16 de outubro de 2016

Vinte e nove - Um nøkkaute

O SR. ALDERMAN sabia dar uma festa. Também sabia dar um vexame daqueles.
Do alto da escada, vimos a sala lotada de elfos bem-vestidos com tons elegantes de branco, dourado e prata. Os olhos e cabelos claros e as joias caras cintilavam no sol da noite que entrava pelas janelas.
Dezenas de huldras se moviam pela multidão servindo canapés. E, em todos os pedestais onde artefatos e minerais ficavam expostos, pilhas do tesouro de Andvari cintilavam, deixando o cômodo parecido com um depósito de joalheria depois de um tornado.
Acima da prateleira da lareira, no pé do retrato do sr. Andiron, havia uma faixa dourada com letras vermelhas: BEM-VINDO, MAGNUS CHASE, FILHO DE FREY, PATROCINADO PELA CASA ALDERMAN! E, debaixo disso, com letras menores: HEARTHSTONE FOI TRAZIDO PARA CASA.
Não “voltou”. Foi trazido. Como se o serviço policial élfico o tivesse apreendido e arrastado até a casa acorrentado.
O próprio sr. Alderman circulava rápido entre as pessoas, jogando moedas de ouro para os convidados, abordando-os com joias e murmurando:
— Você acredita nesse tesouro todo? Incrível, não é? Quer um trenzinho de ouro? Estaria interessado em uma adaga?
Com o smoking branco, os olhos enlouquecidos e o sorriso brilhante, ele parecia um maître diabólico levando grupos às suas mesas no restaurante Chez Assassinato em Massa. Os convidados riam com nervosismo quando Alderman jogava tesouros neles. Quando Alderman passava, os elfos cochichavam, talvez se perguntando em quanto tempo poderiam fugir da festa sem parecerem mal-educados. O sr. Alderman andou pela sala distribuindo peças de ouro, e as pessoas se afastavam dele como gatos fugindo de um aspirador de pó descontrolado.
Atrás de nós, Inge murmurou:
— Ah, caramba. Ele está piorando.
Hearthstone sinalizou: O anel o está afetando.
Eu assenti, mas me perguntei quão são o sr. Alderman era antes. Há décadas, ele vivia com ressentimento, culpando Hearthstone pela morte de Andiron. Agora, de repente, Hearthstone tinha se livrado dessa dívida. O anel de Andvari simplesmente preenchera o vazio com loucura.
Blitzen segurou o corrimão com as mãos enluvadas.
— Isso não é bom.
Ele estava usando a burca de toalhas de banho para se proteger da luz de Álfaheim. Blitz havia nos explicado que o chapéu de safári com rede e o protetor solar não seriam suficientes, pois ele ainda estava fraco da petrificação. Mesmo assim, o traje era meio perturbador. Ele parecia uma versão em miniatura do Primo Itt, da Família Addams.
— Ahá! — O sr. Alderman nos viu na escada e sorriu ainda mais. — Apresento meu filho e seus amigos! O anão, ou pelo menos eu suponho que seja o anão embaixo daquelas toalhas. E Magnus Chase, filho de Frey!
As pessoas se viraram e olharam para nós, emitindo uma boa quantidade de oohs aahs. Eu nunca gostei de ser o centro das atenções. Odiava na escola e, mais tarde, em Valhala. Odiei mais ainda aqueles elfos glamourosos me olhando como se eu fosse uma deleitável fonte de chocolate que tinha acabado de entrar em funcionamento.
— Sim, sim! — O sr. Alderman riu como um maluco. — Sabem todo esse tesouro que vocês veem, meus amigos? Não é nada em comparação a Magnus Chase! Meu filho finalmente fez uma coisa certa. Trouxe um filho de Frey como parte do pagamento de wergild. E agora, esse garoto, Magnus Chase, vai ser meu hóspede permanente! Vamos começar uma fila para fotos no bar...
— Espere aí — falei. — Esse não foi o acordo, sr. Alderman. Nós não vamos ficar depois que acabar a festa.
Hearthstone sinalizou: Pai, o anel. Perigoso. Tire.
A multidão se mexeu com inquietação, sem saber como interpretar aquilo.
O sorriso de Alderman foi sumindo. Ele estreitou os olhos.
— Meu filho está me pedindo para tirar meu novo anel. — Ele levantou a mão e balançou o dedo, deixando que o aro de ouro refletisse a luz. — Por que ele pediria isso? E por que Magnus Chase ameaçaria ir embora? A não ser que esses patifes estejam planejando roubar meu tesouro.
Blitzen riu com deboche.
— Eles acabaram de trazer o tesouro para você, seu elfo burro. Por que o roubariam de novo?
— Então você admite!
Alderman bateu palmas. Todas as portas do cômodo se fecharam. Ao redor da sala, doze colunas de água surgiram do chão e viraram formas vagamente humanoides, como balões em forma de animais cheios de água... só que sem o balão.
Blitzen deu um gritinho.
— São seguranças nøkks.
— O quê? — perguntei.
— Também conhecidos como nixes — disse ele. — São espíritos da água. Coisa ruim.
Hearthstone segurou o braço de Inge. Ele sinalizou: Você ainda tem familiares no bosque?
— T-tenho — respondeu a huldra.
Vá agora, disse ele. Eu liberto você do serviço à minha família. Não volte. E chame a polícia.
Inge parecia atordoada e magoada, mas olhou para os espíritos aquáticos ao redor das pessoas lá embaixo.
Ela deu um beijo na bochecha de Hearthstone.
— Eu... eu te amo.
Ela sumiu em uma explosão de fumaça com cheiro de roupa lavada.
Blitzen arqueou as sobrancelhas.
— Eu perdi alguma coisa?
Hearthstone lançou um olhar irritado para ele, mas não teve tempo de explicar.
Na sala, um elfo mais velho gritou:
— Alderman, o que significa tudo isso?
— O significado, sr. prefeito? — Alderman sorriu com uma intensidade que não era totalmente sã. — Eu agora entendo por que todos vocês vieram aqui. Queriam roubar meu tesouro, mas peguei vocês com a boca na botija! Seguranças nøkks, dominem esses ladrões! Ninguém sai daqui vivo!

* * *

Dica de etiqueta: para saber a hora certa de ir embora de uma festa, o momento é quando o anfitrião gritar “Ninguém sai daqui vivo”.
Elfos gritaram e correram para as saídas, mas as portas de vidro estavam trancadas. Seguranças nixes se moveram pela multidão, mudando da forma animalesca para humana e para onda sólida, envolvendo os elfos um a um e os deixando desacordados no chão em elegantes amontoados molhados. Enquanto isso, Alderman ria e dançava pela sala, pegando os objetos de ouro dos convidados caídos.
— Temos que sair daqui agora — disse Blitzen.
— Mas precisamos ajudar os elfos — observei.
Era verdade que, com exceção de Hearthstone, eu não me importava muito com os elfos que conhecia. Gostava mais dos barrigudinhos da lagoa de Andvari. Mas também não conseguia suportar a ideia de deixar quatrocentos elfos à mercê do sr. Alderman e de seus valentões nixes líquidos. Peguei meu pingente e chamei Jacques.
— Ei, pessoal! — cumprimentou a espada. — O que está rolando... ah, nøkks? Vocês estão de brincadeira? Não dá pra cortar esses caras.
— Faça o que puder! — gritei.
Tarde demais, sinalizou Hearthstone. Violinos!
Eu não tive certeza se tinha interpretado o último sinal corretamente. Mas olhei para baixo. Metade dos nixes tinha se posicionado ao redor da sala em forma humanoide e estava pegando violinos e arcos do... bem, de algum lugar dentro de seus eus líquidos. Parecia um lugar bem ruim para guardar instrumentos de corda, mas os nixes levantaram os violinos de madeira até os queixos aquosos.
— Tape os ouvidos! — avisou Blitz.
Apertei as mãos nas laterais da cabeça na hora que os nøkks começaram a tocar. Só ajudou um pouco.
A canção era tão triste e dissonante que meus joelhos bambearam. Lágrimas surgiram nos meus olhos. Por toda a sala, mais elfos desabaram em crises de choro, exceto o sr. Alderman, que parecia imune à música.
Ele ficava rindo e pulando de um lado para outro, chutando de vez em quando os convidados VIP na cara.
De dentro do capuz atoalhado, Blitz soltou um grito abafado.
— Faça parar, senão vamos morrer de coração partido em questão de minutos!
Eu não achei que ele estava sendo metafórico.
Felizmente, Hearthstone não foi afetado.
Ele estalou os dedos pedindo atenção e apontou para Jacques: Espada. Cortar violinos.
— Você ouviu — falei para Jacques.
— Não ouvi, não! — reclamou minha espada.
— Destrua os violinos!
— Ah. Será um prazer.
Jacques saiu voando para agir.
Enquanto isso, Hearthstone pegou uma runa. Jogou-a do alto da escada, e ela explodiu no ar, fazendo uma forma gigante e brilhante de H acima das cabeças dos elfos:


Lá fora, o céu escureceu. A chuva caiu nas janelas de vidro, sufocando o barulho dos violinos.
Me sigam, ordenou Hearthstone.
Ele desceu a escada enquanto a tempestade aumentava. Pedras de granizo gigantes batiam nas janelas, rachando o vidro e fazendo a casa toda tremer. Apertei a mão contra a cintura para ter certeza de que a pedra Skofnung ainda estava segura e corri atrás de Hearth.
Jacques voou de nøkk em nøkk, picando os violinos e esmagando as esperanças e os sonhos de músicos nixes muito talentosos. As criaturas da água atacaram Jacques. Pareciam tão capazes de machucar a espada quanto ela era de machucá-los, mas Jacques os manteve ocupados tempo o bastante para chegarmos no pé da escada.
Hearthstone fez uma pausa e levantou os braços. Com um BUM! tremendo, todas as janelas e portas de vidro da casa se estilhaçaram. Granizo entrou, acertando os elfos, as huldras e os nixes.
— Vamos! — gritei para as pessoas. — Venham!
— Tolos! — gritou o sr. Alderman. — Vocês são meus! Não podem escapar!
Fizemos o melhor que pudemos para levar todo mundo para o jardim. Estar do lado de fora foi como correr por um furacão de bolas de beisebol, mas era melhor do que morrer cercado de violinistas nøkk.
Eu queria ter tido o bom senso de me cobrir com toalhas de banho, como Blitzen.
Elfos se espalharam e fugiram. Os nixes correram atrás de nós, mas o granizo os deixou lentos, caindo neles e formando espuma até parecerem raspadinhas de gelo que escaparam de copos.
Estávamos na metade do gramado, seguindo para a floresta, quando ouvi as sirenes. Com o canto do olho, vi luzes de emergência piscando enquanto carros de polícia e ambulâncias chegavam pela entrada principal da propriedade.
Acima de nós, as nuvens escuras começaram a se abrir. O granizo diminuiu. Peguei Hearthstone quando ele tropeçou. Quase achei que chegaríamos na floresta quando uma voz atrás de nós gritou:
— Parem!
A cinquenta metros, nossos velhos amigos, os policiais Wildflower e Sunshine, tinham puxado as armas e estavam se preparando para atirar em nós por vadiagem, invasão ou por fugir sem permissão.
— Jacques! — gritei.
Minha espada disparou na direção dos policiais e cortou o cinto deles. As calças caíram até os tornozelos na hora. Descobri que elfos não deviam usar short nunca. Eles têm pernas pálidas e finas que não são elegantes e nem graciosas.
Enquanto os policiais tentavam recuperar a dignidade, nós entramos na floresta. A força de Hearthstone estava quase esgotada. Ele se apoiou em mim enquanto corríamos, mas eu tinha muita prática em carregá-lo. Jacques voou até o meu lado.
— Isso foi divertido! — declarou ele. — Mas, infelizmente, eu só os atrapalhei. Estou sentindo um bom lugar para fazer um corte ali à frente.
— Fazer um corte? — perguntei.
— Ele quer dizer entre os mundos! — disse Blitzen. — Não sei você, mas, para mim, qualquer um dos outros oito é preferível agora!
Cambaleamos na clareira onde ficava o velho poço.
Hearthstone balançou a cabeça com fraqueza. Sinalizou com uma das mãos, apontando em direções diferentes. Qualquer lugar, menos aqui.
Blitzen se virou para mim.
— Que lugar é este?
— É onde o irmão de Hearth... você sabe.
O anão pareceu se encolher debaixo do amontoado de toalhas.
— Ah.
— É o melhor lugar, pessoal — insistiu Jacques. — Tem um portal bem fino entre os mundos em cima daquele amontoado de pedras. Eu posso...
Atrás de nós, um tiro soou. Todos se encolheram, exceto Hearthstone. Uma coisa zumbiu perto do meu ouvido, como um inseto irritante.
— Faça agora, Jacques! — gritei.
Ele disparou até o amontoado de pedras. A lâmina cortou o ar, abrindo uma fenda para a escuridão absoluta.
— Eu amo escuridão — disse Blitzen. — Venham!
Juntos, nós puxamos Hearthstone na direção do velho lar de Xixi No Poço e pulamos na fenda entre os mundos.


5 comentários:

  1. Eu shippo muito Blitzen e Hearh ❤ Blitzen com ciúmes foi demais kkkkkkk

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  2. Ela deu um beijo na bochecha de Hearthstone.
    — Eu... eu te amo.
    MELDELZ NAO SEI MAIS QUEM SHIPPO

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  3. — Eu... eu te amo.
    Ela sumiu em uma explosão de fumaça com cheiro de roupa lavada.
    Blitzen arqueou as sobrancelhas.
    — Eu perdi alguma coisa?
    Hearthstone lançou um olhar irritado para ele, mas não teve tempo de explicar.

    Ciúmes? Sinto cheiro de ciúmes? e.e

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