16 de outubro de 2016

Vinte e dois - Tenho quase certeza de que o pai de Hearthstone é um alienígena abdutor de vacas

ERA O CARRO de polícia mais chique em que eu já havia entrado, e olha que não tinham sido poucos. O interior de couro preto tinha cheiro de baunilha. O vidro que separava os bancos da frente do de trás estava tinindo de tão limpo. O banco tinha função de massagem, para eu poder relaxar depois de um dia puxado de vadiagem. Obviamente, serviam só os criminosos mais refinados em Álfaheim.
Depois de um quilômetro e meio de viagem confortável, saímos da rua principal e paramos em frente a um portão de ferro com um A rebuscado. De ambos os lados, os muros de pedra de mais ou menos três metros de altura tinham pontas decorativas para impedir a invasão da ralé de classe média que morava no fim da rua. Do alto do portão, câmeras de segurança se viraram para nos avaliar.
O portão foi aberto. Quando entramos na propriedade da família de Hearthstone, meu queixo quase caiu. E eu achava a mansão da minha família constrangedora.
O jardim da frente era maior do que o parque Boston Common. Cisnes deslizavam por um lago rodeado de salgueiros. Seguimos por duas pontes diferentes para passar por um riacho sinuoso, por outros quatro jardins e por um segundo portão antes de chegar à casa principal, que parecia uma versão pós-moderna do castelo da Bela Adormecida na Disney – paredes de tábuas brancas e cinza se projetavam em ângulos estranhos, torres estreitas feito canos de órgão, vitrais enormes de vidro laminado e uma porta de entrada de aço polido tão grande que devia ter que ser aberta por trolls puxando correntes.
Hearthstone mexia na bolsa de runas e olhava ocasionalmente para o porta-malas do carro, onde os policiais tinham guardado Blitzen.
Eles só falaram quando paramos em frente à porta principal.
— Para fora — disse Wildflower.
Assim que Hearthstone estava livre, ele andou até a parte de trás do carro e batucou na traseira.
— Tá, tudo bem. — Sunshine abriu o porta-malas. — Mas não sei por que você se importa. Deve ser o anão de jardim mais feio que já vi.
Hearthstone tirou Blitzen do porta-malas com delicadeza e apoiou o anão de granito no ombro.
Wildflower me empurrou na direção da porta.
— Anda, obtuso.
— Ei! — Eu quase peguei o pingente, mas me controlei. Pelo menos os policiais agora estavam tratando Hearthstone como intocável, mas ainda pareciam perfeitamente à vontade me empurrando de um lado para outro. — Seja lá o que obtuso queira dizer, eu não sou isso — resmunguei.
Wildflower riu com deboche.
— Você se olhou no espelho recentemente?
Percebi que, em comparação com os elfos, todos finos, delicados e lindos, eu devia parecer quadrado e desajeitado: obtuso. Tive a sensação de que o termo também queria dizer mentalmente lento, afinal, por que insultar alguém em um nível se você pode insultar em dobro?
Fiquei tentado a despejar minha vingança nos policiais pedindo a Jacques para cantar algumas canções de sucesso. Antes que eu tivesse a oportunidade, Hearthstone segurou meu braço e me guiou pelos degraus da frente. Os policiais ficaram atrás de nós, querendo distância de Hearthstone como se temessem que surdez pudesse ser contagiosa.
Quando chegamos ao último degrau, a grande porta de aço se abriu silenciosamente. Uma jovem veio correndo nos encontrar. Era quase tão baixa quanto Blitzen, mas tinha o cabelo louro e as feições delicadas de elfo. A julgar pelo vestido simples e pelo gorrinho branco, concluí que devia ser a empregada da casa.
— Hearth! — Os olhos dela se iluminaram de empolgação, mas ela sufocou o entusiasmo quando viu nossa escolta policial. — Quer dizer, sr. Hearthstone.
Hearth piscou, como se fosse começar a chorar. Ele sinalizou: Oi/desculpe, misturando as duas palavras em uma só.
O policial Wildflower pigarreou.
— Seu mestre está em casa, Inge?
— Ah... — Inge engoliu em seco. Olhou para Hearthstone e para os policiais novamente. — Sim, senhor, mas...
— Vá chamá-lo — disse Sunshine com rispidez.
Inge se virou e correu para dentro da casa. Enquanto se afastava, reparei em uma coisa pendurada na parte de trás da saia: um fio de pelo marrom e branco, desfiado na ponta como franjas decorativas. Mas o fio se moveu, e percebi que se tratava de algo vivo.
— Ela tem uma cauda de vaca — deixei escapar.
Sunshine riu.
— Bem, ela é uma huldra. Seria ilegal se escondesse a cauda. Teríamos que prendê-la sob acusação de incorporar um elfo respeitável.
O policial lançou um olhar rápido para Hearth, deixando claro que sua definição de elfo respeitável também não incluía meu amigo. Wildflower sorriu.
— Acho que o garoto nunca viu uma huldra, Sunshine. Qual é o problema, obtuso? Não existem espíritos da floresta domesticados no mundo do qual você rastejou?
Não respondi, mas em pensamento eu estava imaginando Jacques cantando músicas da Selena Gomez a plenos pulmões nos ouvidos dos policiais. Aquele pensamento me confortou.
Olhei para o saguão, uma colunata de pedras brancas iluminada pelo sol e claraboias de vidro, que, apesar disso, conseguia parecer claustrofóbico. Eu me perguntei o que Inge achava de ter que exibir a cauda o tempo todo. Era fonte de orgulho mostrar sua identidade, ou aquilo era visto como uma punição, um lembrete constante do seu status inferior? Decidi que a coisa realmente horrível era juntar as duas situações: mostre-nos quem você é; agora, sinta-se mal por isso. Não era muito diferente de Hearth sinalizando oi desculpe como uma única palavra.
Senti a presença do sr. Alderman antes de vê-lo. O ar ficou mais frio e tinha um aroma de menta. Os ombros de Hearthstone baixaram, como se a gravidade fosse agora a de Midgard. Ele ajustou Blitzen no meio das costas, como se para escondê-lo. As bolinhas no cachecol do elfo pareceram oscilar. Então percebi que meu amigo estava tremendo.
Passos ecoaram no piso de mármore.
O sr. Alderman apareceu, surgindo por detrás de uma coluna e se aproximando de nós. Todos demos um passo para trás – Hearth, eu e até os policiais. O sr. Alderman tinha mais de dois metros de altura e era tão magro que parecia um daqueles alienígenas que realizavam estranhos experimentos médicos e voavam em óvnis de Roswell. Os olhos eram grandes demais. Os dedos eram delicados demais. O maxilar era tão pontudo que me perguntei se o rosto estava preso em um triângulo isósceles.
Mas ele se vestia melhor do que o viajante comum de objetos voadores não identificados. O terno cinza combinava com a blusa verde de gola alta que deixava seu pescoço parecendo ainda mais comprido. O cabelo louro platinado era arrepiado como o de Hearth. Eu via certa semelhança no nariz e na boca, mas o rosto do sr. Alderman era bem mais expressivo. Ele parecia cruel, crítico, insatisfeito – tipo alguém que acabou de fazer uma refeição absurdamente cara e horrível e estava pensando na péssima crítica que ia escrever a respeito.
— Bem. — Os olhos dele perscrutaram o rosto do filho. — Você voltou. Pelo menos foi sensato o bastante para trazer o filho de Frey com você.
Sunshine engasgou com o próprio sorriso arrogante.
— Desculpe, senhor. Quem?
— Esse rapaz. — O sr. Alderman apontou para mim. — Magnus Chase, filho de Frey, não é?
— Isso mesmo.
Engoli o impulso de acrescentar senhor. Até o momento, aquele cara não estava merecendo.
Eu ainda não tinha me acostumado com as pessoas ficarem impressionadas ao saberem que meu pai era Frey. As reações costumavam variar de “Caramba, sinto muito” a “Quem é Frey?”, passando por gargalhadas histéricas.
Então, não vou mentir. Gostei de como a expressão dos policiais mudou rapidamente de desprezo para: Ah, droga, tratamos mal um semideus. Eu não entendi, mas gostei.
— Nós... nós não sabíamos. — Wildflower limpou uma sujeira da minha camisa, como se fosse resolver a situação. — Nós, hã...
— Obrigado, homens — interrompeu o sr. Alderman. — Eu assumo a partir daqui.
Sunshine olhou para mim boquiaberto, como se quisesse me pedir desculpas ou oferecer um cupom de cinquenta por cento de desconto para a minha próxima prisão.
— Vocês ouviram — falei. — Podem ir, policiais Sunshine e Wildflower. E não se preocupem, eu vou me lembrar de vocês.
Eles fizeram uma reverência... uma reverência de verdade, e saíram bem rápido para a viatura.
O sr. Alderman avaliou Hearthstone, como se estivesse procurando defeitos visíveis no filho.
— Você não mudou nada — disse ele com desgosto. — Pelo menos o anão virou pedra. Já é um avanço.
Hearthstone trincou o maxilar. E fez sinais em explosões curtas e furiosas: O nome dele é B-L-I-T-Z-E-N.
— Pare — exigiu Alderman. — Nada desse sacolejo ridículo de mãos. Entre. — Ele me olhou de cima a baixo com uma expressão gelada. — Temos que dar as boas-vindas ao nosso hóspede.


12 comentários:

  1. Alguém mata o pai do Heart. Por favor.

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  2. "Fiquei tentado a despejar minha vingança nos policiais pedindo a Jacques para cantar algumas canções de sucesso." huehuwgyegye

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  3. Tenho duas coisas a comentar:
    1- qro uma casa de clase média elfica. Alguém me dei pq tô precisada.
    2- o pai do Hearth é um nojo

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    1. OK achei um novo personagem pra odiar e se chama sr. Aldermen. como será um casebre elfico???

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    2. O pai de Heath não é um nojo, só parece ser mal compreendido...

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    3. Tá, esquece o 'mal compreendido", esse cara é uma peste

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  4. Qm qr se juntar à Jacques e mandar mt mal no karaokê? COM MEU ELFO NÃO SE MEXE

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  5. Alderam pior pai (depois do Loki e em breve vc saberá o motivo)

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    1. Trunks sabe disso por que veio do futuro. (Desculpa, tive que fazer essa piada kk)

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  6. Torcendo para o Jacques decapitar o pai do Hearth "por acidente". Já estou odiando ele. :/

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  7. Esse Alderam é um filho da pu** msm.
    DESGRAÇADO NGM MEXE COM MEU ELFO FAVORITO! VOU CHAMAR JACQUES PRA CANTAR CMG E TE ENCHER O SACO!!

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