16 de outubro de 2016

Vinte e cinco - Hearthstone, o destruidor de corações

NÃO SE DEVE fazer um comentário sobre morte iminente e depois dizer:
— Boa noite! Conversamos amanhã!
Mas Inge insistiu que devíamos ir atrás do anão apenas na manhã seguinte. Ela notou que precisávamos descansar. Levou roupas, comida, bebida e uns travesseiros. Depois, saiu correndo, talvez para limpar algum líquido derramado, tirar o pó de algum artefato ou pagar cinco moedas ao sr. Alderman pelo privilégio de ser sua empregada.
Hearth não queria falar sobre o anão assassino Cauteloso e nem sobre o ouro da criatura. Não queria ser consolado pela morte da mãe nem pelo pai vivo. Depois de uma refeição rápida e melancólica, ele sinalizou Preciso dormir e desabou no colchão.
Só de raiva, decidi dormir no tapete azul. Claro que era sinistro, mas com que frequência você pode se deitar em pele de Xixi No Poço cem por cento genuína?
Hearthstone já havia contado que o sol nunca se punha em Álfaheim. Apenas chegava perto do horizonte e voltava para o alto, como o verão no Ártico. Eu me perguntei se teria dificuldade para dormir se não houvesse noite. Mas não precisava ter me preocupado: no quarto sem janelas de Hearthstone, um clique no interruptor me deixou na escuridão total.
Eu tivera um dia longo, lutando contra zumbis democráticos e sendo largado de um avião nos subúrbios abastados de Elitistaheim. A pele da criatura do mal era surpreendentemente quente e confortável. Antes que eu percebesse, apaguei em um sono não muito tranquilo.
Falando sério, não sei se há um deus nórdico dos sonhos, mas, se houver, vou encontrar a casa dele e destruir seu colchão com um machado.
Fui exposto a uma confusão de imagens perturbadoras, nenhuma delas fazendo muito sentido. Vi o barco do tio Randolph emborcando na tempestade, ouvi as filhas dele gritando de dentro da cabine de comando. Sam e Amir, que não tinham motivo algum para estar lá, encontravam-se em lados opostos do convés, tentando alcançar a mão um do outro até que uma onda quebrou sobre eles e os jogou no mar.
O sonho mudou. Vi Alex Fierro na sua suíte em Valhala, jogando vasos de cerâmica pelo átrio. Loki estava no quarto dela, ajeitando casualmente a gravata estampada no espelho enquanto vasos passavam por ele e se quebravam na parede.
— É um pedido tão simples, Alex — disse ele. — A alternativa vai ser desagradável. Você acha que só porque morreu não tem mais nada a perder? Você está muito enganada.
— Sai daqui! — gritou Alex.
Loki se virou, mas ele não era mais ele. O deus tinha se transformado em uma mulher com longos cabelos ruivos e olhos impressionantes, com um vestido de gala verde-esmeralda valorizando suas curvas.
— Calma, meu amor — ronronou ela. — Lembre-se das suas origens.
As palavras reverberaram, destruindo a cena.
Depois me vi em uma caverna com poças sulfúricas borbulhantes e grossas estalagmites. O deus Loki, vestindo apenas uma tanga, estava preso a três colunas de pedra – os braços bem abertos, as pernas unidas, tornozelos e punhos amarrados com fios escuros brilhantes de entranhas endurecidas. Havia uma serpente verde enorme enrolada em uma estalactite acima da cabeça dele, com a boca aberta, os dentes pingando veneno nos olhos do deus. Mas, em vez de gritar, Loki ria enquanto o rosto queimava.
— Logo, logo, Magnus! — gritou o deus. — Não esqueça seu convite para o casamento!
Outra cena: uma encosta em Jötunheim, no meio de uma nevasca. No cume da montanha estava o deus Thor, a barba ruiva e o cabelo desgrenhado salpicados de gelo, os olhos em chamas. Usando capa de pele grossa, com as roupas de couro cobertas de neve, ele parecia o Abominável Homem-Biscoito das Neves. Mil gigantes subiam o aclive para matá-lo; um exército de seres enormes e musculosos, de armaduras feitas de placas de pedra, com lanças do tamanho de sequoias.
Com suas manoplas, Thor levantou o martelo, o poderoso Mjölnir. A cabeça era um bloco de ferro com a forma de uma tenda de circo achatada, arredondado dos lados e pontudo no meio. Desenhos de runas serpenteavam pelo metal. Thor segurava o martelo com as duas mãos, o cabo de Mjölnir tão curto que era quase cômico, como uma criança levantando uma arma pesada demais para ela. O exército de gigantes riu e debochou.
Então, Thor golpeou com o martelo. Aos seus pés, a lateral da montanha explodiu. Gigantes saíram voando em um turbilhão de pedras e neve, com relâmpagos estourando entre eles, filetes famintos de energia os queimando até virarem cinzas.
O caos cessou. Thor olhou para os mil inimigos, agora mortos, cobrindo a encosta da montanha. E, depois, dirigiu-se a mim.
— Você acha que posso fazer isso com um cajado, Magnus Chase? — gritou ele. — ACHE LOGO ESSE MARTELO!
E então, por ser Thor, ele levantou a perna direita e peidou um trovão.

* * *

Na manhã seguinte, Hearthstone me acordou.
Eu estava com a sensação de que havia passado a noite toda fazendo levantamento de Mjölnir, mas consegui cambalear até o chuveiro e me vestir com brim e linho élficos. Precisei enrolar as mangas e as bainhas umas dezesseis vezes para caber na roupa.
Eu não estava muito a fim de deixar Blitzen para trás, mas Hearthstone concluiu que nosso amigo estaria mais seguro aqui do que aonde estávamos indo. Nós o colocamos no colchão e o cobrimos. Em seguida, nos esgueiramos para fora da casa, felizmente sem encontrar o sr. Alderman.
Inge havia combinado de nos encontrar nos fundos da propriedade. Ela já estava nos esperando lá, onde o gramado bem-cuidado levava a uma linha irregular de árvores e vegetação baixa. O sol estava alto de novo, deixando o céu laranja-avermelhado. Mesmo de óculos escuros, meus olhos gritavam de dor. O belo nascer do sol idiota do Mundo Élfico idiota.
— Não tenho muito tempo — disse Inge, meio nervosa. — Comprei um intervalo de dez minutos com o mestre.
Isso me deixou com raiva outra vez. Eu queria perguntar quanto custaria comprar dez minutos pisoteando o sr. Alderman com chuteiras, mas concluí que não devia desperdiçar o tempo valioso de Inge.
Ela apontou para o bosque.
— O lar de Andvari fica no rio. Sigam a corrente até a cachoeira. Ele vive na lagoa na base dela.
— Andvari? — perguntei.
Ela assentiu com inquietação.
— É o nome dele; o Cauteloso em linguagem antiga.
— E esse anão mora debaixo d’água?
— Na forma de um peixe — disse Inge.
— Ah. Naturalmente.
Hearthstone sinalizou para Inge: Como você sabe disso?
— Eu... bem, mestre Hearthstone, as huldras ainda têm um pouco de magia da natureza. Não devemos usar, mas... eu senti o anão na última vez que fui ao bosque. O sr. Alderman só tolera essa parte de natureza selvagem na propriedade porque... você sabe, uma huldra precisa de uma floresta por perto para sobreviver. E ele sempre pode... contratar mais empregados lá.
Ela disse contratar. Eu ouvi capturar.
A sessão de dez minutos de pisoteio com chuteira estava parecendo cada vez mais tentadora.
— Então esse anão... — eu falei —, o que ele está fazendo em Álfaheim? A luz do sol não o transforma em pedra?
A cauda de vaca de Inge estremeceu.
— De acordo com os boatos que ouvi, Andvari tem mais de mil anos. Ele tem magia poderosa. A luz do sol quase não o afeta. Além do mais, ele fica nas profundezas mais escuras da lagoa. Eu... eu acho que ele pensou que Álfaheim era um lugar seguro para se esconder. O ouro dele já foi roubado antes, por anões, humanos e até por deuses. Mas quem procuraria um anão e seu tesouro aqui?
Obrigado, Inge, sinalizou Hearth.
A huldra corou.
— Só tome cuidado, mestre Hearth. Andvari é ardiloso. O tesouro dele deve estar escondido e protegido por vários tipos de encantamento. Sinto muito por só poder dizer onde encontrá-lo, não como derrotá-lo.
Hearthstone deu um abraço em Inge. Fiquei com medo de o gorrinho da pobre garota voar longe como uma tampa de garrafa.
— Eu... por favor... boa sorte!
Ela saiu correndo.
Eu me virei para Hearthstone.
— Ela é apaixonada por você desde que vocês eram crianças?
Hearth apontou para mim e fez um círculo com o dedo na lateral da cabeça. Você está maluco.
— Sei lá, cara. Só estou feliz por você não ter dado um beijo nela. Ela teria desmaiado.
Hearthstone soltou um grunhido irritado. Venha. Temos um anão para roubar.


11 comentários:

  1. Magnus seu mongo, coraçao do hearth tem dono e ele se chama B-L-I-T-Z-E-N

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    1. Eu totalmente shippo Heartzen, porém Magnus está certo, essa guria não tem uma queda por Hearth tem uma catarata inteira.

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  2. Até o Hearth tem namorada e eu aqui...

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  3. Inge e Hearthstone <3

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  4. — Você acha que posso fazer isso com um cajado, Magnus Chase? — gritou ele. — ACHE LOGO ESSE MARTELO!
    E então, por ser Thor, ele levantou a perna direita e peidou um trovão.
    #peideiesai

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  5. "Loki se virou, mas ele não era mais ele. O deus tinha se transformado em uma mulher com longos cabelos ruivos e olhos impressionantes, com um vestido de gala verde-esmeralda valorizando suas curvas.
    — Calma, meu amor — ronronou ela. — Lembre-se das suas origens."
    QUE

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  6. Legal a Inge, pena que o Heart é muito mais shippavel com o Blitzen

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