16 de outubro de 2016

Vinte e quatro - Ah, você quer respirar? Pague mais três moedas

O QUARTO DE Hearthstone? Parecia mais a “câmara de isolamento de Hearthstone”.
Depois de limpar a sujeira (nós insistimos em ajudar), Inge nos guiou por uma escadaria ampla até o segundo andar, por um corredor coberto de tapeçarias luxuosas e artefatos expostos até uma porta simples de metal. Ela a abriu com uma chave grande e antiquada, embora a ação tenha feito Inge se encolher como se a porta estivesse em chamas.
— Peço desculpas — disse ela. — As trancas da casa são todas feitas de ferro. É incômodo para espíritos da floresta como eu.
A julgar pelo suor em seu rosto, acho que ela quis dizer doloroso em vez de incômodo. Concluí que o sr. Alderman não devia querer Inge destrancando muitas portas, ou talvez ele só não se importasse com seu sofrimento.
Dentro, o quarto era quase do tamanho da minha suíte em Valhala, mas enquanto minha suíte era feita para ser tudo o que eu pudesse querer, aquele lugar era feito para não ser nada que Hearthstone pudesse querer. Diferentemente de todas as partes da casa que eu tinha visto, o quarto não tinha janelas. Fileiras de luzes fluorescentes brilhavam intensamente no teto, oferecendo a ambientação de uma loja de móveis.
No chão, em um canto, havia um colchão de solteiro forrado com lençóis brancos. Sem cobertor, sem edredom, sem travesseiro. À esquerda, uma porta levava ao que supus ser o banheiro. À direita, um armário estava aberto, deixando à mostra exatamente um traje: um terno branco mais ou menos do tamanho de Hearth, mas, fora isso, idêntico ao terno do retrato de Andiron lá embaixo.
Nas paredes, quadros brancos como os usados em salas de aula exibiam listas de tarefas em letra de forma. Algumas listas estavam escritas com pilot preto:

LAVAR A PRÓPRIA ROUPA, DUAS VEZES POR SEMANA = +2 MOEDAS
VARRER O CHÃO, OS DOIS ANDARES = +2 MOEDAS
TAREFAS DE VALOR = +5 MOEDAS

Outras estavam escritas com pilot vermelho:

CADA REFEIÇÃO = −3 MOEDAS
UMA HORA DE TEMPO LIVRE = −3 MOEDAS
FRACASSOS CONSTRANGEDORES = −10 MOEDAS

Contei umas doze listas assim, junto com centenas de frases motivacionais como: NUNCA SE ESQUEÇA DAS SUAS RESPONSABILIDADES. LUTE PARA TER VALOR. A NORMALIDADE É A CHAVE DO SUCESSO.
Senti como se estivéssemos cercados de adultos enormes com o dedo em riste, despejando vergonha, me deixando cada vez menor. E eu só estava ali havia um minuto. Não conseguia imaginar como seria morar ali.
E os quadros brancos dos Dez Mandamentos não eram a coisa mais estranha ali. Esticado no chão estava o couro azul de um animal enorme. A cabeça fora removida, mas as quatro patas ainda tinham as garras, lâminas curvas de marfim que seriam anzóis perfeitos para pegar tubarões-brancos. Havia moedas de ouro em cima da pele, talvez duzentas ou trezentas, cintilando no mar denso pelo azul.
Hearthstone depositou Blitzen delicadamente ao pé do colchão. Olhou os quadros brancos, o rosto uma máscara de ansiedade, como se procurasse sua nota em uma lista de resultado de provas.
— Hearth? — Fiquei tão chocado com o quarto que não conseguia formar uma pergunta coerente, tipo Por quê? ou Posso quebrar os dentes do seu pai?.
Ele fez um dos primeiros sinais que me ensinou, ainda nas ruas, quando estava me ajudando a ficar longe de confusão. Cruzou dois dedos e passou pela palma da outra mão, como se estivesse escrevendo uma multa: Regras.
Minhas mãos demoraram um momento para lembrar como fazer sinais. Seus pais fizeram isso para você?
Regras, repetiu ele. Seu rosto revelava pouco. Comecei a me perguntar se, quando era criança, Hearthstone sorria mais, chorava mais, demonstrava alguma emoção. Talvez tenha aprendido a controlar as expressões como forma de defesa.
— Mas por que os preços? — perguntei. — Parece um cardápio...
Olhei para as moedas douradas no tapete de couro.
— Espere, as moedas eram sua mesada? Ou... seu pagamento? Por que as jogava no tapete?
Inge estava parada em silêncio na porta, com o rosto baixo.
— É o couro do animal — disse ela, também sinalizando as palavras. — O que matou o irmão dele.
Minha boca ficou com gosto de ferrugem.
— Andiron?
Inge assentiu. Ela olhou para trás, provavelmente com medo de o mestre aparecer.
— Aconteceu quando Andiron tinha sete anos, e Hearthstone, oito. — Enquanto falava, ela sinalizava de maneira quase tão fluente quanto Hearth, como se tivesse praticado por anos. — Eles estavam brincando no bosque nos fundos da casa. Tem um velho poço...
Ela hesitou e olhou para Hearthstone, pedindo permissão para dizer mais.
Hearthstone estremeceu.
Andiron amava aquele poço, sinalizou ele. Achava que concedia desejos. Mas tinha um espírito maligno...
Ele fez uma estranha combinação de sinais: um A de água, depois apontou para baixo, o símbolo de poço. Depois fez um V na frente de um dos olhos, o sinal de fazer xixi. (Nós usávamos muito esse nas ruas, também.) Juntos, parecia que ele estava chamando o espírito maligno de Xixi No Poço.
Eu franzi a testa para Inge.
— Ele disse...?
— Sim — confirmou ela. — É o nome do espírito. Na linguagem antiga, se chama brunnmigi. Ele saiu do poço e atacou Andiron na forma... daquilo. Uma criatura grande e azulada, uma mistura de urso e lobo.
Sempre os lobos azuis. Eu os odiava.
— E matou Andiron — resumi.
Na luz fluorescente, o rosto de Hearthstone parecia tão petrificado quanto o de Blitzen. Eu estava brincando com umas pedras, sinalizou ele. Estava de costas. Eu não ouvi. Eu não podia...
Ele prendeu a respiração.
— Não foi sua culpa, Hearth — disse Inge.
Ela parecia muito jovem com o vestido azul-claro, as bochechas rosadas e cheias, o cabelo louro encaracolado saindo pelas beiradas do gorrinho, mas falava como se tivesse presenciado o ataque.
— Você estava lá? — perguntei.
Ela ficou ainda mais vermelha.
— Não exatamente. Eu era só uma garotinha, mas minha mãe trabalhava como empregada do sr. Alderman. Eu... eu me lembro de Hearthstone correndo para dentro de casa, chorando, sinalizando um pedido de ajuda. Ele e o sr. Alderman saíram correndo de novo. E, mais tarde... o sr. Alderman voltou carregando o corpo do mestre Andiron.
A cauda de vaca tremeu e roçou na moldura da porta.
— O sr. Alderman matou o brunnmigi, mas fez Hearthstone... tirar o couro da criatura sozinho. Hearthstone só teve permissão de voltar para casa depois de terminar. Quando o couro estava curtido e foi transformado em tapete, ele colocou aqui.
— Deuses.
Eu andei pelo quarto. Tentei apagar algumas das palavras de um quadro branco, mas elas estavam escritas com marcador permanente. Claro.
— E as moedas? — perguntei. — Os itens do cardápio?
Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. Inge se encolheu.
— O wergild de Hearthstone — disse ela. — A dívida de sangue pela morte do irmão.
Cubra o tapete, Hearthstone sinalizou mecanicamente, como se estivesse citando uma coisa que tinha ouvido um milhão de vezes. Ganhe moedas de ouro até não dar para ver um único pelo. Aí, minha dívida estará paga.
Olhei para a lista de valores, os mais e os menos do livro-caixa da culpa de Hearthstone. Olhei para as moedas cintilantes jogadas em uma área de pelo azul. Imaginei Hearthstone com oito anos, tentando ganhar dinheiro para cobrir uma pequena porção daquele tapete enorme.
Estremeci, mas não consegui afastar a raiva.
— Hearth, eu achava que seus pais batiam em você. Isso é ainda pior.
Inge retorceu as mãos.
— Ah, não, senhor, surras são apenas para os empregados. Mas você está certo. A punição do sr. Hearthstone é muito mais difícil.
Surras. Inge mencionou como se fosse um fato infeliz da vida, como biscoitos queimados ou pias entupidas.
— Eu vou destruir este lugar — decidi. — Vou jogar seu pai...
Hearthstone me olhou nos olhos. Minha raiva ficou engasgada na garganta. Não era coisa minha. Não era a minha história. Mesmo assim...
— Hearth, nós não podemos fazer esse joguinho doentio. Ele quer que você complete esse wergild como condição para nos ajudar? É impossível! Sam vai se casar com um gigante em quatro dias. Nós não podemos pegar a pedra? Viajar para outro mundo antes de Alderman perceber?
Hearth balançou a cabeça. A pedra Skofnung tem que ser dada como presente. Só funciona se for entregue por vontade própria.
— E tem guardas — acrescentou Inge. — Espíritos seguranças que... você não quer conhecer.
Eu esperava todas essas coisas, mas isso não me impediu de falar palavrões até as orelhas de Inge ficarem vermelhas.
— E magia de runa? — perguntei. — Você não consegue conjurar ouro suficiente para cobrir a pele?
Wergild não pode ser por trapaça, sinalizou Hearth. O ouro precisa ser conquistado ou ganhado por esforço próprio.
— Isso vai levar anos!
— Talvez não leve tanto tempo — murmurou Inge, como se falasse com o tapete azul. — Há um jeito.
Hearth se virou para ela. Como?
Inge retorceu as mãos, nervosa. Eu não sabia se ela estava ciente de que estava fazendo o sinal de casamento.
— Eu... eu não quero me intrometer. Mas tem o Cauteloso.
Hearth levantou as mãos no gesto universal de: Você está de brincadeira? Ele sinalizou: O Cauteloso é só uma lenda.
— Não — disse Inge. — Eu sei onde ele está.
Hearth olhou para ela, consternado. Mesmo assim. Não. Perigoso demais. Todo mundo que tenta roubá-lo acaba morto.
— Nem todo mundo — retrucou Inge. — Seria perigoso, mas você conseguiria, Hearth. Eu sei que conseguiria.
— Espere — falei. — Quem é o Cauteloso? Do que vocês estão falando?
— Tem... tem um anão — disse Inge. — O único anão em Álfaheim além de... — Ela indicou nosso amigo petrificado. — O Cauteloso tem um estoque de ouro grande o bastante para cobrir esse tapete. Posso dizer onde encontrá-lo... se vocês não se importarem com as chances meio altas de morrerem.


11 comentários:

  1. Eu não aguento ver esse elfo sofrer, alguém me diz que o Magnus mata esse cretino do pai dele? Isso tá tornando difícil eu me expressar sem usar muitos palavrões

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    1. concordo contigo em gênero numero e grau!!!

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    2. Malu, estou com vc... Que raiva do pai de Hearth!!
      E isso só por causa das aparencia rrrrr

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  2. Vamos fazer uma votação pingamentar: todos a facor de torturar e fazer o pai do Hearth sofrer ainda mais dolorosamente do que Hearth sofreu?

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  3. *palavrões em linguagem de sinal élfica*

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  4. Eu realmente quero estrangular o pai do Hearth! Ele não merece uma criatura dessas como pai, coitado!

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  5. Tomara que esse pai do Heart morra! Nas palavras do treinador Hedge: Morra, morra, morra.
    -Sinead

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  6. Vish, será que o irmão do Hearth se importava com as diferenças dele? Eu acho que o irmão era o único da família que amava o Hearth. Sério, o pai dele parece pior que a família Black (se é que me entendem), e mil vezes pior que os Dursley. Tratam a Inge como um elfo doméstico... se é que me entendem...

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    1. To te entendendo!!!! E deve acrecentar que foi uma ótima comparação

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  7. Nossa cara,eu não aguento ver essa sofrência toda....
    Hearth merece ser feliz....

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