca, talvez, conseguíssemos recuperar o martelo de Thor e impedir que hordas de Jötunheim invadissem Boston.
Pensei nos mil gigantes que tinha visto no meu sonho, marchando para desafiar Thor. Eu não estava ansioso para enfrentar uma força como aquela; não sem um martelo grande que pudesse explodir montanhas e fritar exércitos invasores em pedacinhos torrados.
Pensei que o que Hearth e eu estávamos fazendo agora fazia sentido: andávamos por Álfaheim tentando pegar ouro de um anão velho para obtermos a pedra Skofnung e curar Blitz. Mesmo assim... senti como se Loki estivesse nos distraindo intencionalmente, sem nos dar tempo para pensar. Ele era como um armador de basquete balançando os braços na nossa cara, nos distraindo para não corrermos para a cesta. Havia mais coisa envolvida nesse acordo de casamento do que recuperar o martelo de Thor.
O plano de Loki tinha muitas camadas. Ele recrutou o tio Randolph por um motivo. Se ao menos eu pudesse parar um momento para organizar os pensamentos sem ser puxado de um problema mortal para outro...
Ah, claro. Você acabou de descrever toda a sua vida e sua pós-vida, Magnus.
Tentei dizer para mim mesmo que tudo ficaria bem. Infelizmente, meu esôfago não acreditou em mim. Ficava pulando do meu peito até os dentes.
A primeira cachoeira que encontramos era um gotejar delicado sobre um patamar cheio de musgo. Campinas amplas se espalhavam nas duas margens. A água não era funda o bastante para um peixe se esconder. As campinas eram planas demais para camuflar armadilhas eficientes como espinhos envenenados, minas terrestres e fios que acionassem dinamite ou roedores raivosos por catapultas.
Nenhum anão que se preze esconderia seu tesouro ali. Seguimos em frente.
segunda cachoeira tinha mais chances. O terreno era mais pedregoso, com muitos musgos escorregadios e vãos traiçoeiros entre as pedras nas duas margens. As árvores acima faziam sombra na água e ofereciam esconderijos em potencial para bestas e lâminas de guilhotina. O próprio rio cascateava por uma escadaria de pedra natural antes de despencar três metros em uma lagoa do diâmetro de uma cama elástica. Com toda a espuma e as ondulações, eu não conseguia ver abaixo da superfície, mas a julgar pela água azul-escura, devia ser funda.
— Pode ter qualquer coisa lá embaixo — falei para Hearth. — Como fazemos isso?
Hearthstone indicou meu pingente. Fique preparado.
— Hã, tá.
Peguei minha runa e chamei Jacques.
— Oi, pessoal! — disse ele. — Opa! Estamos em Álfaheim! Vocês trouxeram óculos escuros para mim?
— Jacques, você não tem olhos.
— É, mas eu fico lindo de óculos escuros! O que vamos fazer?
Resumi a história para ele enquanto Hearthstone remexia no saco de runas, tentando decidir que sabor de magia usar em um anão/peixe.
— Andvari? — perguntou Jacques. — Já ouvi falar desse cara. Vocês podem roubar o ouro dele, mas não devem matá-lo. Daria muito azar.
— O que isso quer dizer, exatamente?
Espadas não podiam dar de ombros, mas Jacques se balançou de um lado para outro, que era o equivalente mais próximo.
— Não faço ideia do que aconteceria. Sei que está na lista de coisas que não se deve fazer, junto com quebrar espelhos, atravessar o caminho dos gatos de Freya e tentar beijar Frigga debaixo do visco. Cara, eu cometi esse erro uma vez!
Tive a sensação horrível de que Jacques ia me contar essa história. Mas Hearthstone levantou uma runa acima da cabeça. Só tive tempo de reconhecer o símbolo:


Thurisaz: a runa de Thor.
Hearthstone a jogou na lagoa.
KA-BLAM! Vapor embaçou meus óculos escuros. A atmosfera ficou tomada de vapor e ozônio tão rápido que minhas narinas inflaram como air bags.
Limpei as lentes. Onde antes ficava a lagoa, agora havia um buraco lamacento com nove metros de profundidade. No fundo, dezenas de peixes surpresos se debatiam, as guelras agitadas.
— Opa — falei. — Para onde a cachoeira...?
Olhei para o alto. O rio fazia um curva por cima da nossa cabeça como um arco-íris líquido, ultrapassando a lagoa e caindo no rio mais para a frente.
— Hearth, como é...?
Ele se virou para mim, e dei um passo cauteloso para trás. Os olhos do elfo ardiam de raiva. Sua expressão era mais assustadora e ainda menos típica de Hearth do que quando ele se uruzou e virou o elfo-touro.
— Hã, só estou falando, cara... — Levantei as mãos. — Você explodiu uns cinquenta peixes inocentes.
Um deles é um anão, sinalizou Hearth.
Ele pulou no buraco, as botas afundando na lama. Andou de um lado para outro, puxando os pés com barulhos altos de sucção, examinando cada peixe. Acima de mim, o rio continuava a fazer um arco no ar, rugindo e cintilando à luz do sol.
— Jacques — falei —, o que a runa thurisaz faz?
— É a runa de Thor, senhor. Ei... Thor, senhor. Até que rima!
— É, legal. Mas, hã, por que a lagoa fez bum? Por que Hearthstone está tão estranho?
— Ah! Porque thurisaz é a runa da força destrutiva. Como Thor. Explode coisas. Além do mais, quando você a invoca, pode acabar ficando meio... tipo Thor.
Tipo Thor. Era isso que eu esperava ouvir. Agora eu não queria mesmo pular naquele buraco. Se Hearthstone começasse a peidar como o deus do trovão, o ar lá embaixo ia ficar tóxico rapidinho.
Por outro lado, eu não podia deixar aqueles peixes à mercê de um elfo furioso. Tudo bem que eram só peixes. Mas eu não gostava da ideia de tantos deles morrerem apenas para descobrirmos um anão disfarçado. Vida era vida. Acho que era uma coisa de Frey. Também pensei que Hearthstone se sentiria mal quando estivesse livre da influência de thurisaz.
— Jacques, fique aqui. Fique vigiando.
— Coisa que seria mais fácil e mais bacana com óculos escuros — reclamou Jacques.
Eu o ignorei e pulei lá dentro.
Pelo menos, Hearth não tentou me matar quando apareci ao lado dele. Olhei ao redor, mas não vi sinal de tesouro: nada de X marcando o local, só um monte de peixes sufocando.
Como encontramos Andvari?, sinalizei para Hearth. Os outros peixes precisam de água para respirar.
Nós esperamos, sinalizou Hearth. O anão também vai sufocar se não mudar de forma.
Não gostei dessa resposta. Eu me agachei e apoiei as mãos na lama, espalhando o poder de Frey pela gosma. Sei que pode parecer estranho, mas achei que, se eu podia curar com um toque, intuindo tudo o que havia de errado no corpo de alguém, talvez pudesse ampliar um pouco mais minha percepção, da mesma maneira que se estreita os olhos para ver mais longe, e sentir todas as formas de vida diferentes ao redor.
Funcionou, mais ou menos. Minha mente tocou na consciência fria e em pânico de uma truta se debatendo a alguns centímetros. Localizei uma enguia enterrada na lama que estava considerando seriamente morder o pé de Hearthstone (eu a convenci a não fazer isso). Toquei nas mentes pequeninas de barrigudinhos, cujo processo de pensamento era todo composto de Eek! Eek! Eek!. Depois, senti uma coisa diferente: uma garoupa com pensamentos disparados demais, como se estivesse calculando planos de fuga.
Eu a peguei com meus reflexos de einherji. A garoupa gritou:
— AI!
— Andvari, presumo. Prazer em conhecer você.
— ME SOLTE AGORA! — gritou o peixe. — Meu tesouro não está nesta lagoa! Na verdade, eu não tenho tesouro! Esqueça que falei isso!
— Hearth, que tal a gente sair daqui? — sugeri. — Deixe a lagoa se encher outra vez.
O fogo dos olhos de Hearthstone sumiu de repente. Ele cambaleou.
Do alto, Jacques gritou:
— Ei, Magnus! Acho que você devia se apressar.
A magia da runa estava enfraquecendo. O arco de água começou a se dissolver, soltando gotas. Com uma das mãos apertando bem minha garoupa prisioneira, passei o outro braço pela cintura de Hearthstone e pulei para o alto com toda a minha força.
Pessoal, não tentem fazer isso em casa. Sou um einherji treinado que teve uma morte dolorosa, foi para Valhala e agora passa a maior parte do tempo lutando com uma espada. Sou um profissional qualificado, capaz de pular de buracos lamacentos de nove metros de profundidade. Espero que vocês não sejam.
Caí na margem na hora que a cachoeira desabou, concedendo a todos os peixinhos um milagre bem molhado e uma história para contar aos netos.
A garoupa tentou se soltar.
— Me largue, seu patife!
— Contraproposta. Andvari, este é meu amigo Jacques, a Espada do Verão. Ele consegue cortar quase qualquer coisa. Ele canta músicas pop como um anjo demente. Também consegue transformar um peixe em filé com mais facilidade do que você poderia acreditar. Estou prestes a pedir a Jacques para fazer todas essas coisas de uma vez só. Ou você pode voltar à sua forma verdadeira, calma e tranquilamente, para nós batermos um papo.
Em um momento, em vez de estar segurando um peixe, minha mão estava ao redor do anão mais velho e gosmento que eu já tinha visto. Ele era tão nojento que o fato de eu não soltá-lo devia ter provado minha bravura e feito com que eu pudesse ir para Valhala de novo.
— Parabéns — grunhiu o anão. — Você me pegou. E agora vai ter um fim trágico!


3 comentários:

  1. To me identificando muito com o Magnus kkkkkk tenho até os mesmos amigos estranhos e confusos

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  2. Cada final de capítulo e mais teço do que o outro. Não vejo a hora de magnos encontrar AnnaBeth

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  3. "Caí na margem na hora que a cachoeira desabou, concedendo a todos os peixinhos um milagre bem molhado e uma história para contar aos netos." AGSHGSUAGSHAGSUAGHS

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